Universo da obra
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--Nesta casa chora-se mais do que se reza--disse o padre.
--Não são pecaminosas as nossas lágrimas, meu irmão...--disse a mãe de Maria.
--Pois então dizei-me por que chorais.
--Logo, logo...
Maria beijou a mão do tio, e saía, enxugando as lágrimas.
--Onde vais tu, menina?--disse o velho.
--Vou trabalhar, meu tio.
--Havemos de falar logo.
Ela saiu, e o frade disse a sua cunhada:
--Vá chamar seu marido e venha com ele.
O coronel entrava neste momento.
--Ei-lo aqui. Ora vinde cá ambos; temos muito que dizer e que pensar. Dizei-me cá: o que vos diz o coração a respeito de Álvaro?
--Bem; parece-me um bom moço.
--E o vosso, minha irmã?
--Tenho-lhe afeição de mãe, estou familiarizada com ele como se o conhecesse desde criancinha.
--E sabeis o que Maria pensa a respeito dele?
--Soube-o--disse a cunhada--no momento em que meu irmão entrou. As lágrimas que viu nos olhos dela eram a confissão do seu segredo.
--Pois que disse ela?--atalhou o coronel.
--Nada, quase nada... Vendo que eu lhe adivinhava o coração, lançou-se-me ao pescoço, chorando. Disse quanto podia dizer.
--Ama-o, em suma--disse o frade--Não admira; o moço é digno dela, e a Providência quer que se amem...
--E que tem ela que esperar desse amor?--interrompeu o coronel.
--Tem que esperar as consequências de uma afeição aprovada por seus pais...
--Se eles a aprovarem, meu irmão.
--Pois tu reprovas o amor da tua filha a Álvaro da Silveira?! Eu fico por ele... Quereis melhor fiador? Dou-vos a virtude de Maria. Se a nós não defendermos, defende-se ela.
--Sabes pouco do mundo, meu irmão--redarguiu o coronel.
--Não sei muito, não; mas o que é preciso saber para o nosso caso, sei-o de autoridade certa, que é o pressentimento bom que me dá resolução. O pai de Álvaro diz-me que seu filho quer Maria para sua esposa, e ele pede-a para sua filha. Que respondeis?
--Eu respondo que sim, que lha dou com toda a vontade, com todo o coração--disse a mãe de Maria.
--E eu--disse o coronel--respondo que estudes bem o caráter desse moço, e quando, passados meses, não vier algum acidente inopinado alterar a opinião que tens do seu merecimento, virás então consultar a minha vontade.
--Dizes bem, meu irmão--tornou o egresso--Penso ter-me enganado, e ainda agora caí em mim, e na fraqueza dos meus juízos. Disseste bem: eu conheço pouco do mundo.
--E não sabes--continuou o coronel---que certos homens, sem serem hipócritas, aparecem inesperadamente bons; às vezes uma pequena alteração no seu modo de pensar, produz grandes mudanças na vida exterior. Eu recordo-me de um grande fenômeno na minha vida de mancebo. Aos dezoito anos era eu rapaz desenvolto, vicioso, desobediente a nossos pais, e desprezador de alguns deveres bem sagrados. Amava o escândalo estrondoso; e a publicidade das minhas loucuras desvanecia-me. Vi esta mulher, que é tua cunhada, e amei-a. Os pais dela eram exemplares de virtude, e quem houvesse de merecer-lha devia ser virtuoso. O talvez menos habilitado para lha pedir era eu. Resolvi ser hipócrita; deu nos olhos a minha improvisada virtude, e consegui levar a nova da minha conversão ao conhecimento da família de minha mulher. Senti aumentar-se o meu amor ao passo que a violência, que eu me fazia para ser bom aparentemente, ia diminuindo. Até cheguei a convencer-me de que os virtuosos sem mascara eram felizes. Pedi minha mulher, e concederam-ma. Casei... e depois...
--Foste sempre um bom marido...--interrompeu ela.
--Se tu o dizes, devo acreditá-lo, e a consciência também me diz que o fui; porém, a explicação da minha reforma tem alguma coisa singular. Fiz-me bom por orgulho, primeiro. Os nossos conhecidos, e particularmente os meus rivais, diziam que eu te faria desgraçada. Entrou o meu amor próprio no combate, e tu foste feliz. Quando o mundo já não reparava nos meus atos, e calava envergonhado os seus vaticínios, era eu teu amigo, teu verdadeiro amigo, sentia-te muito dentro do coração, e já não poderia, se quisesse, expulsar-te de lá. Apliquemos o conto: Álvaro da Silveira, com quem simpatizo, foi o que tu sabes, meu irmão.
«Ainda não há quatro meses que o encontraste entregue aos prazeres de um gosto pervertido. Em poucos dias mudaste-lhe as inclinações; mas o aborrecimento em que o viste, deu-te receios de que o teu bálsamo fosse ineficaz. Conduziste esse homem a minha casa; conheci que Maria o impressionara, e, depois de dois meses de frequência constante, Álvaro quer casar com minha filha. Quando se ama, meu irmão, é fácil fingir dois meses uma virtude que não tem raízes no espírito, e as que tem somente no coração morrem, quando o amor acaba. Não duvido que Álvaro ame extremosamente minha filha; mas receio que não seja amigo dela: coisas muito diversas, cuja diversidade só bem se conhece dos trinta anos em diante. Um casamento rico não me lisonjeia. Habituei-me a esta pobreza, e sou feliz, não sei até se alguma vez o fui mais do que hoje. Maria também é feliz. Vê, sem deslumbrar-se, os esplendores da sociedade. Sentiu privações em criança, e hoje, não as sentindo, agradece a Deus uma prosperidade que seria indigência, se ela tivesse conhecido a abundância, o fausto, e as demasias de prazeres e dissabores que sua mãe conheceu. Não a casemos para a fazermos rica. Se esse moço pode dar-lhe ao espírito novos gozos, seja ele embora seu marido; eu, porém, não creio que ele possa comunicar-lhe o que não sente. Estuda-o, meu irmão; estudá-lo é esperar. Entretanto Maria aprenderá de sua mãe as lições que deve receber uma menina que vai ser mulher.
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