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Os Três Mosqueteiros

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Os Três Mosqueteiros

Capítulo 41 · Os Três Mosqueteiros

Capítulo XL - O cardeal

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Capítulo XL - O cardeal

O cardeal apoiou o cotovelo no manuscrito, a face na mão e observou o jovem por um instante. Ninguém tinha olhar mais profundamente investigador que Richelieu, e d’Artagnan sentiu-o correr-lhe nas veias como febre.

Manteve, contudo, boa aparência, chapéu na mão, esperando a vontade de Sua Eminência sem orgulho excessivo nem demasiada humildade.

— Senhor — disse o cardeal — é um d’Artagnan do Béarn?

— Sim, monsenhor.

Richelieu observou que havia vários ramos da família em Tarbes e arredores e perguntou a qual ele pertencia.

— Sou filho daquele que fez as guerras de religião com o grande rei Henrique, pai de Sua Graciosa Majestade.

O cardeal confirmou. Sabia que partira da terra sete ou oito meses antes em busca de fortuna na capital; passara por Meung, onde lhe acontecera alguma coisa.

D’Artagnan começou a contar, mas Richelieu interrompeu com sorriso que indicava conhecer a história tão bem quanto ele. Sabia da recomendação a M. de Tréville, da carta perdida e de sua entrada na companhia do cunhado de Tréville, o sr. des Essarts, com esperança de passar aos mosqueteiros.

D’Artagnan reconheceu que Sua Eminência estava perfeitamente informado.

O cardeal prosseguiu: desde então muitas coisas lhe aconteceram. Passeara atrás dos Cartuxos num dia em que teria sido melhor estar em outro lugar; depois fizera com os amigos uma viagem às águas de Forges. Eles pararam no caminho, mas d’Artagnan continuou, porque tinha negócios na Inglaterra.

O jovem tentou explicar.

— Caça em Windsor ou em outro lugar, isso não diz respeito a ninguém — disse Richelieu. — Sei porque meu ofício é saber tudo. Ao voltar, foi recebido por uma personagem augusta, e vejo com prazer que conservou a lembrança que ela lhe deu.

D’Artagnan levou a mão ao diamante da rainha e virou o engaste para dentro, mas tarde demais.

O cardeal lembrou que no dia seguinte Cavois o visitara para pedir que fosse ao palácio. D’Artagnan não devolvera a visita e agira mal.

— Eu temia ter incorrido na desgraça de Vossa Eminência.

— Por quê? Por cumprir as ordens de seus superiores com mais inteligência e coragem que outro? Incorrer em minha desgraça quando merecia elogios? Eu castigo os que não obedecem, não os que obedecem demasiado bem. Como prova, recorde a data em que mandei chamá-lo e procure na memória o que aconteceu naquela mesma noite.

Fora a noite do rapto da sra. Bonacieux. D’Artagnan estremeceu e lembrou que meia hora antes a pobre mulher passara perto dele, sem dúvida ainda levada pelo mesmo poder que a fizera desaparecer.

Richelieu continuou: como não ouvira falar dele por algum tempo, quis saber o que fazia. Além disso, d’Artagnan lhe devia agradecimentos, pois fora poupado em todas as circunstâncias.

O jovem inclinou-se respeitosamente.

Isso vinha não apenas de sentimento natural de justiça, mas de um plano que o cardeal traçara para ele.

Richelieu queria expor o plano no primeiro convite, mas d’Artagnan não aparecera. Felizmente o atraso não destruíra nada. Indicou-lhe uma cadeira e declarou-o bom fidalgo demais para ouvir de pé.

D’Artagnan estava tão surpreso que esperou um segundo gesto antes de obedecer.

— É valente, senhor d’Artagnan — continuou Sua Eminência. — É prudente, o que vale mais. Gosto de homens de cabeça e coração. Por coração, não se assuste, entendo coragem. Mas, jovem e quase entrando no mundo, já possui inimigos poderosos. Se não tomar cuidado, eles o perderão.

— Farão isso facilmente, pois são fortes e apoiados, enquanto estou sozinho.

— É verdade. Mas, sozinho, já fez muito e fará ainda mais. Precisa, contudo, ser guiado na carreira aventureira que escolheu, pois veio a Paris com a ideia ambiciosa de fazer fortuna.

— Estou na idade das esperanças loucas, monsenhor.

— Só existem esperanças loucas para tolos, e o senhor é inteligente. O que diria de um posto de alferes em meus guardas e de uma companhia depois da campanha?

D’Artagnan exclamou, embaraçado.

O cardeal julgou que aceitava; depois percebeu a recusa.

D’Artagnan explicou que estava nos guardas de Sua Majestade e não tinha motivos de descontentamento.

Richelieu observou que seus próprios guardas também eram os do rei e que, servindo num corpo francês, servia-se o rei.

D’Artagnan disse ter sido mal compreendido.

O cardeal ofereceu-lhe o pretexto de que precisava: promoção, campanha e proteção segura. Recebera queixas graves contra ele; d’Artagnan não consagrava exclusivamente dias e noites ao serviço do rei.

O jovem enrubesceu.

Richelieu pousou a mão sobre um maço de papéis e disse possuir ali um dossiê inteiro sobre ele. Antes de lê-lo, quis conversar. Sabia que era homem de decisão e que serviços bem dirigidos, em vez de levá-lo à ruína, podiam render muito. Mandou que refletisse e escolhesse.

D’Artagnan declarou-se confundido pela bondade de Sua Eminência e pediu permissão para falar com franqueza.

Disse que todos os amigos estavam entre os mosqueteiros e guardas do rei, enquanto os inimigos, por fatalidade inconcebível, pertenciam a Sua Eminência. Seria mal recebido ali e malvisto do outro lado se aceitasse.

O cardeal perguntou, com sorriso de desdém, se ele já tinha a ideia orgulhosa de que a oferta não correspondia ao próprio valor.

D’Artagnan respondeu que Sua Eminência era cem vezes boa demais e que ele ainda não fizera o suficiente para merecer a bondade. O cerco de La Rochelle abrir-se-ia; serviria sob os olhos de Richelieu. Se tivesse a felicidade de realizar algum feito brilhante, poderia depois justificar a proteção. Tudo devia acontecer a seu tempo. Talvez mais tarde tivesse o direito de dar-se; naquele momento pareceria vender-se.

— Quer dizer que recusa servir-me — disse o cardeal, num tom de despeito em que aparecia certa estima. — Permaneça livre e guarde seus ódios e simpatias.

D’Artagnan tentou falar.

Richelieu disse que não lhe queria mal, mas um homem já tinha bastante trabalho defendendo e recompensando amigos, nada devendo aos inimigos. Ainda assim deu-lhe um conselho: deveria cuidar-se, pois, a partir do momento em que retirasse a mão de cima dele, não compraria sua vida por um óbolo.

D’Artagnan respondeu com nobre segurança que se esforçaria.

O cardeal pediu que, se lhe acontecesse uma desgraça, lembrasse que Richelieu o procurara e fizera o possível para impedir.

D’Artagnan colocou a mão no peito e declarou eterna gratidão pelo que Sua Eminência fazia naquele instante.

Richelieu concluiu que se reveriam depois da campanha. Seguiria d’Artagnan com os olhos, pois estaria lá, disse, apontando uma magnífica armadura que usaria. No retorno fariam as contas.

D’Artagnan pediu que o poupasse do fardo de sua desgraça e permanecesse neutro caso o julgasse homem honrado.

— Jovem — respondeu Richelieu —, se puder dizer-lhe outra vez mais tarde o que disse hoje, prometo fazê-lo.

A última frase exprimia dúvida terrível. Consternou d’Artagnan mais que ameaça, pois era advertência. O cardeal tentava preservá-lo de uma desgraça.

Ele abriu a boca para responder, mas Richelieu dispensou-o com gesto altivo.

Ao sair, d’Artagnan quase voltou. A figura grave e severa de Athos apareceu-lhe no espírito. Se aceitasse o pacto, Athos não lhe daria mais a mão e o renegaria.

Esse temor o conteve, tão poderosa é a influência de um caráter verdadeiramente grande sobre tudo o que o cerca.

Desceu pela mesma escada e encontrou à porta Athos e quatro mosqueteiros, que começavam a inquietar-se. Com uma palavra os tranquilizou, e Planchet correu a avisar os outros postos de que já não precisavam montar guarda, pois o amo saíra são e salvo.

Na casa de Athos, Aramis e Porthos perguntaram as razões do encontro. D’Artagnan limitou-se a contar que Richelieu o chamara para oferecer-lhe entrada em seus guardas com patente de alferes e que recusara.

— Fez bem — disseram Porthos e Aramis a uma só voz.

Athos mergulhou em profunda reflexão e nada respondeu. Quando ficou sozinho com d’Artagnan, disse:

— Fez o que devia fazer, d’Artagnan, mas talvez tenha errado.

D’Artagnan suspirou, pois aquela voz respondia a outra, secreta, que lhe dizia que grandes desgraças o esperavam.

O dia seguinte passou nos preparativos. D’Artagnan foi despedir-se de M. de Tréville. Ainda se acreditava que a separação dos guardas e mosqueteiros seria momentânea, pois o rei realizava o parlamento naquele dia e partiria no seguinte. M. de Tréville perguntou se precisava de algo, mas d’Artagnan respondeu com orgulho que possuía tudo.

À noite reuniram-se todos os camaradas da companhia des Essarts e dos mosqueteiros de M. de Tréville que tinham feito amizade. Separavam-se para reencontrar-se quando e se Deus quisesse. A noite foi ruidosa, pois, em semelhantes casos, só se combate a extrema preocupação com extrema despreocupação.

Ao primeiro som das trombetas, na manhã seguinte, os amigos se separaram. Os mosqueteiros correram ao hotel de M. de Tréville, os guardas ao de des Essarts. Cada capitão conduziu imediatamente a companhia ao Louvre, onde o rei passava revista.

O rei estava triste e parecia doente, o que diminuía algo de sua elevada aparência. Na véspera, a febre o atacara durante o parlamento, enquanto realizava a sessão solene de justiça. Ainda assim estava decidido a partir naquela noite e insistira em passar revista, esperando vencer a doença com um primeiro ato de vigor.

Terminada a revista, apenas os guardas partiram. Os mosqueteiros deveriam seguir com o rei, o que permitiu a Porthos desfilar em seu magnífico equipamento pela rua dos Ursos.

A sra. Coquenard viu-o passar no uniforme novo e sobre o belo cavalo. Amava-o demais para deixá-lo partir assim e fez sinal para que descesse.

Porthos estava magnífico: as esporas ressoavam, a couraça brilhava, a espada batia-lhe orgulhosamente nas pernas. Dessa vez os escreventes não tiveram vontade de rir, pois ele tinha aparência de cortador de orelhas.

Foi introduzido junto de mestre Coquenard, cujo pequeno olho cinzento brilhou de cólera ao ver o primo inteiramente novo. Uma coisa, porém, o consolou: dizia-se que a campanha seria dura e ele esperava secretamente que Porthos fosse morto.

O mosqueteiro apresentou cumprimentos e despedidas. Mestre Coquenard desejou-lhe prosperidade. A sra. Coquenard não continha as lágrimas, mas ninguém tirou má conclusão de sua dor, pois sabiam que era muito ligada aos parentes e por eles sempre tivera disputas cruéis com o marido.

As verdadeiras despedidas ocorreram no quarto dela e foram dilacerantes.

Enquanto pôde seguir o amante com os olhos, agitou um lenço, inclinada à janela como se fosse precipitar-se. Porthos recebeu as manifestações como homem acostumado. Apenas ao virar a esquina ergueu o chapéu e o agitou em despedida.

Aramis, por sua vez, escrevia uma longa carta. A quem? Ninguém sabia. No cômodo vizinho, Ketty, que partiria naquela noite para Tours, esperava a mensagem misteriosa.

Athos bebia em pequenos goles a última garrafa de vinho espanhol.

Enquanto isso, d’Artagnan desfilava com a companhia.

Ao chegar ao faubourg Saint-Antoine, voltou-se para olhar alegremente a Bastilha. Como olhava apenas a fortaleza, não viu Milady, montada num cavalo isabel, apontá-lo a dois homens de má aparência. Eles se aproximaram das fileiras para reconhecê-lo. A uma pergunta feita com os olhos, Milady confirmou que era ele. Depois, certa de que não haveria erro na execução das ordens, esporeou o cavalo e desapareceu.

Os dois homens seguiram a companhia e, à saída do faubourg, montaram cavalos preparados que um criado sem libré segurava à espera.

Os Três Mosqueteiros

Sinopse

Tradução brasileira de Os Três Mosqueteiros, romance de aventura de Alexandre Dumas sobre honra, amizade, intriga política e duelos na França do século XVII. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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