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Lágrimas Abençoadas

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo 32 · Lágrimas Abençoadas

Livro II - Capítulo VII

32 de 97 ≈ 7 min de leitura

Álvaro da Silveira costumava tocar a campainha depois do meio dia, quando alguma empresa impertinente lhe não assaltava o precioso sono da manha.

Fr. Antônio, prevenido, foi visitar sua família, cuja ausência lhe parecia longa e incomportável. Antes de sair trocou algumas palavras com o dono da casa pedindo-lhe que entregasse a Deus a regeneração de seu filho.

Quando entrou na sala, sua sobrinha estava ao piano. Pé ante pé firmou-se onde de longe podia contemplá-la, e surpreendê-la com palmas. Reparou que o papel de estudo não era música. Esperou. De improviso, ao som melancólico das teclas casou-se uma melodia triste, profundamente triste, como as convulsões de um longo gemido. Aquele papel continha a letra do canto. Que versos seriam aqueles?

E o canto parou com a última nota do acompanhamento. Maria firmou os cotovelos nos braços da cadeira, e escondeu o rosto entre as mãos. Às vezes corria as mãos pela testa, e deixava-as pender enlaçadas sobre o regaço. As suas posturas eram todas aflitivas.

--Que tens, minha filha--murmurou o padre caminhando para ela.

Maria ergueu-se arrebatadamente; correu aos braços do tio, e não teve exclamação que revelasse o alvoroço daquela surpresa.

--Cantavas como um anjo--continuou o padre, acariciando-lhe a face pousada no seu ombro--mas tão melancólico era o canto e a música!... Nunca te ouvi ainda esta lamentação! Vejamos que poesia é esta!...

--Não, não, meu tio!,..--atalhou Maria, querendo afavelmente desviá-lo do piano.

--Porque não? Mysterios para o teu amigo que tos adivinha no coração? Segredos para o teu mestre, Maria!

--Não é segredo... é vergonha...--exclamou a linda menina com a voz entrecortada--Esses versos fui eu que os fiz..

--E tens reservado para ti esse dom? Quando disseste ao teu velho tio que fazias versos?--disse o padre sorrindo com meiguice.

--Eu não sabia que o eram... Nem sei se o são...--balbuciou Maria, corando, e procurando fugir de estar presente à leitura.

Fr. Antônio levou-a pela mão ao piano. Tomou da estante a poesia, e leu:

Fr. Antônio lera comovido essas singelas quadras, cujo toque de sentimento não pode enternecer-nos, talvez. Nos lábios dele, trêmulos e nervosos, a poesia soava como um canto fúnebre. Que tristeza no declamar! Poderia ter-se como uma elegia à inocência de Maria? Por Deus que não. O hino, que transluzia da nuvem escura da sua tristeza, era como a luz do relâmpago que aclara, de repente, um amplo espaço: era a luz elétrica das inteligências privilegiadas; o abalo do pressentimento que quer sair do círculo do mistério: a adivinhação do futuro.

--Que é o que entristece a tua vida, Maria?--perguntou Fr. Antônio.

--Já me lembrou se seria a muita felicidade, meu tio.

--Não te compreendo... abre-me o teu coração sem reserva... Serias culpada se fingisses a teu tio as razões do teu sofrimento...

--Não posso mentir-lhe, meu tio... Não sei ainda o que é fingimento... nunca na minha vida menti a alguém. Eu não sei porque estou triste. O meu coração não mo diz, e a minha tristeza nasce-me do coração, esconde-se lá como um segredo aflitivo... E eu que mais hei de dizer-lhe, meu caro amigo? Que peço muito a Deus que me não quebre este cálix de amargura, se a sua divina vontade ordena que eu o esgote.

Maria enxugava as lágrimas copiosas, que pareciam esfriar-lhe o calor febril das faces. Fr. Antônio, contemplativo, olhava para a sobrinha silenciosa, como querendo ler-lhe no rosto a última palavra daquela revelação confusa.

O coronel entrou na sala, e correu a abraçar seu irmão, e dar a mão a sua filha, que lha não beijara ainda. Maria, surpreendida, quis, à custa de um sorriso violento, converter em alegria aquela saudação; mas a dor de filha é necessário que seja pecaminosa para esconder-se aos olhos de pai. O coronel e sua esposa velavam as tristezas de Maria como lhe velariam perigosa enfermidade. Consultaram mutuamente os seus temores; e a severa experiência do mundo alguma vez lhes inspirou bem tristes receios. Aos quatorze anos há melancolias no coração de uma virgem, que apenas tem de misterioso a tendência irresistível, que Deus lhe imprimiu para o ideal de um amor terreno, que, no altar da inocência, recebe uma adoração, senão semelhante, ao menos perfumada com o mesmo incenso do amor divino. E a mãe de Maria recordava-se da sua infância, e perguntava a seu marido se as lágrimas da filha seriam as precursoras de alguma paixão infeliz. Era indiscreta a pergunta. Não se dera nunca o incentivo de suspeita. A vida de Maria não tinha um instante misterioso a seus pais. Trabalho e oração--não tinha outro desvelo desde o amanhecer até à última benção pedida a seus pais.

Maria, valendo-se da conversação do pai com o tio, retirara-se da sala. O coronel assim o queria, para consultar o irmão, homem de Deus, que via o coração dos outros com os olhos puros da probidade. Mas não são esses olhos os mais penetrantes para devassar segredos, que se escondem no coração apaixonado pelo mundo. Quem adivinha as lutas íntimas do espírito, escravizado aos caprichos das paixões, é o homem das paixões, encanecido na amarga experiência delas. Bem pudera Maria dos Prazeres agonizar nas tribulações de um amor criminoso, e sua morte ser um mistério para o padre que não sentia acordar em sua alma o eco dos gemidos de sua sobrinha. O amor de Deus preenche todas as necessidades, responde a todas as aspirações do coração de um justo. Não é o justo de uma longa vida irrepreensível quem pode arrancar ao penitente, que se lhe ajoelha, uma revelação pungente, que o pejo emudece nos lábios. É necessário profundá-la com a sonda das próprias agonias. É necessário adivinhá-la no espírito do penitente, a favor de um sintoma que revela outro, de uma palavra solta que vai prender-se à explicação de um longo silêncio. E esta dolorosa sindicância não pode exercê-la a simples teoria das paixões.

Lágrimas Abençoadas

Sinopse

Leia gratuitamente Lágrimas Abençoadas, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o prefácio e os 96 capítulos reais, em quatro livros, com normalização conservadora para PT-BR moderno.

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