Universo da obra
Universo da obra
D’Artagnan ficara atordoado com a terrível confidência de Athos. Muitas coisas, contudo, ainda lhe pareciam obscuras naquela meia revelação. Em primeiro lugar, ela fora feita por um homem completamente bêbado a outro que o estava pela metade; e, apesar daquela névoa que a fumaça de duas ou três garrafas de vinho da Borgonha faz subir ao cérebro, d’Artagnan, ao despertar na manhã seguinte, tinha cada palavra de Athos tão presente no espírito como se, à medida que lhe caíam da boca, se houvessem gravado em sua memória. Toda aquela dúvida apenas lhe aumentou o desejo de alcançar a certeza, e ele foi à casa do amigo com a firme intenção de retomar a conversa da véspera. Encontrou, porém, Athos em pleno domínio da razão, isto é, o mais fino e impenetrável dos homens.
Aliás, depois de trocar com ele um aperto de mão, o mosqueteiro antecipou-se ao seu pensamento.
— Ontem eu estava muito bêbado, meu caro d’Artagnan — disse. — Percebi isso esta manhã pela língua, que ainda estava bastante grossa, e pelo pulso, ainda muito agitado. Aposto que disse mil extravagâncias.
Ao pronunciar essas palavras, olhou para o amigo com tal fixidez que o deixou embaraçado.
— De modo algum — respondeu d’Artagnan. — E, se bem me lembro, o senhor não disse nada que não fosse muito comum.
— Ah! O senhor me surpreende. Eu pensava ter-lhe contado uma história das mais lamentáveis.
E contemplava o rapaz como se quisesse ler-lhe o fundo do coração.
— Palavra! — disse d’Artagnan. — Parece que eu estava ainda mais bêbado que o senhor, pois não me lembro de nada.
Athos não se deixou convencer e prosseguiu:
— O senhor certamente já reparou, meu caro amigo, que cada qual tem seu gênero de embriaguez, triste ou alegre. A minha é triste e, quando estou alto, tenho o hábito de contar todas as histórias lúgubres que minha tola ama de leite me meteu na cabeça. É meu defeito, defeito capital, reconheço; fora isso, sou bom bebedor.
Athos dizia aquilo com tanta naturalidade que d’Artagnan sentiu sua convicção vacilar.
— Ah! Então foi isso, de fato — retomou o jovem, procurando recuperar a verdade. — É disso que me lembro, como a gente se lembra de um sonho: falamos de enforcados.
— Está vendo? — disse Athos, empalidecendo, embora tentasse rir. — Eu sabia. Os enforcados são meu pesadelo.
— Sim, sim — continuou d’Artagnan. — Agora a memória me volta. Sim, tratava-se... espere... tratava-se de uma mulher.
— Está vendo? — respondeu Athos, tornando-se quase lívido. — É minha grande história da mulher loura. Quando conto essa, é porque estou bêbado de cair.
— Sim, é isso — disse d’Artagnan. — A história da mulher loura, alta e bela, de olhos azuis.
— Sim, e enforcada.
— Pelo marido, que era um senhor de seu conhecimento — continuou d’Artagnan, fitando Athos.
— Veja só como se pode comprometer um homem quando já não se sabe o que se diz — respondeu Athos, erguendo os ombros como se tivesse pena de si mesmo. — Decididamente, não quero mais me embriagar, d’Artagnan. É um hábito ruim demais.
D’Artagnan guardou silêncio.
Então Athos mudou bruscamente de assunto:
— A propósito, agradeço o cavalo que me trouxe.
— É de seu gosto? — perguntou d’Artagnan.
— Sim, mas não era um cavalo para grandes esforços.
— O senhor se engana. Fiz com ele dez léguas em menos de hora e meia, e ele não parecia mais cansado do que se tivesse dado a volta na praça Saint-Sulpice.
— Ora, vai fazer com que eu me arrependa.
— Arrependa?
— Sim, eu me desfiz dele.
— Como assim?
— Eis o caso. Esta manhã acordei às seis horas. O senhor dormia como um surdo e eu não sabia o que fazer. Ainda estava meio embrutecido pela farra de ontem. Desci ao salão e vi um dos nossos ingleses negociando um cavalo com um tratante, pois o dele morrera ontem de uma congestão. Aproximei-me e, vendo que ele oferecia cem pistolas por um alazão tostado, disse-lhe: “Por Deus, meu cavalheiro, eu também tenho um cavalo para vender.”
“— E muito belo — disse ele. — Vi-o ontem, o criado de seu amigo o segurava pelas rédeas.”
“— Acha que vale cem pistolas?”
“— Sim. Quer cedê-lo por esse preço?”
“— Não, mas aposto o cavalo com o senhor.”
“— Aposta o cavalo?”
“— Sim.”
“— Em quê?”
“— Nos dados.”
— Dito e feito: perdi o cavalo. Ah! Mas, em compensação — continuou Athos — recuperei a gualdrapa.
D’Artagnan fez uma expressão bastante sombria.
— Isso o contraria? — perguntou Athos.
— Sim, confesso — respondeu d’Artagnan. — Aquele cavalo deveria servir para que nos reconhecessem num dia de batalha. Era um penhor, uma lembrança. Athos, o senhor agiu mal.
— Ora, meu caro amigo, ponha-se em meu lugar — replicou o mosqueteiro. — Eu morria de tédio e, palavra de honra, não gosto de cavalos ingleses. Vejamos: se se trata apenas de sermos reconhecidos por alguém, a sela bastará, pois é bastante notável. Quanto ao cavalo, encontraremos alguma desculpa para explicar seu desaparecimento. Diabo! Um cavalo é mortal. Digamos que o meu teve mormo ou farcinose.
D’Artagnan não se desanuviava.
— Contraria-me que o senhor pareça gostar tanto desses animais — continuou Athos —, pois ainda não terminei a história.
— O que mais fez?
— Depois de perder meu cavalo, nove contra dez, veja que lance, ocorreu-me apostar o seu.
— Sim, mas espero que tenha ficado apenas na ideia.
— De modo algum. Pus a ideia em prática no mesmo instante.
— Ah, essa não! — exclamou d’Artagnan, inquieto.
— Joguei e perdi.
— Meu cavalo?
— Seu cavalo. Sete contra oito. Por falta de um ponto... o senhor conhece o provérbio.
— Athos, juro que não está em seu juízo!
— Meu caro, era ontem, quando eu lhe contava minhas histórias tolas, que deveria ter dito isso, e não esta manhã. Perdi-o, portanto, com todo o equipamento e arreios possíveis.
— Mas é terrível!
— Espere, ainda não chegamos ao fim. Eu seria um excelente jogador se não me obstinasse; mas me obstino, como quando bebo. Portanto me obstinei...
— Mas o que podia apostar? Já não lhe restava nada.
— Restava, sim, meu amigo. Restava-nos este diamante que brilha em seu dedo e que reparei ontem.
— Este diamante! — exclamou d’Artagnan, levando vivamente a mão ao anel.
— E, como entendo do assunto, pois já tive alguns por minha conta, avaliei-o em mil pistolas.
— Espero — disse gravemente d’Artagnan, quase morto de medo — que não tenha mencionado meu diamante.
— Ao contrário, caro amigo. Compreenda: o diamante se tornava nosso único recurso. Com ele eu podia recuperar nossos arreios e cavalos e, além disso, o dinheiro para a viagem.
— Athos, o senhor me faz estremecer!
— Falei, portanto, de seu diamante ao meu parceiro, que também já o havia notado. Diabo, meu caro! O senhor traz no dedo uma estrela do céu e não quer que ninguém repare? Impossível!
— Termine, meu caro, termine! — disse d’Artagnan. — Palavra de honra, com essa calma o senhor me mata!
— Dividimos, pois, o diamante em dez partes de cem pistolas cada, em dez lances sem revanche. Em treze lances perdi tudo. Treze lances! O número treze sempre me foi fatal. Foi num dia treze do mês de julho que...
— Ventre de Deus! — exclamou d’Artagnan, levantando-se da mesa, pois a história do dia lhe fizera esquecer a da véspera.
— Paciência — disse Athos. — Eu tinha um plano. O inglês era um original. Eu o vira de manhã conversando com Grimaud, e Grimaud me avisara que ele lhe fizera propostas para entrar a seu serviço. Apostei Grimaud, o silencioso Grimaud, dividido em dez partes.
— Ah! Agora sim! — disse d’Artagnan, desatando a rir apesar de si mesmo.
— O próprio Grimaud, compreende? E, com as dez partes de Grimaud, que no total não vale um ducado, recuperei o diamante. Diga agora que a persistência não é uma virtude.
— Palavra, é muito engraçado! — exclamou d’Artagnan, consolado e segurando as costelas de tanto rir.
— Compreenda que, sentindo-me com sorte, recomecei imediatamente a jogar com o diamante.
— Ah, diabo! — disse d’Artagnan, tornando a se fechar.
— Recuperei seus arreios, depois seu cavalo, depois meus arreios, depois meu cavalo, e então tornei a perder. Em suma, recuperei seus arreios e depois os meus. É onde estamos. Foi um lance magnífico, e parei aí.
D’Artagnan respirou como se lhe tivessem tirado a estalagem de cima do peito.
— Enfim, o diamante ficou comigo? — perguntou timidamente.
— Intacto, caro amigo, e mais os arreios de seu Bucéfalo e do meu.
— Mas o que faremos com arreios sem cavalos?
— Tenho uma ideia a respeito deles.
— Athos, o senhor me faz estremecer.
— Escute. Faz muito tempo que o senhor não joga, d’Artagnan?
— E não tenho vontade alguma de jogar.
— Não juremos nada. Faz muito tempo que não joga, eu dizia. Sua mão deve estar boa.
— E então?
— O inglês e seu companheiro ainda estão aqui. Reparei que lamentavam muito os arreios. O senhor parece estimar seu cavalo. Em seu lugar, eu apostaria seus arreios contra seu cavalo.
— Mas ele não vai querer um único jogo de arreios.
— Aposte os dois, por Deus! Eu não sou egoísta como o senhor.
— Faria isso? — perguntou d’Artagnan, indeciso, pois a confiança de Athos começava a conquistá-lo sem que percebesse.
— Palavra de honra, num único lance.
— Mas, tendo perdido os cavalos, eu queria muito conservar os arreios.
— Aposte seu diamante, então.
— Ah, isso é outra coisa. Nunca, nunca!
— Diabo! Eu lhe proporia apostar Planchet, mas, como isso já foi feito, talvez o inglês não queira mais.
— Decididamente, meu caro Athos, prefiro não arriscar nada.
— É uma pena — disse friamente Athos. — O inglês está recheado de pistolas. Meu Deus, tente um lance. Um lance passa depressa.
— E se eu perder?
— O senhor ganhará.
— Mas se eu perder?
— Então entregará os arreios.
— Pois bem, um lance — disse d’Artagnan.
Athos foi procurar o inglês e o encontrou na estrebaria, examinando os arreios com olhos cobiçosos. A ocasião era boa. Propôs as condições: os dois jogos de arreios contra um cavalo ou cem pistolas, à escolha. O inglês calculou depressa: juntos, os dois jogos valiam trezentas pistolas. Aceitou.
D’Artagnan lançou os dados tremendo e tirou três. Sua palidez assustou Athos, que se limitou a dizer:
— Eis um lance triste, companheiro. O senhor ficará com os cavalos inteiramente arreados, cavalheiro.
O inglês, triunfante, nem se deu ao trabalho de rolar os dados. Atirou-os sobre a mesa sem olhar, tão seguro estava da vitória. D’Artagnan virou-se para esconder o mau humor.
— Ora, ora, ora — disse Athos com sua voz tranquila. — Este lance é extraordinário, e só o vi quatro vezes na vida: dois ases!
O inglês olhou e ficou pasmo. D’Artagnan olhou e foi tomado de alegria.
— Sim — continuou Athos —, apenas quatro vezes. Uma vez na casa do sr. de Créquy; outra em minha casa de campo, em meu castelo de... quando eu tinha um castelo; uma terceira vez na casa do sr. de Tréville, onde o lance surpreendeu a todos; e, por fim, uma quarta vez numa taberna, quando saiu para mim e perdi nele cem luíses e uma ceia.
— Então o cavalheiro recupera o cavalo — disse o inglês.
— Certamente — respondeu d’Artagnan.
— Então não há revanche?
— Nossas condições diziam sem revanche. Lembra-se?
— É verdade. O cavalo será devolvido ao seu criado, cavalheiro.
— Um momento — disse Athos. — Com sua licença, cavalheiro, peço para dizer uma palavra ao meu amigo.
— Diga.
Athos puxou d’Artagnan de lado.
— Pois bem — disse d’Artagnan —, o que quer ainda, tentador? Quer que eu jogue, não é?
— Não. Quero que reflita.
— Sobre o quê?
— Vai recuperar o cavalo, não é?
— Sem dúvida.
— Faz mal. Eu escolheria as cem pistolas. O senhor sabe que apostou os arreios contra o cavalo ou cem pistolas, à sua escolha.
— Sim.
— Eu escolheria as cem pistolas.
— Pois eu escolho o cavalo.
— E faz mal, repito. O que faremos com um cavalo para nós dois? Não posso montar na garupa. Pareceríamos dois dos filhos de Aymon que perderam os irmãos. O senhor não pode me humilhar cavalgando ao meu lado nesse magnífico corcel. Eu, sem hesitar um só instante, escolheria as cem pistolas. Precisamos de dinheiro para voltar a Paris.
— Gosto muito desse cavalo, Athos.
— E faz mal, meu amigo. Um cavalo se assusta, tropeça e esfolha os joelhos; um cavalo come numa manjedoura em que comeu outro com mormo. Pronto: lá se foi o cavalo, ou melhor, lá se foram cem pistolas. O dono precisa alimentar o cavalo, ao passo que cem pistolas alimentam o dono.
— Mas como voltaremos?
— Nos cavalos dos lacaios, por Deus! Pela nossa aparência, sempre se verá que somos gente de condição.
— Que bela figura faremos em pangarés, enquanto Aramis e Porthos caracoleiam em seus cavalos!
— Aramis! Porthos! — exclamou Athos, e começou a rir.
— O quê? — perguntou d’Artagnan, que nada compreendia da hilaridade do amigo.
— Nada, nada. Continuemos — disse Athos.
— Então, seu conselho...?
— É escolher as cem pistolas, d’Artagnan. Com elas festejaremos até o fim do mês. Passamos por grandes fadigas, veja, e nos fará bem descansar um pouco.
— Descansar? Ah, não, Athos! Assim que chegar a Paris, vou procurar aquela pobre mulher.
— E acredita que seu cavalo lhe será tão útil para isso quanto bons luíses de ouro? Escolha as cem pistolas, meu amigo, escolha as cem pistolas.
D’Artagnan precisava apenas de uma razão para se render. Aquela lhe pareceu excelente. Além disso, temia parecer egoísta aos olhos de Athos caso resistisse por mais tempo. Consentiu, portanto, e escolheu as cem pistolas, que o inglês contou na mesma hora.
Depois disso, só pensaram em partir. A paz assinada com o estalajadeiro, além do velho cavalo de Athos, custou seis pistolas. D’Artagnan e Athos montaram os cavalos de Planchet e Grimaud, e os dois criados seguiram a pé, levando as selas sobre a cabeça.
Por pior que estivessem montados, os dois amigos logo abriram distância dos criados e chegaram a Crèvecœur. De longe viram Aramis melancolicamente apoiado à janela, olhando, como a irmã Ana, a poeira no horizonte.
— Olá! Ei, Aramis! Que diabo faz aí? — gritaram os dois amigos.
— Ah! São vocês, d’Artagnan, Athos — disse o jovem. — Eu refletia sobre a rapidez com que se vão os bens deste mundo. Meu cavalo inglês, que se afastava e acaba de desaparecer num redemoinho de poeira, era uma imagem viva da fragilidade das coisas terrenas. A própria vida pode resumir-se em três palavras: Erat, est, fuit.
— E isso quer dizer, afinal? — perguntou d’Artagnan, que começava a suspeitar da verdade.
— Quer dizer que acabo de fazer um negócio de tolo: sessenta luíses por um cavalo que, pelo modo como corre, deve fazer cinco léguas por hora ao trote.
D’Artagnan e Athos desataram a rir.
— Meu caro d’Artagnan — disse Aramis —, não me queira demasiado mal, eu lhe peço. A necessidade não conhece lei. Além disso, sou o primeiro castigado, pois aquele infame tratante me roubou pelo menos cinquenta luíses. Ah! Vocês são bons administradores! Vieram nos cavalos de seus lacaios e mandam conduzir os cavalos de luxo pela rédea, devagar e em pequenas jornadas.
Naquele mesmo instante, um carroção que há alguns momentos surgira na estrada de Amiens parou, e dele desceram Grimaud e Planchet com as selas sobre a cabeça. O carroção voltava vazio para Paris, e os dois lacaios haviam combinado, em troca do transporte, matar a sede do carroceiro durante todo o caminho.
— O que é isso? — disse Aramis ao ver a cena. — Apenas as selas?
— Compreende agora? — perguntou Athos.
— Meus amigos, é exatamente como comigo. Conservei os arreios por instinto. Olá, Bazin! Leve meus arreios novos para junto dos destes senhores.
— E o que fez de seus padres? — perguntou d’Artagnan.
— Meu caro, convidei-os para jantar no dia seguinte — disse Aramis. — Há aqui um vinho excelente, diga-se de passagem. Embriaguei-os o melhor que pude. Então o pároco me proibiu de abandonar a casaca, e o jesuíta me pediu que o fizesse entrar para os mosqueteiros.
— Sem tese! — gritou d’Artagnan. — Sem tese! Exijo a supressão da tese!
— Desde então — continuou Aramis — vivo agradavelmente. Comecei um poema em versos de uma sílaba. É bastante difícil, mas o mérito de todas as coisas está na dificuldade. O assunto é galante. Vou ler-lhes o primeiro canto: tem quatrocentos versos e dura um minuto.
— Palavra, meu caro Aramis — disse d’Artagnan, que detestava versos quase tanto quanto latim —, acrescente ao mérito da dificuldade o da brevidade, e terá certeza de que seu poema possui pelo menos dois méritos.
— Além disso — continuou Aramis —, ele respira paixões honestas, verão. Ora, meus amigos, então voltamos a Paris? Bravo, estou pronto. Vamos rever aquele bom Porthos, tanto melhor. Não pensem que não senti falta daquele grande simplório. Não seria ele quem venderia o cavalo, nem em troca de um reino. Eu já gostaria de vê-lo em sua montaria e em sua sela. Tenho certeza de que parecerá o Grande Mogol.
Fizeram uma parada de uma hora para deixar os cavalos respirarem. Aramis acertou sua conta, acomodou Bazin no carroção com os companheiros, e todos partiram em busca de Porthos.
Encontraram-no de pé, menos pálido do que d’Artagnan o vira na primeira visita, e sentado a uma mesa onde, embora estivesse sozinho, figurava um jantar para quatro pessoas. O jantar compunha-se de carnes elegantemente arrumadas, vinhos escolhidos e frutas magníficas.
— Ah, por Deus! — disse ele ao se levantar. — Chegam maravilhosamente, senhores! Eu estava justamente na sopa e vão jantar comigo.
— Ora, ora! — fez d’Artagnan. — Não foi Mousqueton quem laçou garrafas como essas. E aqui temos um fricandó lardeado e um filé de boi...
— Estou me refazendo — disse Porthos. — Estou me refazendo. Nada enfraquece tanto como essas malditas torções. Já teve torções, Athos?
— Nunca. Só me lembro de que, em nossa escaramuça na rua Férou, recebi um golpe de espada que, ao fim de quinze ou dezoito dias, produziu exatamente o mesmo efeito.
— Mas este jantar não era apenas para você, meu caro Porthos? — perguntou Aramis.
— Não — respondeu Porthos. — Eu esperava alguns fidalgos da vizinhança, que acabam de mandar dizer que não virão. Vocês os substituirão e não perderei na troca. Olá, Mousqueton! Assentos, e dobre as garrafas!
— Sabem o que estamos comendo aqui? — perguntou Athos depois de dez minutos.
— Por Deus! — respondeu d’Artagnan. — Eu como vitela lardeada com cardos e tutano.
— E eu, filés de cordeiro — disse Porthos.
— E eu, peito de ave — disse Aramis.
— Todos estão enganados, senhores — respondeu Athos. — Estão comendo cavalo.
— Ora essa! — disse d’Artagnan.
— Cavalo! — exclamou Aramis, com uma careta de repugnância.
Apenas Porthos não respondeu.
— Sim, cavalo. Não é, Porthos, que estamos comendo cavalo? Talvez até as gualdrapas junto!
— Não, senhores, conservei os arreios — disse Porthos.
— Palavra, valemos todos a mesma coisa — disse Aramis. — Parece que combinamos.
— O que querem? — disse Porthos. — Aquele cavalo humilhava meus visitantes, e eu não quis ofendê-los.
— Além disso, sua duquesa continua nas águas, não é? — retomou d’Artagnan.
— Continua — respondeu Porthos. — Ora, palavra, o governador da província, um dos fidalgos que eu esperava para jantar hoje, pareceu desejá-lo tanto que lhe dei o animal.
— Deu! — exclamou d’Artagnan.
— Meu Deus, sim, dei! Essa é a palavra — disse Porthos. — Ele certamente valia cento e cinquenta luíses, e o avarento só quis me pagar oitenta.
— Sem a sela? — perguntou Aramis.
— Sim, sem a sela.
— Observem, senhores — disse Athos —, que ainda foi Porthos quem fez o melhor negócio entre nós.
Seguiu-se uma explosão de risos que deixou o pobre Porthos atônito; mas logo lhe explicaram o motivo da hilaridade, e ele a compartilhou ruidosamente, como era seu costume.
— De modo que todos temos dinheiro? — perguntou d’Artagnan.
— Não no que me diz respeito — disse Athos. — Achei o vinho espanhol de Aramis tão bom que mandei carregar umas sessenta garrafas no carroção dos lacaios, o que me deixou quase sem dinheiro.
— E eu — disse Aramis —, imaginem que dei até meu último vintém à igreja de Montdidier e aos jesuítas de Amiens. Além disso, assumi compromissos que precisei honrar: encomendei missas para mim e para vocês, senhores. Elas serão rezadas, e não duvido de que nos farão muito bem.
— E eu — disse Porthos —, acreditam que minha torção não me custou nada? Sem contar o ferimento de Mousqueton, pelo qual fui obrigado a mandar vir o cirurgião duas vezes por dia, e ele cobrou o dobro pelas visitas sob o pretexto de que aquele imbecil de Mousqueton se fizera atingir por uma bala num lugar que em geral só se mostra aos boticários. Recomendei-lhe, aliás, que não voltasse a se ferir lá.
— Vamos, vamos — disse Athos, trocando um sorriso com d’Artagnan e Aramis. — Vejo que se conduziu magnificamente com o pobre rapaz. Isso é coisa de bom amo.
— Em suma — continuou Porthos —, depois de pagas minhas despesas, ainda me restarão uns trinta escudos.
— E a mim, umas dez pistolas — disse Aramis.
— Vamos, vamos — disse Athos. — Parece que somos os Cresos da sociedade. Quanto lhe resta de suas cem pistolas, d’Artagnan?
— Das minhas cem? Primeiro, dei-lhe cinquenta.
— Acha?
— Por Deus!
— Ah, é verdade, lembro-me.
— Depois paguei seis ao estalajadeiro.
— Que animal esse estalajadeiro! Por que lhe deu seis pistolas?
— Foi o senhor quem me mandou dar.
— É verdade que sou bom demais. Em suma, quanto sobra?
— Vinte e cinco pistolas — disse d’Artagnan.
— E eu — disse Athos, tirando algumas moedas miúdas do bolso —, eu...
— O senhor, nada.
— Palavra, ou tão pouca coisa que não vale a pena somar ao monte.
— Agora calculemos quanto temos ao todo. Porthos?
— Trinta escudos.
— Aramis?
— Dez pistolas.
— E você, d’Artagnan?
— Vinte e cinco.
— Isso dá quanto? — perguntou Athos.
— Quatrocentas e setenta e cinco libras! — disse d’Artagnan, que calculava como Arquimedes.
— Quando chegarmos a Paris, ainda teremos quatrocentas — disse Porthos —, mais os arreios.
— Mas e nossos cavalos de esquadrão? — perguntou Aramis.
— Pois bem: dos quatro cavalos dos lacaios faremos dois de amo, que sortearemos. Com as quatrocentas libras, compraremos meio cavalo para um dos desmontados. Depois daremos a d’Artagnan as raspas de nossos bolsos, pois ele está com sorte, e ele irá jogá-las no primeiro antro de jogo que encontrar. Pronto.
— Vamos jantar — disse Porthos. — Está esfriando.
Os quatro amigos, agora mais tranquilos quanto ao futuro, fizeram honra à refeição, cujas sobras foram entregues aos senhores Mousqueton, Bazin, Planchet e Grimaud.
Ao chegar a Paris, d’Artagnan encontrou uma carta de M. de Tréville informando-o de que, a seu pedido, o rei acabava de conceder-lhe a graça de entrar para os mosqueteiros.
Como isso era tudo o que d’Artagnan ambicionava no mundo, à parte, naturalmente, o desejo de reencontrar a sra. Bonacieux, correu cheio de alegria à casa dos companheiros, de quem se separara havia meia hora. Encontrou-os muito tristes e preocupados. Estavam reunidos em conselho na casa de Athos, o que sempre indicava circunstâncias de certa gravidade.
M. de Tréville acabava de mandar avisá-los de que, sendo intenção firmíssima de Sua Majestade abrir a campanha no dia primeiro de maio, deveriam preparar imediatamente seus equipamentos.
Os quatro filósofos se entreolharam, espantados. M. de Tréville não brincava em matéria de disciplina.
— E em quanto avaliam esses equipamentos? — perguntou d’Artagnan.
— Ah, não há como fugir — respondeu Aramis. — Acabamos de fazer as contas com uma parcimônia espartana, e precisamos de mil e quinhentas libras cada um.
— Quatro vezes quinze são sessenta, portanto seis mil libras — disse Athos.
— Quanto a mim — disse d’Artagnan —, parece-me que, com mil libras para cada um... É verdade que não falo como espartano, mas como procurador...
A palavra procurador despertou Porthos.
— Ora, tenho uma ideia! — disse ele.
— Já é alguma coisa. Eu não tenho nem sombra de uma — respondeu friamente Athos. — Quanto a d’Artagnan, senhores, a felicidade de ser agora um dos nossos o deixou louco. Mil libras! Declaro que, só para mim, preciso de duas mil.
— Quatro vezes dois são oito — disse então Aramis. — Portanto precisamos de oito mil libras para os equipamentos, dos quais, é verdade, já temos as selas.
— Mais — disse Athos, esperando que d’Artagnan, que ia agradecer a M. de Tréville, fechasse a porta —, mais esse belo diamante que brilha no dedo de nosso amigo. Diabo! D’Artagnan é camarada bom demais para deixar os irmãos em apuros quando traz no dedo médio o resgate de um rei.
Tradução brasileira de Os Três Mosqueteiros, romance de aventura de Alexandre Dumas sobre honra, amizade, intriga política e duelos na França do século XVII. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.
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