Leia agora
Os Três Mosqueteiros

Universo da obra

Os Três Mosqueteiros

Capítulo 67 · Os Três Mosqueteiros

Capítulo LXVI - A execução

67 de 69 ≈ 8 min de leitura

Capítulo LXVI - A execução

Era cerca de meia-noite. A lua, mordida pela fase minguante e ensanguentada pelos últimos vestígios da tempestade, erguia-se atrás da pequena cidade de Armentières, que recortava contra sua luz pálida a silhueta escura das casas e o esqueleto rendilhado do alto campanário. Em frente, o Lys rolava águas semelhantes a um rio de estanho fundido, enquanto, na outra margem, via-se a massa negra das árvores delinear-se contra um céu tempestuoso invadido por grandes nuvens cor de cobre que produziam uma espécie de crepúsculo no meio da noite. À esquerda erguia-se um velho moinho abandonado, de asas imóveis, em cujas ruínas uma coruja soltava seu grito agudo, periódico e monótono. Aqui e ali na planície, à direita e à esquerda do caminho seguido pelo lúgubre cortejo, apareciam algumas árvores baixas e atarracadas, semelhantes a anões disformes agachados para espreitar os homens naquela hora sinistra.

De vez em quando, um largo relâmpago abria o horizonte em toda a extensão, serpenteava acima da massa negra das árvores e vinha, como um terrível alfanje, cortar o céu e a água em duas partes. Nenhum sopro de vento atravessava a atmosfera pesada. Um silêncio de morte esmagava toda a natureza. O chão estava úmido e escorregadio pela chuva que acabara de cair, e as ervas reanimadas exalavam o perfume com maior vigor.

Dois criados arrastavam Milady, segurando-a cada qual por um braço. O carrasco caminhava atrás, e Lorde de Winter, d’Artagnan, Athos, Porthos e Aramis vinham depois do carrasco.

Planchet e Bazin fechavam o cortejo.

Os dois criados conduziam Milady para o rio. Sua boca estava muda, mas os olhos falavam com inexprimível eloquência, suplicando alternadamente a cada um daqueles que fitava.

Como estava alguns passos à frente, disse aos criados:

— Mil pistolas para cada um, se protegerem minha fuga. Mas, se me entregarem a seus amos, tenho vingadores por perto que os farão pagar caro por minha morte.

Grimaud hesitava. Mousqueton tremia em todos os membros.

Athos, que ouvira a voz de Milady, aproximou-se rapidamente. Lorde de Winter fez o mesmo.

— Mandem esses criados embora — disse ele. — Ela falou com eles. Já não são seguros.

Chamaram Planchet e Bazin, que tomaram o lugar de Grimaud e Mousqueton.

Ao chegar à margem, o carrasco aproximou-se de Milady e amarrou-lhe os pés e as mãos.

Então ela rompeu o silêncio para gritar:

— São covardes, são miseráveis assassinos! Reúnem dez homens para degolar uma mulher. Cuidado! Se não me socorrerem, serei vingada.

— A senhora não é mulher — disse Athos friamente. — Não pertence à espécie humana. É um demônio fugido do inferno, para onde vamos devolvê-la.

— Ah! Senhores homens virtuosos! — disse Milady. — Tomem cuidado: aquele que tocar num fio de meu cabelo será, por sua vez, um assassino.

— O carrasco pode matar sem ser assassino, senhora — disse o homem do manto vermelho, batendo na grande espada. — É o último juiz, nada mais. Nachrichter, como dizem nossos vizinhos alemães.

E, enquanto a amarrava dizendo essas palavras, Milady soltou dois ou três gritos selvagens, que produziram efeito sombrio e estranho ao voarem pela noite e se perderem nas profundezas do bosque.

— Mas, se sou culpada, se cometi os crimes de que me acusam — uivava Milady —, levem-me a um tribunal! Os senhores não são juízes para me condenar.

— Eu lhe propus Tyburn — disse Lorde de Winter. — Por que não aceitou?

— Porque não quero morrer! — exclamou Milady, debatendo-se. — Porque sou jovem demais para morrer!

— A mulher que envenenou em Béthune era ainda mais jovem que a senhora e, contudo, morreu — disse d’Artagnan.

— Entrarei num claustro, farei-me religiosa — disse Milady.

— Já estava num claustro — disse o carrasco — e saiu dele para perder meu irmão.

Milady soltou um grito de terror e caiu de joelhos.

O carrasco ergueu-a pelos braços e quis carregá-la até a barca.

— Oh! Meu Deus! — exclamou ela. — Meu Deus! Vão me afogar?

Havia algo de tão dilacerante naqueles gritos que d’Artagnan, que no início fora o mais obstinado na perseguição a Milady, deixou-se cair sobre um toco, inclinou a cabeça e tapou os ouvidos com as mãos. Mesmo assim, ainda a ouvia ameaçar e gritar.

D’Artagnan era o mais jovem de todos aqueles homens. Faltou-lhe coragem.

— Oh! Não posso ver este espetáculo horrível! Não posso consentir que esta mulher morra assim!

Milady ouvira essas palavras e retomara um lampejo de esperança.

— D’Artagnan! D’Artagnan! — gritou. — Lembre-se de que eu o amei!

O jovem se levantou e deu um passo em direção a ela.

Mas Athos sacou bruscamente a espada e colocou-se no caminho.

— Se der mais um passo, d’Artagnan — disse —, cruzaremos espadas.

D’Artagnan caiu de joelhos e rezou.

— Vamos — continuou Athos. — Carrasco, cumpra seu dever.

— De boa vontade, monsenhor — disse o carrasco. — Pois, tão certo quanto sou bom católico, creio firmemente que ajo com justiça ao cumprir minha função contra esta mulher.

— Muito bem.

Athos deu um passo em direção a Milady.

— Eu lhe perdoo — disse — o mal que me fez. Perdoo-lhe meu futuro destruído, minha honra perdida, meu amor maculado e minha salvação para sempre comprometida pelo desespero em que me lançou. Morra em paz.

Lorde de Winter avançou por sua vez.

— Eu lhe perdoo — disse — o envenenamento de meu irmão, o assassinato de Sua Graça, Lorde Buckingham. Perdoo-lhe a morte do pobre Felton e as tentativas contra minha pessoa. Morra em paz.

— E eu — disse d’Artagnan — peço-lhe perdão, senhora, por ter provocado sua cólera com um embuste indigno de um fidalgo. Em troca, perdoo-lhe o assassinato de minha pobre amiga e suas cruéis vinganças contra mim. Eu lhe perdoo e choro por sua causa. Morra em paz.

I am lost! — murmurou Milady em inglês. — I must die.

Então se levantou sozinha e lançou ao redor um daqueles olhares límpidos que pareciam brotar de um olho de fogo.

Não viu nada.

Escutou e não ouviu nada.

Ao redor, só tinha inimigos.

— Onde vou morrer? — perguntou.

— Na outra margem — respondeu o carrasco.

Ele a fez entrar na barca e, quando se preparava para segui-la, Athos entregou-lhe uma soma em dinheiro.

— Tome — disse. — Eis o pagamento da execução, para que se veja claramente que agimos como juízes.

— Muito bem — disse o carrasco. — E que agora, por sua vez, esta mulher saiba que não exerço meu ofício, mas cumpro meu dever.

E lançou o dinheiro no rio.

A barca afastou-se em direção à margem esquerda do Lys, levando a culpada e o executor. Todos os outros permaneceram na margem direita, onde haviam caído de joelhos.

A barca deslizava lentamente ao longo da corda da balsa, sob o reflexo de uma nuvem pálida que naquele momento pairava sobre a água.

Viram-na chegar à outra margem. As figuras desenharam-se negras contra o horizonte avermelhado.

Durante a travessia, Milady conseguira soltar a corda que lhe prendia os pés. Ao chegar à margem, saltou levemente em terra e fugiu.

Mas o chão estava úmido. Ao chegar ao alto do barranco, escorregou e caiu de joelhos.

Sem dúvida, uma ideia supersticiosa a atingiu. Compreendeu que o Céu lhe recusava auxílio e permaneceu na posição em que estava, a cabeça inclinada e as mãos juntas.

Então, da outra margem, viram o carrasco erguer lentamente os dois braços. Um raio de lua refletiu-se na lâmina da grande espada. Os dois braços caíram. Ouviu-se o assobio do alfanje e o grito da vítima, depois uma massa decepada tombou sob o golpe.

O carrasco tirou então o manto vermelho, estendeu-o no chão, deitou nele o corpo, lançou ali a cabeça, amarrou-o pelas quatro pontas, pôs o fardo sobre o ombro e tornou a entrar na barca.

Ao chegar ao meio do Lys, deteve a embarcação e, suspendendo o fardo acima do rio, gritou em voz alta:

— Deixem passar a justiça de Deus!

E deixou cair o cadáver na parte mais profunda da água, que se fechou sobre ele.

Três dias depois, os quatro mosqueteiros voltavam a Paris. Permaneceram dentro dos limites da licença e, naquela mesma noite, fizeram a visita habitual a M. de Tréville.

— Então, senhores — perguntou-lhes o bravo capitão —, divertiram-se na excursão?

— Prodigiosamente — respondeu Athos, com os dentes cerrados.

Os Três Mosqueteiros

Sinopse

Tradução brasileira de Os Três Mosqueteiros, romance de aventura de Alexandre Dumas sobre honra, amizade, intriga política e duelos na França do século XVII. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

Os Três Mosqueteiros

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Os Três Mosqueteiros

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Os Três Mosqueteiros Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 67 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Os Três Mosqueteiros

Capa de Os Três Mosqueteiros
Continue a leitura Capítulo LXVI - A execução Capítulo 67 · 67 de 69 · ≈ 8 min
Todos os capítulos 69 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir