Universo da obra
Universo da obra
Enquanto à influencia do romance nos costumes, estou mais que muito desconfiado de que o romance não morigera nem desmoralisa.
Porém, admitida a ponderação que lhe alvidram os exhortadores dos pais de família, não sei decidir como se há de escrever o romance fautor da sã moral. São dois os expedientes: levar os personagens viciosos ao despenhadeiro; ou criar anjos num paraíso sem serpente.
Na primeira especie, mostra-se a luta de virtude e crime: natural e concludentemente triumfa a virtude. É o costume com sacrifício, às vezes, da verosimilhança.
Na segunda forma de romancear, a virtude recebe as ovações sem batalha. O romancista põe peito à reformação das obras de Deus, e corrige-as. Quando os seus personagens se avisinham de algum sujo aguaçal, em que é uso a gente comum salpicar as botas, atam-lhe asas de serafins, e largam-lhe trela por esse azul dos céus dentro, até lhes vir a jeito poisal-os em alegretes de flores.
São estes os romances que moralisam, ou os outros? É a minha dúvida.
Convém mostrar as repulsões do crime lá em baixo, onde a providência social lhes cavou a paragem; ou é melhor conduzir, por entre hortos amenissimos, os nossos personagens engrinaldados, e mettel-os no céu finalmente?
Um homem de bem, proprietário de um dos primeiros jornais deste país, costuma editar os meus romances, com a previa clausula de não serem historias de crimes, que toquem directa ou indirectamente com a probidade da vida conjugal, ou revelem desdouros da honra domestica.
Há poucos dias, tivémos esta pratica:
— Querem os pais de famílias que suas filhas ignorem a corrupção, que lavra nos pântanos da sociedade — observou-me o meu amigo.
— Os pais de família, contestei, não conseguem isso, enquanto não acharem o caminho da lua, onde presumo que não há costumes, nem romances. E será preciso que se mudem para lá com as filhas, menores de dez anos, e não levem as mães, porque as mães, maximamente virtuosas, sempre têm que contar às filhas a história escandalosa das mães culpadas.
— Mas não se ganha moralisação para os espíritos brandos e virginais das leitoras, em dar-lhes novelas de adultérios — redarguiu o cavalheiro.
— Ganha, quando se lhes mostram os infortúnios acapelados em volta da mulher que se desonra. Ganha, porque as filhas do pai acautelado sabem que as há, conhecem-nas, e apertam a mão das desonradas; concorrem aos salões com elas; sabem o nome e a culpa do homem que as requesta; observam-lhes uns exteriores de felicidade; e espantam-se de as verem ostensivamente satisfeitas, e, de mais a mais, acatadas com uma urbanidade, que as não estrema das honestas. Então é que o romance ganha muito, levando ao conhecimento das donzelas, até certo ponto inocentes, que o desdouro, cujo horror não as apavorou nos salões, tem angustias secretas, e infâmias estrondosas. Parece-me isto, meu amigo.
— Acho-lhe rasão — obtemporou o honrado e ilustrado editor dos meus livros — mas que quer, se os pais de família intendem que suas filhas desconhecem a existência de certos crimes? E desadoram romances que revolvam essas sentinas hediondas?
Aqui ficou a contenda amigável. Não procurei pai de famílias nenhum para argumentarmos. Fiquei-me a cismar se devia queimar este volume que estava escrito, no intuito de mostrar o squalor de uma chaga social, sem a miníma pretenção de lhe pôr o cauterio. Não queimei; mas protesto extrahil-o da circulação, se um dia me persuadir de todo em todo que esta coisa de romances, escritos assim, peoram a humanidade, e alvorotam a quietação dos pais de família.
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