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Os Três Mosqueteiros

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Os Três Mosqueteiros

Capítulo 58 · Os Três Mosqueteiros

Capítulo LVII - Um recurso de tragédia clássica

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Capítulo LVII - Um recurso de tragédia clássica

Depois de um momento de silêncio, que Milady empregou em observar o jovem que a escutava, ela continuou a narrativa:

— Havia quase três dias que eu não bebia nem comia. Sofria torturas atrozes. Às vezes passavam por mim como que nuvens que me apertavam a fronte e velavam meus olhos. Era o delírio.

— Veio a noite. Eu estava tão fraca que a cada instante desmaiava, e, toda vez que desmaiava, agradecia a Deus, pois julgava que ia morrer.

— No meio de um desses desmaios, ouvi a porta abrir. O terror fez-me voltar a mim.

— Meu perseguidor entrou acompanhado por um homem mascarado. Ele próprio estava mascarado, mas reconheci-lhe o passo, reconheci aquele ar imponente que o inferno deu a sua pessoa para desgraça da humanidade.

— “Pois bem”, disse-me, “está decidida a prestar o juramento que lhe pedi?”

— “O senhor mesmo o disse: os puritanos só têm uma palavra. A minha, o senhor a ouviu. É persegui-lo na terra, perante o tribunal dos homens, e no céu, perante o tribunal de Deus.”

— “Então persiste?”

— “Juro-o diante deste Deus que me ouve. Tomarei o mundo inteiro por testemunha de seu crime, até encontrar um vingador.”

— “Você é uma prostituta”, disse ele com voz tonitruante, “e sofrerá o suplício das prostitutas! Marcada diante do mundo ao qual apelará, trate de provar a esse mundo que não é culpada nem louca!”

— Depois, dirigindo-se ao homem que o acompanhava:

— “Carrasco”, disse, “cumpra seu dever.”

— Oh! O nome dele, o nome! — exclamou Felton. — Diga-me o nome!

— Então, apesar de meus gritos, apesar de minha resistência, pois eu começava a compreender que se tratava de algo pior que a morte, o carrasco agarrou-me, derrubou-me no chão, esmagou-me em seus braços e, sufocada pelos soluços, quase sem sentidos, invocando Deus, que não me ouvia, lancei de repente um grito terrível de dor e de vergonha. Um ferro ardente, um ferro em brasa, o ferro do carrasco, imprimira-se em meu ombro.

Felton soltou um rugido.

— Veja — disse Milady, levantando-se então com majestade de rainha. — Veja, Felton, como inventaram um novo martírio para a jovem pura e, contudo, vítima da brutalidade de um celerado. Aprenda a conhecer o coração dos homens e, de agora em diante, torne-se com menos facilidade instrumento de suas vinganças injustas.

Com um gesto rápido, Milady abriu o vestido, rasgou a cambraia que lhe cobria o seio e, rubra de falsa cólera e vergonha fingida, mostrou ao jovem a marca indelével que desonrava aquele ombro tão belo.

— Mas — exclamou Felton —, é uma flor-de-lis que vejo aí!

— E é justamente nisso que está a infâmia — respondeu Milady. — A marca da Inglaterra! Seria preciso provar qual tribunal a impusera, e eu teria feito um apelo público a todos os tribunais do reino. Mas a marca da França... Oh! Por ela, eu estava verdadeiramente infamada.

Era demais para Felton.

Pálido, imóvel, esmagado por aquela revelação terrível, deslumbrado pela beleza sobre-humana daquela mulher que se desvelava diante dele com uma impudência que lhe pareceu sublime, acabou caindo de joelhos, como faziam os primeiros cristãos diante daquelas puras e santas mártires que a perseguição dos imperadores entregava no circo à sanguinária lubricidade das multidões. A marca desapareceu; só restou a beleza.

— Perdão! Perdão! — exclamou Felton. — Oh! Perdão!

Milady leu em seus olhos: amor, amor.

— Perdão de quê? — perguntou ela.

— De ter me unido a seus perseguidores.

Milady estendeu-lhe a mão.

— Tão bela, tão jovem! — exclamou Felton, cobrindo aquela mão de beijos.

Milady deixou cair sobre ele um daqueles olhares que de um escravo fazem um rei.

Felton era puritano. Abandonou a mão daquela mulher para beijar-lhe os pés.

Já não a amava, adorava-a.

Quando a crise passou, quando Milady pareceu recuperar o sangue-frio que nunca perdera, quando Felton viu ocultarem-se novamente sob o véu da castidade aqueles tesouros de amor que só lhe eram escondidos tão bem para que os desejasse com maior ardor, disse:

— Ah! Agora só tenho uma coisa a lhe pedir: o nome de seu verdadeiro carrasco. Pois, para mim, só existe um. O outro era o instrumento, nada mais.

— Como, irmão! — exclamou Milady. — Ainda é preciso que eu o nomeie? Não adivinhou?

— Quê! — respondeu Felton. — Ele!... Outra vez ele!... Sempre ele!... O verdadeiro culpado...

— O verdadeiro culpado — disse Milady — é o devastador da Inglaterra, o perseguidor dos verdadeiros fiéis, o covarde raptor da honra de tantas mulheres, aquele que, por um capricho de seu coração corrompido, fará dois reinos derramarem tanto sangue, que hoje protege os protestantes e amanhã os trairá...

— Buckingham! Então é Buckingham! — exclamou Felton, exasperado.

Milady escondeu o rosto nas mãos, como se não pudesse suportar a vergonha que aquele nome lhe recordava.

— Buckingham, o carrasco desta criatura angélica! — exclamou Felton. — E não o fulminaste, meu Deus! E o deixaste nobre, honrado, poderoso, para a perdição de todos nós!

— Deus abandona quem abandona a si mesmo — disse Milady.

— Então ele quer atrair sobre a cabeça o castigo reservado aos malditos! — continuou Felton, numa exaltação crescente. — Quer que a vingança humana preceda a justiça celeste!

— Os homens o temem e o poupam.

— Oh! Eu — disse Felton — não o temo e não o pouparei!...

Milady sentiu a alma banhar-se numa alegria infernal.

— Mas como Lorde de Winter, meu protetor, meu pai — perguntou Felton —, está envolvido em tudo isso?

— Escute, Felton — respondeu Milady —, pois, ao lado de homens covardes e desprezíveis, ainda existem naturezas grandes e generosas. Eu tinha um noivo, um homem que amava e que me amava. Um coração como o seu, Felton, um homem como o senhor. Fui até ele e contei-lhe tudo. Ele me conhecia e não duvidou de mim por um só instante. Era um grande senhor, homem em tudo igual a Buckingham. Nada disse. Apenas cingiu a espada, envolveu-se no manto e foi ao palácio de Buckingham.

— Sim, sim — disse Felton —, compreendo. Embora, com homens assim, não seja a espada que se deva empregar, mas o punhal.

— Buckingham partira na véspera, enviado como embaixador à Espanha, onde ia pedir a mão da infanta para o rei Carlos I, que então era apenas príncipe de Gales. Meu noivo voltou.

— “Escute”, disse-me. “Este homem partiu e, por enquanto, escapa a minha vingança. Entretanto, unamo-nos como devíamos fazer e, depois, confie em Lorde de Winter para sustentar sua honra e a de sua mulher.”

— Lorde de Winter! — exclamou Felton.

— Sim — disse Milady —, Lorde de Winter. Agora deve compreender tudo, não é? Buckingham ficou ausente por mais de um ano. Oito dias antes de sua chegada, Lorde de Winter morreu de repente, deixando-me como única herdeira. De onde veio o golpe? Deus, que tudo sabe, sem dúvida o sabe. Eu não acuso ninguém...

— Oh! Que abismo, que abismo! — exclamou Felton.

— Lorde de Winter morreu sem dizer nada ao irmão. O terrível segredo devia ficar oculto de todos até explodir como um raio sobre a cabeça do culpado. Seu protetor vira com desgosto o casamento do irmão mais velho com uma moça sem fortuna. Senti que não podia esperar apoio de um homem frustrado em suas esperanças de herança. Fui para a França, decidida a permanecer lá pelo resto da vida. Mas toda a minha fortuna está na Inglaterra. Com as comunicações fechadas pela guerra, tudo me faltou. Fui obrigada a voltar. Há seis dias desembarquei em Portsmouth.

— E então? — perguntou Felton.

— Então Buckingham sem dúvida soube de meu regresso, falou a Lorde de Winter, já prevenido contra mim, e disse-lhe que sua cunhada era uma prostituta, uma mulher marcada. A voz pura e nobre de meu marido já não estava ali para me defender. Lorde de Winter acreditou em tudo o que lhe disseram, com tanto maior facilidade porque tinha interesse em acreditar. Mandou prender-me, trouxe-me para cá e entregou-me a sua guarda. O senhor sabe o resto. Depois de amanhã ele me bane, me deporta; depois de amanhã me relega entre as infames. Oh! A trama foi bem urdida, pode acreditar! A conspiração é hábil, e minha honra não sobreviverá. Vê que preciso morrer, Felton. Felton, dê-me a faca!

E, com essas palavras, como se todas as forças lhe faltassem, Milady deixou-se cair, fraca e lânguida, nos braços do jovem oficial que, embriagado de amor, de cólera e de voluptuosidades desconhecidas, recebeu-a com arrebatamento, apertou-a contra o coração, todo trêmulo ao hálito daquela boca tão bela, inteiramente perdido ao contato daquele seio palpitante.

— Não, não — disse ele. — Não. Viverá honrada e pura. Viverá para triunfar sobre seus inimigos.

Milady afastou-o lentamente com a mão, ao mesmo tempo que o atraía com os olhos. Mas Felton, por sua vez, apoderou-se dela, implorando-lhe como a uma divindade.

— Oh! A morte, a morte! — disse ela, velando a voz e as pálpebras. — Oh! A morte antes da vergonha. Felton, meu irmão, meu amigo, eu lhe suplico!

— Não! — exclamou Felton. — Não, viverá e será vingada!

— Felton, levo a desgraça a tudo que me cerca! Felton, abandone-me! Felton, deixe-me morrer!

— Pois bem, morreremos juntos! — exclamou ele, pousando os lábios nos da prisioneira.

Vários golpes ressoaram na porta. Dessa vez, Milady realmente o repeliu.

— Escute — disse ela —, ouviram-nos, estão vindo! Acabou, estamos perdidos!

— Não — disse Felton —, é apenas a sentinela avisando que uma ronda se aproxima.

— Então corra à porta e abra o senhor mesmo.

Felton obedeceu. Aquela mulher já era todo o seu pensamento, toda a sua alma.

Encontrou-se diante de um sargento que comandava uma patrulha de vigilância.

— Então, que há? — perguntou o jovem tenente.

— O senhor me disse que abrisse a porta se ouvisse gritos de socorro — disse o soldado —, mas esqueceu de me deixar a chave. Ouvi-o gritar sem compreender o que dizia. Tentei abrir a porta, estava trancada por dentro. Então chamei o sargento.

— E aqui estou — disse o sargento.

Felton, desnorteado, quase louco, ficou sem voz.

Milady compreendeu que lhe cabia dominar a situação. Correu à mesa e pegou a faca que Felton deixara ali.

— E com que direito querem impedir-me de morrer? — perguntou.

— Grande Deus! — exclamou Felton, vendo a faca reluzir na mão dela.

Nesse momento, uma gargalhada irônica ressoou no corredor.

O barão, atraído pelo barulho, de roupão e com a espada debaixo do braço, estava de pé no limiar.

— Ah! Ah! — disse. — Eis-nos no último ato da tragédia. Está vendo, Felton? O drama atravessou todas as fases que eu havia anunciado. Mas fique tranquilo, não correrá sangue.

Milady compreendeu que estava perdida se não desse a Felton uma prova imediata e terrível de sua coragem.

— Engana-se, milorde. O sangue correrá, e possa esse sangue recair sobre aqueles que o fazem correr!

Felton soltou um grito e precipitou-se para ela. Era tarde demais: Milady se golpeara. Mas a faca encontrara, felizmente, ou deveríamos dizer habilmente, a barbatana de ferro que, naquela época, defendia como couraça o peito das mulheres. Deslizara, rasgando o vestido, e penetrara obliquamente entre a carne e as costelas.

Mesmo assim, em um segundo, o vestido de Milady ficou manchado de sangue.

Milady caiu para trás e pareceu desmaiar.

Felton arrancou a faca.

— Veja, milorde — disse ele, sombrio. — Eis uma mulher que estava sob minha guarda e que se matou!

— Fique tranquilo, Felton — disse Lorde de Winter. — Ela não morreu. Os demônios não morrem com tanta facilidade. Fique tranquilo e vá me esperar em meus aposentos.

— Mas, milorde...

— Vá, eu ordeno.

Diante da ordem de seu superior, Felton obedeceu. Mas, ao sair, guardou a faca junto ao peito.

Quanto a Lorde de Winter, limitou-se a chamar a mulher que servia Milady e, quando ela chegou, recomendou-lhe a prisioneira, ainda desmaiada, deixando-a sozinha com ela.

Entretanto, como, afinal, apesar de suas suspeitas, o ferimento podia ser grave, mandou imediatamente um homem a cavalo buscar um médico.

Os Três Mosqueteiros

Sinopse

Tradução brasileira de Os Três Mosqueteiros, romance de aventura de Alexandre Dumas sobre honra, amizade, intriga política e duelos na França do século XVII. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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