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Caetés

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Caetés

Capítulo 29 · Caetés

Capítulo XXIX

29 de 31 ≈ 7 min de leitura

PASSARAM-SE dois meses. Uma noite, à entrada do Pinga-Fogo, Isidoro parou junto a um poste da luz eléctrica e ata cou-me :

—' Em que fica essa história?

— Que história. Pinheiro?

— Essa embrulhada. Lembra-se da conversa que tivemos uma tarde na farmácia do Neves? Bulimos com o pobre do Adrião, coitado.

Tossiu, andou dez metros e estacou defronte da igreja de S. Pedro:

— Está visto que sinto a morte dêle. Naturalmente. Era um carácter adamantino. Mas enfim — que diabo! — nao pode ressuscitar. Parce sepultis! como diz padre Atanásio.

E está o seu caso resolvido.

Baixei a cabeça: — Eu, Pinheiro, se não me engano. . . Convem proceder com ponderação. R eflecti... — Não há ponderação, atalhou Isidoro. O que ha e que você deve casar com a moça, esta é que é a ponderação. Nao sei o que houve entre os dois. Provavelmente não houve nada. Ou talvez tenha havido. Isso é lá segrêdo seu. O que é certo é que rosnaram por aí, você andava doido por ela e o Adrião deu o couro às varas. — Mas deixaram de falar, retorqui apressado. Voce ouvm alguma coisa. Pinheiro? Que diz êsse povo? — Que povo! Quem se importa com o povo. A e « u a obrigação... Não se faça desentendido. E um homem bonrado... Você está hoje de uma estupidez espantosa, Valeiio.

Nos Italianos, apontou o casarão: — E onde se encontra m u lh er como aquela. P rocure, veja, compare. En, se fôsse mais moço, dedicava-lhe nra Muitas vezes me ocorrera o que Isidoro acabava de sugerir-me. Indecisão.

Dois meses sem ver Luísa. À noite distraía-me a repetir a mim mesmo que ainda a amava e havia de ser feliz com V rmy ■ ■ ■ ■ ■ w m - i ela. Hipocrisia: todos os meus, desejos tinham murchado.

Tentei renová-los, recompus mentalmente os primeiros encon tros, na ausência de Adrião, entrevistas a furto no jardim, a tarde que passámos no Tanque, soh árvores. Mas apenas con segui recordar com viveza um raio de sol que atravessava a ramagem e vinha arrastar-se sôbre a pedra coberta de musgo, a garça displicente, um sinal escuro que Luísa tem abaixo do seio esquerdo. Lembrei-me também de me haver ela uma vez plantado os dentes no pescoço. Ao cabo de algumas horas a parte mordida eslava vermelha e necessitando o dis farce de uma rodela de pano. Depois a mancha se havia tornado gradualmente esverdeada, amarelada, afinal desapa recera.

Naquele tempo eu vivia no céu.

— Que céu! Como se vai morder uma pessoa, brutal mente?

E achei que não fazer caso da opinião dos outros é censurável.

— Imprudente! disse comigo.

Alterando a palavra, corrigi com severidade:

— Impudente! , Entretanto Isidoro pensava que eu devia casar com ela.

E eu penso sempre como Isidoro.

— Você tem razão. Pinheiro. É preciso tratar disso, declarei mais tarde na hospedaria. Vou lá.

— Agora? Vai falar casamento com a mulher assim de supetão, e de noite?

— Não. É só uma visita, por enquanto.

Fui. E ao chegar já me arrependia de ter dado aquêle passo difícil. Zacarias trouxe-me a notícia de que a senhora estava adoentada.

— Diabo! murmurei retirando-me entre despeitado e contente. Isto por aqui também mudou.

No dia seguinte pela manhã voltei:

— A senhora pode receber, Zacarias?

— Está tomando banho, respondeu o prêto do alto da escada. É melhor o senhor vir depois.

Muito bem. Eu ia tornar-me importuno, não a deixaria tão cedo, e a responsabilidade do rompimento ficava para ela. Fui ao casarão oito dias a fio. Antes do trabalho, acendia um cigarro, chegava lá, apressado:

— A senhora já saiu do banheiro, Zacarias?

E ia para o escritório.

— Julgo que tenho procedido com cavalheirismo, entrei a matutar uma noite. Amanha, ponto final nisto. Com cer teza ela imagina que vivo doido por encontrá-la.

Quando, no outro dia,, penetrei no jardim, fazia a pro messa de nunca mais pôr ali os pés.

— A sinhá mandou pedir que esperasse um momento.

Não entendi.

— Como foi que você disse, Zaearias?

— Lá em eima, fêz êle mostrando os dentes alvos.

Subi, desconsolado.

Receber-me! E eu que me tinha habituado a ouvir reeusas !

Zacarias abriu o salão. Tudo transformado; o piano co berto, outras cortinas, uma tristeza que dava frio.

Sentia-me obtuso. Nem sabia como tratar Luísa. Fulana ou d. Fulana? Complicação. Talvez ela se melindrasse com nm tratamento famibar. Mas atirar-lhe dona, cara a cara, sem testemunha, era tolice. Dificuldade.

Ia em plena atrapalhação quando Luísa entrou. Estava de prêto e muito pálida, foi só o que vi.

Com a cabeça baixa, aceitei a cadeira que ela me indicou e fiquei a olliar a mancha deixada pela sola do meu sapato numa almofada que desazadamente pisei. Sem me dar a mão, Luísa sentou-se. Creio que também se eonservou cabis baixa. Houve um silêncio estúpido.

— Vim a q u i... arrisquei.

— Vem aqui sempre, atalhou ela. Não tenho querido recebê-lo.

Emendou:

— Não tenho podido. É a verdade: não posso.

Mordi os beiços. E, para acabar depressa:

— O que eu queria era declarar que me considero obri gad o... moralmente obrigado...

Ela estremeceu, encarou-me:

— Obrigado a quê, João Valério? A casar comigo?

— A acolher qualquer resolução sua, respondi timida mente. Supus... eompreende? Não s e i... Todos os dias me preparava para vir.

— E vem depois de dois meses, João Valério?

— Que havia de fazer? Um golpe, um abalo tão gran d e ... E tive acanhamento. É natural. Se foi por isso que me fechou a porta uma semana. . .

— Não, disse ela erguendo-se. Não précisa justificar-se.

E, aproximando-se, falando-me quási ao ouvido;

— É que desapareceu tudo. *

— Tem certeza? perguntei levantando-me.

E percebi logo que a pergimta era idiota.

— Eu estava com algum escrúpulo, continuou Luísa. Tal vez p Valério ainda fôsse o mesmo. Estou agora tranqüila.

Nenhum de nós sente nada, e o Valério finge tristeza. Para que mentir?

— Faz pena, murmurei comovido.

Pareceu-me ouvir a voz mortiça de Adrião: “Não se pre ocupe com a minha morte, rapaz. Havia de fazer o que fiz, estava escrito”.

— Horrível!

E tentei adornar Luísa com os atributos de que a tinha despojado.

— Para quê? reflecti. É melhor assim.

Eu agora era um pequenino João Valério, guarda-livros mesquinho.

— Adeus, balbuciou Luísa com uma lágrima na pálpebra.

— Adeus, gemi.

Apertei-lhe a mão, fria, mas os dedos dela permaneceram inertes sob a pressão dos meus. Quis beijá-los — faltou-me o ânimo.

— Adeus.

Fui até a porta da saleta, voltei-me ainda uma vez.

Luisa soluçava, caída para cima do piano. Vacilei um ins tante e depois saí.

Caetés

Sinopse

Leia gratuitamente Caetés, de Graciliano Ramos, romance de estreia do autor em domínio público. Edição digital preparada a partir dos capítulos transcritos no Wikisource, dos fac-símiles BBM/USP de 1933 e 1947 e de cotejo adicional com fonte integral antiga e capítulos publicados no site oficial do autor, organizada em 31 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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