Leia agora
Os Três Mosqueteiros

Universo da obra

Os Três Mosqueteiros

Capítulo 64 · Os Três Mosqueteiros

Capítulo LXIII - Uma gota de água

64 de 69 ≈ 23 min de leitura

Capítulo LXIII - Uma gota de água

Mal Rochefort saiu, a sra. Bonacieux voltou. Encontrou Milady com o rosto sorridente.

— Então — disse a jovem — aconteceu o que temia? Esta noite ou amanhã o cardeal manda buscá-la?

— Quem lhe disse isso, minha filha? — perguntou Milady.

— Ouvi da própria boca do mensageiro.

— Venha sentar-se aqui perto de mim — disse Milady.

— Aqui estou.

— Espere até eu me certificar de que ninguém nos escuta.

— Por que tantas precauções?

— Vai saber.

Milady se levantou, foi até a porta, abriu-a, olhou pelo corredor e voltou a sentar-se perto da sra. Bonacieux.

— Então — disse — ele desempenhou bem o papel.

— Quem?

— O homem que se apresentou à abadessa como enviado do cardeal.

— Era, portanto, um papel que representava?

— Sim, minha filha.

— Então esse homem não é...

— Esse homem — disse Milady, baixando a voz — é meu irmão.

— Seu irmão! — exclamou a sra. Bonacieux.

— Pois bem, só a senhora conhece esse segredo, minha filha. Se o confiar a quem quer que seja no mundo, estarei perdida, e talvez a senhora também.

— Oh! Meu Deus!

— Escute. Eis o que aconteceu: meu irmão, que vinha em meu socorro para me tirar daqui à força, se fosse preciso, encontrou o emissário do cardeal que vinha me buscar. Seguiu-o. Quando chegaram a um trecho solitário e afastado da estrada, sacou a espada e intimou o mensageiro a entregar-lhe os papéis que trazia. O mensageiro quis se defender. Meu irmão o matou.

— Oh! — fez a sra. Bonacieux, estremecendo.

— Era o único meio, pense bem. Então meu irmão resolveu substituir a força pela astúcia. Tomou os papéis, apresentou-se aqui como emissário do próprio cardeal e, dentro de uma ou duas horas, uma carruagem virá buscar-me por ordem de Sua Eminência.

— Compreendo. Essa carruagem é enviada por seu irmão.

— Exatamente. Mas não é tudo. Esta carta que recebeu e que julga ser da sra. de Chevreuse...

— E então?

— É falsa.

— Como?

— Sim, falsa. É uma armadilha para que não resista quando vierem buscá-la.

— Mas é d’Artagnan que virá.

— Desengane-se. D’Artagnan e seus amigos estão retidos no cerco de La Rochelle.

— Como sabe?

— Meu irmão encontrou emissários do cardeal vestidos de mosqueteiros. Chamariam a senhora à porta; julgaria tratar-se de amigos, seria raptada e levada de volta a Paris.

— Oh! Meu Deus! Minha cabeça se perde em meio a este caos de iniquidades. Sinto que, se isto durasse — continuou a sra. Bonacieux, levando as mãos à fronte —, eu enlouqueceria!

— Espere...

— O quê?

— Ouço os passos de um cavalo. É meu irmão que parte. Quero lhe dizer um último adeus. Venha.

Milady abriu a janela e fez sinal à sra. Bonacieux para que se aproximasse. A jovem foi até lá.

Rochefort passava a galope.

— Adeus, irmão! — gritou Milady.

O cavaleiro ergueu a cabeça, viu as duas jovens e, sem diminuir a marcha, fez um gesto amistoso para Milady.

— O bom Georges! — disse ela, fechando a janela com uma expressão cheia de afeto e melancolia.

E voltou a sentar-se, como se estivesse mergulhada em reflexões inteiramente pessoais.

— Querida senhora! — disse a sra. Bonacieux. — Perdoe-me interrompê-la, mas que me aconselha a fazer? Meu Deus! Tem mais experiência que eu. Fale, eu a escuto.

— Primeiro — disse Milady —, pode ser que eu esteja enganada e que d’Artagnan e seus amigos venham realmente em seu socorro.

— Oh! Seria bom demais! — exclamou a sra. Bonacieux. — Tamanha felicidade não foi feita para mim!

— Então compreende. Seria simplesmente uma questão de tempo, uma espécie de corrida para ver quem chega primeiro. Se seus amigos forem mais rápidos, estará salva. Se forem os agentes do cardeal, estará perdida.

— Oh! Sim, sim, perdida sem misericórdia! Que fazer, então? Que fazer?

— Haveria um meio muito simples, muito natural...

— Qual? Diga.

— Esperar escondida nos arredores e assim descobrir quem são os homens que virão procurá-la.

— Mas onde esperar?

— Oh! Isso não é problema. Eu mesma vou parar e me esconder a algumas léguas daqui, aguardando meu irmão vir ao meu encontro. Pois bem, levo-a comigo. Nós nos escondemos e esperamos juntas.

— Mas não me deixarão partir. Estou aqui quase prisioneira.

— Como acreditam que parto por ordem do cardeal, não pensarão que a senhora tenha muita pressa de me acompanhar.

— E então?

— Então a carruagem estará à porta. A senhora se despede de mim, sobe no estribo para abraçar-me uma última vez. O criado de meu irmão que vem me buscar já estará avisado, fará um sinal ao postilhão e partiremos a galope.

— Mas d’Artagnan, d’Artagnan, se vier?

— Não saberemos?

— Como?

— Nada mais fácil. Mandaremos de volta a Béthune esse criado de meu irmão, em quem, como disse, podemos confiar. Ele se disfarça e se hospeda diante do convento. Se vierem emissários do cardeal, não se mexe. Se forem o senhor d’Artagnan e seus amigos, leva-os até onde estivermos.

— Então ele os conhece?

— Sem dúvida. Não viu o senhor d’Artagnan em minha casa?

— Oh! Sim, sim, tem razão. Assim tudo vai bem, tudo está resolvido. Mas não nos afastemos daqui.

— Sete ou oito léguas no máximo. Ficaremos na fronteira, por exemplo, e, ao primeiro alerta, sairemos da França.

— E até lá, que faremos?

— Esperaremos.

— Mas se chegarem?

— A carruagem de meu irmão chegará antes deles.

— E se eu estiver longe da senhora quando vierem buscá-la, durante o jantar ou a ceia, por exemplo?

— Faça uma coisa.

— Qual?

— Diga a sua boa superiora que, para nos separarmos o mínimo possível, pedirá permissão para partilhar minha refeição.

— Ela permitirá?

— Que inconveniente haveria?

— Oh! Muito bem. Assim não nos separaremos nem por um instante.

— Então desça e faça o pedido à superiora. Sinto a cabeça pesada. Vou dar uma volta no jardim.

— Vá. Onde a encontrarei?

— Aqui, dentro de uma hora.

— Aqui dentro de uma hora. Oh! A senhora é boa e eu lhe agradeço.

— Como não me interessaria pela senhora? Ainda que não fosse bela e encantadora, não é amiga de um de meus melhores amigos?

— Querido d’Artagnan! Oh! Como ele lhe agradecerá!

— Espero que sim. Vamos, tudo está combinado. Desçamos.

— Vai ao jardim?

— Sim.

— Siga este corredor. Uma pequena escada leva até lá.

— Excelente. Obrigada.

As duas mulheres separaram-se trocando um sorriso encantador.

Milady dissera a verdade: estava com a cabeça pesada, pois os projetos mal ordenados se chocavam ali como num caos. Via vagamente o futuro, mas precisava de silêncio e tranquilidade para dar às ideias ainda confusas uma forma distinta, um plano definido.

O mais urgente era retirar a sra. Bonacieux dali, pô-la em lugar seguro e, se necessário, fazer dela uma refém. Milady começava a temer o desfecho daquele duelo terrível, em que os inimigos demonstravam tanta perseverança quanto ela demonstrava obstinação.

Além disso, sentia, como se sente a aproximação de uma tempestade, que o desfecho estava próximo e não podia deixar de ser terrível.

O principal para ela, como dissemos, era manter a sra. Bonacieux em suas mãos. A sra. Bonacieux era a vida de d’Artagnan. Era mais que sua vida, era a vida da mulher que ele amava. Em caso de má fortuna, era um meio de negociar e obter condições seguras.

Ora, esse ponto estava resolvido: a sra. Bonacieux, sem desconfiança, seguiria Milady. Uma vez escondida com ela em Armentières, seria fácil fazê-la acreditar que d’Artagnan não viera a Béthune. Em no máximo quinze dias, Rochefort voltaria. Durante esses quinze dias, além disso, ela decidiria o que fazer para se vingar dos quatro amigos. Não se entediaria, graças a Deus, pois teria o mais doce passatempo que os acontecimentos podiam conceder a uma mulher de seu caráter: uma boa vingança a aperfeiçoar.

Enquanto sonhava, lançava os olhos ao redor e organizava mentalmente a topografia do jardim. Milady era como um bom general, que prevê ao mesmo tempo a vitória e a derrota e está pronto, conforme os azares da batalha, tanto a avançar quanto a bater em retirada.

Ao fim de uma hora, ouviu uma voz doce chamá-la. Era a da sra. Bonacieux. A boa abadessa consentira naturalmente em tudo e, para começar, as duas iam cear juntas.

Ao chegarem ao pátio, ouviram o ruído de uma carruagem parando diante da porta.

— Está ouvindo? — perguntou Milady.

— Sim, o rodar de uma carruagem.

— É a que meu irmão nos envia.

— Oh! Meu Deus!

— Vamos, coragem!

Tocaram a campainha da porta do convento. Milady não se enganara.

— Suba a seu quarto — disse à sra. Bonacieux. — Deve ter algumas joias que deseja levar.

— Tenho as cartas dele — disse ela.

— Pois vá buscá-las e venha encontrar-me em meu quarto. Cearemos depressa. Talvez viajemos parte da noite. É preciso reunir forças.

— Grande Deus! — disse a sra. Bonacieux, levando a mão ao peito. — Meu coração me sufoca. Não consigo andar.

— Coragem, vamos, coragem! Pense que dentro de um quarto de hora estará salva, e lembre-se de que o que vai fazer é por ele.

— Oh! Sim, tudo por ele. Devolveu-me a coragem com uma única palavra. Vá, eu a encontro.

Milady subiu rapidamente a seu quarto. Encontrou ali o lacaio de Rochefort e deu-lhe instruções.

Ele devia esperar à porta. Se, por acaso, os mosqueteiros aparecessem, a carruagem partiria a galope, contornaria o convento e iria esperar Milady numa pequena aldeia do outro lado do bosque. Nesse caso, Milady atravessaria o jardim e alcançaria a aldeia a pé. Já dissemos que Milady conhecia perfeitamente aquela parte da França.

Se os mosqueteiros não aparecessem, as coisas se passariam como combinado: a sra. Bonacieux subiria na carruagem sob o pretexto de despedir-se, e Milady a raptaria.

A sra. Bonacieux entrou e, para afastar qualquer suspeita, caso ela tivesse alguma, Milady repetiu diante dela ao lacaio toda a última parte das instruções.

Milady fez algumas perguntas sobre a carruagem. Era uma sege puxada por três cavalos e conduzida por um postilhão. O lacaio de Rochefort devia precedê-la como correio.

Milady não precisava temer que a sra. Bonacieux suspeitasse de alguma coisa. A pobre jovem era pura demais para imaginar em outra mulher tamanha perfídia. Além disso, o nome da condessa de Winter, que ouvira a abadessa pronunciar, era-lhe inteiramente desconhecido. Ignorava até que uma mulher tivesse desempenhado papel tão grande e fatal nos infortúnios de sua vida.

— Vê — disse Milady, quando o lacaio saiu —, tudo está pronto. A abadessa não suspeita de nada e pensa que vêm me buscar da parte do cardeal. Esse homem vai dar as últimas ordens. Coma alguma coisa, beba um dedo de vinho e partamos.

— Sim — disse maquinalmente a sra. Bonacieux. — Sim, partamos.

Milady fez-lhe sinal para sentar-se diante dela, serviu-lhe uma pequena taça de vinho da Espanha e ofereceu-lhe o peito de um frango.

— Veja — disse — como tudo nos favorece. A noite está chegando. Ao amanhecer teremos alcançado nosso refúgio, e ninguém poderá suspeitar onde estamos. Vamos, coragem, coma alguma coisa.

A sra. Bonacieux comeu maquinalmente alguns bocados e molhou os lábios na taça.

— Vamos, vamos — disse Milady, levando a sua aos lábios —, faça como eu.

Mas, no momento em que aproximava a taça da boca, sua mão permaneceu suspensa. Acabara de ouvir na estrada algo como o rodar distante de um galope que se aproximava. Quase ao mesmo tempo, pareceu-lhe ouvir relinchos de cavalos.

Aquele ruído arrancou-a de sua alegria como o estrondo da tempestade desperta no meio de um belo sonho. Empalideceu e correu à janela, enquanto a sra. Bonacieux, levantando-se toda trêmula, apoiava-se na cadeira para não cair.

Ainda não se via nada. Apenas se ouvia o galope aproximar-se cada vez mais.

— Oh! Meu Deus! — disse a sra. Bonacieux. — Que ruído é esse?

— O de nossos amigos ou de nossos inimigos — disse Milady, com terrível sangue-frio. — Fique onde está. Eu lhe direi.

A sra. Bonacieux permaneceu de pé, muda, imóvel e pálida como uma estátua.

O ruído aumentava. Os cavalos não deviam estar a mais de cento e cinquenta passos. Se ainda não podiam ser vistos, era porque a estrada fazia uma curva. Contudo, o som era tão nítido que se poderia contar os cavalos pelo ruído entrecortado dos cascos.

Milady olhava com toda a força da atenção. Havia luz suficiente para reconhecer quem vinha.

De repente, na curva da estrada, viu reluzirem chapéus agaloados e flutuarem plumas. Contou dois, depois cinco, depois oito cavaleiros. Um deles precedia todos os outros por dois comprimentos de cavalo.

Milady soltou um rugido abafado. No que vinha à frente reconheceu d’Artagnan.

— Oh! Meu Deus! Meu Deus! — exclamou a sra. Bonacieux. — Que aconteceu?

— É o uniforme dos guardas do senhor cardeal. Não há um instante a perder! — exclamou Milady. — Fujamos, fujamos!

— Sim, sim, fujamos — repetiu a sra. Bonacieux, sem conseguir dar um passo, como se o terror a pregasse ao lugar.

Ouviram os cavaleiros passarem sob a janela.

— Venha! Venha! — exclamava Milady, tentando arrastar a jovem pelo braço. — Graças ao jardim, ainda podemos fugir. Tenho a chave. Mas depressa, em cinco minutos será tarde demais.

A sra. Bonacieux tentou caminhar, deu dois passos e caiu de joelhos.

Milady tentou erguê-la e carregá-la, mas não conseguiu.

Nesse momento, ouviu-se o rodar da carruagem, que, ao avistar os mosqueteiros, partia a galope. Depois ressoaram três ou quatro tiros.

— Pela última vez, quer vir? — exclamou Milady.

— Oh! Meu Deus! Meu Deus! Vê que me faltam forças. Vê que não consigo andar. Fuja sozinha.

— Fugir sozinha! Deixá-la aqui! Não, não, nunca! — exclamou Milady.

De repente, um clarão lívido saltou-lhe dos olhos. Num pulo, desesperada, correu à mesa e despejou na taça da sra. Bonacieux o conteúdo do engaste de um anel que abriu com rapidez singular.

Era um grão avermelhado, que se dissolveu imediatamente.

Depois, tomando a taça com mão firme, disse:

— Beba. Este vinho lhe dará forças. Beba.

E aproximou a taça dos lábios da jovem, que bebeu maquinalmente.

— Ah! Não era assim que eu queria me vingar — disse Milady, recolocando a taça sobre a mesa com um sorriso infernal. — Mas, afinal, fazemos o que podemos.

E lançou-se para fora do aposento.

A sra. Bonacieux viu-a fugir sem conseguir segui-la. Estava como essas pessoas que sonham ser perseguidas e tentam em vão caminhar.

Passaram-se alguns minutos. Um ruído terrível ressoava à porta. A cada instante, a sra. Bonacieux esperava ver Milady reaparecer, mas ela não reaparecia.

Várias vezes, sem dúvida de terror, um suor frio subiu-lhe à fronte ardente.

Finalmente, ouviu o ranger dos portões que se abriam, o ruído de botas e esporas nos degraus. Um grande murmúrio de vozes se aproximava, e, entre elas, parecia-lhe ouvir pronunciar seu nome.

De repente, soltou um grande grito de alegria e lançou-se para a porta. Reconhecera a voz de d’Artagnan.

— D’Artagnan! D’Artagnan! — exclamou. — É você? Por aqui, por aqui!

— Constance! Constance! — respondeu o jovem. — Onde está? Meu Deus!

No mesmo instante, a porta da cela cedeu ao choque mais do que se abriu. Vários homens precipitaram-se para dentro. A sra. Bonacieux caíra numa cadeira, sem conseguir fazer um movimento.

D’Artagnan lançou ao chão uma pistola ainda fumegante que segurava e caiu de joelhos diante da amada. Athos recolocou a sua no cinto. Porthos e Aramis, que tinham as espadas nuas, tornaram a embainhá-las.

— Oh! D’Artagnan! Meu amado d’Artagnan! Então você veio, afinal. Não me enganou. É mesmo você!

— Sim, sim, Constance! Reunidos!

— Oh! Ela dizia em vão que você não viria. No fundo, eu esperava. Não quis fugir. Oh! Como fiz bem! Como sou feliz!

Diante daquela palavra, ela, Athos, que se sentara tranquilamente, levantou-se de súbito.

Ela! Quem, ela? — perguntou d’Artagnan.

— Minha companheira. A que, por amizade, queria me subtrair a meus perseguidores. A que, tomando-os por guardas do cardeal, acaba de fugir.

— Sua companheira! — exclamou d’Artagnan, ficando mais pálido que o véu branco da amada. — De que companheira fala?

— Daquela cuja carruagem estava à porta, de uma mulher que se diz sua amiga, d’Artagnan, uma mulher a quem contou tudo.

— O nome! O nome! — exclamou d’Artagnan. — Meu Deus! Não sabe o nome dela?

— Sei, sim. Pronunciaram-no diante de mim. Espere... Mas é estranho... Oh! Meu Deus! Minha cabeça se perturba, já não vejo.

— Socorro, meus amigos, socorro! As mãos dela estão geladas! — exclamou d’Artagnan. — Está passando mal. Grande Deus! Está perdendo os sentidos!

Enquanto Porthos chamava por socorro com toda a força da voz, Aramis correu à mesa para pegar um copo de água, mas parou ao ver a horrível alteração no rosto de Athos, que, de pé diante da mesa, os cabelos eriçados, os olhos gelados de espanto, fitava uma das taças e parecia entregue à mais terrível dúvida.

— Oh! — dizia Athos. — Oh! Não, é impossível! Deus não permitiria semelhante crime.

— Água, água! — gritava d’Artagnan. — Água!

— Pobre mulher, pobre mulher! — murmurava Athos com voz quebrada.

A sra. Bonacieux tornou a abrir os olhos sob os beijos de d’Artagnan.

— Está voltando a si! — exclamou o jovem. — Oh! Meu Deus, meu Deus, eu te agradeço!

— Senhora — disse Athos —, senhora, em nome do Céu, de quem é esta taça vazia?

— Minha, senhor... — respondeu a jovem com voz agonizante.

— Mas quem lhe serviu o vinho que estava nesta taça?

Ela.

— Mas quem é ela?

— Ah! Lembro-me — disse a sra. Bonacieux. — A condessa de Winter...

Os quatro amigos soltaram um único grito, mas o de Athos dominou todos os outros.

Naquele momento, o rosto da sra. Bonacieux ficou lívido. Uma dor surda a derrubou, e ela caiu ofegante nos braços de Porthos e Aramis.

D’Artagnan agarrou as mãos de Athos com uma angústia difícil de descrever.

— Então — disse — você acredita...

Sua voz morreu num soluço.

— Acredito em tudo — disse Athos, mordendo os lábios até sangrar.

— D’Artagnan, d’Artagnan! — exclamou a sra. Bonacieux. — Onde está? Não me deixe. Vê que vou morrer.

D’Artagnan soltou as mãos de Athos, que ainda apertava entre as suas, e correu até ela.

Seu rosto tão belo estava inteiramente transtornado. Os olhos vítreos já não tinham olhar, um tremor convulsivo agitava-lhe o corpo, o suor corria pela fronte.

— Em nome do Céu! Corram chamar Porthos, Aramis. Peçam socorro!

— Inútil — disse Athos. — Inútil. Para o veneno que ela derrama não há antídoto.

— Sim, sim, socorro, socorro! — murmurou a sra. Bonacieux. — Socorro!

Depois, reunindo todas as forças, tomou a cabeça do jovem entre as duas mãos, fitou-o por um instante como se toda a sua alma tivesse passado para o olhar e, com um grito soluçante, pousou os lábios nos dele.

— Constance! Constance! — exclamou d’Artagnan.

Um suspiro escapou da boca da sra. Bonacieux, roçando a de d’Artagnan. Aquele suspiro era sua alma tão casta e amorosa subindo ao céu.

D’Artagnan já não apertava nos braços senão um cadáver.

O jovem soltou um grito e caiu junto da amada, tão pálido e gelado quanto ela.

Porthos chorou. Aramis mostrou o punho ao céu. Athos fez o sinal da cruz.

Naquele momento, um homem apareceu à porta, quase tão pálido quanto os que estavam no quarto. Olhou ao redor, viu a sra. Bonacieux morta e d’Artagnan desmaiado.

Apareceu justamente naquele instante de estupor que segue as grandes catástrofes.

— Eu não estava enganado — disse. — Eis o senhor d’Artagnan, e os senhores são seus três amigos, Athos, Porthos e Aramis.

Aqueles cujos nomes acabavam de ser pronunciados olharam o desconhecido com espanto. Aos três parecia reconhecê-lo.

— Senhores — continuou o recém-chegado —, já que não querem reconhecer um homem que provavelmente lhes deve duas vezes a vida, é preciso que eu me apresente. Sou Lorde de Winter, cunhado dessa mulher.

Os três amigos soltaram um grito de surpresa.

Athos levantou-se e estendeu-lhe a mão.

— Seja bem-vindo, milorde — disse. — É dos nossos.

— Parti de Portsmouth cinco horas depois dela — disse Lorde de Winter. — Cheguei a Boulogne três horas depois, perdi-a por vinte minutos em Saint-Omer e, finalmente, em Lillers, perdi-lhe o rastro. Seguia ao acaso, perguntando a todos, quando os vi passar a galope. Reconheci o senhor d’Artagnan. Chamei-os, mas não responderam. Quis segui-los, mas meu cavalo estava cansado demais para acompanhar os seus. E, contudo, parece que, apesar da pressa, ainda chegaram tarde demais.

— Está vendo — disse Athos, mostrando a Lorde de Winter a sra. Bonacieux morta e d’Artagnan, que Porthos e Aramis tentavam reanimar.

— Estão ambos mortos? — perguntou friamente Lorde de Winter.

— Não, felizmente — respondeu Athos. — O senhor d’Artagnan apenas desmaiou.

— Ah! Tanto melhor! — disse Lorde de Winter.

De fato, naquele instante, d’Artagnan abriu os olhos.

Arrancou-se dos braços de Porthos e Aramis e lançou-se como louco sobre o corpo da amada.

Athos se levantou, caminhou até o amigo com passo lento e solene, abraçou-o ternamente e, quando ele desatou em soluços, disse-lhe com aquela voz tão nobre e persuasiva:

— Amigo, seja homem. As mulheres choram os mortos; os homens os vingam.

— Oh! Sim — disse d’Artagnan. — Sim! Se é para vingá-la, estou pronto a seguir você!

Athos aproveitou aquele momento de força que a esperança da vingança devolvia ao infeliz amigo para fazer sinal a Porthos e Aramis de que fossem buscar a superiora.

Os dois amigos encontraram-na no corredor, ainda perturbada e desnorteada por tantos acontecimentos. Ela chamou algumas religiosas que, contrariando todos os hábitos monásticos, viram-se na presença de cinco homens.

— Senhora — disse Athos, passando o braço de d’Artagnan sob o seu —, confiamos a seus piedosos cuidados o corpo desta infeliz. Foi um anjo na terra antes de ser um anjo no céu. Trate-a como uma de suas irmãs. Um dia voltaremos para rezar sobre seu túmulo.

D’Artagnan escondeu o rosto no peito de Athos e desatou em soluços.

— Chore — disse Athos. — Chore, coração cheio de amor, de juventude e de vida! Ai de mim! Eu gostaria de poder chorar como você!

E levou o amigo, afetuoso como um pai, consolador como um padre, grandioso como um homem que sofreu muito.

Os cinco, seguidos pelos criados, que levavam os cavalos pelas rédeas, avançaram para a cidade de Béthune, cujo subúrbio se avistava, e pararam diante da primeira estalagem que encontraram.

— Mas — disse d’Artagnan — não vamos perseguir essa mulher?

— Mais tarde — disse Athos. — Tenho providências a tomar.

— Ela escapará — respondeu o jovem. — Escapará, Athos, e a culpa será sua.

— Eu respondo por ela — disse Athos.

D’Artagnan tinha tamanha confiança na palavra do amigo que baixou a cabeça e entrou na estalagem sem responder.

Porthos e Aramis olharam um para o outro, sem compreender a segurança de Athos.

Lorde de Winter julgou que ele falava assim para adormecer a dor de d’Artagnan.

— Agora, senhores — disse Athos, depois de se certificar de que havia cinco quartos livres na estalagem —, recolha-se cada qual ao seu. D’Artagnan precisa ficar sozinho para chorar, e vocês para dormir. Eu me encarrego de tudo. Fiquem tranquilos.

— Parece-me, contudo — disse Lorde de Winter —, que, se há alguma providência a tomar contra a condessa, isso me diz respeito. É minha cunhada.

— E, para mim — disse Athos —, é minha mulher.

D’Artagnan estremeceu, pois compreendeu que Athos estava certo da vingança, já que revelava semelhante segredo. Porthos e Aramis olharam um para o outro, empalidecendo. Lorde de Winter pensou que Athos estivesse louco.

— Recolham-se, portanto — disse Athos — e deixem-me agir. Veem que, na qualidade de marido, isso me diz respeito. Apenas, d’Artagnan, se não o perdeu, entregue-me o papel que escapou do chapéu daquele homem e no qual está escrito o nome da cidade...

— Ah! — disse d’Artagnan. — Compreendo. Esse nome escrito pela mão dela...

— Está vendo — disse Athos — que há um Deus no céu!

Os Três Mosqueteiros

Sinopse

Tradução brasileira de Os Três Mosqueteiros, romance de aventura de Alexandre Dumas sobre honra, amizade, intriga política e duelos na França do século XVII. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

Os Três Mosqueteiros

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Os Três Mosqueteiros

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Os Três Mosqueteiros Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 64 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Os Três Mosqueteiros

Capa de Os Três Mosqueteiros
Continue a leitura Capítulo LXIII - Uma gota de água Capítulo 64 · 64 de 69 · ≈ 23 min
Todos os capítulos 69 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir