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Os Três Mosqueteiros

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Os Três Mosqueteiros

Capítulo 5 · Os Três Mosqueteiros

Capítulo IV — O ombro de Athos, o boldrié de Porthos e o lenço de Aramis

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Capítulo IV — O ombro de Athos, o boldrié de Porthos e o lenço de Aramis

D’Artagnan, furioso, atravessara a antecâmara em três saltos e lançava-se escada abaixo, contando descer os degraus de quatro em quatro, quando, levado pela corrida, foi bater de cabeça num mosqueteiro que saía da casa do sr. de Tréville por uma porta lateral. Acertou-lhe com a testa no ombro e arrancou-lhe um grito, ou melhor, um uivo.

— Perdoe-me — disse d’Artagnan, tentando retomar a corrida. — Perdoe-me, mas estou com pressa.

Mal descera o primeiro lance de escada, um punho de ferro agarrou-o pela faixa e o deteve.

— Está com pressa! — exclamou o mosqueteiro, pálido como uma mortalha. — Sob esse pretexto, esbarra em mim, diz “perdoe-me” e acredita que basta? Não exatamente, meu jovem. Pensa que, porque ouviu o sr. de Tréville nos tratar hoje com certa desenvoltura, pode tratar-nos como ele nos trata? Engana-se, companheiro. Não é o sr. de Tréville.

— Por minha fé — respondeu d’Artagnan, reconhecendo Athos, que, depois do curativo feito pelo médico, voltava para o apartamento —, não fiz de propósito. Disse “perdoe-me”. Parece-me, portanto, suficiente. Repito, entretanto, e desta vez talvez já seja demais: palavra de honra, estou com pressa, muita pressa. Solte-me, por favor, e deixe-me ir onde preciso.

— Senhor — disse Athos, soltando-o —, não é polido. Vê-se que vem de longe.

D’Artagnan já saltara três ou quatro degraus, mas, diante da observação de Athos, parou de súbito.

— Por Deus, senhor! — disse. — Por mais longe que eu venha, fique sabendo que não será o senhor quem me dará lições de boas maneiras.

— Talvez — disse Athos.

— Ah, se eu não estivesse com tanta pressa — exclamou d’Artagnan — e não corresse atrás de alguém...

— Senhor homem apressado, a mim encontrará sem correr, ouviu?

— E onde, por favor?

— Perto dos Carmes-Deschaux.

— A que horas?

— Por volta do meio-dia.

— Ao meio-dia, muito bem. Estarei lá.

— Procure não me fazer esperar, pois, às doze e quinze, aviso que serei eu a correr atrás do senhor e a cortar-lhe as orelhas em plena corrida.

— Perfeito! — gritou d’Artagnan. — Estarei lá dez minutos antes do meio-dia.

E pôs-se a correr como se o diabo o levasse, esperando ainda encontrar o desconhecido, cujo passo tranquilo não deveria tê-lo conduzido muito longe.

À porta da rua, porém, Porthos conversava com um soldado dos guardas. Entre os dois havia exatamente espaço para um homem. D’Artagnan julgou que bastaria e lançou-se para passar como uma flecha entre ambos. Mas contara sem o vento. Quando ia atravessar, o vento enfunou o longo manto de Porthos, e d’Artagnan foi bater diretamente nele. Sem dúvida, Porthos tinha motivos para não abandonar aquela parte essencial do traje, pois, em vez de soltar a aba que segurava, puxou-a para si, de modo que d’Artagnan se enrolou no veludo num movimento de rotação explicado pela resistência do obstinado Porthos.

Ouvindo o mosqueteiro praguejar, d’Artagnan quis sair debaixo do manto que o cegava e procurou caminho pelas dobras. Temia sobretudo ter prejudicado o frescor do magnífico boldrié que já conhecemos. Mas, abrindo timidamente os olhos, encontrou o nariz colado entre os dois ombros de Porthos, isto é, precisamente sobre o boldrié.

Ai! Como a maioria das coisas deste mundo que só têm a aparência a seu favor, o boldrié era de ouro na frente e de simples couro de búfalo atrás. Porthos, verdadeiro fanfarrão, não podendo ter um boldrié inteiramente de ouro, possuía ao menos a metade. Compreendia-se desde então a necessidade do resfriado e a urgência do manto.

— Por todos os diabos! — gritou Porthos, esforçando-se para livrar-se de d’Artagnan, que se remexia em suas costas. — Está louco para se atirar desse modo sobre as pessoas?

— Perdoe-me — disse d’Artagnan, reaparecendo sob o ombro do gigante —, mas estou com muita pressa, corro atrás de alguém e...

— Por acaso esquece os olhos quando corre? — perguntou Porthos.

— Não — respondeu d’Artagnan, picado. — Não, e graças a meus olhos vejo até o que os outros não veem.

Porthos compreendeu ou não compreendeu. Seja como for, deixando-se levar pela cólera, disse:

— Senhor, será devidamente espancado, aviso, se continuar esbarrando assim nos mosqueteiros.

— Espancado, senhor! — disse d’Artagnan. — A palavra é dura.

— É a que convém a um homem acostumado a olhar os inimigos de frente.

— Ah, por Deus! Sei muito bem que nunca lhes dá as costas.

E o jovem, encantado com a travessura, afastou-se rindo a plenos pulmões.

Porthos espumou de raiva e fez menção de precipitar-se sobre ele.

— Mais tarde, mais tarde! — gritou d’Artagnan. — Quando já não estiver com o manto.

— À uma hora, então, atrás do Luxemburgo.

— Muito bem, à uma hora — respondeu d’Artagnan, dobrando a esquina.

Mas nem na rua que acabava de percorrer nem naquela que agora abrangia com os olhos viu alguém. Por mais devagar que o desconhecido tivesse caminhado, ganhara terreno. Talvez também tivesse entrado em alguma casa. D’Artagnan perguntou por ele a todos que encontrou, desceu até a balsa, subiu novamente pela rue de Seine e pela Croix-Rouge, mas nada, absolutamente nada. A corrida, no entanto, foi-lhe útil, pois, à medida que o suor inundava a testa, o coração esfriava.

Pôs-se então a refletir sobre os acontecimentos que acabavam de ocorrer. Eram numerosos e funestos. Mal eram onze horas da manhã, e a manhã já lhe trouxera o desfavor do sr. de Tréville, que não deixaria de considerar um tanto brusca a maneira como d’Artagnan o abandonara.

Além disso, arranjara dois bons duelos com dois homens capazes de matar cada qual três d’Artagnans, e com dois mosqueteiros, afinal, isto é, com dois daqueles seres que estimava tanto que os colocava, no pensamento e no coração, acima de todos os outros homens.

A situação era triste. Certo de ser morto por Athos, compreende-se que o jovem não se inquietasse muito com Porthos. Entretanto, como a esperança é a última coisa que se extingue no coração humano, chegou a esperar que talvez sobrevivesse, com ferimentos terríveis, é claro, aos dois duelos e, em caso de sobrevivência, fez a si mesmo as seguintes censuras para o futuro:

“Que cabeça oca e que bruto eu sou! Aquele valente e infeliz Athos estava ferido justamente no ombro contra o qual fui bater com a cabeça como um carneiro. A única coisa que me admira é ele não ter me matado no mesmo instante. Tinha esse direito, e a dor que lhe causei deve ter sido atroz. Quanto a Porthos... Ah, quanto a Porthos, por minha fé, é mais engraçado.”

E, apesar de si mesmo, o jovem começou a rir, embora olhasse ao redor para ver se o riso solitário e sem causa aos olhos de quem o observasse não ofenderia algum passante.

“Quanto a Porthos, é mais engraçado, mas não deixo de ser um miserável estouvado. Atira-se assim sobre as pessoas sem avisar? Não! E vai-se espiar debaixo do manto para ver o que não há? Ele certamente teria me perdoado. Teria me perdoado se eu não lhe tivesse falado daquele maldito boldrié, por meias palavras, é verdade. Sim, muito bem veladas! Ah, maldito gascão que sou, faria gracejos até na frigideira. Vamos, d’Artagnan, meu amigo”, continuou, falando consigo com toda a amabilidade que julgava dever a si mesmo, “se sair vivo, o que não é provável, terá de ser no futuro de perfeita polidez. Daqui por diante, todos devem admirá-lo e citá-lo como modelo. Ser atencioso e polido não é ser covarde. Veja Aramis: Aramis é a própria doçura, a própria graça. Alguém já pensou em dizer que Aramis é covarde? Certamente não. De agora em diante quero modelar-me inteiramente por ele. Ah, justamente, ei-lo.”

D’Artagnan, andando e monologando, chegara a poucos passos do palacete d’Aiguillon e, diante dele, avistara Aramis conversando alegremente com três fidalgos dos guardas do rei. Aramis também viu d’Artagnan, mas não esquecia que fora diante do jovem que o sr. de Tréville se irritara tanto naquela manhã e que uma testemunha das censuras recebidas pelos mosqueteiros não lhe agradava de maneira alguma. Fingiu, portanto, não vê-lo. D’Artagnan, inteiramente entregue aos planos de conciliação e cortesia, aproximou-se dos quatro jovens fazendo uma grande reverência acompanhada do sorriso mais gracioso. Aramis inclinou levemente a cabeça, mas não sorriu. Os quatro, aliás, interromperam imediatamente a conversa.

D’Artagnan não era tolo o bastante para não perceber que estava sobrando, mas ainda não conhecia suficientemente os modos da boa sociedade para sair com elegância de uma situação falsa, como é em geral a de um homem que se misturou a pessoas que mal conhece e a uma conversa que não lhe diz respeito. Procurava consigo mesmo um meio de retirar-se da maneira menos desajeitada possível quando percebeu que Aramis deixara cair o lenço e, sem dúvida por descuido, pusera o pé sobre ele. O momento pareceu-lhe propício para reparar a inconveniência. Abaixou-se e, com o ar mais gracioso que pôde encontrar, tirou o lenço debaixo do pé do mosqueteiro, apesar dos esforços que este fazia para retê-lo, e, entregando-o, disse:

— Creio, senhor, que este é um lenço que lamentaria perder.

O lenço era ricamente bordado e trazia uma coroa e armas num dos cantos. Aramis corou excessivamente e arrancou, mais que tomou, o lenço das mãos do gascão.

— Ah! Ah! — exclamou um dos guardas. — Ainda dirá, discreto Aramis, que está mal com a sra. de Bois-Tracy, quando essa graciosa dama tem a bondade de lhe emprestar os lenços?

Aramis lançou a d’Artagnan um daqueles olhares que fazem um homem compreender que acaba de conquistar um inimigo mortal. Depois, retomando o ar adocicado, disse:

— Enganam-se, senhores. Esse lenço não é meu, e não sei por que o senhor teve a fantasia de entregá-lo a mim em vez de a qualquer de vocês. A prova do que digo é que eis o meu no bolso.

Tirou o próprio lenço, também muito elegante e de fina cambraia, embora a cambraia fosse cara naquele tempo, mas sem bordados, sem armas e ornado apenas por uma inicial, a do proprietário.

Dessa vez, d’Artagnan não disse palavra. Reconhecera o erro. Mas os amigos de Aramis não se deixaram convencer pelas negativas, e um deles, dirigindo-se ao jovem mosqueteiro com seriedade afetada, disse:

— Se fosse como afirma, meu caro Aramis, eu seria obrigado a pedir-lhe o lenço de volta, pois, como sabe, Bois-Tracy é meu íntimo, e não quero que façam troféu dos pertences de sua mulher.

— Pede mal — respondeu Aramis — e, embora reconheça a justiça de sua reclamação quanto ao fundo, recusaria por causa da forma.

— A verdade — arriscou timidamente d’Artagnan — é que não vi o lenço sair do bolso do sr. Aramis. Ele estava com o pé em cima, apenas isso, e pensei que, já que estava com o pé em cima, o lenço fosse seu.

— E se enganou, meu caro senhor — respondeu friamente Aramis, pouco sensível à reparação.

Depois, voltando-se para o guarda que se declarara amigo de Bois-Tracy:

— Além disso — continuou —, refletindo, meu caro íntimo de Bois-Tracy, sou amigo dele não menos terno do que pode ser o senhor. Assim, no limite, o lenço pode ter saído tanto de seu bolso quanto do meu.

— Não, por minha honra! — gritou o guarda de Sua Majestade.

— O senhor jurará por sua honra e eu por minha palavra, e então um de nós evidentemente mentirá. Façamos melhor, Montaran: cada qual fica com metade.

— Do lenço?

— Sim.

— Perfeitamente! — exclamaram os dois outros guardas. — O julgamento do rei Salomão. Decididamente, Aramis, é cheio de sabedoria.

Os jovens explodiram em risadas e, como se pode imaginar, o caso não teve outra consequência. Um instante depois, a conversa terminou, e os três guardas e o mosqueteiro, após apertarem cordialmente as mãos, partiram, os três guardas para um lado, Aramis para outro.

“Este é o momento de fazer as pazes com esse homem galante”, disse d’Artagnan consigo mesmo, que permanecera um pouco afastado durante a última parte da conversa. Com esse bom sentimento, aproximou-se de Aramis, que se afastava sem lhe dar atenção.

— Senhor — disse —, espero que me perdoe.

— Ah, senhor — interrompeu Aramis —, permita-me observar que, nesta circunstância, não agiu como um homem galante devia agir.

— Como, senhor! — exclamou d’Artagnan. — Supõe...

— Suponho, senhor, que não é tolo e sabe muito bem, apesar de chegar da Gasconha, que ninguém pisa sem motivo em lenços de bolso. Que diabo! Paris não é calçada de cambraia.

— Senhor, faz mal em procurar humilhar-me — disse d’Artagnan, em quem a natureza brigona começava a falar mais alto que as resoluções pacíficas. — Sou da Gasconha, é verdade, e, já que sabe, não precisarei lhe dizer que os gascões são pouco pacientes. Assim, depois que se desculpam uma vez, ainda que por uma tolice, estão convencidos de ter feito metade a mais do que deviam.

— Senhor, o que lhe digo — respondeu Aramis — não é para procurar uma briga. Graças a Deus, não sou duelista e, sendo mosqueteiro apenas provisoriamente, só luto quando sou forçado, e sempre com grande repugnância. Mas, desta vez, o caso é grave, pois uma dama foi comprometida pelo senhor.

— Por nós, quer dizer! — gritou d’Artagnan.

— Por que teve a inabilidade de devolver-me o lenço?

— Por que teve a inabilidade de deixá-lo cair?

— Eu disse e repito, senhor, que esse lenço não saiu do meu bolso.

— Pois mentiu duas vezes, senhor, porque eu o vi sair!

— Ah, toma esse tom, senhor gascão! Pois bem, vou ensiná-lo a viver.

— E eu o mandarei de volta à missa, senhor abade! Desembainhe, por favor, e agora mesmo.

— Não, por favor, meu belo amigo, não aqui ao menos. Não vê que estamos diante do palacete d’Aiguillon, cheio de criaturas do cardeal? Quem me diz que não foi Sua Eminência que o encarregou de conseguir minha cabeça? Ora, tenho ridículo apego a ela, porque me parece assentar bastante bem sobre meus ombros. Quero matá-lo, fique tranquilo, mas matá-lo devagar, num lugar fechado e coberto, onde não possa vangloriar-se de sua morte diante de ninguém.

— De acordo, mas não confie demais e leve seu lenço, pertença-lhe ou não. Talvez tenha ocasião de usá-lo.

— O senhor é gascão? — perguntou Aramis.

— Sim. E o senhor não adia um encontro por prudência?

— A prudência, senhor, é virtude bastante inútil aos mosqueteiros, eu sei, mas indispensável aos homens da Igreja. Como sou mosqueteiro apenas provisório, faço questão de permanecer prudente. Às duas horas, terei a honra de esperá-lo no palacete do sr. de Tréville. Ali lhe indicarei os lugares apropriados.

Os dois jovens cumprimentaram-se. Aramis afastou-se subindo a rua que levava ao Luxemburgo, enquanto d’Artagnan, vendo a hora avançar, tomou o caminho dos Carmes-Deschaux, dizendo consigo:

“Decididamente, não consigo acreditar. Mas, ao menos, se me matarem, serei morto por um mosqueteiro.”

Os Três Mosqueteiros

Sinopse

Tradução brasileira de Os Três Mosqueteiros, romance de aventura de Alexandre Dumas sobre honra, amizade, intriga política e duelos na França do século XVII. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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