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Os Três Mosqueteiros

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Os Três Mosqueteiros

Capítulo 18 · Os Três Mosqueteiros

Capítulo XVII — O casal Bonacieux

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Capítulo XVII — O casal Bonacieux

Era a segunda vez que o cardeal voltava ao assunto dos ferretes de diamantes com o rei. Luís XIII ficou impressionado com essa insistência e pensou que a recomendação escondia algum mistério.

Mais de uma vez o rei fora humilhado por saber que o cardeal, cuja polícia, embora ainda não tivesse atingido a perfeição da polícia moderna, era excelente, estava mais bem informado que ele próprio sobre o que se passava em sua própria casa. Esperou, portanto, numa conversa com Ana d’Áustria, obter alguma luz e depois voltar à presença de Sua Eminência com algum segredo que o cardeal conhecesse ou não, o que, num caso ou no outro, o elevaria infinitamente aos olhos do ministro.

Foi, pois, encontrar a rainha e, segundo o hábito, abordou-a com novas ameaças contra os que a cercavam. Ana d’Áustria baixou a cabeça, deixou passar a torrente sem responder, esperando que acabasse por se deter. Mas não era isso que Luís XIII queria. Luís XIII queria uma discussão da qual brotasse alguma luz, convencido de que o cardeal tinha alguma segunda intenção e lhe preparava uma surpresa terrível, como Sua Eminência sabia fazer. Chegou a esse objetivo pela persistência em acusar.

— Mas — exclamou Ana d’Áustria, cansada daqueles ataques vagos —, mas, Sire, não me dizeis tudo o que tendes no coração. O que fiz? Vejamos, que crime cometi? É impossível que Vossa Majestade faça todo esse barulho por uma carta escrita a meu irmão.

O rei, atacado por sua vez de maneira tão direta, não soube o que responder. Pensou que era o momento de colocar a recomendação que só deveria fazer na véspera da festa.

— Senhora — disse com majestade —, haverá em breve um baile no Paço Municipal. Quero que, para honrar nossos bravos vereadores, apareçais em traje de cerimônia e, sobretudo, adornada com os ferretes de diamantes que vos dei em vossa festa. Eis minha resposta.

A resposta era terrível. Ana d’Áustria acreditou que Luís XIII sabia tudo e que o cardeal obtivera dele aquela longa dissimulação de sete ou oito dias, que, de resto, estava em seu caráter. Ficou excessivamente pálida, apoiou numa consola a mão de admirável beleza, que então parecia uma mão de cera, e, olhando o rei com os olhos apavorados, não respondeu uma única sílaba.

— Ouvistes, senhora? — disse o rei, que desfrutava daquele embaraço em toda a sua extensão, mas sem adivinhar-lhe a causa. — Ouvistes?

— Sim, Sire, ouvi — balbuciou a rainha.

— Comparecereis ao baile?

— Sim.

— Com os ferretes?

— Sim.

A palidez da rainha aumentou ainda mais, se era possível. O rei percebeu e gozou disso com aquela fria crueldade que era um dos maus lados de seu caráter.

— Então está combinado — disse o rei —, e era tudo o que tinha a vos dizer.

— Mas em que dia será o baile? — perguntou Ana d’Áustria.

Luís XIII sentiu instintivamente que não devia responder à pergunta, feita pela rainha com voz quase moribunda.

— Muito em breve, senhora — disse. — Mas não me lembro precisamente da data. Perguntarei ao cardeal.

— Então foi o cardeal quem vos anunciou essa festa? — exclamou a rainha.

— Sim, senhora — respondeu o rei, espantado. — Mas por quê?

— Foi ele quem vos disse para me convidar a comparecer com esses ferretes?

— Isto é, senhora...

— Foi ele, Sire, foi ele!

— Pois bem, que importa que tenha sido ele ou eu? Há algum crime nesse convite?

— Não, Sire.

— Então comparecereis?

— Sim, Sire.

— Está bem — disse o rei, retirando-se. — Conto com isso.

A rainha fez uma reverência, menos por etiqueta que porque os joelhos lhe cediam.

O rei saiu encantado.

— Estou perdida — murmurou a rainha. — Perdida, pois o cardeal sabe tudo, e é ele quem empurra o rei, que ainda nada sabe, mas logo saberá tudo. Estou perdida! Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!

Ajoelhou-se numa almofada e rezou, com a cabeça escondida entre os braços palpitantes.

De fato, a situação era terrível. Buckingham voltara a Londres, a sra. de Chevreuse estava em Tours. Mais vigiada que nunca, a rainha sentia surdamente que uma de suas damas a traía, sem saber dizer qual. La Porte não podia deixar o Louvre. Ela não tinha uma alma no mundo em quem confiar.

Assim, diante da desgraça que a ameaçava e do abandono em que se encontrava, rompeu em soluços.

— Então não posso servir para nada a Vossa Majestade? — disse de repente uma voz cheia de doçura e piedade.

A rainha voltou-se vivamente, pois não havia como enganar-se com a expressão daquela voz. Era uma amiga que falava assim.

Com efeito, numa das portas que davam para os aposentos da rainha apareceu a bonita sra. Bonacieux. Estava ocupada em arrumar vestidos e roupas num gabinete quando o rei entrara. Não pudera sair e ouvira tudo.

A rainha soltou um grito agudo ao se ver surpreendida, pois, em sua perturbação, não reconheceu de imediato a jovem que lhe fora dada por La Porte.

— Oh! Não temais nada, senhora — disse a jovem, juntando as mãos e chorando ela mesma com as angústias da rainha. — Sou de Vossa Majestade de corpo e alma e, por mais distante que esteja dela, por mais inferior que seja minha posição, creio ter encontrado um meio de tirar Vossa Majestade da aflição.

— Tu! Ó Céus! Tu! — exclamou a rainha. — Mas vamos, olha-me de frente. Sou traída por todos os lados. Posso confiar em ti?

— Oh, senhora! — exclamou a jovem, caindo de joelhos. — Por minha alma, estou pronta a morrer por Vossa Majestade!

Esse grito saíra do fundo do coração e, como no primeiro, não havia como se enganar.

— Sim — continuou a sra. Bonacieux —, sim, há traidores aqui. Mas, pelo santo nome da Virgem, juro-vos que ninguém é mais devotado que eu a Vossa Majestade. Esses ferretes que o rei reclama, vós os destes ao duque de Buckingham, não foi? Esses ferretes estavam fechados numa pequena caixa de pau-rosa que ele levava debaixo do braço? Engano-me? Não foi isso?

— Oh, meu Deus! Meu Deus! — murmurou a rainha, cujos dentes batiam de pavor.

— Pois bem, esses ferretes — continuou a sra. Bonacieux —, é preciso recuperá-los.

— Sim, sem dúvida, é preciso! — exclamou a rainha. — Mas como fazer? Como conseguir?

— É preciso enviar alguém ao duque.

— Mas quem? Quem? Em quem confiar?

— Confiai em mim, senhora. Fazei-me essa honra, minha rainha, e encontrarei o mensageiro.

— Mas será preciso escrever!

— Oh, sim. É indispensável. Duas palavras pela mão de Vossa Majestade e vosso selo particular.

— Mas essas duas palavras são minha condenação. São o divórcio, o exílio!

— Sim, se caírem em mãos infames. Mas respondo que essas duas palavras serão entregues ao destinatário.

— Oh, meu Deus! Então preciso entregar minha vida, minha honra, minha reputação em tuas mãos!

— Sim, sim, senhora, é preciso, e eu salvarei tudo isso!

— Mas como? Dize-me ao menos.

— Meu marido foi posto em liberdade há dois ou três dias. Ainda não tive tempo de revê-lo. É um homem bom e honesto que não tem ódio nem amor por ninguém. Fará o que eu quiser. Partirá por uma ordem minha, sem saber o que leva, e entregará a carta de Vossa Majestade, sem sequer saber que é de Vossa Majestade, no endereço que ela indicar.

A rainha pegou as duas mãos da jovem com um impulso apaixonado, olhou-a como para ler no fundo do coração e, vendo apenas sinceridade em seus belos olhos, beijou-a ternamente.

— Faz isso! — exclamou. — E terás salvado minha vida, terás salvado minha honra!

— Oh! Não exagereis o serviço que tenho a felicidade de vos prestar. Nada tenho a salvar em Vossa Majestade, que é apenas vítima de pérfidas conspirações.

— É verdade, é verdade, minha filha — disse a rainha. — Tens razão.

— Dai-me, então, a carta, senhora. O tempo urge.

A rainha correu a uma pequena mesa sobre a qual havia tinta, papel e penas. Escreveu duas linhas, selou a carta com seu selo e entregou-a à sra. Bonacieux.

— E agora — disse a rainha — esquecemos uma coisa necessária.

— Qual?

— O dinheiro.

A sra. Bonacieux enrubesceu.

— Sim, é verdade — disse —, e confessarei a Vossa Majestade que meu marido...

— Teu marido não tem, é isso que queres dizer.

— Tem, sim, mas é muito avarento. Esse é seu defeito. Contudo, Vossa Majestade não se inquiete, encontraremos um meio...

— É que eu também não tenho — disse a rainha, e os que lerem as Memórias da sra. de Motteville não se surpreenderão com essa resposta. — Mas espera.

Ana d’Áustria correu ao cofre de joias.

— Toma — disse —, aqui está um anel de grande valor, segundo dizem. Veio de meu irmão, o rei da Espanha. É meu e posso dispor dele. Pega esse anel, transforma-o em dinheiro e que teu marido parta.

— Dentro de uma hora sereis obedecida.

— Vês o endereço — acrescentou a rainha, falando tão baixo que mal se podia ouvir. — Ao milorde duque de Buckingham, em Londres.

— A carta será entregue a ele pessoalmente.

— Generosa menina! — exclamou Ana d’Áustria.

A sra. Bonacieux beijou as mãos da rainha, escondeu o papel no corpete e desapareceu com a leveza de um pássaro.

Dez minutos depois, estava em casa. Como dissera à rainha, não revira o marido desde sua libertação. Ignorava, portanto, a mudança que se operara nele a respeito do cardeal, mudança provocada pelas lisonjas e pelo dinheiro de Sua Eminência e corroborada, depois, por duas ou três visitas do conde de Rochefort, que se tornara o melhor amigo de Bonacieux e lhe fizera acreditar, sem grande dificuldade, que nenhum sentimento culpado causara o rapto da esposa, mas que se tratara apenas de uma precaução política.

Encontrou o sr. Bonacieux sozinho. O pobre homem tentava, com grande dificuldade, pôr ordem na casa, cujos móveis encontrara quase todos quebrados e os armários quase vazios, pois a justiça não é uma das três coisas que o rei Salomão indica como não deixando vestígios de sua passagem. Quanto à criada, fugira quando o patrão fora preso. O terror dominara a pobre moça a tal ponto que ela não parara de caminhar de Paris até a Borgonha, sua terra natal.

O digno armarinheiro, assim que regressara à casa, comunicara à mulher sua feliz volta, e a mulher respondera felicitando-o e dizendo que o primeiro momento que pudesse roubar a seus deveres seria inteiramente dedicado a visitá-lo.

Esse primeiro momento demorara cinco dias, o que, em qualquer outra circunstância, teria parecido um pouco longo demais a mestre Bonacieux. Mas ele encontrara, na visita feita ao cardeal e nas visitas que Rochefort lhe fazia, amplo assunto para reflexão e, como se sabe, nada faz o tempo passar como refletir.

Ainda mais porque as reflexões de Bonacieux eram todas cor-de-rosa. Rochefort chamava-o de amigo, de caro Bonacieux, e não parava de dizer que o cardeal lhe dava a maior importância. O armarinheiro já se via no caminho das honras e da fortuna.

Por seu lado, a sra. Bonacieux também refletira, mas, é preciso dizer, em algo muito diferente da ambição. Apesar dela, seus pensamentos tinham como móvel constante aquele belo jovem tão bravo e que parecia tão apaixonado. Casada aos dezoito anos com o sr. Bonacieux, tendo sempre vivido entre os amigos do marido, pouco capazes de inspirar qualquer sentimento a uma jovem cujo coração era mais elevado que a posição, a sra. Bonacieux permanecera insensível às seduções vulgares. Mas, sobretudo naquela época, o título de fidalgo tinha grande influência sobre a burguesia, e d’Artagnan era fidalgo. Além disso, vestia o uniforme dos guardas, que, depois do dos mosqueteiros, era o mais apreciado pelas damas. Era, repetimos, belo, jovem, aventureiro. Falava de amor como um homem que ama e tem sede de ser amado. Havia nisso mais que o necessário para virar a cabeça de uma moça de vinte e três anos, e a sra. Bonacieux chegara precisamente a essa feliz idade da vida.

Os dois esposos, embora não se vissem havia mais de oito dias e embora, durante aquela semana, graves acontecimentos tivessem passado entre eles, abordaram-se com certa preocupação. Contudo, o sr. Bonacieux manifestou uma alegria real e avançou para a esposa de braços abertos.

A sra. Bonacieux apresentou-lhe a testa.

— Conversemos um pouco — disse ela.

— Como? — perguntou Bonacieux, espantado.

— Sim, sem dúvida. Tenho uma coisa da mais alta importância a vos dizer.

— De fato, eu também tenho algumas perguntas bastante sérias a vos fazer. Explicai-me um pouco vosso rapto, por favor.

— Não se trata disso no momento — disse a sra. Bonacieux.

— E de que se trata? De meu cativeiro?

— Soube dele no mesmo dia. Mas, como não éreis culpado de crime algum, como não éreis cúmplice de nenhuma intriga, como enfim nada sabíeis que pudesse comprometer-vos ou comprometer alguém, não dei ao acontecimento mais importância que a merecida.

— Falais muito à vontade, senhora! — retomou Bonacieux, ferido pelo pouco interesse que a esposa lhe demonstrava. — Sabeis que fui mergulhado durante um dia e uma noite num calabouço da Bastilha?

— Um dia e uma noite passam depressa. Deixemos, portanto, vosso cativeiro e voltemos ao que me traz até vós.

— Como? O que vos traz até mim? Não é o desejo de rever um marido de quem estais separada há oito dias? — perguntou o armarinheiro, picado no vivo.

— Isso primeiro, e outra coisa depois.

— Falai.

— Uma coisa do mais alto interesse e da qual talvez dependa nossa fortuna futura.

— Nossa fortuna mudou muito de aspecto desde que vos vi, senhora Bonacieux, e eu não me espantaria se, dentro de alguns meses, causasse inveja a muita gente.

— Sim, sobretudo se quiserdes seguir as instruções que vou dar.

— A mim?

— Sim, a vós. Há uma boa e santa ação a fazer, senhor, e muito dinheiro a ganhar ao mesmo tempo.

A sra. Bonacieux sabia que, falando de dinheiro ao marido, o pegava pelo lado fraco.

Mas um homem, ainda que seja um armarinheiro, depois de conversar dez minutos com o cardeal de Richelieu, já não é o mesmo homem.

— Muito dinheiro a ganhar! — disse Bonacieux, esticando os lábios.

— Sim, muito.

— Quanto, mais ou menos?

— Talvez mil pistolas.

— Então o que tendes a me pedir é muito grave?

— Sim.

— O que é preciso fazer?

— Partireis imediatamente. Entregar-vos-ei um papel do qual não vos separareis sob pretexto algum e que entregareis em mãos próprias.

— E para onde partirei?

— Para Londres.

— Eu, para Londres? Ora, estais zombando. Não tenho negócios em Londres.

— Mas outros precisam que lá vades.

— Quem são esses outros? Advirto-vos de que já não faço nada às cegas e quero saber não apenas ao que me exponho, mas também por quem me exponho.

— Uma pessoa ilustre vos envia, uma pessoa ilustre vos espera. A recompensa ultrapassará vossos desejos. É tudo o que posso prometer.

— Intrigas outra vez, sempre intrigas! Obrigado, agora desconfio delas, e o senhor cardeal esclareceu-me a esse respeito.

— O cardeal! — exclamou a sra. Bonacieux. — Vistes o cardeal?

— Mandou chamar-me — respondeu orgulhosamente o armarinheiro.

— E fostes ao convite, imprudente que sois!

— Devo dizer que não tive escolha entre ir e não ir, pois estava entre dois guardas. Também é verdade que, como então não conhecia Sua Eminência, se pudesse dispensar aquela visita, teria ficado encantado.

— Então ele vos maltratou? Fez ameaças?

— Estendeu-me a mão e chamou-me de amigo. Seu amigo! Ouvis, senhora? Sou amigo do grande cardeal!

— Do grande cardeal!

— Por acaso contestaríeis esse título, senhora?

— Não lhe contesto nada, mas vos digo que o favor de um ministro é efêmero, e que é preciso ser louco para se apegar a um ministro. Há poderes acima do dele, que não repousam no capricho de um homem nem no resultado de um acontecimento. É a esses poderes que é preciso unir-se.

— Lamento, senhora, mas não conheço outro poder além do grande homem que tenho a honra de servir.

— Servis o cardeal?

— Sim, senhora. E, como seu servidor, não permitirei que vos entregueis a complôs contra a segurança do Estado nem que sirvais às intrigas de uma mulher que não é francesa e tem o coração espanhol. Felizmente o grande cardeal está ali. Seu olhar vigilante observa e penetra até o fundo do coração.

Bonacieux repetia palavra por palavra uma frase que ouvira do conde de Rochefort. Mas a pobre mulher, que contara com o marido e, nessa esperança, respondera por ele à rainha, nem por isso deixou de estremecer, tanto com o perigo em que quase se lançara quanto com a impotência em que se encontrava. Contudo, conhecendo a fraqueza e sobretudo a cupidez do marido, não perdeu a esperança de levá-lo a seus fins.

— Ah! Sois cardinalista, senhor! — exclamou. — Ah! Servis o partido dos que maltratam vossa mulher e insultam vossa rainha!

— Os interesses particulares nada são diante dos interesses de todos. Estou com os que salvam o Estado — disse Bonacieux com ênfase.

Era outra frase do conde de Rochefort, que ele guardara e encontrava ocasião de colocar.

— E sabeis o que é o Estado de que falais? — disse a sra. Bonacieux, encolhendo os ombros. — Contentai-vos em ser um burguês sem nenhuma sutileza e voltai-vos para o lado que vos oferece mais vantagens.

— Ora, ora! — disse Bonacieux, batendo num saco de barriga arredondada que produziu um som de prata. — O que dizeis disto, senhora pregadora?

— De onde vem esse dinheiro?

— Não adivinhais?

— Do cardeal?

— Dele e de meu amigo, o conde de Rochefort.

— O conde de Rochefort! Mas foi ele quem me raptou!

— Pode ser, senhora.

— E recebeis dinheiro desse homem?

— Não me dissestes que esse rapto era inteiramente político?

— Sim, mas esse rapto tinha por objetivo fazer-me trair minha senhora, arrancar de mim, por torturas, confissões que pudessem comprometer a honra e talvez a vida de minha augusta senhora.

— Senhora — retomou Bonacieux —, vossa augusta senhora é uma pérfida espanhola, e tudo o que o cardeal faz é bem-feito.

— Senhor — disse a jovem —, eu vos sabia covarde, avarento e imbecil, mas não vos sabia infame!

— Senhora — disse Bonacieux, que nunca vira a esposa em cólera e recuava diante da ira conjugal —, senhora, o que estais dizendo?

— Digo que sois um miserável! — continuou a sra. Bonacieux, que percebeu recuperar alguma influência sobre o marido. — Ah! Vós fazeis política! E política cardinalista, ainda por cima! Ah! Vendeis corpo e alma ao demônio por dinheiro.

— Não, mas ao cardeal.

— É a mesma coisa! — exclamou a jovem. — Quem diz Richelieu diz Satanás.

— Calai-vos, senhora, calai-vos. Alguém poderia ouvir.

— Sim, tendes razão, e eu me envergonharia por vós de vossa covardia.

— Mas o que exigis de mim? Vejamos!

— Já vos disse: que partais imediatamente, senhor, que cumprais lealmente a missão de que me digno encarregar-vos e, com essa condição, esqueço tudo, perdoo tudo e, mais ainda...

Ela lhe estendeu a mão.

— Devolvo-vos minha amizade.

Bonacieux era covarde e avarento, mas amava a mulher. Comoveu-se. Um homem de cinquenta anos não guarda por muito tempo rancor de uma mulher de vinte e três. A sra. Bonacieux viu que ele hesitava.

— Vamos, estais decidido? — perguntou.

— Mas, minha querida amiga, refleti um pouco no que exigis de mim. Londres é longe de Paris, muito longe, e talvez a missão de que me encarregais não seja isenta de perigos.

— Que importa, se os evitardes?

— Olhai, senhora Bonacieux — disse o armarinheiro —, olhai, decididamente recuso. As intrigas me dão medo. Eu vi a Bastilha. Brrr! É horrível, a Bastilha! Só de pensar, fico arrepiado. Ameaçaram-me com a tortura. Sabeis o que é a tortura? Cunhas de madeira que vos enfiam entre as pernas até os ossos estalarem! Não, decididamente não irei. E com mil diabos, por que não ides vós mesma? Pois, na verdade, creio que até agora me enganei a vosso respeito. Creio que sois um homem, e dos mais furiosos!

— E vós sois uma mulher, uma miserável mulher, estúpida e embrutecida! Ah! Tendes medo? Pois bem, se não partirdes imediatamente, mando prender-vos por ordem da rainha e pôr-vos nessa Bastilha que tanto temeis.

Bonacieux caiu numa profunda reflexão. Pesou maduramente no cérebro as duas cóleras, a do cardeal e a da rainha. A do cardeal prevaleceu enormemente.

— Mandai prender-me em nome da rainha — disse —, e eu invocarei Sua Eminência.

Dessa vez, a sra. Bonacieux viu que fora longe demais e ficou apavorada com o quanto se adiantara. Contemplou por um instante, com medo, aquele rosto estúpido, de resolução invencível, como a dos tolos que têm medo.

— Pois bem, seja! — disse. — Talvez, afinal, tenhais razão. Um homem entende mais de política que as mulheres, e vós sobretudo, senhor Bonacieux, que conversastes com o cardeal. E, no entanto, é muito duro — acrescentou — que meu marido, um homem com cuja afeição eu julgava poder contar, me trate de modo tão desgraçado e não satisfaça meu capricho.

— É que vossos caprichos podem levar longe demais — retomou Bonacieux, triunfante —, e eu desconfio deles.

— Renunciarei, então — disse a jovem, suspirando. — Está bem, não falemos mais nisso.

— Se ao menos me dissésseis o que eu iria fazer em Londres — retomou Bonacieux, lembrando-se um pouco tarde de que Rochefort lhe recomendara tentar surpreender os segredos da mulher.

— É inútil que saibais — disse a jovem, a quem uma desconfiança instintiva agora fazia recuar. — Tratava-se de uma ninharia como as mulheres desejam, de uma compra na qual havia muito a ganhar.

Mas quanto mais a jovem se defendia, mais Bonacieux pensava que o segredo que ela se recusava a confiar-lhe era importante. Resolveu, portanto, correr imediatamente à casa do conde de Rochefort e dizer-lhe que a rainha procurava um mensageiro para enviar a Londres.

— Perdoai-me se vos deixo, minha querida senhora Bonacieux — disse ele —, mas, não sabendo que viríeis ver-me, eu marcara um encontro com um de meus amigos. Volto imediatamente e, se quiserdes esperar apenas meio minuto, assim que terminar com esse amigo, voltarei para buscar-vos. Como começa a ficar tarde, eu vos reconduzirei ao Louvre.

— Obrigada, senhor — respondeu a sra. Bonacieux. — Não sois bastante bravo para me ser de qualquer utilidade, e voltarei muito bem sozinha ao Louvre.

— Como quiserdes, senhora Bonacieux — retomou o ex-armarinheiro. — Tornarei a ver-vos em breve?

— Sem dúvida. Na próxima semana, espero. Meu serviço me deixará alguma liberdade, e aproveitarei para voltar e pôr ordem em nossos assuntos, que devem estar um tanto desarranjados.

— Está bem. Eu vos esperarei. Não me guardais rancor?

— Eu? Nem um pouco.

— Até breve, então?

— Até breve.

Bonacieux beijou a mão da mulher e afastou-se rapidamente.

— Vamos — disse a sra. Bonacieux, quando o marido tornou a fechar a porta da rua e ela ficou sozinha —, era só o que faltava a esse imbecil: ser cardinalista! E eu que respondi por ele à rainha, eu que prometi à minha pobre senhora... Ah, meu Deus! Meu Deus! Ela me tomará por uma dessas miseráveis de que o palácio está cheio e que colocaram junto dela para espioná-la! Ah, senhor Bonacieux! Nunca vos amei muito, mas agora é muito pior. Eu vos odeio e, por minha palavra, pagareis por isso!

No momento em que dizia essas palavras, uma pancada no teto fez com que levantasse a cabeça, e uma voz, que chegou até ela através do assoalho, gritou:

— Querida senhora Bonacieux, abra-me a portinha do corredor, e descerei até vós.

Os Três Mosqueteiros

Sinopse

Tradução brasileira de Os Três Mosqueteiros, romance de aventura de Alexandre Dumas sobre honra, amizade, intriga política e duelos na França do século XVII. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

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