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Lágrimas Abençoadas

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo 56 · Lágrimas Abençoadas

Livro III - Capítulo VII

56 de 97 ≈ 6 min de leitura

À primeira visita sucederam outras.

Álvaro realizara as esperanças do padre. A sombria tristeza, que assustara o mestre, cedeu a uma alegria doce que sorria no semblante do discípulo. O pai deste, compartindo no contentamento do filho, quis também conhecer o asilo de paz santa onde Álvaro fora encontrar a felicidade, que o mancebo dizia não ser coisa impossível na terra, desde que visitara a obscura família de frei Antônio.

Redobrou o prazer do padre. O velho fidalgo foi acolhido como pai de um moço que era ali estimado como parente e recebido sem vislumbre de suspeita má. As noites passavam rápidas para todos. Coisas pequenas, passatempos quase pueris, entretinham velhos e moços. Silveira, tão zeloso da honra do coronel como ele próprio, espionava as intenções de seu filho, como quem receia que a virtude não esteja ainda tão enraizada naquele coração juvenil, que o torne frio para os mil encantos de Maria dos Prazeres.

Eis aqui um diálogo entre o pai e o filho, quinze dias depois que frequentaram juntos a casa do coronel.

--Parece-me que és feliz, Álvaro.

--Sou, meu pai, sou muito feliz. Se eu dissesse que não sou, era ingrato a Deus.

--Pois, filho, sê digno das mercês que Deus te faz. Põe da tua parte a força e a virtude para continuar a Merecê-las. A virtude, Álvaro, a virtude. Nunca te esqueça esta palavra: seja sempre a tua ancora, se a tempestade vier depois da bonança...

--Nunca a esquecerei, meu pai. Cada dia se me dobram as forças para vencer o mal. As reminiscências do passado afligem-me e envergonham-me. Em quanto eu olhar assim para o homem que fui, nunca me será preciso lutar com as tempestades, em que o refugio está na ancora da virtude.

--Pois sim, filho; mas por mais risonho que esteja o céu e calmoso o mar, não largues nunca a ancora: tem-na sempre apertada ao coração, porque é lá donde rebentam as maiores tempestades.

--No coração? Eu creio, pai meu, creio que é nas tempestades do coração que se morre...

--Se a virtude nos não vale...

--A intenção com que me diz essas palavras...

--É boa, Álvaro; é a intenção com que um bom pai aconselha um bom filho, e até um mau filho. Que perda para todos nós se o coração que se te renova hoje, meu filho, obedecesse a uma impressão das que se não deixam vencer por pequenas resistências...

--Fale, fale, meu pai... tenho precisão de ouvi-lo porque preciso que me anime a falar-lhe.

--Adivinhei a tua alma?

--Não sei o que vai dizer-me... Quer-me falar da...

--Da filha do coronel... quero falar-te desse anjo que nos tem cativos a ambos, e nem eu sei qual de nós daria mais depressa a vida para que nunca um desgosto por nossa causa lhe banhe de lágrimas a face.

--Que desgosto podemos dar-lhe, meu pai?

--Que sentes por ela, Álvaro?

--O pai adivinhou-me... é um anjo que nos tem cativos a ambos; mas o meu cativeiro é cheio de consolações, é uma prisão que me não custa desgostos nem frenesis... Não vê que sou tão feliz assim? Se me dão a liberdade, fazem-me desgraçado. Amá-la...

--Amá-la!?...--interrompeu o pai com sobresalto.

--Amá-la, sim, pois não é isto amá-la? O que sinto, o que senti, vendo-a uma só vez, tem alguma semelhança com tudo o que me fez vertigens do coração noutro tempo? Amá-la, sem que eu lho diga, adorá-la, com a devoção dos justos, recolhê-la em segredo à minha alma, e tão em segredo que nunca ela possa temer uma só palavra menos inocente que todas as nossas conversações... amá-la, assim, meu pai, provocar as tempestades do coração?

--É, filho.

--É? então, meu Deus, não há virtude que resista ao impulso de uma mulher! O homem, que quiser viver em boa paz com o céu, há de renunciar a tudo que está na terra proclamando a grandeza de Deus. A religião, que nos não veda o amor, está em contradição com a virtude...

--Não está, Álvaro. A religião criou um sacramento para santificar o enlace dos corações que se inclinam para um fim justo, para uma união em que a virtude é o vínculo de cuja quebra há tremendas contas a dar, e grandes expiações a sofrer na terra.

--Pois bem, meu pai...

Álvaro sustara o pensamento que vinha aos lábios, em quanto as lágrimas se mostraram.

--Diz, Álvaro. Tu ias dizer alguma coisa que te fez chorar. É sensibilidade ou arrependimento?

--Melhor é que o não diga, meu pai... Eu preciso estudar-lhe o coração.

--De D. Maria dos Prazeres? não é necessário, filho. O coração de essa menina não é um livro fechado, é um espelho. Vê-lho na face, nas palavras, na educação...

--Não é o coração de Maria dos Prazeres.

--Pois qual?

--O de meu pai.

--É o coração de um pai... que mais queres que te diga?

--Gosta de Maria dos Prazeres?

--Se gosto!... Não te tenho eu dito que o coronel não deve queixar-se das injustiças dos homens em quanto lhe deixam o trono daquela filha?

--O pai quereria ter uma assim?

--Quisera assim dar-te uma irmã, filho... Oh se queria!...

--E uma esposa?--disse Álvaro balbuciante.

O pai não respondeu. As pálpebras cerraram-se-lhe, que era esse o seu costume na meditação. Com os dedos da mão direita comprimiu o lábio inferior, tirando por ele. Passou a mão esquerda por entre os cabelos; e, depois de alguns segundos, disse:

--Queria.

--Queria assim dar-me um esposa?

--Queria. E serias tu digno dela?

--Não ouso responder.

--Pois medita.

Silveira ergueu-se. Tomou a mão do filho, e apertou-lha com comoção, dizendo-lhe como quem profere um juramento na presença de Deus:

--O homem que maltratar aquela mulher deve dar terríveis contas da sua crueldade. Medita, Álvaro.

E deixou-o.

Lágrimas Abençoadas

Sinopse

Leia gratuitamente Lágrimas Abençoadas, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o prefácio e os 96 capítulos reais, em quatro livros, com normalização conservadora para PT-BR moderno.

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