Universo da obra
Universo da obra
Os grandes criminosos trazem consigo uma espécie de predestinação que os faz superar todos os obstáculos e escapar de todos os perigos até o momento que a Providência, cansada, marcou como escolho de sua fortuna ímpia.
Assim acontecia com Milady. Atravessou os cruzadores das duas nações e chegou a Boulogne sem acidente algum.
Ao desembarcar em Portsmouth, Milady era uma inglesa que as perseguições da França expulsavam de La Rochelle. Desembarcada em Boulogne, depois de dois dias de travessia, fez-se passar por uma francesa importunada pelos ingleses em Portsmouth, por causa do ódio que haviam concebido contra a França.
Milady possuía, além disso, o mais eficaz dos passaportes: a beleza, o porte imponente e a generosidade com que espalhava pistolas. Dispensada das formalidades habituais pelo sorriso afável e pelas maneiras galantes de um velho governador do porto, que lhe beijou a mão, permaneceu em Boulogne apenas o tempo de pôr no correio uma carta redigida assim:
A Sua Eminência, monsenhor cardeal de Richelieu, em seu acampamento diante de La Rochelle.
Monsenhor, tranquilize-se Vossa Eminência: Sua Graça, o duque de Buckingham, não partirá para a França.
Boulogne, noite de 25.
Milady de **
P.S.* Conforme os desejos de Vossa Eminência, dirijo-me ao convento das Carmelitas de Béthune, onde aguardarei suas ordens.
Naquela mesma noite, Milady de fato se pôs a caminho. A noite a surpreendeu; parou e dormiu numa estalagem. No dia seguinte, às cinco horas da manhã, partiu e, três horas depois, entrou em Béthune.
Pediu que lhe indicassem o convento das Carmelitas e entrou imediatamente.
A superiora veio recebê-la. Milady mostrou-lhe a ordem do cardeal, e a abadessa mandou que lhe dessem um quarto e servissem o desjejum.
Todo o passado já se apagara aos olhos daquela mulher e, com o olhar fixo no futuro, ela só via a elevada fortuna que o cardeal lhe reservava, depois de ter sido tão felizmente servido sem que o nome dela se misturasse de forma alguma àquela sangrenta questão. As paixões sempre novas que a consumiam davam a sua vida a aparência dessas nuvens que voam no céu, refletindo ora o azul, ora o fogo, ora o negro opaco da tempestade, e que não deixam na terra outros vestígios além da devastação e da morte.
Depois do desjejum, a abadessa veio visitá-la. Há poucas distrações no claustro, e a boa superiora tinha pressa de conhecer a nova pensionista.
Milady desejava agradar à abadessa, coisa fácil para aquela mulher realmente superior. Tentou ser amável e foi encantadora, seduzindo a boa superiora com a variedade da conversa e as graças espalhadas por toda a sua pessoa.
A abadessa, filha da nobreza, gostava sobretudo das histórias da corte, que tão raramente chegam aos confins do reino e, acima de tudo, têm tanta dificuldade para atravessar os muros dos conventos, em cujo limiar vêm morrer os rumores do mundo.
Milady, ao contrário, conhecia perfeitamente todas as intrigas aristocráticas no meio das quais vivera sem cessar durante cinco ou seis anos. Pôs-se, portanto, a entreter a boa abadessa com os costumes mundanos da corte da França, misturados às devoções exageradas do rei. Fez-lhe a crônica escandalosa dos senhores e damas da corte que a abadessa conhecia perfeitamente de nome, tocou de leve nos amores da rainha e de Buckingham, falando muito para que lhe falassem um pouco.
Mas a abadessa limitou-se a ouvir e sorrir, sem responder. Contudo, como Milady percebeu que aquele gênero de narrativa a divertia muito, continuou, fazendo apenas a conversa recair sobre o cardeal.
Estava, porém, bastante embaraçada. Ignorava se a abadessa era partidária do rei ou do cardeal. Conservou-se numa prudente posição intermediária, mas a abadessa, de seu lado, manteve uma reserva ainda mais prudente, limitando-se a inclinar profundamente a cabeça toda vez que a viajante pronunciava o nome de Sua Eminência.
Milady começou a pensar que se entediaria muito no convento. Resolveu, portanto, arriscar alguma coisa para saber logo com que podia contar. Querendo ver até onde chegava a discrição da boa abadessa, começou a falar mal do cardeal, primeiro de maneira muito disfarçada, depois com muitos pormenores, contando os amores do ministro com a sra. d’Aiguillon, com Marion de Lorme e com algumas outras mulheres galantes.
A abadessa ouviu com mais atenção, animou-se pouco a pouco e sorriu.
“Ótimo”, pensou Milady. “Ela está gostando de minha conversa. Se é partidária do cardeal, ao menos não é fanática.”
Passou então às perseguições exercidas pelo cardeal contra os inimigos. A abadessa limitou-se a fazer o sinal da cruz, sem aprovar nem desaprovar.
Isso confirmou Milady na opinião de que a religiosa era antes partidária do rei que do cardeal. Milady continuou, exagerando cada vez mais.
— Sou muito ignorante nesses assuntos — disse enfim a abadessa —, mas, embora estejamos afastadas da corte e fora dos interesses do mundo, temos exemplos muito tristes do que a senhora nos conta. Uma de nossas pensionistas sofreu bastante com as vinganças e perseguições do senhor cardeal.
— Uma de suas pensionistas? — disse Milady. — Oh! Meu Deus! Pobre mulher, então eu a lastimo.
— E tem razão, pois ela é muito digna de compaixão. Prisão, ameaças, maus-tratos, sofreu tudo. Mas, afinal — continuou a abadessa —, talvez o senhor cardeal tivesse motivos plausíveis para agir assim e, embora ela pareça um anjo, nem sempre devemos julgar as pessoas pela aparência.
“Ótimo”, pensou Milady. “Quem sabe? Talvez eu descubra alguma coisa aqui. Estou com sorte.”
E aplicou-se a dar ao rosto uma expressão de candura perfeita.
— Ai de mim! — disse Milady. — Eu sei. Dizem que não se deve acreditar nas fisionomias. Mas em que acreditar, então, senão na mais bela obra do Senhor? Quanto a mim, talvez seja enganada por toda a vida, mas sempre confiarei numa pessoa cujo rosto me inspire simpatia.
— A senhora estaria, portanto, inclinada a acreditar — disse a abadessa — que essa jovem é inocente?
— O senhor cardeal não pune apenas os crimes — respondeu ela. — Há certas virtudes que ele persegue com maior severidade que certos delitos.
— Permita-me, senhora, expressar minha surpresa — disse a abadessa.
— Sobre quê? — perguntou Milady com ingenuidade.
— Sobre a linguagem que emprega.
— Que encontra de espantoso nela? — perguntou Milady, sorrindo.
— A senhora é amiga do cardeal, pois ele a envia para cá, e no entanto...
— E no entanto falo mal dele — respondeu Milady, completando o pensamento da superiora.
— Ao menos não fala bem.
— É porque não sou amiga dele — disse ela, suspirando —, mas vítima.
— E, contudo, esta carta em que ele a recomenda a mim?...
— É uma ordem para que eu permaneça numa espécie de prisão, da qual ele me fará retirar por alguns de seus agentes.
— Mas por que não fugiu?
— Para onde iria? Acredita que exista na terra algum lugar que o cardeal não possa alcançar, se quiser dar-se ao trabalho de estender a mão? Se eu fosse homem, talvez ainda fosse possível. Mas uma mulher, que quer que faça uma mulher? Esta jovem pensionista que a senhora mantém aqui tentou fugir?
— Não, é verdade. Mas com ela é diferente. Creio que algum amor a retém na França.
— Então — disse Milady, com um suspiro —, se ama, não é inteiramente infeliz.
— Assim — disse a abadessa, olhando Milady com interesse crescente —, vejo diante de mim outra pobre perseguida?
— Ai de mim, sim — disse Milady.
A abadessa observou-a por um instante com inquietação, como se um novo pensamento surgisse em seu espírito.
— A senhora não é inimiga de nossa santa fé? — perguntou, balbuciando.
— Eu! — exclamou Milady. — Eu, protestante! Oh! Não. Tomo por testemunha o Deus que nos ouve: sou, ao contrário, católica fervorosa.
— Então, senhora — disse a abadessa, sorrindo —, tranquilize-se. A casa em que está não será uma prisão muito dura, e faremos tudo o que for preciso para que aprecie seu cativeiro. Além disso, encontrará aqui essa jovem, perseguida sem dúvida por alguma intriga da corte. É amável, graciosa.
— Como se chama?
— Foi-me recomendada por alguém de posição muito elevada sob o nome de Ketty. Não procurei saber seu outro nome.
— Ketty! — exclamou Milady. — Como! Tem certeza?...
— De que se faz chamar assim? Sim, senhora. A senhora a conhece?
Milady sorriu consigo mesma e diante da ideia de que a jovem pudesse ser sua antiga criada. À lembrança daquela moça misturava-se uma recordação de cólera, e um desejo de vingança transtornou-lhe os traços, que, de resto, retomaram quase imediatamente a expressão calma e benevolente momentaneamente perdida por aquela mulher de cem rostos.
— E quando poderei ver essa jovem por quem já sinto tão grande simpatia? — perguntou Milady.
— Esta noite — disse a abadessa —, ainda hoje. Mas a senhora viaja há quatro dias, como me disse. Esta manhã levantou-se às cinco. Deve precisar de repouso. Deite-se e durma. Na hora do jantar, nós a despertaremos.
Embora Milady pudesse muito bem passar sem dormir, sustentada por todas as excitações que uma nova aventura fazia sentir a seu coração ávido de intrigas, aceitou a proposta da superiora. Nos últimos doze ou quinze dias, passara por tantas emoções diversas que, se seu corpo de ferro ainda podia suportar o cansaço, sua alma precisava de repouso.
Despediu-se, portanto, da abadessa e deitou-se, docemente embalada pelas ideias de vingança às quais o nome de Ketty a conduzira naturalmente. Lembrava-se da promessa quase ilimitada que o cardeal lhe fizera caso tivesse êxito na missão. Tivera êxito e poderia, portanto, vingar-se de d’Artagnan.
Uma única coisa apavorava Milady: a lembrança do marido, o conde de La Fère, que julgara morto ou ao menos exilado e que reencontrara em Athos, o melhor amigo de d’Artagnan.
Mas, se era amigo de d’Artagnan, devia tê-lo ajudado em todas as manobras com que a rainha frustrara os projetos de Sua Eminência. Se era amigo de d’Artagnan, era inimigo do cardeal, e sem dúvida ela conseguiria envolvê-lo na vingança em cujas voltas pretendia sufocar o jovem mosqueteiro.
Todas aquelas esperanças eram pensamentos agradáveis para Milady e, embalada por elas, logo adormeceu.
Foi despertada por uma voz suave que ressoou aos pés da cama. Abriu os olhos e viu a abadessa acompanhada de uma jovem de cabelos loiros e pele delicada, que a fitava com curiosidade benevolente.
O rosto daquela jovem era-lhe inteiramente desconhecido. Examinaram-se com escrupulosa atenção enquanto trocavam os cumprimentos de costume. Ambas eram muito belas, mas de belezas completamente diferentes. Milady, contudo, sorriu ao reconhecer que superava em muito a jovem no porte e nas maneiras aristocráticas. É verdade que o hábito de noviça usado pela jovem não era muito favorável numa disputa dessa natureza.
A abadessa apresentou-as uma à outra. Depois, cumprida a formalidade, como seus deveres a chamavam à igreja, deixou as duas jovens sozinhas.
A noviça, vendo Milady deitada, quis acompanhar a superiora, mas Milady a reteve.
— Como, senhora? — disse-lhe. — Mal a vi e já quer privar-me de sua companhia, com a qual, confesso, eu contava um pouco para o tempo que passarei aqui?
— Não, senhora — respondeu a noviça. — Apenas temi ter escolhido mal a hora. A senhora dormia, está cansada.
— Pois bem — disse Milady —, que podem pedir as pessoas que dormem? Um bom despertar. A senhora me deu esse despertar. Deixe-me aproveitá-lo à vontade.
E, tomando-lhe a mão, atraiu-a para uma cadeira próxima da cama.
A noviça sentou-se.
— Meu Deus! — disse ela. — Como sou infeliz! Há seis meses estou aqui sem a sombra de uma distração. A senhora chega, sua companhia seria encantadora para mim, e eis que, segundo todas as probabilidades, de um momento para outro deixarei o convento!
— Como! — disse Milady. — Vai sair em breve?
— Ao menos espero — disse a noviça, com uma expressão de alegria que não procurava esconder.
— Creio ter sabido que sofreu por causa do cardeal — continuou Milady. — Isso seria mais um motivo de simpatia entre nós.
— Então é verdade o que nossa boa madre me disse, que a senhora também foi vítima daquele malvado cardeal?
— Silêncio! — disse Milady. — Mesmo aqui não falemos dele assim. Todas as minhas desgraças vêm de ter dito quase o mesmo que acaba de dizer diante de uma mulher que eu julgava amiga e que me traiu. E a senhora também é vítima de uma traição?
— Não — disse a noviça —, mas de minha dedicação a uma mulher que eu amava, por quem teria dado a vida e por quem ainda a daria.
— E que a abandonou, é isso?
— Fui injusta o bastante para acreditar, mas, há dois ou três dias, obtive a prova do contrário, e agradeço a Deus. Teria me custado acreditar que ela me esquecera. Mas a senhora — continuou a noviça — parece livre, e, se quisesse fugir, bastaria decidir.
— Para onde quer que eu vá, sem amigos, sem dinheiro, numa região da França que não conheço e onde nunca estive?...
— Oh! — exclamou a noviça. — Quanto a amigos, terá em toda parte onde aparecer. Parece tão boa e é tão bela!
— Isso não impede — respondeu Milady, suavizando o sorriso para lhe dar uma expressão angélica — que eu esteja sozinha e seja perseguida.
— Escute — disse a noviça —, é preciso conservar boa esperança no Céu. Sempre chega o momento em que o bem que fizemos defende nossa causa diante de Deus. Veja, talvez seja uma felicidade para a senhora, por mais humilde e sem poder que eu seja, ter me encontrado. Pois, se eu sair daqui, terei alguns amigos poderosos que, depois de se mobilizarem por mim, também poderão se mobilizar pela senhora.
— Oh! Quando disse que estava sozinha — disse Milady, esperando fazer a noviça falar de si ao falar dela própria —, não é por falta de relações elevadas. Mas essas relações tremem diante do cardeal. A própria rainha não ousa enfrentar o terrível ministro. Tenho a prova de que Sua Majestade, apesar de seu excelente coração, foi mais de uma vez obrigada a abandonar à cólera de Sua Eminência pessoas que a haviam servido.
— Acredite, senhora, a rainha pode parecer ter abandonado essas pessoas, mas não se deve acreditar na aparência. Quanto mais são perseguidas, mais ela pensa nelas e, muitas vezes, quando menos esperam, recebem a prova de uma boa lembrança.
— Ai de mim! — disse Milady. — Acredito. A rainha é tão boa.
— Oh! Então a senhora conhece essa bela e nobre rainha, para falar dela assim! — exclamou a noviça com entusiasmo.
— Isto é — respondeu Milady, levada ao último reduto —, pessoalmente não tenho a honra de conhecê-la, mas conheço muitos de seus amigos mais íntimos. Conheço o senhor de Putange, conheci na Inglaterra o senhor Dujart, conheço M. de Tréville.
— M. de Tréville! — exclamou a noviça. — Conhece M. de Tréville?
— Sim, perfeitamente, e até muito.
— O capitão dos mosqueteiros do rei?
— O capitão dos mosqueteiros do rei.
— Oh! Mas a senhora verá — exclamou a noviça — que logo seremos íntimas, quase amigas. Se conhece M. de Tréville, deve ter ido à casa dele.
— Muitas vezes! — disse Milady, que, tendo entrado por aquele caminho e percebendo que a mentira funcionava, queria levá-la até o fim.
— Na casa dele, deve ter visto alguns de seus mosqueteiros.
— Todos os que ele recebe habitualmente! — respondeu Milady, para quem a conversa começava a ganhar interesse real.
— Diga o nome de alguns que conhece, e verá que serão meus amigos.
— Bem — disse Milady, embaraçada —, conheço o senhor de Louvigny, o senhor de Courtivron, o senhor de Férussac.
A noviça deixou-a falar. Depois, vendo que parava, perguntou:
— Não conhece um fidalgo chamado Athos?
Milady ficou tão pálida quanto os lençóis em que estava deitada e, por maior que fosse o domínio sobre si mesma, não conseguiu conter um grito, agarrando a mão da interlocutora e devorando-a com os olhos.
— Que foi? Oh! Meu Deus! — perguntou a pobre mulher. — Disse alguma coisa que a feriu?
— Não. Mas esse nome me impressionou porque também conheci esse fidalgo, e parece-me estranho encontrar alguém que o conheça bem.
— Oh! Sim! Muito, muito! Não apenas ele, mas também os amigos, os senhores Porthos e Aramis!
— De fato! Também os conheço! — exclamou Milady, sentindo o frio penetrar-lhe até o coração.
— Pois bem, se os conhece, deve saber que são bons e francos companheiros. Por que não recorre a eles, se precisa de apoio?
— Isto é — balbuciou Milady —, na verdade não tenho intimidade com nenhum deles. Conheço-os por ter ouvido falar muito a respeito por um amigo deles, o senhor d’Artagnan.
— Conhece o senhor d’Artagnan! — exclamou a noviça por sua vez, agarrando a mão de Milady e devorando-a com os olhos.
Depois, notando a estranha expressão do olhar de Milady, disse:
— Perdão, senhora. A senhora o conhece em que condição?
— Bem — respondeu Milady, embaraçada —, como amigo.
— Está me enganando, senhora — disse a noviça. — Foi amante dele.
— A senhora é que foi! — exclamou Milady por sua vez.
— Eu? — disse a noviça.
— Sim, a senhora. Agora a reconheço. É a sra. Bonacieux.
A jovem recuou, cheia de surpresa e terror.
— Oh! Não negue! Responda — continuou Milady.
— Pois bem, sim, senhora! Eu o amo — disse a noviça. — Somos rivais?
O rosto de Milady iluminou-se com um fogo tão selvagem que, em qualquer outra circunstância, a sra. Bonacieux teria fugido de pavor. Mas estava inteiramente entregue ao ciúme.
— Vamos, diga, senhora — continuou a sra. Bonacieux com uma energia da qual não se julgaria capaz —, foi ou é amante dele?
— Oh! Não! — exclamou Milady, com um tom que não permitia dúvida sobre a sinceridade. — Nunca! Nunca!
— Acredito — disse a sra. Bonacieux. — Mas por que, então, exclamou desse modo?
— Como, não compreende? — disse Milady, já refeita da perturbação e tendo recuperado todo o domínio sobre si.
— Como quer que eu compreenda? Não sei de nada.
— Não compreende que, sendo o senhor d’Artagnan meu amigo, ele me tomou por confidente?
— É verdade?
— Não compreende que sei de tudo? Seu rapto da pequena casa de Saint-Germain, o desespero dele, o dos amigos, as buscas inúteis desde aquele momento! Como quer que eu não me espante quando, sem suspeitar, encontro-me diante da senhora, da senhora de quem tantas vezes falamos juntos, da senhora que ele ama com toda a força da alma, da senhora que ele me fizera amar antes mesmo de eu a conhecer? Ah! Querida Constance, eu a encontro, eu finalmente a vejo!
E Milady estendeu os braços à sra. Bonacieux, que, convencida pelo que acabara de ouvir, já não viu naquela mulher, que um instante antes julgara rival, senão uma amiga sincera e dedicada.
— Oh! Perdoe-me! Perdoe-me! — exclamou, deixando-se cair sobre o ombro dela. — Eu o amo tanto!
As duas mulheres permaneceram abraçadas por um instante. Sem dúvida, se as forças de Milady estivessem à altura de seu ódio, a sra. Bonacieux só sairia morta daquele abraço. Mas, não podendo sufocá-la, Milady sorriu.
— Oh! Querida e bela! Querida e boa pequena! — disse Milady. — Como estou feliz em vê-la! Deixe-me olhá-la.
E, dizendo essas palavras, devorava-a de fato com os olhos.
— Sim, é mesmo a senhora. Ah! Pelo que ele me disse, reconheço-a agora, reconheço-a perfeitamente.
A pobre jovem não podia suspeitar do que se passava de terrivelmente cruel por trás da muralha daquela fronte pura, por trás daqueles olhos tão brilhantes, onde só lia interesse e compaixão.
— Então sabe o que sofri — disse a sra. Bonacieux —, pois ele lhe contou o que sofria. Mas sofrer por ele é uma felicidade.
Milady repetiu maquinalmente:
— Sim, é uma felicidade.
Pensava em outra coisa.
— E, além disso — continuou a sra. Bonacieux —, meu suplício está chegando ao fim. Amanhã, talvez esta noite, eu o verei de novo, e então o passado não existirá mais.
— Esta noite? Amanhã? — exclamou Milady, arrancada de seus pensamentos por aquelas palavras. — Que quer dizer? Espera notícias dele?
— Espero ele próprio.
— Ele próprio? D’Artagnan, aqui?
— Ele próprio.
— Mas é impossível! Está no cerco de La Rochelle com o cardeal. Só voltará a Paris depois da tomada da cidade.
— A senhora pensa assim. Mas há alguma coisa impossível para meu d’Artagnan, o nobre e leal fidalgo?
— Oh! Não consigo acreditar!
— Pois leia! — disse a infeliz jovem, no excesso do orgulho e da alegria, apresentando uma carta a Milady.
“A letra da sra. de Chevreuse!”, pensou Milady. “Ah! Eu tinha certeza de que mantinham relações por esse lado!”
E leu avidamente estas poucas linhas:
Minha querida filha, esteja pronta. Nosso amigo a verá em breve e só a verá para arrancá-la da prisão onde sua segurança exigia que permanecesse escondida. Prepare-se, portanto, para partir e nunca desespere de nós.
Nosso encantador gascão acaba de mostrar-se valente e fiel como sempre. Diga-lhe que alguém lhe é muito grato pelo aviso que deu.
— Sim, sim — disse Milady —, a carta é clara. Sabe que aviso foi esse?
— Não. Apenas suspeito que tenha prevenido a rainha de alguma nova maquinação do cardeal.
— Sim, deve ser isso! — disse Milady, devolvendo a carta à sra. Bonacieux e deixando a cabeça pensativa cair sobre o peito.
Nesse momento, ouviu-se o galope de um cavalo.
— Oh! — exclamou a sra. Bonacieux, lançando-se à janela. — Será ele já?
Milady permaneceu na cama, petrificada pela surpresa. Tantas coisas inesperadas lhe aconteciam de repente que, pela primeira vez, a cabeça lhe faltava.
— Ele! Ele! — murmurou. — Será ele?
E permaneceu na cama, com os olhos fixos.
— Ai de mim, não! — disse a sra. Bonacieux. — É um homem que não conheço e que, contudo, parece vir para cá. Sim, diminui a marcha, para diante da porta, toca a campainha.
Milady saltou da cama.
— Tem certeza de que não é ele? — perguntou.
— Oh! Sim, absoluta.
— Talvez tenha visto mal.
— Oh! Eu reconheceria a pluma de seu chapéu, a ponta do manto!
Milady continuava a se vestir.
— Não importa. Esse homem vem para cá, diz?
— Sim, entrou.
— É para a senhora ou para mim.
— Oh! Meu Deus, como parece agitada!
— Sim, confesso. Não tenho sua confiança. Temo tudo do cardeal.
— Silêncio! — disse a sra. Bonacieux. — Alguém vem.
De fato, a porta se abriu, e a superiora entrou.
— É a senhora que chegou de Boulogne? — perguntou a Milady.
— Sim, sou eu — respondeu esta, tentando recuperar o sangue-frio. — Quem me procura?
— Um homem que não quer dizer o nome, mas vem da parte do cardeal.
— E deseja falar comigo? — perguntou Milady.
— Deseja falar com uma senhora que chegou de Boulogne.
— Então mande-o entrar, senhora, por favor.
— Oh! Meu Deus, meu Deus! — disse a sra. Bonacieux. — Será alguma má notícia?
— Receio que sim.
— Deixo-a com o desconhecido, mas, assim que ele partir, se permitir, voltarei.
— Claro! Eu lhe peço.
A superiora e a sra. Bonacieux saíram.
Milady permaneceu sozinha, com os olhos fixos na porta. Um instante depois, ouviu-se o ruído de esporas nos degraus, os passos se aproximaram, a porta se abriu e um homem apareceu.
Milady soltou um grito de alegria. Aquele homem era o conde de Rochefort, a alma danada de Sua Eminência.
Tradução brasileira de Os Três Mosqueteiros, romance de aventura de Alexandre Dumas sobre honra, amizade, intriga política e duelos na França do século XVII. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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