Universo da obra
Universo da obra
UMA TARDE, girando por estas ruas, parei na beira do açude, lembrei-me da estréia vermelha e da noite em que Luísa me repeliu. Afastei-me lento, subi pelos Italianos. O casarão estava fechado agora, e as grades do jardim eram um muro verde de trepadeiras. O pequenino lago, os tinhorões, a garça de bronze, tudo invisível. Como aquilo ia longe!
Entrei a vagar pela cidade, maquinalmente, levado por uma onda de recordações. À bôca da noite achava-me na calçada da igreja.
Da païsagem admirável apenas se divisavam massas con fusas de serras cobertas de sombras.
A estréia vermelha brilhava à esquerda. Pareceu-me pequena, como as outras, uma estréia comum. Com um ’ , como as outras. E estive um dia muito tempo a contemplá-la com respeito supersticioso, contando-lhe cá de baixo os segredos do meu coração. E lamentei não ser selvagem para colocá-la entre os meus deuses e adorá-la.
O vento zumbia no fio telegráfico. À porta do hospital de S. Vicente de Paulo gente discutia. A escuridão chegou.
Não ser selvagem! Que sou eu senão um selvagem, ligei ramente polido, com uma ténue camada de verniz por fora?
Quatrocentos anos de civilização, outras raças, outros costu mes. E eu disse que não sabia o que se passava na alma de um caeté! Provavelmente o que se passa na minha, com algu- , mas diferenças. Um caeté de olhos azuis, que fala português ruim, sabe escrituração mercantil, lé jornais, ouve missas. É isto, um caeté. Êstes desejos excessivos que desaparecem brus camente. .. Esta inconstância que me faz doidejar em tômo de ' um soneto incompleto, um artigo que se esquiva, um romance que não posso acabar... O hábito de vagabundear por aqui, por ali, por acolá, da pensão para o Bacurau, da Semana para a casa de Vitorino, aos domingos pelos arrabaldes; e depois dias extensos de preguiça e tédio passados no quarto, aborreci mentos sem motivo que me atiram para a cama, embrutecido é pesado... Esta inteligência confusa, pronta a receber sem exame o que lhe impingem. . . A timidez que me obriga a ficar cinco minutos diante de uma senhora, torcendo as mãos com angústia. . . Explosões súbitas de dor teatral, logo substituídas por indiferença completa... Admiração exagerada às coisas brilhantes, ao período sonoro, às missangas literárias, o que me induz a pendurar no que escrevo adjectivos de enfeite, que depois risco. . .
A cidade estendia-se, lá em baixo, sob uma névoa luminosa.
O vento continuava a zumbir no arame. Fazia frio. Violões passaram gemendo.
Um caeté, sem dúvida. O Pinheiro é um santo, e eu às vezes me rio dêle, dou razão a Nazaré, que é canalha. Guardo um ódio feroz ao Neves, um ódio irracional, e dissimulo, falo com êle: a falsidade do índio. E um dia me vingarei, se puder. Passo horas escutando as histórias de Nicolau Varejão, chego a convencer-me de que são verdades, gosto de ouví-las. Agradam-me os desregramentos da imaginação. Um caeté.
Para os lados do Chucuru, meia dúzia de luzes indecisas, espalhadas. Aquilo há pouco tempo era dos índios. Outras luzes na Lagoa, que foi uma taba. No Tanque, montes negros como piche. Ali encontraram, em escavações, vasos de barro e pedras talhadas à feição de meia-lua. Negra também, a Cafurna, onde se arrastam, miseráveis, os remanescentes da tribo que lá existiu.
Que semelhanças não haverá entre mim e êles! Porque procurei os brutos de 1556 para personagens da novela que nunca pude acabar? Porque fui provocar o dr. Castro sem motivo e fiz de um taco ivarapema para rachar-lhe a cabeça?
Um caeté. Com que facilidade esqueci a promessa feita ao Mendonça! E êste habito de fumar imoderadamente, êste desejo súbito de embriagar-me quando experimento qualquer abalo, alegria ou tristeza!
Se Pedro Antônio, Balbino, pobres-diabos que por ai vivem, soubessem exprimir-se, quantos pontos de contacto!
Diferenças também, é claro. Outras raças, outros costu mes, quatrocentos anos. Mas no íntimo, um caeté. Um caeté descrente.
Descrente? Engano. Não ha ninguém mais crédulo que eu. E esta exaltação, quási veneração, com que ouço falar em artistas que não conheço, filósofos que não sei se existiram!
Ateu! Não é verdade. Tenho passado a vida a criar deuses que morrem logo, ídolos que depois derrubo: uma estrela no céu, algumas mulheres na terra. . .
Leia gratuitamente Caetés, de Graciliano Ramos, romance de estreia do autor em domínio público. Edição digital preparada a partir dos capítulos transcritos no Wikisource, dos fac-símiles BBM/USP de 1933 e 1947 e de cotejo adicional com fonte integral antiga e capítulos publicados no site oficial do autor, organizada em 31 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.