Universo da obra
Universo da obra
Tinha custado muito sangue, esterilmente derramado a solução de um problema que, havia muitos séculos a humanidade procurava resolver: a miséria. O processo escolhido em cada século para o mesmo resultado, tinha sido idêntico: a guerra ao rico, em nome do proletário. A única situação real, que os homens podem consolidar no marulho fervente das suas utopias, é conciliar pelo socorro-mútuo duas ideias que parece repelirem-se: a pobreza e a felicidade. Mas esta situação que as escolas da filosofia materialista chamavam absurdo, realiza-se pelo dogma da Associação que é a tradução da fraternidade, que o cristianismo afervora: é a felicidade do homem do trabalho sem atentar contra o rico. Tão sublime ideia, tão grandes fatos têm-se operado em um grande centro, que, inspirado por Deus, irradia uma luz evangélica por todos os homens.
Enlaçar em um abraço voluntario a pobreza e o contentamento, esposar estes dois predicados que lutam rancorosamente no coração da humanidade, amigá-los, movê-los a dulcificarem-se, identificá-los para que o divórcio os não desligue em um repelão desesperado: tal prodígio, um consorcio assim só na prática do socorro-mútuo pela associação pode operar-se, porque é a genuína tradução do Evangelho que Jesus nos deixou recomendado.
O incrédulo do cristianismo e da associação ao passar na sua carruagem, assaltado de cuidados, pela porta do operário, sente-se afrontado pelas risadas alegres que lá vão dentro daquele sótão raso com o chão. Tal homem não possui o capital que mais felicidade produz. Não sabe que a religião e o socorro mutuo são o incentivo do trabalho. Compreende, apenas, que o trabalho é o capital único do proletário. Julga ele que o artífice alquebrado de vigor, no fim do dia, atira com o corpo às palhas do repouso para mentir no sono aos flagelos do dia futuro. Não sabe que o amor em todo o tempo, em todas as idades, e em toda a hora do dia, é quase um exclusivo do pobre. Não sabe que o artista é pai, é esposo, é cristão, e possui um tesouro de afetos que o deixam à beira do túmulo para entrarem no seio de Deus, como paga de um empréstimo contraído para adoçar as amarguras da terra. Não sabe que o socorro-mútuo derivado do trabalho faz a tranquilidade do homem laborioso.
A família do coronel... era como a família do artista. Ali, a pobreza tinha sorrisos, a resignação um triunfo, e os desgraçados um exemplo. O coronel ensinava primeiras letras. Fr. Antônio dos Anjos ensinava latim. A esposa do coronel com quatro filhos entrançavam cordões para dragonas e penachos. Maria, aos oito anos, copiava música e fazia flores.
--O trabalho! meus filhos, o trabalho!--exclamava padre Antônio, estendendo em veneranda postura o braço sobre a mesa, em redor da qual uma família alegremente saboreava um parco jantar.
Estariam eles esquecidos do seu passado? como puderam amoldar-se aqueles espíritos às angustiadas urgências, ao passadio mesquinho de operários? A soberba da educação não se rebela contra a lei opressiva da necessidade?
Não. O anjo de Deus viera sentar-se no limiar do infeliz, e o demônio do orgulho não pode tramar as conspirações do ócio contra a família laboriosa. Frei Antônio era o anjo dos alentos, da resignação, e das esperanças. Venturas que ele via no futuro, ninguém as via; mas acreditavam-nas todos, porque as suas promessas tinham a unção da profecia. E não era calculando eventualidades políticas, nem tronos arruinados, nem batalhas feridas no seio da pátria, que frei Antônio aventurava promessas. Donde a inspiração lhe vinha não sabia ele dizê-lo; mas o santo homem nunca, se levantava dos pés da cruz, que não trouxesse aos seus uma palavra de esperança, um vaticínio misterioso.
--É o céu que o tio nos promete...--dizia Maria, sorrindo para sua mãe, e recortando a folha de um lírio.
--E que melhor promessa, minha filha?--respondeu a mãe sem levantar os olhos do seu trabalho.
--Queres dar a tua lição, menina?--perguntou frei Antônio, anediando os cabelos negros de Maria.
--Sim, meu tio, mas sem despegar do trabalho, porque tenho grande tarefa. Hoje há de, permitindo Deus, ficar pronta esta flor; disse-o a mãe... senão... o tio bem sabe...
--Senão o que, minha filha?--perguntou a mãe.
--Senão...--tornou Maria sorrindo com graciosa malícia--não merendo.
--O teu sorriso faz-me chorar...--disse a mãe, limpando os olhos, e violentamente sorrindo.
--Temos lágrimas? Ora vamos...--atalhou o padre, dando às palavras um tom de risonha ameaça.
--Não, que minha mãe é assim!--tornou Maria.--Não pode mesmo a gente fingir que é infeliz! Permita Deus que todos se julguem tão venturosos como eu. Tenho pai que amo tanto, e mãe que mais não posso amar! sou tão feliz!... Minha mãe não podia ser também assim, se achasse a ventura no meu amor?!...
--Ó minha filha... exclamou a mãe.--Obrigas-me a pedir-te perdão... Castiga-me Deus pelos lábios da inocência... Sim... eu sou muito feliz...
E abraçou-a impetuosamente como impelida por um amor que a transportava.
O coronel viera testemunhar este lance. Parou respeitosamente diante do grupo, em que avultava o padre levantando maquinalmente as mãos para o céu, jubiloso de um sorriso todo alegria, todo luz, que parece cintilar no semblante do justo. E o mais é que as lágrimas vieram solenizar aqueles extremos de alegria! Choravam ambas, mãe e filha, com as almas afinadas pela mesma emoção, pelo mesmo entusiasmo no amor.
Frei Antônio antevia a nova organização econômica e social que há de corrigir suavemente as velhas imperfeições da sociedade.
--Mãe, filha, e todos nós--dizia o coronel--seremos felizes com as vossas inspirações.
--O contrário seria um crime, meu irmão!--respondeu frei Antônio, tomando-as ambas, abraçadas ainda, entre os seus braços.
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