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Lágrimas Abençoadas

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo 67 · Lágrimas Abençoadas

Livro III - Capítulo XVIII

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Álvaro falara pela boca de todos os maridos maus ou infelizes, quando a libertinagem os não cura do veneno do desgosto com o veneno da desonra. Era de certo o enojo, esse desfalecimento de alma incurável, esse morrer do amor que nunca mais ressuscita, quando a mulher que o causa é esposa, e quando o homem que o recebe não tem a força de virtude que converte a piedade em estima.

A paciência de Maria azedava ainda mais o desgosto de Álvaro, porque as lágrimas em silêncio eram a mais pungente censura que ela podia fazer ao seu procedimento.

A melancolia do padre, cuja convivência ele afastava, e o sobrecenho do pai, irritavam-me o até ao frenesi de raiva às algemas que lhe queriam lançar à sua liberdade.

O padre aconselhava-lhe os bailes, e os passatempos que a sua índole apreciava. Pedia à sobrinha que o acompanhasse para compartir dos prazeres de seu marido; mas a pobre menina, se alguma vez acédia ao que lhe era imposto como dever de mulher casada, ia levar à sociedade o espetáculo da sua tristeza, e dar incentivo de arguições, umas justas, outras exageradas ao procedimento de Álvaro da Silveira.

Menos instada por seu marido, e por seu tio, e por seu extremoso sogro, que lhe era segundo pai, deixou de sair, e mui raras vezes visitou sua mãe, porque não podia mentir às suspeitosas perguntas de seu pai, a respeito da felicidade que o marido lhe dava.

Álvaro, pouco a pouco, foi-se absolvendo de seus deveres, e respeitos à sociedade. Estudou o viver e o sentir dos maridos no círculo das suas brilhantes relações, e viu que entre tantos havia só um que pudesse atirar-lhe uma pedra. Entendeu que podia ser-se um homem importante aos homens, e importante às mulheres, embora casado, embora propenso a esquecer-se todos os dias que o era. Relaxados os deveres, seguiu-se a tibieza nas aparências do decoro, e da delicadeza, última ferida que uma mulher com dignidade pode receber de um mau marido.

O seu antigo amigo conde de *** foi reintegrado na sua particular estima. Era já recebido no seu quarto, era o seu confidente em segredos dignos de ambos, era tudo o que pode ser um amigo íntimo, menos relação de sua mulher. Maria rejeitara com império, pouco natural ao seu caráter humilde, a apresentação do conde. Ouvira falar deste homem em casa de seu pai, ao tio, e ao sogro, de modo que lhe ganhou asco, e não podia vencer o sobresalto com que ouvia anunciar um tal nome, que seu próprio marido, três meses antes, banira das suas relações.

Na primavera desse ano, Álvaro partiu com o conde, e outros de igual porte para o campo, em busca de touros para as corridas do campo de Santa Ana. Demoraram-se vinte dias nessa gloriosa expedição digna dos netos de Vasco da Gama e de Afonso de Albuquerque... Durante esse tempo, Maria não teve de seu marido um bilhete, nem uma saudade. De volta, Álvaro achou sua mulher gravemente enferma de essa moléstia que entra no coração, e filtra de lá o veneno da morte por todas as fibras.

Disse-lhe palavras consoladoras, instigadas pelo espinho do remorso, palavras calculadas na frieza do seu desamor; mas a ideia satânica da viuvez entrou-lhe na alma com a esperança de uma felicidade imprevista.

É horrível! mas não duvideis... Olhai de redor de vós...

Lágrimas Abençoadas

Sinopse

Leia gratuitamente Lágrimas Abençoadas, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o prefácio e os 96 capítulos reais, em quatro livros, com normalização conservadora para PT-BR moderno.

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