Leia agora
Lágrimas Abençoadas

Universo da obra

Lágrimas Abençoadas

Capítulo 19 · Lágrimas Abençoadas

Livro I - Capítulo XVIII

19 de 97 ≈ 4 min de leitura

Prosseguiu o frade:

«Quando, há quatro meses, os religiosos de *** viram aproximar-se a hora de entregar as suas celas à revolução, ajuntaram-se para deliberarem sobre a sua vida, como homens que daí a pouco não tinham posição alguma no mundo, que lhes valesse um bocado de pão. Alguns eram de casas remediadas, outros irmãos de fidalgos, sacrificados ao partido que lhes assegurava os seus privilégios; mas nenhum contava com asilo seguro no teto paternal, porque o temor da perseguição fazia-nos pensar que eramos homens expulsos da família, e da sociedade. Entregámo-nos a Deus. E, depois, no meio de nós estavam uns homens cobertos com o nosso hábito, vivendo conosco há muitos anos, ajoelhando conosco ao mesmo crucifixo, e comendo conosco no mesmo refeitório. Eram os nossos maiores inimigos. Velavam-nos desde matinas a completas; desde a oração comum do coro até ao último padre nosso rezado no isolamento da cela. Eram como os pretorianos de Nero sindicando os atos religiosos dos ágapes de Cristo. Chamavam-se liberais, ilustrados e amigos dos homens. De Deus sabia eu que eles o não eram. Dos homens, cruel amizade era a sua, que precisava enfeitar o seu altar com o sangue dos seus companheiros!

«Nos últimos meses da nossa comunidade... deixae-me dizer-vos uma profecia amarga: nos últimos meses das ordens religiosas em Portugal, apresentaram-se aqueles padres ao prelado, e pediram a sua liberdade. Prevenindo alguma ligeira censura, em nome da regra do patriarca, lembraram ao guardião que o punhal era a arma do homem livre, quando os algozes da humanidade não acediam aos augustos preceitos da razão natural.

«O prelado era um justo, que chegara aos oitenta anos, com os cilícios nos rins, vergando sob o peso de austeridade, aliviando quanto podia esse gravame dos ombros menos rijos dos seus subordinados. A morte, porém, era-lhe menos aflitiva que o pesar de uma tibieza de disciplina. A sua resposta foi simples:

«Deixemos vir a mão da liberdade bater à porta do mosteiro e seremos todos livres então. Uns, livres para morrer no desamparo. Outros, livres para viver de vergonha. Todos seremos livres. Em quanto a vós, meus irmãos, pedirei aos servos de Deus nesta casa que peçam ao Senhor para vós as consolações e a prudência que não posso dar-vos. Retirae-vos, que sou chamado ao coro.»

«Retiraram-se; mas, dois dias depois, ao amanhecer, foi aberta por violência a portaria. Alguns homens dali saíram vestidos, e armados como guerrilheiros. O padre porteiro, que subira à cela do prelado a anunciar-lhe o acontecimento, encontrou um cadáver. Ao passar-lhe a mão pela face topou um crucifixo inclinado sobre o seio. Ao agitá-lo, umedeceu as mãos no sangue que borrifara os lenções. Gritou. Acudiram os monges. Em volta do seu leito ajoelharam homens que choravam. Não tinham outra suplica, nem balbuciavam uma palavra. Um justo estava ali morto: mataram-me o seus irmãos, em nome de uma liberdade, que não consentiu ao venerando ancião a liberdade de viver mais alguns dias.

--Era preciso matarem-no para fugirem?--perguntou Maria com os olhos turvos de lágrimas.

--Não seria preciso, minha filha, mas as chaves do mosteiro são entregues ao prelado: mataram-me o, tirando-lhas.

--Mas o crucifixo,--replicou ela quem lho poria sobre a face?

--Foi o moribundo a quem os assassinos deixaram tempo de pedir a Deus o perdão dos seus matadores.

--Que acontecimento tão triste, minha mãe!--exclamou assombrada a menina, tomando entre as suas as mãos de sua mãe. E continuou: Eu não pensei que os homens podiam fazer isso!... Quem me dera o céu para meus pais e meus irmãos!

--E para o tio padre, não, meu anjinho?

--Meu tio tem certo o céu, porque tem sofrido muito, não é verdade?

--Muito, minha menina; mas não é já bastante o que tenho sofrido?

--Penso que sim... Eu não sei ainda a sua vida, mas lembra-me que meu tio pode fazer que os homens sejam bons, dizendo-lhes histórias que os façam ter dó dos que sofrem.

Olharam-se todos com admiração. É que Maria contava sete anos de idade; e alguns meses de sofrimento. Predestinação!?...

Lágrimas Abençoadas

Sinopse

Leia gratuitamente Lágrimas Abençoadas, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o prefácio e os 96 capítulos reais, em quatro livros, com normalização conservadora para PT-BR moderno.

Lágrimas Abençoadas

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Lágrimas Abençoadas

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Lágrimas Abençoadas Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 19 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Lágrimas Abençoadas

Capa de Lágrimas Abençoadas
Continue a leitura Livro I - Capítulo XVIII Capítulo 19 · 19 de 97 · ≈ 4 min
Todos os capítulos 97 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir