Universo da obra
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O nome de Fr. Antônio dos Anjos vulgarizou-se com o de sua sobrinha. A ligação de mestre e discípula apregoava as duas pessoas com igual elogio.
Um fidalgo de Lisboa quis conhecer o egresso. Achou-o semelhante aos gabos, que o engrandeciam. Honrou-o com atenções e obséquios, que ocultavam um fim honesto. O fidalgo tinha um filho de dezoito anos, rebelde aos rudimentos das boas ciências, mas em demasia versado nesta alquimia do mundo, em que o libertino devora primeiro o cabedal da sua virtude, e sacrifica depois a virtude alheia, como o escravo infeliz daquele prestígio queimava no cadinho a sua subsistência, e seduzia depois os outros a empobrecerem-se.
Fr. Antônio, instigado pela caridade que lhe impunha a salvação de um náufrago, aceitou a empresa, recusando a feliz perspectiva que devia remunerar-lhe o seu trabalho.
O padre considerou-se imprudente em anuir, quando viu a funesta impressão que tal notícia causou em sua sobrinha, particularmente. Roubarem-lhe o anjo da infância, quando, adulta, mais carecia daquele esteio a que o seu coração se acostumava, era penalizá-la com saudades inconsoláveis: era uma crueza, não de um estranho, mas de seu tio, que não tinha precisão de assoldadar-se ao pão alheio. Esta sua queixa, justificada com profunda tristeza, e continuas lágrimas, pungia o coração do velho até ao extremo de o lançar no leito da doença. Era irremediável a promessa indiscreta: a palavra de honra, que lhe fora pedida pelo fidalgo: a obrigação que se impôs de arrancar à libertinagem, que dominava grande parte dos antigos fidalgos, um mancebo perdido.
Maria, quando viu adoecer seu tio, ministrou-lhe o bálsamo da ferida. Ela mesma, repesa da severidade de seu amor, pede-lhe que vá repartir com os necessitados o pão da ciência e da virtude, que, tão farto repartia com ela.
--Era pecaminoso o meu egoísmo!...--lhe diz--Não pude vencer-me! O meu coração é impetuoso. Meu tio não quis remediar-me este defeito, reprimindo-me a dedicação com que, há seis anos, correspondo à sua amizade. Ambos somos culpados; mas eu sou mais... Fui precipitada. Lembrei-me que era abandonada, por ser esquecida algumas horas do dia!... É forte criancice, não é, meu tio?
--Eu!... esquecer-te... minha filha!...--balbuciou o padre.
--Bem o disse eu! É muito meu amigo... leva a minha imagem no seu coração para onde for... tem-me ao seu lado nas suas orações... responde ao meu coração que lhe pergunta a adivinhação destes segredos que eu tenho aqui, e só meu tio me adivinha... é tudo isto... sim, meu caro tio?
--Sim, tudo, minha menina.
--Oh meu tio!--continuou ela exaltada--não nos podemos separar. A inteligência é um fio eléctrico. Há vibrações na minha alma, que, se meu tio as não ouvisse, seriam perdidas, como as notas de uma harpa tocadas pelo vento em cima de um sepulcro deserto. Meu pai, e minha mãe, e meus irmãos, quero-os para o amor, quero-os para o coração, morro pela sua felicidade se mo exigirem; mas o meu espírito precisa de alimento, a minha inteligência quer um pasto ideal que não acho aqui, se meu tio me desampara. Não vê que foi um impulso providencial, que o trouxe aqui salvando-o de tantas mortes que lhe embaraçaram o caminho? Eu não tenho sido ingrata a Deus: ergo-lhe as mãos todos os dias, reconhecida, humilde, mas venturosa de ter nascido sua sobrinha!... Não me faça persuadir que Deus olha com indiferença as minhas preces...[2]
--Maria, interrompeu o padre, tu não pensaste o que dirias antes de vires ao meu quarto!... Magoaram-me as tuas últimas expressões... Não me pareceram tuas...
E Maria arquejava sem desafogo. Parecia não escutar o tio.
--Vem cá, minha filha--continuou ele, estendendo-lhe a mão, com um sorriso afável--vem cá. Que queres tu de mim? Não queres que eu vá fazer um bom filho, e um bom cidadão?
--Vá, vá, meu tio!--exclamou ela, com energia.
--Não achas tão sublime a missão confiada por Deus ao padre velho, que não tem outra herança a legar-te, senão a memória da sua beneficência?
--Sim, sim... é o que há de superior a tudo... ao amor, à vida, à esperança... Sim, sim...dê-me esse irmão em crenças, veja-o subir para Deus, impelido pela sua palavra inspirada... eu pedirei por ele; trocaremos as nossas orações; ele pedirá por mim, porque a conversão de um perdido enche o céu de alegria e faz exultar os anjos!... Ele há de, inspirado pelo céu, compreender, como nós já compreendemos, desde que vivemos artistas, o que é o amor de Deus e a virtude do trabalho.
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