Leia agora
Os Três Mosqueteiros

Universo da obra

Os Três Mosqueteiros

Capítulo 46 · Os Três Mosqueteiros

Capítulo XLV — Cena conjugal

46 de 69 ≈ 11 min de leitura

Capítulo XLV — Cena conjugal

Como Athos previra, o cardeal não tardou a descer. Abriu a porta do cômodo onde os mosqueteiros haviam entrado e encontrou Porthos empenhado numa partida de dados com Aramis. Com um rápido olhar, esquadrinhou todos os cantos da sala e viu que lhe faltava um dos homens.

— Que aconteceu ao senhor Athos? — perguntou.

— Monsenhor — respondeu Porthos —, ele partiu como batedor, depois de certas palavras de nosso estalajadeiro que o fizeram acreditar que a estrada não era segura.

— E você, o que fez, senhor Porthos?

— Ganhei cinco pistolas de Aramis.

— E agora podem voltar comigo?

— Estamos às ordens de Vossa Eminência.

— A cavalo, então, senhores, pois já é tarde.

O escudeiro estava à porta e segurava o cavalo do cardeal pela rédea. Um pouco mais longe, um grupo de dois homens e três cavalos aparecia na sombra. Eram os dois homens que deveriam conduzir Milady ao forte de La Pointe e velar por seu embarque.

O escudeiro confirmou ao cardeal o que os dois mosqueteiros já haviam dito a respeito de Athos. O cardeal fez um gesto de aprovação e retomou o caminho, cercando-se na volta das mesmas precauções que tomara na ida.

Deixemo-lo seguir para o acampamento, protegido pelo escudeiro e pelos dois mosqueteiros, e voltemos a Athos.

Durante uns cem passos, ele marchara no mesmo ritmo; mas, uma vez fora de vista, lançara o cavalo para a direita, fizera um desvio e voltara, a cerca de vinte passos, por dentro do bosque, para espiar a passagem do pequeno grupo. Tendo reconhecido os chapéus debruados dos companheiros e a franja dourada do manto do cardeal, esperou que os cavaleiros virassem a curva da estrada e, quando os perdeu de vista, voltou a galope para a estalagem, cuja porta lhe abriram sem dificuldade.

O estalajadeiro o reconheceu.

— Meu oficial — disse Athos — esqueceu-se de fazer uma recomendação importante à dama do primeiro andar e mandou-me reparar o esquecimento.

— Suba — disse o estalajadeiro. — Ela ainda está no quarto.

Athos aproveitou a permissão, subiu a escada com o passo mais leve, chegou ao patamar e, pela porta entreaberta, viu Milady prendendo o chapéu.

Entrou no quarto e fechou a porta atrás de si.

Ao ruído do ferrolho, Milady voltou-se.

Athos estava de pé diante da porta, envolto no manto, com o chapéu caído sobre os olhos.

Ao ver aquela figura muda e imóvel como uma estátua, Milady teve medo.

— Quem é o senhor, e o que quer? — exclamou.

— Vamos, é mesmo ela! — murmurou Athos.

E, deixando cair o manto e erguendo o feltro, avançou para Milady.

— Reconhece-me, senhora? — perguntou.

Milady deu um passo à frente e depois recuou como diante de uma serpente.

— Muito bem — disse Athos. — Vejo que me reconhece.

— O conde de La Fère! — murmurou Milady, empalidecendo e recuando até a parede impedi-la de ir mais longe.

— Sim, Milady — respondeu Athos —, o conde de La Fère em pessoa, que voltou de propósito do outro mundo para ter o prazer de vê-la. Sentemo-nos e conversemos, como disse monsenhor o cardeal.

Milady, dominada por um terror inexprimível, sentou-se sem pronunciar palavra.

— Você é, então, um demônio enviado à Terra? — disse Athos. — Seu poder é grande, eu sei; mas sabe também que, com a ajuda de Deus, os homens muitas vezes venceram os demônios mais terríveis. Já se encontrou em meu caminho. Eu julgava tê-la abatido, senhora; mas ou me enganei, ou o inferno a ressuscitou.

Milady, diante daquelas palavras que lhe recordavam lembranças terríveis, baixou a cabeça com um gemido surdo.

— Sim, o inferno a ressuscitou — retomou Athos. — O inferno a fez rica, o inferno lhe deu outro nome, o inferno quase lhe refez até outro rosto; mas não apagou nem as manchas de sua alma, nem a marca de seu corpo.

Milady levantou-se como impelida por uma mola, e seus olhos lançaram raios. Athos permaneceu sentado.

— Pensava que eu estivesse morto, não é verdade, assim como eu pensava que você estivesse morta? E o nome Athos ocultou o conde de La Fère, como o nome Milady Clarick ocultou Anne de Breuil! Não era assim que se chamava quando seu respeitável irmão nos casou? Nossa situação é realmente estranha — continuou Athos, rindo. — Até hoje, cada um de nós só viveu porque julgava o outro morto, e uma lembrança incomoda menos que uma criatura, embora às vezes uma lembrança seja uma coisa devoradora.

— Mas, afinal — disse Milady em voz surda —, o que o traz de volta a mim? E o que quer de mim?

— Quero dizer-lhe que, embora permanecesse invisível a seus olhos, eu não a perdi de vista.

— Sabe o que fiz?

— Posso contar, dia a dia, suas ações desde que entrou para o serviço do cardeal até esta noite.

Um sorriso incrédulo passou pelos lábios pálidos de Milady.

— Escute: foi você quem cortou os dois ferretes de diamantes no ombro do duque de Buckingham; foi você quem mandou raptar a senhora Bonacieux; foi você quem, apaixonada por de Wardes e pensando passar a noite com ele, abriu a porta ao senhor d’Artagnan; foi você quem, acreditando que de Wardes a enganara, quis fazê-lo matar pelo rival; foi você quem, quando o rival descobriu seu segredo infame, quis fazê-lo matar por dois assassinos que enviou em seu encalço; foi você quem, vendo que as balas haviam errado o alvo, mandou vinho envenenado com uma carta falsa, para fazer a vítima acreditar que o vinho vinha dos amigos; foi você, enfim, quem acaba de assumir aqui, neste quarto, sentada na cadeira em que estou, diante do cardeal de Richelieu, o compromisso de mandar assassinar o duque de Buckingham, em troca da promessa que ele lhe fez de deixá-la assassinar d’Artagnan.

Milady estava lívida.

— Então o senhor é Satanás? — disse ela.

— Talvez — respondeu Athos. — Mas, em todo caso, escute bem isto: assassine ou mande assassinar o duque de Buckingham, pouco me importa. Não o conheço e, além disso, é inglês. Mas não toque com a ponta do dedo em um só fio de cabelo de d’Artagnan, que é um amigo fiel a quem amo e defendo, ou, juro pela cabeça de meu pai, o crime que cometer será o último.

— O senhor d’Artagnan me ofendeu cruelmente — disse Milady em voz surda. — O senhor d’Artagnan morrerá.

— É mesmo possível ofendê-la, senhora? — disse Athos, rindo. — Ele a ofendeu e morrerá?

— Morrerá — repetiu Milady. — Ela primeiro, ele depois.

Athos foi tomado por uma vertigem. A visão daquela criatura, que nada tinha de mulher, recordava-lhe lembranças terríveis. Pensou que, certa vez, numa situação menos perigosa que aquela em que se encontrava, já quisera sacrificá-la à própria honra. O desejo de matar voltou-lhe ardente e o invadiu como uma febre. Levantou-se por sua vez, levou a mão ao cinto, tirou uma pistola e armou-a.

Milady, pálida como um cadáver, quis gritar, mas a língua gelada só conseguiu emitir um som rouco, que nada tinha de fala humana e parecia o estertor de uma fera. Colada à tapeçaria escura, os cabelos soltos, aparecia como a imagem aterradora do terror.

Athos ergueu lentamente a pistola, estendeu o braço até a arma quase tocar a testa de Milady e, com uma voz tanto mais terrível quanto tinha a calma suprema de uma resolução inflexível, disse:

— Senhora, entregue-me neste instante o papel assinado pelo cardeal ou, por minha alma, eu lhe estourarei os miolos.

Com outro homem, Milady poderia ter conservado alguma dúvida, mas conhecia Athos. Mesmo assim, ficou imóvel.

— Tem um segundo para decidir — disse ele.

Milady viu, pela contração do rosto, que o tiro ia partir. Levou rapidamente a mão ao peito, tirou um papel e estendeu-o a Athos.

— Tome — disse ela — e seja maldito!

Athos tomou o papel, guardou a pistola no cinto, aproximou-se da lâmpada para verificar se era realmente aquele, desdobrou-o e leu:

É por minha ordem e para o bem do Estado que o portador da presente fez o que fez.

3 de dezembro de 1627.

Richelieu

— E agora — disse Athos, retomando o manto e recolocando o feltro na cabeça —, agora que lhe arranquei os dentes, víbora, morda se puder.

E saiu do quarto sem sequer olhar para trás.

À porta, encontrou os dois homens e o cavalo que seguravam.

— Senhores — disse —, a ordem de monsenhor, como sabem, é conduzir esta mulher sem perda de tempo ao forte de La Pointe e não deixá-la até que esteja a bordo.

Como as palavras concordavam de fato com a ordem que haviam recebido, os homens inclinaram a cabeça em sinal de assentimento.

Quanto a Athos, montou com leveza e partiu a galope; apenas, em vez de seguir a estrada, atravessou os campos, esporeando vigorosamente o cavalo e parando de vez em quando para escutar.

Numa dessas paradas, ouviu na estrada o passo de vários cavalos. Não duvidou de que fosse o cardeal e sua escolta. Avançou novamente, esfregou o cavalo com urze e folhas e foi postar-se atravessado na estrada, a cerca de duzentos passos do acampamento.

— Quem vem lá? — gritou de longe ao avistar os cavaleiros.

— Creio que é nosso bravo mosqueteiro — disse o cardeal.

— Sim, monsenhor — respondeu Athos. — É ele mesmo.

— Senhor Athos — disse Richelieu —, receba todos os meus agradecimentos pela boa guarda que nos prestou. Senhores, chegamos. Tomem a porta da esquerda. A senha é “Rei” e “Ré”.

Ao dizer essas palavras, o cardeal saudou os três amigos com a cabeça e tomou a direita, seguido do escudeiro, pois naquela noite dormiria no acampamento.

— Pois bem! — disseram ao mesmo tempo Porthos e Aramis, quando o cardeal já não podia ouvi-los. — Pois bem, ele assinou o papel que ela pediu.

— Eu sei — disse tranquilamente Athos —, pois aqui está.

E os três amigos não trocaram mais uma palavra até o alojamento, exceto para dar a senha às sentinelas.

Apenas enviaram Mousqueton para dizer a Planchet que seu amo era convidado, assim que deixasse a trincheira, a dirigir-se imediatamente ao alojamento dos mosqueteiros.

De outro lado, como Athos previra, Milady, ao encontrar à porta os homens que a esperavam, não criou dificuldade para segui-los. Por um instante, teve vontade de ser levada de volta diante do cardeal e contar-lhe tudo; mas uma revelação de sua parte provocaria uma revelação de Athos. Ela diria que Athos a enforcara; Athos diria que ela era marcada. Pensou, portanto, que era melhor guardar silêncio, partir discretamente, cumprir com a habilidade habitual a difícil missão que aceitara e, depois de tudo realizado para satisfação do cardeal, vir reclamar sua vingança.

Em consequência, depois de viajar toda a noite, às sete da manhã estava no forte de La Pointe; às oito, estava embarcada; e às nove, a embarcação que, munida de cartas de corso do cardeal, fingia partir para Bayonne, levantava âncora e fazia-se à vela para a Inglaterra.

Os Três Mosqueteiros

Sinopse

Tradução brasileira de Os Três Mosqueteiros, romance de aventura de Alexandre Dumas sobre honra, amizade, intriga política e duelos na França do século XVII. Edição consolidada pelo projeto Literunico / Copa.

Os Três Mosqueteiros

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Os Três Mosqueteiros

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Os Três Mosqueteiros Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 46 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Os Três Mosqueteiros

Capa de Os Três Mosqueteiros
Continue a leitura Capítulo XLV — Cena conjugal Capítulo 46 · 46 de 69 · ≈ 11 min
Todos os capítulos 69 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir