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Lágrimas Abençoadas

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo 27 · Lágrimas Abençoadas

Livro II - Capítulo II

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A vida desta família correra assim três anos. O dia de hoje, empregado em angariar a subsistência do de amanhã, prometia a mesma tranquilidade nos dias sucessivos. E assim passavam.

Frei Antônio era o mestre de Maria. A educação literária, que lhe dava, não era simples. Apaixonado pelos seus, e pelo esplendor da sua pátria, frei Antônio afeiçoara o espírito de sua sobrinha aos moldes graves da poesia portuguesa do século 16.o Fizera-a decorar a história nos cantos das epopeias; afinara-lhe o gosto no arrebatamento daquele gênio, que deu lições de resignação aos desgraçados. Camões era mais que um poema decorado por Maria. A cada verso era interrompida, e o poema tornava-se, comentado pela eloquência do padre, um fecundo manancial de moralidade. O sábio não se contentava com o amor exclusivo da sua literatura. Frei Antônio amava alguns livros franceses, e os italianos de todos os séculos. Maria aos dez anos conhecia as duas línguas, e lia, nas horas vagas desocupadas da noite, com percepção admirável. As suas lições não interrompiam o trabalho das flores. Em quanto de entre os dedos lhe brotava a rosa, incendiavam-se-lhe as faces, lindas como a flor, pelo calor nervoso com que expunha episódios de história, adaptados à sua inteligência pelo estilo enérgico do seu tio. Seus irmãos, mais velhos que ela, porfiavam em imitá-la, e sentiam-se feridos no amor próprio, quando a viam voar pelo mundo da inteligência, defeso à sua. Maria era um prodígio--dizia o pai:--era forçoso reprimi-la na audácia das suas dúvidas sobre motivos religiosos, porque frei Antônio com horror à superstição e fanatismo não tolerava senão a religião na sua maior pureza. «Maria, tinha uma razão, capaz de perder-se por muito enérgica» acrescentava o mestre.

Maria, aos doze anos, mostrava singular desenvolvimento de compreensão. Não se lhe dificultavam as entidades ideais da metafísica, e lecionava seus irmãos na arte de pensar, como se ao seu espírito descessem do céu revelações das que encaminham a razão direita ao alvo das verdades eternas. O juízo, porém, essa faculdade, que não tem ainda o nome na ciência do coração, esfriara-lhe o entusiasmo, que, dois anos antes, lhe acalorava a infantil eloquência. Havia tristeza na amostra do seu talento. Parecia violentar-se quando a estimulavam a revelar a sua opinião em objetos de sabedoria. Até não queria ser galardoada com aplausos, e corava, se a faziam inveja de seus irmãos. Pedia que a deixassem no seu ofício de florista, dando-se por contente do pouco que sabia, pois pouco bastava a uma mulher, que não podia repousar a cabeça, e adormecer no seio da ciência. A formosa artista tivera um piano, em que dedilhava os seus primeiros ensaios, quando seus pais o venderam. Tomara a peito um peso enorme de trabalho, esperando acumular dinheiro que lhe restituísse o seu piano; e conseguiu-o, quando o seu nome se fez célebre, naquele gênero de enfeites, que a moda pagava caros.

Em casa do coronel de ***, até esta época, nunca se reuniram a um chá pessoas estranhas. Aquelas portas fecharam-se: o hábito aplaudiu essa deliberação forçada pelas circunstâncias; e, quando estas mudaram, não foi levemente alterada a sabia economia, que tanto concorrera para a felicidade daquela família.

Não obstante, o nome de D. Maria dos Prazeres não esquecia nos grandes círculos, nos salões do luxo e da moda. A esse nome estava vinculado o prestígio de uma família ilustre, nublada pelas tempestades políticas. Pintava-se com traços exagerados, talvez, a transição da opulência para a miséria; faziam-se romances, mais ou menos idealizados pelo gosto da época; contavam-se assombros de um gênio que o infortúnio acanhava, em forçada obscuridade. Ninguém vira de perto D. Maria dos Prazeres, ninguém a encontrara fora da rua por onde ia à igreja; mancebos, porém, que precisavam interessar na sociedade, cansada de lugares comuns, diziam que a tinham ouvido um minuto, dois minutos, cinco minutos, maravilhados da sua formosura, e pequenos diante da sua eloquência.

Lágrimas Abençoadas

Sinopse

Leia gratuitamente Lágrimas Abençoadas, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o prefácio e os 96 capítulos reais, em quatro livros, com normalização conservadora para PT-BR moderno.

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