Universo da obra
Universo da obra
Apesar dos gritos da consciência e dos sábios conselhos de Athos, d’Artagnan se apaixonava a cada hora mais por Milady. Não deixava, portanto, de cortejá-la todos os dias, convencido de que, cedo ou tarde, ela não poderia deixar de corresponder.
Uma noite, chegando de nariz ao vento, leve como um homem que espera uma chuva de ouro, encontrou a criada sob o portão. Dessa vez, a bonita Ketty não se limitou a sorrir ao passar: tomou-lhe suavemente a mão.
“Ótimo!”, pensou d’Artagnan. “Traz alguma mensagem da senhora. Vai marcar um encontro que não ousaram propor de viva voz.”
E olhou a moça com o ar mais conquistador que conseguiu assumir.
— Eu gostaria de dizer-lhe duas palavras, senhor cavaleiro... — balbuciou a criada.
— Fale, minha filha, fale. Estou ouvindo.
— Aqui é impossível. O que tenho a dizer é longo e, sobretudo, muito secreto.
— Então como faremos?
— Se o senhor cavaleiro quisesse seguir-me... — disse Ketty timidamente.
— Aonde quiser, bela menina.
— Então venha.
Sem soltar a mão de d’Artagnan, Ketty o levou por uma pequena escada escura e em caracol. Depois de subir uns quinze degraus, abriu uma porta.
— Entre, senhor cavaleiro. Aqui estaremos sozinhos e poderemos conversar.
— E de quem é este quarto, bela menina?
— É o meu. Comunica-se com o de minha senhora por aquela porta. Mas fique tranquilo: ela não ouvirá o que dissermos. Nunca se deita antes da meia-noite.
D’Artagnan olhou ao redor. O pequeno quarto era encantador em gosto e limpeza; mas, contra a vontade, seus olhos se fixaram na porta que Ketty dissera levar ao quarto de Milady.
Ketty adivinhou-lhe o pensamento e suspirou.
— Então ama muito minha senhora, senhor cavaleiro?
— Mais do que posso dizer. Sou louco por ela!
Ketty soltou outro suspiro.
— Ai, senhor, é uma pena!
— E que diabo vê nisso de tão lamentável?
— Minha senhora não o ama absolutamente nada.
— Como? Ela a encarregou de me dizer isso?
— Ah, não, senhor! Fui eu que, por interesse pelo senhor, resolvi preveni-lo.
— Obrigado, minha boa Ketty, mas apenas pela intenção, pois a confidência, convenhamos, não é agradável.
— Quer dizer que não acredita em mim?
— É sempre difícil acreditar em coisas assim, bela menina, nem que seja por amor-próprio.
— Então não acredita?
— Confesso que, até me dar alguma prova...
— O que diz desta?
Ketty tirou do peito um pequeno bilhete.
— Para mim? — perguntou d’Artagnan, apoderando-se rapidamente dele.
— Não, para outro.
— Para outro? O nome! O nome!
— Veja o endereço.
— Ao sr. conde de Wardes.
A cena de Saint-Germain surgiu imediatamente na memória do presunçoso gascão. Com movimento rápido como o pensamento, rasgou o envelope, apesar do grito de Ketty.
— Meu Deus, senhor cavaleiro! O que está fazendo?
— Nada — respondeu d’Artagnan.
E leu:
Não respondeu ao meu primeiro bilhete. Está doente ou terá esquecido os olhares que me lançou no baile da sra. de Guise? Eis a ocasião, conde. Não a deixe escapar.
D’Artagnan empalideceu. Estava ferido no amor-próprio e julgou-se ferido no amor.
— Pobre e caro senhor d’Artagnan — disse Ketty, cheia de compaixão, apertando-lhe a mão.
— Você tem pena de mim, minha pequena?
— De todo o coração, pois sei o que é o amor.
— Sabe o que é o amor? — perguntou d’Artagnan, olhando-a pela primeira vez com certa atenção.
— Ai de mim, sei.
— Então, em vez de ter pena, faria melhor ajudando-me a vingar-me de sua senhora.
— Que espécie de vingança deseja?
— Quero triunfar sobre ela e suplantar meu rival.
— Nunca o ajudarei nisso!
— Por quê?
— Por duas razões.
— Quais?
— A primeira é que minha senhora nunca o amou.
— Como sabe?
— O senhor a feriu no coração.
— Eu? Como poderia tê-la ferido, se desde que a conheço vivo a seus pés como escravo? Fale, eu lhe peço.
— Só confessaria isso ao homem que lesse até o fundo de minha alma.
D’Artagnan olhou Ketty pela segunda vez. A moça tinha frescor e beleza que muitas duquesas teriam comprado com a coroa.
— Ketty, lerei até o fundo de sua alma quando quiser. Que isso não nos detenha, minha cara.
E deu-lhe um beijo que tornou a pobre menina vermelha como uma cereja.
— Não! — exclamou Ketty. — O senhor não me ama. Ama minha senhora. Disse isso há pouco.
— E isso a impede de me revelar a segunda razão?
— A segunda razão — respondeu Ketty, encorajada pelo beijo e pela expressão dos olhos do jovem — é que, em amor, cada um cuida de si.
Só então d’Artagnan se lembrou dos olhares lânguidos de Ketty, dos encontros na antessala, na escada e no corredor, dos roçarem de mãos e dos suspiros abafados. Absorvido pelo desejo de agradar à grande dama, desprezara a criada. Quem caça a águia não se preocupa com o pardal.
Dessa vez, porém, viu de um golpe todas as vantagens que podia tirar do amor de Ketty: interceptar as cartas ao conde de Wardes, ter inteligência dentro da praça, entrar a qualquer hora no quarto contíguo ao da senhora. O pérfido já sacrificava em pensamento a pobre moça para obter Milady por bem ou por mal.
— Pois bem — disse —, quer que eu lhe dê uma prova do amor de que duvida?
— De que amor?
— Daquele que estou pronto a sentir por você.
— E qual é a prova?
— Quer que eu passe esta noite com você o tempo que costumo passar com sua senhora?
— Ah, sim! — disse Ketty, batendo palmas. — De muito bom grado.
— Então, bela menina, venha cá e deixe-me dizer que é a criada mais bonita que já vi.
E disse isso tão bem e tantas vezes que a pobre criança, que só desejava acreditar, acreditou. Contudo, para grande surpresa de d’Artagnan, a bonita Ketty defendia-se com certa firmeza.
O tempo passa depressa quando se gasta em ataques e defesas.
Soou meia-noite, e quase ao mesmo tempo ouviu-se a campainha no quarto de Milady.
— Meu Deus! — exclamou Ketty. — Minha senhora me chama! Vá, vá depressa!
D’Artagnan levantou-se e pegou o chapéu como se fosse obedecer. Mas, em vez de abrir a porta da escada, abriu rapidamente a de um grande armário e escondeu-se entre os vestidos e penhoares de Milady.
— O que está fazendo? — exclamou Ketty.
D’Artagnan, que antes já se apoderara da chave, fechou-se sem responder.
— Então? — gritou Milady com voz áspera. — Está dormindo para não vir quando toco?
D’Artagnan ouviu a porta de comunicação abrir-se violentamente.
— Aqui estou, Milady! — exclamou Ketty, correndo ao encontro da senhora.
As duas entraram no quarto. Como a porta ficou aberta, d’Artagnan ainda ouviu por algum tempo Milady repreender a criada. Depois ela se acalmou, e a conversa caiu sobre ele enquanto Ketty arrumava a senhora.
— Então — disse Milady — não vi nosso gascão esta noite.
— Como, senhora? Ele não veio? Será inconstante antes mesmo de ser feliz?
— Ah, não! Deve ter sido retido por M. de Tréville ou pelo sr. des Essarts. Eu conheço os homens, Ketty. Esse está em minhas mãos.
— E o que a senhora fará com ele?
— O que farei? Fique tranquila, Ketty. Há entre esse homem e mim uma coisa que ele ignora. Quase me fez perder meu crédito junto de Sua Eminência. Ah, vou me vingar!
— Eu pensava que a senhora o amasse.
— Eu, amá-lo? Eu o detesto! Um imbecil que teve a vida de Lorde de Winter nas mãos e não o matou, fazendo-me perder trezentas mil libras de renda!
— É verdade. Seu filho era o único herdeiro do tio, e até a maioridade a senhora teria o usufruto da fortuna.
D’Artagnan estremeceu até a medula ao ouvir aquela criatura suave censurá-lo, com a voz estridente que mal conseguia ocultar, por não ter matado um homem a quem ela fingia demonstrar amizade.
— Aliás — continuou Milady — eu já teria me vingado nele próprio se, não sei por quê, o cardeal não me houvesse recomendado poupá-lo.
— Sim, mas a senhora não poupou a pequena mulher que ele amava.
— Ah, a armarinheira da rua des Fossoyeurs! Ele já não esqueceu que ela existe? Bela vingança, palavra!
Um suor frio escorreu pela testa de d’Artagnan. Aquela mulher era um monstro.
A toalete terminou.
— Está bem — disse Milady. — Volte para seu quarto e amanhã trate de conseguir resposta à carta que lhe dei.
— Para o sr. de Wardes?
— Naturalmente.
— Esse me parece bem diferente do pobre sr. d’Artagnan.
— Saia, senhorita. Não gosto de comentários.
D’Artagnan ouviu a porta fechar-se e os dois ferrolhos que Milady correu. Do seu lado, o mais suavemente possível, Ketty girou a chave na fechadura. D’Artagnan então abriu o armário.
— Meu Deus! — disse Ketty em voz baixa. — O que tem? Como está pálido!
— Criatura abominável! — murmurou d’Artagnan.
— Silêncio! Saia. Há apenas uma divisória entre os quartos; ouve-se num tudo o que se diz no outro.
— É justamente por isso que não sairei.
— Como? — perguntou Ketty, corando.
— Ou pelo menos sairei mais tarde.
Atraiu Ketty para si. Já não havia meio de resistir, pois a resistência faz muito barulho. Ketty, portanto, cedeu.
Era um movimento de vingança contra Milady. D’Artagnan achou verdadeira a máxima de que a vingança é o prazer dos deuses. Se tivesse um pouco mais de coração, teria se contentado com a nova conquista; mas ele tinha apenas ambição e orgulho.
Diga-se em seu favor que o primeiro uso de sua influência sobre Ketty foi tentar descobrir o que acontecera à sra. Bonacieux. A pobre moça jurou sobre o crucifixo que nada sabia; a senhora só deixava escapar metade de seus segredos. Acreditava, porém, poder responder que Constance não estava morta.
Quanto à causa que quase fizera Milady perder o crédito junto ao cardeal, Ketty também nada sabia. Dessa vez, d’Artagnan estava mais adiantado: como vira Milady num navio interditado quando ele próprio deixava a Inglaterra, suspeitou que se tratava dos ferretes de diamantes.
O mais claro de tudo era que o ódio verdadeiro, profundo e inveterado de Milady vinha do fato de ele não ter matado o cunhado.
No dia seguinte, d’Artagnan voltou à casa de Milady. Ela estava de péssimo humor, e ele suspeitou que a falta de resposta do conde a irritava. Ketty entrou e foi recebida com dureza. Um olhar que lançou a d’Artagnan queria dizer: “Veja o que sofro por sua causa.”
No fim da noite, contudo, a bela leoa se suavizou. Escutou sorrindo as doces palavras de d’Artagnan e até lhe deu a mão para beijar.
D’Artagnan saiu sem saber o que pensar. Como não era rapaz de perder facilmente a cabeça, construíra um pequeno plano enquanto cortejava Milady.
Encontrou Ketty à porta e, como na véspera, subiu ao quarto dela para obter notícias. Ketty fora muito repreendida e acusada de negligência. Milady não compreendia o silêncio do conde de Wardes e ordenara que ela entrasse às nove da manhã para buscar uma terceira carta.
D’Artagnan fez Ketty prometer que lhe levaria essa carta na manhã seguinte. A pobre moça prometeu tudo o que o amante quis: estava louca.
As coisas se passaram como na véspera. D’Artagnan escondeu-se no armário, Milady chamou, fez a toalete, dispensou Ketty e fechou a porta. Como na véspera, d’Artagnan só voltou para casa às cinco da manhã.
Às onze, Ketty chegou. Trazia um novo bilhete de Milady. Dessa vez nem tentou disputá-lo: pertencia de corpo e alma ao belo soldado.
D’Artagnan abriu-o e leu:
É a terceira vez que lhe escrevo para dizer que o amo. Cuidado para que eu não lhe escreva uma quarta vez dizendo que o detesto.
Caso se arrependa da maneira como agiu comigo, a moça que lhe entregar este bilhete dirá de que modo um homem galante pode obter perdão.
D’Artagnan enrubesceu e empalideceu várias vezes.
— Ah, o senhor ainda a ama! — disse Ketty, que não desviara os olhos de seu rosto.
— Não, Ketty. Está enganada. Já não a amo, mas quero vingar-me de seus desprezos.
— Sim, conheço sua vingança. O senhor me contou.
— Que lhe importa? Sabe que é a única que amo.
— Como posso saber?
— Pelo desprezo que mostrarei por ela.
Ketty suspirou.
D’Artagnan pegou uma pena e escreveu:
Senhora,
Até agora duvidei que seus dois primeiros bilhetes fossem realmente dirigidos a mim, pois me julgava indigno de tamanha honra. Além disso, estive tão doente que, de qualquer modo, hesitaria em responder.
Hoje, porém, sou obrigado a acreditar no excesso de sua bondade, pois não apenas sua carta, mas também sua criada me asseguram que tenho a felicidade de ser amado pela senhora.
Ela não precisa dizer-me de que modo um homem galante obtém seu perdão. Irei, portanto, pedir o meu esta noite, às onze horas. Demorar um dia seria, agora, cometer nova ofensa.
Aquele a quem tornou o mais feliz dos homens,
Conde de Wardes
O bilhete era, antes de tudo, uma falsificação; era também uma deslealdade; do ponto de vista de nossos costumes, chegava a ser uma infâmia. Mas naquela época as pessoas se poupavam menos do que hoje. Além disso, pelas próprias confissões, d’Artagnan sabia Milady culpada de traição a chefes mais importantes e tinha por ela pouquíssima estima. Apesar disso, sentia uma paixão insensata queimá-lo. Paixão embriagada de desprezo, mas paixão ou sede, como se queira.
O plano era simples: pelo quarto de Ketty chegaria ao da senhora; aproveitaria o primeiro instante de surpresa, vergonha e terror para triunfar. Talvez fracassasse, mas era preciso dar alguma coisa ao acaso. A campanha começaria em oito dias; ele não tinha tempo para cultivar o amor perfeito.
— Tome — disse, entregando a Ketty o bilhete lacrado. — Dê esta carta a Milady. É a resposta do conde de Wardes.
Ketty ficou pálida como a morte, adivinhando o conteúdo.
D’Artagnan explicou que tudo precisava terminar de um modo ou de outro. Milady podia descobrir que o primeiro bilhete fora entregue ao criado de d’Artagnan em vez do de Wardes, e que fora ele quem abrira os demais. Então expulsaria Ketty e, conhecendo-a, não limitaria nisso sua vingança.
— Ai de mim! — disse Ketty. — Por quem me expus a tudo isso?
— Por mim, eu sei, minha bela, e sou muito grato, juro.
— Mas o que contém seu bilhete?
— Milady lhe dirá.
— O senhor não me ama! — exclamou Ketty. — Sou muito infeliz!
Há para essa censura uma resposta em que as mulheres sempre se enganam. D’Artagnan respondeu de modo a deixar Ketty no maior erro.
Ela chorou muito antes de decidir-se a entregar a carta. Por fim decidiu, e era tudo o que d’Artagnan queria.
Prometeu-lhe ainda que sairia cedo do quarto da senhora e, ao sair, subiria ao dela.
A promessa terminou de consolar a pobre Ketty.
Tradução brasileira de Os Três Mosqueteiros, romance de aventura de Alexandre Dumas sobre honra, amizade, intriga política e duelos na França do século XVII. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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