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Lágrimas Abençoadas

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo 58 · Lágrimas Abençoadas

Livro III - Capítulo IX

58 de 97 ≈ 6 min de leitura

--Nesta casa chora-se mais do que se reza--disse o padre.

--Não são pecaminosas as nossas lágrimas, meu irmão...--disse a mãe de Maria.

--Pois então dizei-me por que chorais.

--Logo, logo...

Maria beijou a mão do tio, e saía, enxugando as lágrimas.

--Onde vais tu, menina?--disse o velho.

--Vou trabalhar, meu tio.

--Havemos de falar logo.

Ela saiu, e o frade disse a sua cunhada:

--Vá chamar seu marido e venha com ele.

O coronel entrava neste momento.

--Ei-lo aqui. Ora vinde cá ambos; temos muito que dizer e que pensar. Dizei-me cá: o que vos diz o coração a respeito de Álvaro?

--Bem; parece-me um bom moço.

--E o vosso, minha irmã?

--Tenho-lhe afeição de mãe, estou familiarizada com ele como se o conhecesse desde criancinha.

--E sabeis o que Maria pensa a respeito dele?

--Soube-o--disse a cunhada--no momento em que meu irmão entrou. As lágrimas que viu nos olhos dela eram a confissão do seu segredo.

--Pois que disse ela?--atalhou o coronel.

--Nada, quase nada... Vendo que eu lhe adivinhava o coração, lançou-se-me ao pescoço, chorando. Disse quanto podia dizer.

--Ama-o, em suma--disse o frade--Não admira; o moço é digno dela, e a Providência quer que se amem...

--E que tem ela que esperar desse amor?--interrompeu o coronel.

--Tem que esperar as consequências de uma afeição aprovada por seus pais...

--Se eles a aprovarem, meu irmão.

--Pois tu reprovas o amor da tua filha a Álvaro da Silveira?! Eu fico por ele... Quereis melhor fiador? Dou-vos a virtude de Maria. Se a nós não defendermos, defende-se ela.

--Sabes pouco do mundo, meu irmão--redarguiu o coronel.

--Não sei muito, não; mas o que é preciso saber para o nosso caso, sei-o de autoridade certa, que é o pressentimento bom que me dá resolução. O pai de Álvaro diz-me que seu filho quer Maria para sua esposa, e ele pede-a para sua filha. Que respondeis?

--Eu respondo que sim, que lha dou com toda a vontade, com todo o coração--disse a mãe de Maria.

--E eu--disse o coronel--respondo que estudes bem o caráter desse moço, e quando, passados meses, não vier algum acidente inopinado alterar a opinião que tens do seu merecimento, virás então consultar a minha vontade.

--Dizes bem, meu irmão--tornou o egresso--Penso ter-me enganado, e ainda agora caí em mim, e na fraqueza dos meus juízos. Disseste bem: eu conheço pouco do mundo.

--E não sabes--continuou o coronel---que certos homens, sem serem hipócritas, aparecem inesperadamente bons; às vezes uma pequena alteração no seu modo de pensar, produz grandes mudanças na vida exterior. Eu recordo-me de um grande fenômeno na minha vida de mancebo. Aos dezoito anos era eu rapaz desenvolto, vicioso, desobediente a nossos pais, e desprezador de alguns deveres bem sagrados. Amava o escândalo estrondoso; e a publicidade das minhas loucuras desvanecia-me. Vi esta mulher, que é tua cunhada, e amei-a. Os pais dela eram exemplares de virtude, e quem houvesse de merecer-lha devia ser virtuoso. O talvez menos habilitado para lha pedir era eu. Resolvi ser hipócrita; deu nos olhos a minha improvisada virtude, e consegui levar a nova da minha conversão ao conhecimento da família de minha mulher. Senti aumentar-se o meu amor ao passo que a violência, que eu me fazia para ser bom aparentemente, ia diminuindo. Até cheguei a convencer-me de que os virtuosos sem mascara eram felizes. Pedi minha mulher, e concederam-ma. Casei... e depois...

--Foste sempre um bom marido...--interrompeu ela.

--Se tu o dizes, devo acreditá-lo, e a consciência também me diz que o fui; porém, a explicação da minha reforma tem alguma coisa singular. Fiz-me bom por orgulho, primeiro. Os nossos conhecidos, e particularmente os meus rivais, diziam que eu te faria desgraçada. Entrou o meu amor próprio no combate, e tu foste feliz. Quando o mundo já não reparava nos meus atos, e calava envergonhado os seus vaticínios, era eu teu amigo, teu verdadeiro amigo, sentia-te muito dentro do coração, e já não poderia, se quisesse, expulsar-te de lá. Apliquemos o conto: Álvaro da Silveira, com quem simpatizo, foi o que tu sabes, meu irmão.

«Ainda não há quatro meses que o encontraste entregue aos prazeres de um gosto pervertido. Em poucos dias mudaste-lhe as inclinações; mas o aborrecimento em que o viste, deu-te receios de que o teu bálsamo fosse ineficaz. Conduziste esse homem a minha casa; conheci que Maria o impressionara, e, depois de dois meses de frequência constante, Álvaro quer casar com minha filha. Quando se ama, meu irmão, é fácil fingir dois meses uma virtude que não tem raízes no espírito, e as que tem somente no coração morrem, quando o amor acaba. Não duvido que Álvaro ame extremosamente minha filha; mas receio que não seja amigo dela: coisas muito diversas, cuja diversidade só bem se conhece dos trinta anos em diante. Um casamento rico não me lisonjeia. Habituei-me a esta pobreza, e sou feliz, não sei até se alguma vez o fui mais do que hoje. Maria também é feliz. Vê, sem deslumbrar-se, os esplendores da sociedade. Sentiu privações em criança, e hoje, não as sentindo, agradece a Deus uma prosperidade que seria indigência, se ela tivesse conhecido a abundância, o fausto, e as demasias de prazeres e dissabores que sua mãe conheceu. Não a casemos para a fazermos rica. Se esse moço pode dar-lhe ao espírito novos gozos, seja ele embora seu marido; eu, porém, não creio que ele possa comunicar-lhe o que não sente. Estuda-o, meu irmão; estudá-lo é esperar. Entretanto Maria aprenderá de sua mãe as lições que deve receber uma menina que vai ser mulher.

Lágrimas Abençoadas

Sinopse

Leia gratuitamente Lágrimas Abençoadas, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o prefácio e os 96 capítulos reais, em quatro livros, com normalização conservadora para PT-BR moderno.

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