Universo da obra
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Mal o padre saíra, entrou Gonçalo da Silveira. Era o pai que procurava o filho: cumprimentou-o com a sua habitual frieza: mas o que de outras vezes era propósito, poderia então supôr-se distração. Álvaro absorvido nos seus pensamentos, quaisquer que eles fossem, parecia meditar uma das suas heroicas façanhas, sobressaltado, como quem recua diante de algum perigo assustador. Julgara-o assim o pai, julga-lo-iam assim os domésticos, e os cúmplices, ele próprio, talvez, se se visse em um espelho.
--Que tens?... pareces-me sonâmbulo!?--disse o pai.
E Álvaro afavelmente respondeu:
--Pelo contrário: estou acordadíssimo... muito acordado, penso eu.
--Falaste com o egresso?
--Sim, senhor.
--Que te pareceu?
--Um homem bom, virtuoso e extraordinário.
--É realmente... que a virtude tornou-se em nossos dias uma aparição extraordinária, e milagrosa,.. Gostaste dele?
--Quem me dera ser o que ele é...
--Isso é que é extraordinário, meu filho--exclamou o velho.
--Amar um bem, que não podemos possuir, é tão próprio do homem... Que acha o pai de extraordinário, neste meu desejo:
--Muito, muito, meu caro Álvaro!... Tu ontem não falavas assim...
--Também meu pai não amava a formosura de minha mãe, antes de conhecê-la... A virtude é como a virgem, que um homem estragado vê na vertigem de uma orgia, mas não pode amá-la sem aproximar-se realmente do original de essa sombra fantástica. Sabe meu pai o que eu amo em padre Antônio? É a transparência daquela face, que deixa ver um belo coração. Amo-lhe a paz, a firmeza, a confiança com que censura os crimes, sem irritar o amor próprio do criminoso. Amo-lhe a independência com que fala, e a soberania com que responde. Parece que Deus o manda falar! É um belo caráter! A sociedade, se conhecesse este homem, adorava-o!
O júbilo de Gonçalo da Silveira era um delírio. Parece que lhe não ouvira as últimas palavras. A emoção sublimara-se até às lágrimas. Álvaro tocado por uma cena, que nunca ele se julgara capaz de estimular, recebera seu pai nos braços, com veemência, com transporte, com amor de filho, sentimento para ele novo!
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