Universo da obra
Universo da obra
O SILVÉRIO, baixinho, cabeçudo, escovou o pano ver de, limpou a tabela, trouxe as bolas e giz.
— Partida em cinquenta pontos? perguntou o italiano.
— Em cem, disse Isidoro arregaçando as mangas da camisa. Saio eu?
Jogou, saltou-lhe a cabeça do taco.
— Ora. . .
Não conteve uma praga obscena.
— Ó Silvério, porque é que não há aqui um diabo que preste? Está tudo rachado e torto.
Escolheu o taco que lhe pareceu menos ruim. Depois tomou o giz e examinou a qualidade;
— Sim senhor, boa marca. Também é só o que se apro veita neste bilhar, o giz. E o dono, que não é mau. Você quer acabar de uma tacada? Passou? Muito bem. Faça êsse recuo, çarcamajio de uma figa.
i i . ’.
J lí! I 'jí.fííí w § m .P Marquei os pontos. E ia admirar o jôgo do italiano, o mais forte de nós três, quando o dr. Castro entrou por uma porta e Nicolau Varejão por outra.
— Seja bem aparecido, seu Varejão, gritou Pascoal.
Começámos agora. Quer jogar?
— Obrigado, respondeu Nicolau Varejão. Já deixei isso.
Antigamente, quando tinha a mão firme e a vista perfeita, não senhor, até carambolava. Naquele tempo havia muito bons jogadores. Eu conheci um hom em .. .
— Sessão de júri amanhã, doutor? inquiriu o italiano.
— Se houver casa. Só faltam dois processos.
— Uma desgraça essa história de júri, gemeu Silvério.
Um dia inteiro sem comer. Ontem fui almoçar às sete da noite.
— Pois foi muito bem feito, afirmei com um bocejo.
Era melhor que ainda estivesse jejuando. Os senhores absol veram Manuel Tavares. Que é que ia dizendo, seu Varejão?
Conheceu um homem.. .
— Levado da breca, jogava um mês sem parar. Cami nhava tanto que o chão se cavava e a tabela batia-lhe no queixo.
— Admirável! exclamou Isidoro. Que diabo tem esta luz que está tremendo tanto? Continue, seu Varejão.
E perdeu uma série bem principiada.
—■ Quantas carambolas fazia o homem? perguntou Pascoal.
— Todas, respondeu Nicolau Varejão. Três, quatrO;
cinco, mil, tudo. Quem sabe onde tem as ventas não acaba nunca.
Jogámos algum tempo em silêncio.
— Noventa e nove, gritou o Pinheiro. Estão fritos.
Procurou posição para um giro difícil, trepou-se na ta bela e, quási de gatinhas, conseguiu carambolar.
— Cem, com todos os diabos! berrou saltando no chão.
Eu bem tinlia prometido ensinar êstes pexotes.
— Continuamos nós? perguntou o italiano.
— Não vale a pena, respondi. Seu Silvério, o tempo.
E, recolhendo o troco:
— Sempre os senhores puseram na rua o Manuel Tava res, hem?
— Eu não! exclamou o dr. Castro. Foi o júri.
— Manuel Tavares, um caso triste, atalhou Isidoro. Um infelizy coitado. Afinal de contas.,, Ó Silvério, mude a f iç m água desta bacia. Como é que a gente lava as mãos nesta imimdície?
— Um caso triste, sem dúvida. Mas o jú r i... o júri é soberano, explicou o dr. Castro. Foi o júri.
— O júri? estranhei. O senhor também. Está visto. O senhor apelou?
— Não, não apelei, disse o promotor. Não apelei por que o juiz de direito, os jurados. . . O senhor compreende.
E um crime como aquele.. . Enfim não apelei.
— E então? Foi o senhor. Manuel Tavares, um assas sino, um handido da pior espécie!
Vendo-me um pouco exaltado, Isidoro segredou-me:
— Deixe lá, homem. Que é isso?
— Mas não é verdade. Pinheiro. Não foram os jurados, foi o promotor. Os jurados absolveram, mas quem soltou Ma nuel Tavares foi aqui o doutor, que se esqueceu de apelar.
Foi ou não foi?
— Eu entendo de júri? resmungou Isidoro. O que sei é que vou para casa, tomar um suadouro, que estou cons tipado.
— Não quer dizer. Pois é claro. Um criminoso que matou um hóspede adormecido... E para roubar!
— Estava no meu direito, urrou o promotor. Não preciso que ninguém me dê lições.
— Livre, sem apelação, continuei. Que diz você, Pascoal?
O italiano pôs-se a assobiar baixinho. Eu andava indi gnado com as perfídias de Nazaré, e não podendo vingar-
-me dêle, mais de uma vez me havia tomado agressivo con tra o dr. Castro, que se defendia mal.
O Silvério sorria constrangido. Isidoro, da porta, chamou-me:
— Vamos embora.
Ia retirar-me, convencido de que o promotor era um grande canalha, quando Nicolau simulou uma tentativa de pacificação, inteiramente inoportuna:
— Não se afobem, meus amigos. Contenham-se. Um fusuê a esta hora, as portas abertas, gente na rua! Não bri guem. Amanhã sabem. . .
— Quem é que está brigando, seu Varejão? retorqui com mau modo.
— É que os senhores conversam aos gritos. E o Neves passou aí em frente, parou acolá na esquina. Quando anda rem fuxicando não vão pensar que fui eu. — E O senhor julga que eu me importo eom o Neves?
Não me importo, não tenho mêdo dêle. Nem dêle nem de ninguém, bradei eom falsa coragem, porque todos aqui te mem o Neves.
— Exactamente o que eu ia dizer, declarou o dr. Castro.
Não tenho mêdo de ninguém. Nem do Neves nem de nin guém. De ninguém! Tenho a minha consciência. Era o ' que eu ia dizer. A minha consciência. E sou hacharel.
— Ah! é hacharel? Meus parabéns.
E olhei-o com escárnio por cima do ombro do Pascoal, que se meteu de permeio. Aparentando calma, comecei a escovar a gola do paletó, esforçando-me por ter firmes os dedos, que tremiam ligeiramente.
— João Valério, gritou Isidoro com raiva, você vem ou fica?
— Já vou. Pinheiro. Foi você que perguntou ao dr.
Castro se êle era bacharel? Eu não fui. Foi você, Pascoal?
Foi o senhor, seu Varejão? Também não foi. Está aí.
O dr. Castro deu dois passos, apoiou a mão gorda na tabela do bilhar:
— Senhor Valério!
— É discurso?
— Com mil diabos! exclamou Isidoro.
— ? Não senhor, gaguejou o promotor, roxo. Não sou nenhum tolo, está ouvindo? E não tenho mêdo de ninguém, compreende? Nem do senhor, nem do Neves, nem de nin guém. Não sou nenhum tolo.
— O senhor já disse.
— Já. Era o que eu queria dizer. E a minha consciên cia é limpa.
— Qual consciência! Soltou Manuel Tavares porque lhe mandaram que não apelasse. Ora consciência!
Consciência, sim senhor. Consciência. E não admi to. Sou amigo de todos, não gosto de questões, mas não admito. Nas atribuições inerentes ao meu cargo... É isto mesmo, está certo. Tenho integridade, não vergo, tenho. . .
tenho integridade.
— Bonito! Recebeu ordem ...
— Não recebo ordens, não me submeto. Firme, enten de como é? Escravo da lei, fique sabendo. Comigo é eiu cima do direito, percebe? Desde pequeno. A minha vida é clara.. Cabeça levantada, com desassombro, na trilha do dever, ali na linha recta, compreende? Ora muito hemj.
Não ando seduzindo mulheres casada s...
, — Como?
— É isto mesmo. Não vivo com saltos de pulga, nin guém encontra em mim rabo de palha. Amigo de todos, mas com seriedade, sem maroteiras.
— E quais são os saltos de pulga? Quais são as maro teiras que um pulha da sua laia descobriu. . .
— João Valério! bradou Isidoro intervindo.
— Tenha paciência. Pinheiro, isto vai longe.
E afastei o Silvério, que suplicava:
— Aqui não, meus senhores. Vou fechar as portas. Em minha casa não. Se vier a p olícia... O promotor metido num rôlo!
— Pelo amor de Deus! balbuciou Nicolau Varejão. É um mal-entendido. Eu explico. Calma! No tempo da mo narquia . . . Ouçam, é uma história interessante.
Empurrei brutalmente o Pascoal:
— Deixe-me, com os diabos! Eu sou alguma criança? O que eu quero é que êste idiota me diga. . .
— Idiota é sua mãe.
— . . . quais são as maroteiras minhas que êle conhece.
— As que todo o mundo sabe. Safadezas com a mu lher do outro. Passeios na Lagoa, no Tanque... E o pobre do Adrião sem desconfiar.
Com um pulo, desprendi-me das mãos do italiano e agarrei um taco, resolvido a quebrá-lo na cabeça do promotor:
— Repita isso, canalha. Repita, seu filho de uma...
Não acabei o insulto. Isidoro segurou o braço do ba charel e cochichou:
— Não repita, doutor, não repita. Porque se repetir, quem lhe parte a cara sou eu, palavra de honra. Aconteça o que acontecer, juro por todos os santos que lhe quebro as costelas. E não tome a aparecer lá. Sou amigo da casa e hei-de achar meio... Não apareça. O senhor é um calu niador. Vamos embora, seu Valério.
— Puxa! fêz o Pascoal depois de andarmos algum tem po na rua. Que falta de ordem! Um baruUio sem motivo.
Isidoro parou e pediu-me fósforo.
— Foi tolice, concordou. Que querem vocês? Eu pre cisava desabafar com aquêle isujeito.
portou-se mal com a Clementina. Parece que desmancha o casamento,.
Leia gratuitamente Caetés, de Graciliano Ramos, romance de estreia do autor em domínio público. Edição digital preparada a partir dos capítulos transcritos no Wikisource, dos fac-símiles BBM/USP de 1933 e 1947 e de cotejo adicional com fonte integral antiga e capítulos publicados no site oficial do autor, organizada em 31 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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