Universo da obra
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Passada uma hora e um quarto, foi a sobrinha, atemorizada pela falta, que entrou subtilmente no quarto de seu tio. O velho estava de joelhos diante de uma cruz. Sentiu-a entrar, voltou um pouco a face, e disse:
--Espera um bocadinho, menina; eu falo-te já.
Maria ajoelhou ao pé dele.
--Pois sim, oremos juntos: disse o padre--se já resolveste, pede comigo ao Senhor que mude a tua tenção, se ela não é do seu agrado.
Decorridos alguns minutos ergueram-se ambos.
--Pensei, meu tio--disse Maria.
--E então?
--Creio que Deus permite a minha vontade: o tio me dará a certeza da minha fé, se não se opuser.
--Pois diz, filha.
--Eu fujo a meu marido.
--Como? foges a teu marido?!--atalhou o velho espantado.
--Acolho-me ao seio de Deus, para morrer tranquila.
--Entendi; minha filha!--exclamou ele com júbilo abraçando-a.--Queres dizer que entras em um convento.
--Sim, sim.
--Foi a minha ideia, quando orava...
--Sim? então, bendito seja Deus!--disse Maria erguendo as mãos com arrebatamento.--Já vejo que o Senhor aprova a minha resolução. Eu pedi muito à Virgem que lha inspirasse, meu tio. Vou para as Teresinhas. Tenho lá muitas amigas que me hão de fazer digna de orar com elas. Trabalharei para viver em flores, em recorte de papéis, em tudo, por que pouco me basta. Poderei vê-lo todos os dias, meu tio, e verei meus pais, e meus irmãos. Se Álvaro um dia me quiser, ele irá procurar-me, e eu serei sempre o que sou e o que fui. Não lhe tenho ódio, não tenho. Sei que ele há de ser ainda muito infeliz, e talvez seja eu, depois de meu tio, quem lhe restitua a boa alma que ele tinha quando o conheci.
--Tu choras. Maria?--interrompeu o padre carinhosamente--Levas saudades de Álvaro, não levas?
--Saudades? não sei que sentimento é este!... parece-se mais com o da compaixão. É como se eu dissesse: podíamos ser ambos tão felizes!.. e assim não se sabe qual de nós será o mais desgraçado! É o que eu sinto, meu tio. Já vê que o estimo ainda como se fosse um meu irmão perdido de vícios, que maltratasse sua família, e que eu tivesse conhecido enchendo de carinhos minha mãe e meus irmãos. Lembra-me que ele era tão amigo de todos! entrava na nossa casa como se fosse nosso... agradecia tanto o nosso bom agasalho, sem saber que nós ficávamos sempre tristes quando ele nos deixava... É porque eu choro, meu tio... Isto é saudade do que ele foi, e compaixão do que é.... Paciência... Vou para as Teresinhas... Imaginei-me sempre lá desde criança, não se lembra? No tempo em que eu cantava aquelas palavras tristes, pensava tanto em pedir a minha mãe que me deixasse entrar no convento, ainda que fosse como criada...
--E hoje, Maria... talvez... tenhas de entrar como criada...
--E isso que tem, meu tio?! Pois nas Carmelitas não entravam tantas senhoras distintas que faziam a cozinha às semanas? Que tem que eu seja criada? Álvaro não pode envergonhar-se disso; porque há muitas situações vergonhosas para um marido, mas esta--a de servir--não é uma de essas... pois não?
Maria corou proferindo algumas de essas últimas palavras. Fr. Antônio depois de abraçá-la, disse:
--Eu vou para Lisboa, minha sobrinha. Falarei com a prioresa; veremos como hás de entrar; antes, porém desse passo, é preciso que escrevas a Álvaro.
--Pedindo-lhe consentimento?
--Sim.
--Se mo nega?! não vou?
--Vais, Maria. A petição é a humildade da esposa; mas a fuga é o último direito da vítima. Onde há algoz não há marido.
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