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Lágrimas Abençoadas

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo 47 · Lágrimas Abençoadas

Livro II - Capítulo XXII

47 de 97 ≈ 20 min de leitura

Neste momento, abriu-se a porta do quarto. Os que a abriram eram o pai de Álvaro, e fr. Antônio dos Anjos.

A presença do sacerdote devia aumentar o pasmo cômico do conde; mas a impressão foi diversa. Este homem do grande mundo perdia muito da sua altivez sarcástica, se não tinha em redor de si um rancho que lhe aplaudisse as chufas. A única pessoa de sua confiança, naquele momento, era Álvaro, mas este apóstata do «grande tom» não era hoje o homem de ontem. E, por tanto, o desenvolto conde na presença do padre sentiu-se embaraçado, como devera sentir-se o padre na presença de três cavalheiros da força moral do conde.

Frei Antônio dirigiu sua humilde saudação ao cavalheiro, que não conhecia. Álvaro apresentando-lho, disse:

--Tenho a honra de lhe apresentar o meu amigo conde de ***. É mais velho do que eu, mas posso dizer afoitamente que sabe menos do que eu da verdadeira ciência.

--A verdadeira ciência--disse o padre--é um exclusivo de Deus, e não tem academias cá na terra.

--Concordo absolutamente na negativa--disse enfaticamente o conde.

--Então em que é que concordas? perguntou Álvaro.

--Em que não se sabe nada a respeito da verdadeira ciência.

--E em que é que não concorda, senhor?--interrompeu frei Antônio, com risonha benevolência.

--No exclusivo divino em que vossa reverendíssima monopoliza a ciência--responde o conde sorrindo sardonicamente à palavra reverendíssima.

--Não me parecem respeitosas as palavras da resposta--retorquiu o padre--mas nem por isso hesitarei em fazer-me compreender melhor, para depois avaliar a opinião de v. ex.a. Quando eu disse que a verdadeira ciência era um exclusivo de Deus, poderia fazer-me entender melhor se dissesse que o objeto do estudo que prometia consequências seguras de princípios certos, é Deus. Se v. ex.a quiser insistir na primeira inteligência que deu às minhas palavras «que a verdadeira ciência é um exclusivo da divindade, porque só Deus é omnipotente...»

--Assim reza a cartilha do padre Ignácio--interrompeu o conde com acatamento irônico.

--É verdade--replicou o padre--a cartilha do padre Ignácio, que v. ex.a citou em ar de mofa, assim o diz e deve dize-'lo, porque essa cartilha, por onde estudam os meninos, contém as verdades eternas como elas foram recebidas pelos sábios e ilustrados doutores da igreja. E como é possível que não soe bem aos ouvidos de v. ex.a esta minha linguagem, buscada de empréstimo na cartilha do padre Ignácio, eu não poderei, falando-lhe a ciência de Deus, empregar os termos que a falsa filosofia emprega contra Deus.

--V. s.a faz uma grave injustiça à filosofia. Sem a filosofia--disse o conde, assumindo um ar de séria profundidade--sem a filosofia não poderiam os padres da seita cristã seduzir o espírito dos homens, a ponto de convencer alguns menos reflectidos, da divindade do cristianismo.

--E por tanto--acudiu o padre--deixe-me v. ex.a concluir que a filosofia é uma mentira, por isso que os padres da seita cristã, como v. ex.a gratuitamente apelida a igreja católica, se serviram dela astuciosamente para convencer os menos reflectidos. Ora pergunto eu agora, quais são os mais reflectidos?

--São os que veem as coisas pelos olhos de uma razão ilustrada!

--Mas a razão ilustrada não é a filosofia?

-É.

--Logo a razão ilustrada é uma mentira, por isso que a filosofia é uma mentira, que seduz os menos reflectidos a julgarem divino, o que não passa de uma humana impostura. Pode v. ex.a elucidar-me nesta grave questão, que não vem resolvida na cartilha do mestre Ignácio?

O conde embaraçado, e surpreendido pela argumentação Escolástica do padre, parecia engasgar-se em uma resposta, cuja frivolidade lhe estava bem denunciada no rubor que lhe subia à face. Este rubor era a arrogância despeitada. Frei Antônio, repeso de assolar tão cedo o frágil edifício do seu adversário, remediou o mal que, segundo a sua humildade, tinha feito, dando ele próprio a mão ao fraco contendor.

--Estou como v. ex.a persuadido--disse ele--que há uma filosofia à qual faria grave injustiça, se não dissesse que muito lhe devemos por nos ter aplanado algumas dificuldades em ciência. Estas dificuldades vencidas serviram a causa de Deus, e confirmaram verdades claras que a razão humana julgara mistérios. Citar-lhe-ei um exemplo. Há um século escreveu-se contra o cristianismo, e disse-se que a religião assim chamada era um encadeamento de embustes desde Moisés até Jesus Cristo, desde o Gênesis até o Evangelho. Os que assim escreviam eram filósofos, sr. conde?

--De certo, porque os que assim escreveram foram Voltaire, de Alembert, Holbac...

--E outros muitos que não é força citar. Pois, senhor, esses reputados filósofos disseram que Moisés era uma impostura, por isso que a filosofia não podia consentir que a relação dos sucessos da criação do mundo, descrita no Gênesis, fosse verdadeira. Passados anos, as academias científicas, especialmente a sociedade de Calecut, expressamente organizada para testificar ou destruir o testemunho de Moisés, declara que é impossível compreender a cosmogonia, isto é, a formação do mundo, sem admitir as infalíveis bases de ciência, escritas há cinco mil anos nos livros do povo hebreu. Agora pergunto eu se devemos julgar filósofos os primeiros que negaram Moisés, ou os segundos, que, partindo das veredas da incredulidade para o caminho recto da ciência, declararam, após cem anos de progresso em ciências naturais, que a narração do Gênesis era a única admissível em verdadeira filosofia. Se acreditamos os primeiros a ciência é uma mentira, por isso que tanto mais progride tanto mais se afasta da verdade. Se acreditamos os segundos, os primeiros eram os mentirosos, e por tanto eu proclamarei a filosofia progressiva como aquela que conduz ao conhecimento de Deus, tanto quanto é possível às indagações da limitada razão do homem.

--A razão do homem não é limitada--retorquiu o conde.--À razão do homem é que devemos o vasto terreno da ciência, granjeado pelos esforços desses homens que conquistaram verdades axiomáticas, sem as armas do Evangelho, e sem as esterilizadoras argucias da teologia. A razão do homem é amplíssima e imensa com Deus, porque Deus é a razão.

--Não estamos já na questão que discutimos--tornou o padre.--V. ex.a devia destruir os meus argumentos, provando-me que os verdadeiros filósofos eram os do século passado que destronaram Moisés do seu prestígio de legislador inspirado diretamente de Deus. Devia provar-me que a ciência moderna, restaurando as tradições da história antiga, e restituindo Moisés ao patriarcado das primitivas verdades, era uma nova impostura, ou a continuação daquela sórdida ignorância que Voltaire combateu triunfantemente, segundo a maneira por que v. ex.a vê as coisas. E, estando eu muito convencido da impossibilidade que v. ex.a há de encontrar em provar-me as teses que lhe apontei, vou responder à apologia que fez à razão do homem.

Não há dúvida que a razão humana procura todos os dias tirar, em ciência, novas consequências de velhos princípios; e efetivamente esse incansável trabalho do espírito humano, ansioso de progredir, tem conseguido tudo isto que nos maravilha nas ciências e nas artes. Já vê v. ex.a que eu concedo grandes foros, e sublimes honras à razão; mas, já que tão opulenta a considero, não terei escrúpulo em pedir-lhe que me explique os princípios de que ela tira as suas consequências científicas. Pedirei aos químicos, que me expliquem o seu grande princípio axiomático da «afinidade». Responde-me v. ex.a em nome deles?

--Eu de certo não, porque ninguém soube dizer o que era afinidade.

--Não é tanto assim. Os químicos dizem que a afinidade é a força que atrai as moléculas de diferente natureza. Respondem assim, porque observaram a combinação de essas moléculas; mas queria eu que me fosse explicada a natureza de essa força, o segredo desse movimento de corpos inertes, sem que a mão do homem lhe imprima tal movimento. É a «atração» dizem os físicos, mas o que é a atração? Donde vem a força impulsiva que faz girar o globo que habitamos em redor de um outro globo, que não conhecemos?

--Não temos precisão de conhecer até à evidência esses segredos da criação.

--Mas v. ex.a concede que o Criador não os ignora?

--Seria um absurdo não o conceder.

--E a razão humana não pode conhecê-los?

--Já disse que não.

--Mas v. ex.a disse que Deus é a razão humana! Eu sinto grandes dificuldades em combinar a sua tese com as consequências que se tiram dela. Se a razão humana é Deus, o homem é forçosamente divino pela celeste razão que o ilumina. Se o homem, com a sua razão, não pode profundar os segredos da criação, eu não posso conceder que Deus, pelo fato de modificar-se em «razão» unindo-se à humanidade, reservasse para si certos mistérios como «Deus», e cedesse a si próprio o conhecimento de certas e determinadas verdades como «razão.»

--Não combinamos em princípios, meu caro senhor, e daí vem a desinteligência em que estamos nas consequências. Eu vou explicar-me com clareza: Eu digo que a razão do homem é uma emanação de Deus.

--Mas eu não entendo, sr. conde, o que é, e como se ópera essa emanação de Deus. Deus é indivisível; Deus é inalterável; Deus é imutável. Não posso, por mais abstratas que sejam as minhas intuições, imaginar que a emanação de Deus não seja uma parte de Deus; e, por tanto, não concebo como essa parte seja substancialmente diversa do todo. Deus considerado em si, segundo v. ex.a, é omnisciente, e vê os segredos da sua obra: Deus, convertido em razão pelo efeito da emanação, segundo os mesmos princípios, perde os atributos de Deus omnisciente, e restringe-se ao conhecimento de algumas verdades, por meio das quais é impossível conhecer os mistérios, que há perto de seis mil anos, os homens debalde tentam descortinar.

--Pois v. s.a não admite que todo o ser criado é uma emanação de Deus?

--Não, senhor, não admito.

--Essa é boa! Pois a criação não é uma produção de Deus?

--E a produção é por ventura uma emanação? A estátua de barro que sai das mãos do escultor é uma emanação de escultor? Deus incorpóreo poderia materializar-se nas massas inertes, que foram produto de sua omnipotência, tanto como o homem que foi feito à sua imagem?

--Aí está um grande embaraço para mim. Não compreendo como o homem corpóreo foi feito pelo modelo de Deus incorpóreo.

--A imagem de Deus, sr. conde, é a alma, não é o involucro material da alma. Memória, vontade, inteligência são os traços de essa fisionomia espiritual afeiçoada pelo tipo divino. Atribuímos à memória tudo o que sabemos, diz S. Bernardo, posto que esta ciência não seja a causa de nossos pensamentos; atribuímos à inteligência, e algumas vezes à memória, tudo o que o pensamento nos mostra verdadeiro; imputamos à operação da vontade tudo o que reconhecemos ser bom e verdadeiro pelo socorro da inteligência. A memória nos assemelha ao Pai, a inteligência ao filho, a vontade ao Espírito Santo. Seja-me permitido citar Santo Ambrósio, em quanto v. ex.a invoca os textos de Voltaire. «Do mesmo modo que Deus, diz ele, criador do homem à sua semelhança, é caridoso bom e justo, doce e sofredor, puro e misericordioso... assim o homem foi criado para possuir a caridade, ser bom e justo, doce e paciente, puro e misericordioso. Quanto mais o homem sente em si essas virtudes, mais se aproxima de Deus, e mais semelhança tem com ele. Mas, se ulcerado pelo crime e pelo vício, ele se afasta e degenera desta nobre semelhança com o seu Criador, descerá à realidade destas palavras escritas em predição bem desgraçada: «O homem não compreendeu a sua elevada posição; comparou-se aos irracionais, e assemelhou-se a eles.»

--Parece-me muito metafísica a sua explicação, sr. padre. Eu gosto da geometria em todas as demonstrações, e não admito verdades sem evidência matemática. O seu Santo Ambrósio e S. Bernardo explicariam perfeitamente a semelhança do homem com o seu Criador, mas foi em esses tempos em que falavam às turbas crédulas, que juravam em suas palavras sem entendê-los. Hoje é muito perigoso esse assunto, e não me consta que desde o século do grande Rei, desde Bossuet até Frayssinous, algum orador cristão torture a inteligência do seu auditório, querendo à força persuadir-lhe que o homem foi criado à semelhança de Deus!

--V. ex.a não tem obrigação de ter lido tudo; mas também a não tem de calumniar Bossuet. Se a memória não me falha, eu lhe cito as palavras textuais do grande orador: «Façamos o homem; e proferidas estas palavras, a imagem da Trindade apareceu. Ostenta-se luminosa na criatura racional: semelhante ao Pai tem o ser; semelhante ao Filho tem a inteligência; semelhante ao Espírito Santo tem o amor; semelhante ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo, tem, no seu ser, na sua inteligência, e no seu amor uma mesma felicidade, uma mesma vida. Feliz criatura, e verdadeiramente semelhante, se ela se ocupa unicamente dele! Então, perfeita no seu ser, na sua inteligência, e no seu amor, conhece quanto é, ama quanto conhece: seu ser e suas operações são inseparáveis; Deus torna-se a perfeição do seu ser; a nutrição imortal da sua inteligência, e a vida do seu amor... Ditosa criatura, se sabe conservar a sua felicidade!»

--Esta é a doutrina de S. Bernardo, de S. Ambrósio, de Bossuet, de Frayssinous, e de todos aqueles que bebem o leite da fé no seio da esposa de Jesus Cristo.

--Não duvido; mas não compreendo. O que eu sei é que repugna com a menos desenvolvida razão a semelhança espiritual do homem com Deus. Eu conheço homens tão degradados da honra, tão hediondos de crimes, que reputara-me blasfemo se os considerasse semelhantes no tipo divino.

--Há de ter paciência de escutar-me com a atenção de filósofo, se não pode prestar-me outra.--A revelação figura-nos o homem, não só como o mais perfeito de todos os seres animados, mas ainda como o rei da natureza, para o qual foram feitas todas as coisas. Por ela aprendemos que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, para que presidisse ao universo. Sabemos ainda que, depois de dar-lhe uma companheira, disse a ambos: «Crescei e multiplicai, enchei a terra da vossa posteridade, submetei a vossas leis tudo o que respira; pois tudo é feito para vós.» «Vós o fizestes senhor de todas as vossas obras!--exclama o salmista--todos os entes vivos são submissos ao seu império, e destinados para seu uso.» É verdade que a escritura varia a linguagem, quando lembra ao homem a sua construção de terra, que em terra se tornará. Assim era necessário para sufocar os orgulhos do coração. Não é, porém, o longo viver sobre a terra que constitui a dignidade do homem. Não é sobre a terra, que a felicidade lhe sairá ao encontro. Criado para Deus e para a eternidade, só no seio de Deus, e no seio da eternidade poderá ser feliz desse gozo inalterável que não se finda. É aqui onde começa a cadeia de objecções por parte da incredulidade. Nega primeiramente que o homem fosse feito à semelhança de Deus. Quem quiser, porém, convencer-se desta verdade, observe com atenção o modo como a alma exerce suas funções, e o domínio que ela tem sobre o involucro de matéria inerte, que lhe obedece: Consideremos a variedade infinita das nossas ideias, a rapidez com que elas se formam, a comunicação por intermédio da palavra, a fidelidade da nossa memória, esse pressentimento que raras vezes nos engana, tudo parece aproximar-nos da suprema inteligência, que abraça de um lance o céu e a terra, as passadas, as presentes e as futuras revelações da humanidade. A alma, quando furiosas paixões a não agitam, é capaz de reprimir seus desejos; de acalmar seus movimentos desordenados, de dirigir sua vontade, e aí se observa uma, posto que imperfeita, imitação do império que Deus exerce sobre todos os seres. O sentimento que ela tem de sua imortalidade, seu olhar penetrante nas profundidades do futuro, e suas esperanças ansiosas além do túmulo, são indicações do seu destino, assinalado por Deus.

--Essa imagem de Deus--atalhou o conde--está bem degenerada; e, se o não está, Deus é um ente bem imperfeito.

--Concordo--tornou o padre--que não é muito semelhante esta imagem do homem imperfeito com a do seu perfeito Criador; era-o, contudo, no momento da criação; foi o pecado que o desfigurou. Mas se o homem degenerou por causa do pecado, lapso da sua inocência primitiva, foi depois regenerado pelo sangue do Salvador, e, assim resgatado, tornou-se pela graça filho de Deus. O homem, no estado de inocência, devia dominar-se, dominar as criaturas todas, e viver perfeitamente com Deus, seu criador. Eu quereria poder aqui especificar a substância da alma, para satisfazer plenamente às dúvidas do sr. conde, mas, se eu posso provar que a sua espiritualidade está provada pela sua origem, devemos convir que tudo mais nos é desconhecido. Porque Deus soprou o barro que amassara, não se segue que a alma humana é uma porção de Divindade, como os antigos egípcios acreditavam: esta suposição levar-nos-ia ao panteísmo, de todos os sistemas o mais insensato. Deus é um espírito, o espírito é indivisível; e, recebendo cada homem no halito criador uma porção de Divindade, cada homem seria um Deus. O que devemos entender do sopro de Deus não é uma emanação da substância, mas sim a criação de uma substância semelhante, isto é, espiritual, mas nunca idêntica ao Supremo Espírito.

--Não existe entre o corpo e essa substância espiritual uma união real?--interrogou o conde.

--Certamente, existe, porque o corpo é o instrumento de que a alma se serve para obter o conhecimento dos objetos.

--Mas qual é a natureza de essa união?

--Essa questão não pode ser solvida pelos homens: é um mistério daqueles em que a Divindade se manifesta com mais majestade ao débil entendimento da humanidade. Se, porém, não é possível chegar à última consequência de essa pergunta, não é difícil provar-lhe que uma tal união existe. A alma possui sobre o corpo a soberania e a independência da vontade; rege-o pelo pensamento, sem compreender a disposição dos órgãos que rege, e sem que perceba a potencia que move e anima as fibras. Sabe, por ventura, v. ex.a explicar-me a natureza de certas operações incógnitas, que se passam em si? Sem a degradação produzida pelo pecado, este império da alma não acharia estorvos no seu exercício; mas, no estado atual, a vontade é muitas vezes vencida pela resistência dos sentidos.

--Pois bem, tornou o conde--eu ponho de parte a estéril pretensão de querer saber onde está a alma, e peço que me diga, sr. padre, que culpa tenho eu no pecado de Adão, para estar pagando as suas dívidas? Isto parece-me uma flagrante injustiça!

--Deus é soberanamente sábio, bom, e misericordioso; disse-nos que o pecado de Adão era uma herança de culpa para todos os seus descendentes; devemos acreditá-lo. São-nos desconhecidos os motivos desta responsabilidade; mas não se segue que possamos, como ignorantes, alcunhar de injusto o Altíssimo. Neste mundo há alguma coisa semelhante. Diz-se que as faltas são pessoais, e que a vergonha de uma ação criminosa deve só recair naquele que a prática. E, quando um crime estrondoso se dá que é o que nós fazemos? perseguimos com ódio e com desprezo o condenado e a família do condenado, até lhe cortarmos os vínculos que a prendem à sociedade. Não quero dizer que Deus sinta estas repugnâncias próprias dos homens, porque não sabemos o motivo porque ele produziu obras, que apenas podemos contemplar; o que dizemos é que Deus é infinito, eterno, e que a pena do pecado, para estar em proporção com a sua natureza, deve ser eterna e infinita. No estado de inocência, o homem tinha a luz da sua inteligência, e, degradado pela culpa, caiu nas trevas; de senhor absoluto da sua vontade tornou-se escravo dos sentidos; pelo repouso e felicidade que possuía, trocou a tristeza e o tumultuar das paixões, que o infelicitaram: em logar da vida espiritual e eterna, encontrou a vida material e a morte.

O conde atalhou as razões do padre, espreguiçando-se rudemente, abrindo a boca, esfregando os olhos, com a mais sensível ostentação de escárnio. Fr. Antônio sorriu-se com bondade, e disse para o pai de Álvaro:

--Eis aqui como a filosofia do orgulho, esta rainha cômica do mundo, responde aos que lhe perguntam pelos seus foros de realeza...

--Não é isso, sr. padre--interrompeu o conde.--É que eu passei uma noite pouco ortodoxa e não posso digerir o suco nutriente da sua teologia sem dormir algumas horas, para restabelecer a boa harmonia entre as funções do entendimento e as dos sentidos. Bem sabe v. s.a que os apóstolos dormiram, e mais era Cristo quem lhes pediu que velassem. Ora eu não tenho a audácia de comparar-me a Cefas, e vossa reverência não quer de certo também comparar-se ao Mestre... Meus senhores, a minha noite começa agora... Vou dormir, naturalmente sonharei com S. João Chrysostomo, e S. Bernardo... Boas noites.

Lágrimas Abençoadas

Sinopse

Leia gratuitamente Lágrimas Abençoadas, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o prefácio e os 96 capítulos reais, em quatro livros, com normalização conservadora para PT-BR moderno.

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