Universo da obra
Universo da obra
PASSADOS oito dias, Adrião morreu. Morreu pela ma drugada, enquanto Nazaré estava no quarto a velar. Eu bo cejava, derreado na poltrona de padre Atanásio, quando o ta belião me tocou de leve no ombro:
— Afinal o homem descansou.
Ergui-me, sem compreender. Percebi, vagamente, e bra dei:
— Como?
_Êle pediu silêncio: — É bom não fazer espalhafato. Vamos avisar os outros.
E entrou na saleta. — Que foi, Valério? que foi? perguntou d. Josefa, sain do repentinamente da sombra do corredor.
Depois daquela crise, na promiscuidade e na azáfama dos dias de angústia, existia entre nós todos uma familiaridade estranhável. Dormíamos quási sempre juntos, homens e mu lheres, sentados, como selvagens. Muitas necessidades soci ais tinham-se extinguido; mostrávamos às vezes impaciência, irritação, aspereza de palavras; pela manhã as senhoras apa reciam brancas, arrepiadas, de beiços amarelentos; à noite procurávamos com egoísmo os melhores lugares para repousar.
Enfim numa semana havíamos dado um salto de alguns mil anos para trás.
— Que foi, João Valério? tomou a Teixeira.
— Não sei, respondi procurando esquivar-me. O Mi randa disse aí umas coisas, mas eu não entendi. É melhor a senhora ir perguntar a êle.
Ela correu à alcova, voltou e abraçou-se comigo, solu çando. — É possível? exclamou Isidoro, que veio da saleta com Vitorino. A esta hora! Não acredito. Só vendo.
Mas não foi ver, porque tem horror aos mortos. Ten tei acalmar a Teixeira, que já me havia molhado o ombro de lágrimas. — Vamos chamar Luísa, disse ela afastando-se rápida e recuperando a decisão costumada.
Corajosa. Nem parece filha de Vitorino.
Encontrámos Luísa na sala de jantar, encostada à mesa, dormindo sôbre um braço estirado. Marta ressonava, deiU tli tada niun banco. Encolhida entre o guarda-louça e a parede, Clementina cochilava. Levantaram-se. E nem foi preciso que falássemos: pela minha perturbação, pelo rosto alterado da Teixeira, compreenderam logo. No silêncio só se perce bia a voz de d. Engrácia, que atormentava as criadas na co zinha.
Fazia uma semana que eu não falava com Luísa. No primeiro dia ela ficara para um canto, cheirando éter e be bendo flor de laranja. Não a vi. Depois, naquela organizaçao de acampamento bárbaro, baixava a cabeça e estremecia quando a encontrava. Creio que ela também fugia de mim. Em consequência as suspeitas haviam esmorecido. O arrufo qué d. Jo fa mostrara uma tarde, no passeio à Lagoa, desaparece ra. Nazaré olhava-me às vezes com modo estranho, franzia a testa e estirava o beiço. O suicídio de Adrião era explicado como efeito de longos padecimentos e embaraços comerciais.
Uma nevrose , dissera o dr. Liberato. E esta frase curta, que poucos entenderam, teve grande utilidade.
— Então? perguntou Luísa.
Como continuássemos calados, tombou na cadeira e co meçou a chorar. Marta Varejão acercòu-se dela, tremendo.
Clementina foi até a porta do corredor, recuou com mêdo de d. Engrácia, que passava, e gaguejou:
— Pode ser que escape. - Já se tem visto. O Neves tratou de um homem que fêz o m esm o... Às vezes é uma síncope.
Tinha os olhos molhados.
Constrangido entre aquelas duas espécies de dor, voltei para o salão, onde d. Engrácia arengava:
Mas o senhor deixou o Jbomem morrer sem vela, seu Miranda?
— É verdade.
E para que estava o senhor no quarto? Bonito enfer meiro! Era melhor que tivesse ficado em casa: passávamos sem o seu auxílio. A vela benta aí há uma semana!
Deixe la, replicava Nazaré sem se alterar. JM orreu bem sem isso.
Vitorino, na alcova, sacudia o irmão, tentando ainda rea nimá-lo. Esgotado por oito dias de sobressaltos e insônia for çada, eu andava às tontas. Não retinha nada no espírito, e aquêle desenlace surgia-me como uma cena indistinta entre as névoas de um sonho ruim.
f Havia claridade na sala. Abri uma janela, olhei o sol que nascia, num desperdício de tintas derramadas pelos mon tes. Voltei as costas com indiferença.
- — É necessário tratar dêsses arranjos, disse Isidoro. O Vitorino não pode. Quer encarregar-se, Miranda? Não?
Hesitou um instante.
! — Pois vou eu. Vamos nós, João Valério.
Descemos. No portão encontrámos o dr. Liberato.
— Que aborrecimento! exclamou. Quando já ia pare cendo fora de perigo!
Seguimos em direcção ao Quadro.
— Como é que se faz isso? perguntou Isidoro. Eu de funerais não entendo.
' — Nem eu.
— Diabo! Naturalmente é preciso encomendar caixão.
E sepultura. Que trapalhada! Afinal foi bom termos vindo:
sempre é melhor do que estarmos no meio daquela choradeira.
Adeus. Vou acordar padre Atanásio. Êle me ensina.
Afastou-se. E, como eu quisesse acompanhá-lo:
— Não senhor. Enterro é coisa séria.
Entrei em casa, estive deitado meia hora. Pareceu-me ouvir a respiração gorgolejada, as pragas, os gemidos de Adrião. E vi debaixo das cobertas a figura de Luísa, muito modifi cada. Avaliei que ela devia ter perdido de três para cinco qui los. Pálida, com os cabelos em desalinho, uma ruga na testa.
Alvéolos pulmonares, era assim que o dr. Liberato dizia.
Para o inferno!
Levantei-me, peguei a toalha e dMgi-me ao banheiro.
De volta, encontrei d. Maria José dando milho ao canário.
—• O senhor hoje madrugou, hem? estranhou com um sorriso. Como vai o doente?
— Morreu.
E, para arrefecer-lhe a curiosidade:
— Finou-se, é com Deus, descansou, foi-se embora. E eu quero que a senhora me dê um pouco de conhaque.
— A esta hora? Tome antes uma xícara de café.
— Não senhora. Preciso dormir, e não posso dormir.
Traga o conhaque.
Ela trouxe a garrafa, de mau humor. Tinha aconselhado, mas cada qual era senhor do seu nariz. Meteu rodeios e fa lou de novo na morte de Adrião. Ouvi distraído, bebi o co nhaque, tranquei-me no quarto e adormeci profundamente.
Despertei cêrca de meio-dia às pancadas repetidas que o italiano dava na porta. Ergui-me sobressaltado, quási com r l vergonha: gente de comércio sempre se apoquenta quando acorda tarde. Depois tranqüilizei-mé: o escritório não se abria. Vesti-me devagar, novamente atormentado com a lem brança daquela outra Luísa desleixada e de olhos queimados pelas lágrimas.
— Você estava bêbedo? perguntou-me o italiano quando entrei na sala de jantar. Quási derrubo a porta. Que sono!
Naturalmente foi a carraspana què tomou pela manhã.
D. Maria José espinhou-se. Invencionice! Contara apenas que eu tinha bebido um cálice de conhaque, e o Pascoal não fazia bem em continuar com aquelas brincadeiras.
O dr. Liberato falou em Adfião. Organismo estragado.
Era possível que êle não tivesse morrido em consequência do tiro.
— E de que morreu? inquiriu Pascoal. Ora essa! Todo o mundo está vendo.
— De males antigos, explicou o médico. Uma criatura combalida, todos os meses na cama. . .
Aludiu às regióes que a bala havia tocado, e isto bastou para que o outro se retraísse.
Mastiguei quatro bocados amargos e voltei o rosto, eno jado. Ia beber o último gole de café quando notei a ausência de Isidoro.
E o Pinheiro? informei-me. Onde andava o Pinheiro?
Ninguém sabia. O italiano vira-o pela manha na loja do Men donça, depois na botica do Neves, à procura de incenso, e por fim a conferenciar com Jau marceneiro, defronte do cinema.
D. Maria J osé referiu que o sineiro tinha vindo à hospe daria, pedir desculpas; não podia dobrar os sinos por um sui cida.
—■ E é pena. Um homem tão religioso enterrar-se como pagão!
—“ Interessante, disse o dr. Liberato rindo. Ignorava isso. Vai para lá agora, João Valério?
— Muito cedo. A que hora é o entêrro?
— Às quatro, parece.
Quando entrámos no casarão, tudo lá estava transformado.
Ao desconcêrto da longa semana tinha sucedido uma ordem aparente e falhada, que devia durar um dia. Por todo o can to haviam passado as mãos hábeis e diligentes de Marta, re compondo, aumentando, eliminando.
No centro do salão, sobre duas mesas juntas, vestidas de prêto, descansava o caixão funerário, entre círios acesos. Dos ângulos pendiam coroas de flores naturais, com fitas roxas.
Nas paredes os quadros desapareciam, disfarçados por grandes manchas negras. Uma colcha escura cobria o piailo, e as al mofadas tinham máscaras de luto. As cortinas, baças, per maneciam. Os tapêtes também. Faltava um, vermelho, e no lugar dêle avultava outro, enorme e tenebroso. Da alcova, através da porta meio aberta, voava um fio de incenso. E ha via um cheiro enjoativo. A disposição dos móveis fôra alte rada.
Nas cadeiras, em redor do féretro, padre Atanásio, Evaristo Barroca, Nazaré, Cesário Mendonça, o administrador e o dr. Castro conversavam quási em silêncio. Com um papel na perna, Vitorino tentava redigir um telegrama. Senhoras iam e vinham: d. Engrácia, d. Eulália Mendonça, a Teixeira velha, Marta Varejão, d. Josefa. Na saleta de espera Clemen tina arranjava numa cesta de laços pretos cartas e cartÓes de pêsames, ainda com os envelopes intactos. Ao pé da janela aberta sobre o jardim, Mendonça filho fumava, às escondidas.
Fêz-me um aceno e cochichou:
— Quando é isso? O senhor sabe?
Puxou o relógio:
— O convite que recebi marcava para quatro horas.
Passam quinze minutos. Se esta maçada continuar, dou o fora.
Atirou pela janela a ponta do cigarro:
— E aquêle negócio? Eu falei com o velho. O senhor não apareceu • • • *
— Não pude aparecer. E agora não contem comigo.
— : Foi o senhor que se ofereceu. Veio espontaneamente, é bom lembrar.
— De acordo, mas não esperava isto.
Vi Nicolau Varejão lá em baixo, de roupa verde, cha péu branco, sapatos amarelos. Ia convidá-lo a subir quando Isidoro entrou no jardim:
—• Por aqui, seu Varejão? Como vai a bizarria? Chegue cá para cima. O senhor aí derrete as banhas.
Nicolau Varejão tirou o chapéu, abanou-se, disse que gostava do calor. Coitado. Ficava ali, ao sol, com mêdo da filha.
— Então volta a palavra atrás? inquiriu Mendonça filho.
Fica o dito por não dito...
— Naturalmente, respondi dando-lhe as costas. Fica o dito por não dito.
E fui ao encontro de Isidoro:
— Você almoçou, Pinheiro?
— Não, comi um pão com sardinha no Bacurau.
Ensopou o lenço no suor que lhe corria pelo rosto, dili genciou aprumar o colarinho empapado:
— Afinal acabei a tarefa, e penso que não' esqueci nada.
Você viu as cartas de convite que mandei imprimir? Não ti ve tempo de escrever, a redacção é de padre Atanásio. Primo rosa. Encontrei na tipografia um clichê bonito e mandei colocá-lo no frontispício — um anjo com as asas abertas em cima de um túmulo. Esplêndido!
Fortunato Mesquita chegava com o doutor juiz de direi to, Xavier pai, Xavier filho e o Monteiro agiota.
Nazaré aproximou-se de mim:
— Por quem esperamos? Temos gente de sobra.
Realmente no salão havia pessoas em pé. Estavam lá os indivíduos que vão aos bailes da prefeitura, os que levam o pálio nas procissões e os que frequentam a Semana — comerci antes, empregados públicos, proprietários rurais dos sítios próximos. Na calçada do armazém fronteiro estacionavam sujeitos que não tinham querido entrar, por timidez. Quási todos deviam favores aos Teixeira: Silvério do bilhar, o sapa teiro protegido de Luísa, o sargento, Bacurau, que às vezes auxiliamos em pagamentos de pequenos saques.
— Que diabo estamos fazendo? perguntou novamente o tahelião. São quási cinco horas. Que é que falta?
— A música, disse Clementina, que ainda arrumava os cartões na cesta. Êle era presidente da Santa Cecília.
— Sem saber música! rosnou o Miranda.
E encolheu os ombros: detestava formalidades.
— Se é só o que falta, podemos sair, interveio Mendonça filho. A filarmônica está no portão.
— Uf! soprou Nazaré. Que trabalho, depois de morto!
Pior que um parto.
E levou o Barroca para junto do caixão, segurou com êle as alças da cabeceira. Cesário Mendonça e o administrador pegaram as do meio. Xavier filho chamou-me para as últi mas, mas Isidoro tomou o meu lugar.
Vitorino prorrompeu em soluços. Houve uma agitação no corredor.
Os seis homens atravessaram o salão e a ante-câmara, des ceram a escada.
— Não vem, padre Atanásio?
— Não, vou consolar esta gente.
Na calçada formou-se o cortejo, uma espantosa marcha fúnebre soou. Deixámos a rua dos Italianos e seguimos em direcção à pracinha. Defronte da usina eléctrica, curiosos levantaram-se, tiraram o, chapéu.
Isidoro soltou a alça do caixão, que entregou ao Montei ro, deu-me o braço e foi-se retardando até ficarmos na cauda do préstito, junto a Zacarias, que chorava, carregado de coroas.
Passámos o açude, as casinholas que se encostam ao morro do Sovaco, aoercámo-nos do cemitério. Os condutores, fatigados, revezavam-se a cada instante.
Isidoro conservou-se a distância, e ao pé dos muros sujos, das grades de ferro, simulou um horror exagerado à mansão derradeira, como disse, muito sério, acendendo um cigarro.
— Safa! exclamou. Ainda hoje não fumei.
Ajuntou ;
— Está dado o grande passo. ,Com decência. Creio que lhe fizemos um enterro conveniente.
Apontou, através das grades, pequeninas cruzes de pau que apodreciam, velhos sepulcros meio desmantelados, túmulos vistosos, a capelinha em ruína ao fundo:
— Isto não nos interessa. Já cumprimos o nosso dever de amigos e de cristãos.
Voltámos. Outros voltavam também, em grupos, desforrando-se do recolhimento em que tinham vindo.
— Então acabou tudo hoje, hem. Pinheiro?
E esperei uma confirmação, porque achaVa extraordinário que Adrião tivesse realmente morrido naquele dia. Havia-
-me habituado a julgá-lo morto desde a semana anterior, cem vezes tinha visto mcntalmente o rosário de cenas fúnebres:
a família em pranto, roupas de luto, padre Atanásio embru lhando consolações, a vela benta de d. Engrácia.
— Preciso escrever uma notícia, uma notícia comprida, disse Isidoro. E não é só a notícia: o que eu devo fazer é um artigo sôbre o Adrião, para domingo, na primeira página.
— Sim senhor! exclamou Nicolau Varejão aproximan do-se. Foi-se para a eternidade um cavalheiro muito...
Procurou um adjectivo e embutiu:
— Muito importante. Sempre lhes vou contar um caso.
Improvisou uma história para realçar a importância do finado. Não lhe dei ouvidos.
Dominava-me aquela idéia absurda. Pareceu-me que Adrião iria morrer continuadamente. D. Josefa me chamaria sempre para despertar Luísa, Clementina e Marta, e eu chei f L ! :íÍí ' < í í !Í ;
f r ' î garia à varanda tôdas as manhãs para ver o sol nascer, e sen tiria eternamente aquele horrível cheiro de incenso que me estava prêso às narinas.
Recuei vendo o Miranda, encostei-me à balaustrada do açu de, temi que êle me viesse comunicar pela segunda vez a mor te de Adrião.
— Felicitemo-nos, disse Nazaré encostando-se também.
Vamos sossegar. Se o nosso amigo teimasse em viver mais algum tempo, eu ia com êle. Não podia agüentar aquilo.
Debruçou-se, ficou a olhar a muralha verde:
— Oito dias sem dormir, mal comido, mal bebido! Isto desmantela um homem. Devo estar com tudo por dentro espa tifado. Como vai o espiritismo, Varejão?
Nicolau Varejão confessou que tinha abandonado o espi ritismo e agora pendia para os protestantes.
— Diabo! rosnou o tabelião. Você fêz isso com o Allan Kardec? Você não é camarada.
E voltou-se para Isidoro:
— O que eu sinto é ter perdido um bom parceiro de xadrez.
— Não fale assim, replicou Isidoro. O Adrião tinha ópti mas qualidades.
—■ Devia ter muitas. Eu conheci uma: jogava xadrez.
Para mim é uma qualidade excelente. É por isso que tenho pena dêle.
Calou-se. E súbitamente, endireitando-se, esfregando as mãos:
— Estava aqui pensando na conta que o dr. Liberato vai mandar à viúva.
Estremeci: Luísa era viúva. Nazaré fechou um ôlho, calculou :
— Dinheiro como o diabo, aí de cinco para dez contos, além do que o Adrião já rendeu. Êsses médicos têm uma sorte danada.
Isidoro indignou-se:
— Como pode você ocupar-se com isso, agora, de volta do cemitério? Você é um monstro.
Nazaré sorriu:
— Eu? Está enganado. Que é um monstro? Uma cria tura diferente das outras da sua espécie, não é? Pois eu sou como os outros homens.. Um pouco melhor que uns, um pouco pior que outros. Vulgar. Monstro é você. Pinheiro.
Você é esquisito, uma espécie de santo. Apesar de todos os seus defeitos, devia ter deixado para nascer daqui a dez mil anos. Você é monstruosamente bom, Pinheiro.
X X IX
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