Universo da obra
Universo da obra
RECOLHI-ME tarde, deitei-me vestido e às cinco horas consegui adormecer. Antes que o despertador tocasse, Isidoro hateu-me à porta. Levantei-me precipitadamente.
— Que era isso que você queria comigo ontem à noite?
perguntou entrando.
E, enquanto eu descerrava a janela:
— Se é o dinheiro que lhe devo, tenha paciência, meu velho, que ontem me arrasaram.
Sosseguei-o.
— Não é? Pois sim. Pelaram-me, arrancaram-me duzen tos mil-réis aquêles malvados. Também está decidido, não torno a pegar em cartas. Uma lição. De madrugada quási estouro aqui, berrando. Você estava morto? Que negócio é êsse?
Narrei a carta, o furor de Adrião, a minha promessa de ir para o Rio. Isidoro empalideceu:
Fale baixo: o Pascoal pode ouvir.
Andou, alvoroçado', de um lado para outro, depois sentou-
-se na cama e pôs-se a dar pancadinhas com a unha do polegar nos dentes.
— É terrível! Você com certeza negou, hem? Natural mente. E não há nada, é claro. Êle terá percebido algu ma coisa? I
— Não. Creio que não, só a carta.
— Só a carta... O que você deve fazer é procurar o au tor dessa miséria e quebrar-lhe os ossos. Eu queria saber...
— Que é que você queria saber? Foi o Neves.
— O Neves? O Neves é capaz disso? Um tipo circuns pecto. . — Foi êle. Havia espiritismo na denúncia: o Divino Mestre e as provações. E no dia da encrenca no billiai, com o promotor, êle estava de parte, escutando. O Varejão notou. Foi êle. É o único.
Isidoro ergueu-se, aproximou-se da janela, abriu a rótula:
— Pois, menino, agora volto atrás. Se foi o Neves que escreveu isso, o caso é diferente. Eu não creio, mas se foi êle, fêz com boa intenção. O Neves é um sujeito de moral muito rija. Que diabo tem aquêle povo a correr desembestado?
Acendeu um cigarro, contente por haver encontiado meio de desculpar o boticário:
— Não tenha dúvida. Boa intenção, pode jurar. Os espiritas são assim intransigentes.
Debruçou-se para fora e, noutro tom:
— Mas que demônio é aquilo? Todo o mundo correndo e o Vitorino em mangas de camisa! E é em casa do Adrião.
O homem terá feito alguma asneira?
Saímos para a calçada. O dr. Liberato passava, com um estojo na mão.
— Que foi, doutor?
O médico não respondeu.
— Vamos ver, balbuciou Isidoro, lívido.
— Vamos ver.
Com o rosto por lavar, despenteado e sem chapéu, acom panhei-o, aturdido, nem reconheci Xavier filho, que deu de cara comigo.
— Que diabo é aquilo, Xavier? Você esteve la. pergun tou Isidoro. „ ,
— Um tiro no peito. Não ouviram? O homem sluicidou-se.
— Quem? interroguei apavorado. — O Adrião. Ainda não souberam? Está num mar de sangue. Vou buscar algodão e gaze.
Apressámos o passo. Entrámos com dificuldade, encon troando gente que ia e gente que vinha. No portão havia um comêço de rixa. Um sujeito apostava que tinha sido tiro; ou tro afirmava que fôra uma navalhada no pescoço e nao se entendiam. As flores dos canteiros estavam machucadas.
Ao pisar a escada, ouvi gritos íle mulher lá em ciiúa.
V í ' I Parei, com um violento tremor nas pernas, segurei-me ao corrimão, tomei a passagem a d. Josefa, que chegava, alva co mo cêra e com um pé descalço. Naturalmente perdera um sapato no caminho. Sem pedir lieença, empurrou-me e subiu.
— Pinheiro, murmurei acovardado, julgo que não devo entrar. Não devo entrar aqui.
Isidoro fêz uma eareta:
—■ Vamos sempre. Eu também não posso tolerar. Não está em mim. Questão de nervos. Mas vamos.
Galgou quatro degraus;
— Se você não viesse, eompreendiam logo. Uma ten tativa, percebe? Salvar a reputação dela.
Achámos o salão cheio de intrusos que tinham invadido a casa e se apinhavam nas portas, interrompendo o trânsito.
Zacarias trouxe uma bacia de água. D. Josefa veio com uma braçada de toalhas e roupa branca. Depois foi Xavier filho acotovelando tudo, carregado de pacotes.
— Tudo para fora, gritou o dr. Liberato, arreliado e in visível. Façam o favor de desocupar a sala, que não são ne cessários. Para fora.
Lentamente, a massa de hasbaques refluiu. Penetrámos na saleta.
Horrível! murmurou Isidoro. Que insensatez! Logo de manhã, antes do café...
Vitorino, caído para um canto, o rosto escondido entre o braço e o antebraço, soluçava. Tinha a roupa manchada de sangue.
— Que desastre, meu filho ! exclamou padre Atanásio en trando e abraçando, atrapalhado, o Pinheiro. Como foi? por que foi?
— Não sei, padre Atanásio, gaguejou o nosso amigo. De improviso, em jejum, sem avisar ninguém. Que loucura!
Quando a gente menos esperava, zás! uma bala para dentro.
Aqui no peito, foi o Xavier que disse. Um tiro, ninguém sa bia. Eu ouvi, mas pensei que fôsse bomba, agora pelo S.
João.
O vigário, afrontado, soprou ruïdosamente, passou o len ço pela testa, levantou os braços e olhou o teto;
— Deus do céu! Quem havia de imaginar! Sursum corda!
Não é pela morte, porque afinal todos lá vamos quando che gar a hora. Mas vejam vocês, a extrema-unção... Mise ricórdia!
Caiu numa cadeira, junto a Vitorino, e pôs-se a chorar também. Fui até a porta do salão, espreitei. À entrada do corredor, d. Engrácia, Clementina e Marta gesticulavam. E H rigi-me para elas, nas pontas dos pés.
— Que diz o doutor, d. Engrácia? perguntei a(> ouvido da velha.
— Eu sei lá! É trabalho perdido, aquêle está pronto.
Veio da alcova um gemido prolongado.
— N#o senhora, sussurrou Clementina, pode ser q[ue esca pe. O Neves tratou de um hom em ...
Outro gemido cortou-lhe a palavra. Rumor de água, ti nir de ferros.
— O Neves tratou de um homem que fêz o mesmo e ficou bom, continuoü Clementina. O Neves. A senhora acredita?
Estava contando há pouco, lá em baixo.
— Pode ser, coneordou d. Engrácia. Mas a menina devia estar calada, que num aperto dêste ninguém fala. Foi assim que me ensinaram.
Disse isto quási gritando.
Voltei para a saleta como um sonâmbulo. Coisa estra nha: ainda não tinha visto Luísa, e nem uma só vez havia pen sado nela. Confessei a mim mesmo que era o causador da morte de Adrião, mas no estado em que me achava esqueci a natureza da minha culpa.
Vitorino continuava a soluçar. Num quarto vizinho, Evaristo Barroca falava com d. J osefa. Padre Atanasio assoa va-se de manso.
Aproximei-me do sofá, onde Isidoro e Nazaré conversa vam em voz baixa, sentei-me ao lado dêles. Mas levantei-me de súbito. Ali abracei Lmsa pela primeira vez. Revi tôda a cena: os beijos que lhe dei, beijos de carnívoro, o desfa lecimento que ela teve. Lembrei-me de lhe ter mordido a língua com brutalidade, senti gôsto de sangue na bôea.
Olhei a roupa manchada de Vitorino e virei o rosto, refugiei-me ao pé da janela que dá para o jardim.
Isidoro, espantado:
— Como tem você coragem de sustentar isso?
E Nazaré, docemente;
— Fêz muito bem. Doente, escangalhado, vivendo para aí a vara e a remo! Antes acabar logo.
Evaristo Barroca entrou na sala, inclinou a cabeça de leve, bateu com afecto no ombro de Vitorino e levou-o para o in terior.
Olhei o renque de palmeiras, os tinhorões, a garça de bronze, o banco. Voltei as costas.
— Mas um suicídio, homem! exclamou Isidoro.
E Nazaré, erguendo a voz:
— Tanto faz morrer assim como assado. Tudo é morrer.
Crucificado ou de prisão de ventre, em combate glorioso ou na fôrca — o resultado é o mesmo.
Interrompeu-se: o dr. Liberato chegava, ainda com as mangas arregaçadas, enxugando as mãos. Levantai m-se to dos:
— Então?
O doutor não parecia contente.
— Onde foi o tiro? começou padre Atanásio.
— O percurso... ia dizendo o dr. Liberato.
Mas Isidoro atalhou:
— Não é isso, o percurso é difícil. Queremos saber se a bala foi ao coração.
— Que disparate! replicou o outro. Se o homem está vivo! Atingiu um pulmão, é lá que ela deve alojar-se.
— Ah! o senhor não extraiu? perguntou Nazaré.
— Extrair o quê? Os senhores pensam que é só meter o ferro ali dentro e ir arrancando à vontade. Vá mexer naqui lo. Está lá guardada.
— No pulmão? fêz Isidoro com alívio. Então pode ser que se salve. O Poincaré também tem uma bala no pulmão.
— Quem é o Poincaré? disse o vigário.
— Ficou mais calmo, acrescentou o dr. Liberato. Se não sobrevierem complicações...
—• Quem é o Poincaré? tornou a perguntar o reverendo.
— Um grande homem, padre Atanásio, explicou Isidoro. O senhor não conhece? Um que foi presidente da repú blica na França... ou na Inglaterra, não estou bem certo.
Tem uma bala no peito, eu li num jornal. O Poincaré. . . ou o Clemenceau, um dos dois.
Clementina chegou-se como uma sombra:
— Êle quer falar com o senhor.
— Comigo, d. Clementina?* Quem? exclamei.
— Seu Adrião. Venha depressa.
— Mau! fêz o dr. Liberato com arrebatamento. Digam que não está. ,
— Mas êle quer, insistiu Clementina. E nós dissemos que estava.
— Pinheiro, gémi ao ouvido de Isidoro, não posso, é terrí vel! Não tenho coragem.
— Meia dúzia de palavras quando muito, concedeu o médico. Um minuto, é só entrar e sair.
• Isidoro acompanhou-me ao salão:
— Ânimo! Seja forte. O desejo de um moribundo... Vá.
E tenha calma.
Entrei na alcova, cerrei a porta, acerquei-me da cama, tremendo.
— João Valério, ciciou Adrião, é você? Sente-se aqui perto, dê-me a sua mão.
Sentei-me ao pé dêle, tomei-lhe os dedos frios.
— Está aí? está ouvindo? Não vejo nada.
— Estou ouvindo.
E curvei-me, quási lhe cheguei a orelha à hôca para perceher-lhe a voz indistinta.
— É uma despedida, meu filho. Preciso pedir-lhe des culpa. Separámo-nos zangados. Aperte-me a mão, Valério.
Já lha havia apertado.
— Já? Não senti, não sinto nada do cotovêlo pra haixo.
Calou-se, julguei que êle estivesse morrendo, quis levan tar-me para chamar o médico.
— Deixe lá, rapaz. Ainda não chegou a hora.
Tentei sossegá-lo com algumas trivialidades que me ocorreram.
— Isso não interessa, murmurou Adrião. E não tenho tempo para conversar muito. Ouça. A história da carta foi tolice. Exaltei-me, perdi os estribos. Luísa está inocente, não é verdade?
— É verdade.
— Acredito. E já agora, com um pé na cova, não devo ter ciúmes. Não faça caso' do que lhe disse ontem.
Diligenciei acomodá-lo, mas temi que êle se magoasse.
— Isto passa logo, Valério. De qualquer forma estou hem. E não se aflija com a minha morte. Esta vida é uma peste. Havia de acabar assim. Adeus. Dê-me um abraço.
Adeus... até o dia do juízo.
Abracei-o, com o coração rasgado:
— Até a semana vindoura, ou a outra quando muito, que o senhor fica hom.
— Até lá em cima, se nos encontrarmos lá em cima.
Padre Atanásio está aí? e o Miranda, os amigos todos? Pois eu quero despedir-me dêles.
Saí. Ao atravessar o salão, encostei-me a uma parede, porque os móveis em tomo começaram a girar. Isidoro, que me esperava à entrada da saleta, amparou-me. Apertei a ca beça com as mãos e entrei a soluçar desesperadamente. Eram soluços secos, ásperos, que me agitavam todo o corpo.* Ao mesmo tempo sentia marteladas nas fontes, zumbiam-me os ouvidos.
Como uma criança, acompanhei Isidoro. E como uma criança, começei a dar pancadas na testa com a mão fechada.
Depois tive necessidade de afrouxar a gravata e o colarinho.
Lembrei-me do desejo de Adrião, quis chamar os amigos da casa, mas não pude descerrar os queixos. Para desembaraçar-me da incumbência, puxei o braço de padre Atanásio, que se desviou assustado. Fiz o mesmo com Isidoro e com o Miranda. Creio que êles me tomaram como doido. Mergu lhei as mãos nos cabelos. Estaria realmente doido?
— Sossegue, criatura, disse padre Atanásio. Todos nós sentimos muito. Mas enfim... a opinião da ciência... On de está o Vitorino?
Recobrei a voz a custo.
— Despedida? fêz o dr. Liberato. Não. Êle já falou de mais.
E a Clementina, que apareceu novamente:
— Tenha paciência, d. Clementina. Doente é calado, na cama.
Clementina sumiu-se.
— O pior é que com esta confusão ainda não almocei, continuou o doutor. Estou moído. E morto de fome.
Chamou a Teixeira:
— O Xavier saiu? Pois eu tamhém vou sair. Volto lo go. E não deixe essa gente invadir o quarto, d. Josef a.
Até já.
Quando me sentei à mesa, depois de ensahoar a cara e mudar a roupa, o dr. Liberato dava pormenores inúteis.
Qué entendo eu de alvéolos? que me importava a pleu ra? O que eu queria era saber se Adrião morria ou escapava.
Repeli o prato, levantei-me.
— O senhor não almoça? perguntou d. Maria José. Por quê? Ainda hoje não comeu, está de jejum natural. Venha almoçar.
— Não senhora. Vou tomar um banho.
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