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Caetés

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Caetés

Capítulo 24 · Caetés

Capítulo XXIV

24 de 31 ≈ 5 min de leitura

SERIA uma felicidade para mim, decerto, a morte de Adrião. Desgraçadamente aquela criatura tinha sete fôlegos.

Hoje quási a morrer, de olho duro, vela debaixo do tra vesseiro, a casa cheia, padre ao lado, os amigos escovando a roupa preta — e amanhã arrimado à bengala, perna aqui, perna acolá, manquejando.

Decididamente o dr. Liberato é um sujeito desastrado;

deixa que se vão os doentes que fazem falta e adia o fim dos inúteis. Guiomar Mesquita, com dezoito anos, flor de graça e bondade, como diz Xavier filho, depois de quatro meses ora arriba ora abaixo, lá se foi em Março. E a mu lher do sapateiro, a tísica, ainda vive. Enquanto, carregado de apreensões, eu tentava acrescentar uma página aos meus caetés, ouvia-lhe a tosse cavernosa.

Vendo Adrião estirado, a gente perguntava:

— Há perigo, doutor?

E o dr. Liberato falava no ventrículo, na aurícula, nas válvulas, e opinava;

— Se não sobrevierem complicações, julgo que não há perigo.

Não sobrevinham complicações. A aurícula, o ventrículo, as válvulas, continuavam a funcionar — e Adrião, comba lido, existia.

E tudo seria tão fácil se êle desaparecesse! Afinal não era ingratidão minha desejar-lhe o passamento, que não lhe devia favor. Conservava-me porque o meu trabalho lhe era proveitoso. Amizade, protecção, lorota. Hoje não há disso.

Se eu não tivesse habilidade para sapecar a correspondência com desembaraço e encoivarar uma partida sem raspar o livro, punha-me na rua.

Eu dava mais do que recebia, na opinião do Mendonça.

Em todo o caso nunca ousei descobrir a mim mesmo o fundo do meu coração. Não chegaria a pedir aos santos, se acre ditasse nos santos, que abreviassem os padecimentos do Tei xeira. Tergiversava. As minhas idéias flutuavam, como flutuam sempre.

À noite passava tempo sem fim sentado à banca, ten tando macular a virgindade de uma tira para o jornal de padre Atanásio. Impotência. O relógio butia nove horas, dez horas. O pigarro do dr. Liberato era abominável. Na i V ‘

Dançavam-me na cabeça imagens indecisas. - Palavras desirmanadas, vazias, cantavam-me aos ouvidos. Eu pro curava coordená-las, dar-lhes forma aceitável, extrair delas uma idéia. Nada.

Cães ladrando ao longe, galos nos quintais, gatos no telhado, serenatas na rua, o nordeste furioso a soprar, sa cudindo as janelas.

“Jurado a m ig o ...” Carta a um juiz de facto, mofina contra o júri, que absolveu Manuel Tavares, assassino. De pois de muito esforço, consegui descrever o tribunal, o pre sidente magro e asmático, gente nos bancos, o advogado triste e com a barba crescida, o dr. Castro soletrando o li belo. Não ia, emperrava. Tanto melhor, que padre Atanásio, bem relacionado com o Barroca, não havia de querer publicar aquilo. E que me importava que Manuel Tavares saísse livre ou fôsse condenado? Um criminoso sôlto. Não vinha o mundo abaixo por ficar mais um patife em liberdade.

Antes o soneto que abandonei por falta de rima. Torcí, espremi — trabalho perdido. Eu sou lá homem para com por verso! Tudo falso, medido.

O que eu devia fazer era atirar-me aos caetés. Difícil.

Em 1556 isto por aqui era uma peste. Bicho por tôda a parte, mundéus traiçoeiros, a floresta povoada de juruparis e curupiras. Mais de cem folhas, quási ilegíveis de tanta emenda, inutilizadas.

Talvez não fôsse mau aprender um pouco de história para concluir o romance. Mas não posso ai)render história sem estudar. E viver como o dr. Liberato e Nazaré, curvado sobre livros, matutando, anotando, ganhando corcunda, é terrível. Não tenho paciência.

Enfim ler como Nazaré lê, tudo e sempre, é um vício como qualquer outro. Que necessidade tem êle, simples tabelião em Palmeira-dos-índios, de ser tão instruído? Quem dizia bem era Adrião: “Essas filosofias não servem para nada e prejudicam o trabalho”.

Adrião. Lá vinha novamente o Adrião. Que acaso in feliz amarrara àquêle estafermo a mulher que devia sei* mi nha? Cheguei tarde. Quando a conheci, já ela era do outro.

E pensar que há indivíduos que têm tudo quanto ne cessitam l Para mim, dificuldades, complicações..

tf: i i f 'Â i i Tinha mêdo do que diziam de Luísa, encolhia-me ater rorizado, evitava os conhecidos, não ousava encarar Nazaré.

No escritório, certos modos impacientes de Adrião davam-

-me tremuras. Santo Deus! Que teria observado aquêle animal? que iria fazer quando chegasse a casa? Despropositar, martirizar a pobrezinha com uma cena de ciúme.

Isto me revoltava. Que direito tinha êle de se mostrar ciümento? Um sujeito enfermiço, côr de manteiga, com as entranhas escangalhadas. . .

E eu a esconder-me, a fugir de Isidoro, que me aperreava;

— Se ela fôsse viúva. . . Isto de saias eu conheço bem.

Se fôsse viúva. . .

— Mas não é, homem, respondi-lhe por fim, irritado.

Deixe-me em paz. Eu não posso casar com uma mulher casada.

E a d. Maria José, que um dia achou inocentemente que eu era feliz, retorqui de um fôlego, com dureza;

— Feliz porquê, d. Maria? Que é que a senhora quer dizer?

Ela espantou-se. Queria sòmenle dizer o que tinha dito, mas se eu sentia prazer em ser infeliz, estava acabado, pedia dçsculpa. O italiano riu, Isidoro encolheu os ombros, o dr.

Liberato fêz uma careta e decidiu;

— Você, meu caro, não está regulando. Vou examiná-

-lo amanhã.

Caetés

Sinopse

Leia gratuitamente Caetés, de Graciliano Ramos, romance de estreia do autor em domínio público. Edição digital preparada a partir dos capítulos transcritos no Wikisource, dos fac-símiles BBM/USP de 1933 e 1947 e de cotejo adicional com fonte integral antiga e capítulos publicados no site oficial do autor, organizada em 31 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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