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Lágrimas Abençoadas

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo 53 · Lágrimas Abençoadas

Livro III - Capítulo IV

53 de 97 ≈ 5 min de leitura

A aparição de Álvaro em casa do coronel impressionou estranhamente aquela numerosa família, cuja maior parte não se recordava de ver na sua sala um estranho.

Maria foi como sua mãe cumprimentá-lo, e, pela hesitação em que ia, pudera julgar-se que a violentavam. O acanhamento das suas maneiras, a inflexão tremida das suas poucas palavras, denunciariam uma inculta rapariga de aldeia, a quem por passatempo aparamentaram de vestidos senhoris. Na grande roda seria fértil assunto de risos e gracejos.

Álvaro, por uma de essas incoerências da natureza humana, revelava um acanhamento quase semelhante ao de Maria. A prevenção em que o vimos a respeito dela, o conceito sublime que a religião lhe ensinara a fazer das suas virtudes, e, mais que tudo, a beleza de essa menina, que ele nunca encontrara nos bailes, nem, semelhante a ela, se recordava ter visto outra, foi por ventura tudo isto a estranha emoção que o sobresaltou e colocou, como costuma dizer-se, em uma falsa posição.

E, demais, quem sabe se assim ficam explicados os embaraços de Álvaro?

Qual de nós não teve na vida uma situação semelhante, donde melhor possa ver a de Álvaro da Silveira?

Quem é o homem forte e senhor de si, quando a virtude e a formosura, iluminando a mulher de um santo prestígio, lhe fascinam os olhos da face e os da alma?

E, quando o espírito, purgado das fezes da irreligião, contempla a mulher virtuosa como a depositaria de sentimentos que mais genuinamente simulam o amor de Deus, é tão natural esse enlevo, esse culto, essa idolatria no homem que pôde encontrar um anjo, onde não esperava já encontrar senão estímulos de paixões materiais!...

Nem se explica de outra maneira a surpresa de Álvaro na presença de Maria dos Prazeres.

A virtude tem uma fascinação particular sobre o homem, que não desceu, na escala da depravação, a ponto de negar a existência de corações imaculados. Anojado de estudar a mulher, modelada nas formas invariáveis do salão, onde todas são semelhantes a cada uma, Álvaro da Silveira, abaixou os olhos diante da primeira mulher, que, em outros tempos, poderia abater-lhe o orgulho.

Foi nesse respeitoso silêncio, nesse involuntário acanhamento de maneiras, que o mancebo justificou a regeneração do seu caráter. Meses antes, se o tivessem apresentado a Maria, vê-lo-iam empregar todos os recursos da eloquência, adaptada a todas as mulheres do «grande mundo» intimamente persuadido de que aquela, deslumbrada pelos ouropéis da frase, saudaria em sua alma a aparição de uma simpatia ardente pelo gênio, pelo talento palavroso, e pelos arrebiques da língua estudada.

O coronel, atencioso observador da aproximação de Álvaro, gostou do pejo com que sua filha foi recebida. Frei Antônio a quem competia encetar uma conversação em que respirassem aquelas duas almas retraídas, principiou a elogiar modestamente as qualidades do seu amigo. Álvaro, silencioso, principiava a afligir-se da sua absoluta esterilidade de ideias, quando, em boa civilidade, lhe convinha agradecer o acolhimento com que era especializado naquela casa. Não se acreditaria esta perplexidade, se cada qual não pudesse justificá-la com um momento semelhante na sua vida.

Álvaro achou a inspiração na própria fraqueza, que o mortificava. Voltando-se para frei Antônio, com as faces rosadas, disse com voz trêmula:

--Eu creio que perdi na solidão os hábitos do mundo, meu caro mestre. Nem já sei falar, e era dantes um falador importuno!... A sua família deve fazer de mim uma ideia triste...

--Porque?--interrompeu a mãe de Maria, com insinuante delicadeza.

--Porque, minha senhora?--retorquiu Álvaro--porque me acho aqui coacto, entrei aqui grosseiramente, como um saloio que vestiram de casaca, e de um modo que v. ex.a de certo não esperava receber um hóspede que vive na roda onde as etiquetas chegam a ser enfadonhas pela demasia de reparos.

--Ora, sr. Álvaro--interveio o coronel--nós sabemos o que são essas cortesias, e palavreados da tal roda, que v. ex.a frequentou. Minha filha Maria, essa não as sabe de certo; mas pouco lucrariam, ela, se as aprendesse e v. ex.a se lhas ensinasse. Aqui, a única pessoa exigente--continuou o coronel, sorrindo--exigente das genuínas etiquetas da corte é talvez v. ex.a que de lá vem. Tenha, porém, paciência, se nos encontra sem o polimento com que se envernizam os mimosos da fortuna, alegres sempre e sempre cuidadosos de ensaiar-se, quando a ociosidade os enfastia, na arte de agradar. Aqui tem v. ex.a as ideias a respeito dos galhardos faladores de salão, que, segundo ouvi dizer, por aí se chamam fazedores de espírito. Sejam lá o que forem, eu aprecio muito a economia de palavras com que v. ex.a abriu as relações com esta família ignorada. Até por generosidade, nenhum hóspede, chegado a esta casa deve exigir de nós os tratamentos apurados de uma refinada delicadeza. Não os sabemos, nem poderíamos sustentá-los. Tudo isto vem a serenar a impaciência com que o sr. Álvaro da Silveira parece queixar-se das ideias, que lhe não abundaram, quando tivemos a honra de o receber.

Lágrimas Abençoadas

Sinopse

Leia gratuitamente Lágrimas Abençoadas, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o prefácio e os 96 capítulos reais, em quatro livros, com normalização conservadora para PT-BR moderno.

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