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Lágrimas Abençoadas

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo 31 · Lágrimas Abençoadas

Livro II - Capítulo VI

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Esse dia de estreia para a missão do padre, foi mais um decorrido nas imoralidades do discípulo.

Não viera a casa, durante o dia, e metade da noite. Parece que tudo dormia no palácio; quando Fr. Antônio sentiu o rumor de um cavalo no pátio. Orava ainda, fora do leito, ajoelhado, com o lenço ensopado em lágrimas de dorida saudade. A imagem de sua sobrinha não lhe consentia o repouso, de noite; obrigava-o às tribulações de um amante desprezado. E, então, o ministro de Deus recolhia-se em oração, com a veemência de uma esperança infalível no refrigério do céu.

A essa hora, pois, chegava a casa Álvaro da Silveira. O seu quarto era imediato ao do sacerdote. Entrou assobiando as reminiscências das cavatinas teatrais, e reclamou em brados imperiosos a ceia. Os servos pontuais como escravos aos caprichos rápidos dos patrícios da Roma dos imperadores, afluíam a servir o amo, que ordinariamente punia uma certa demora com a ameaça formal de quatro chicotadas. Conduzida a ceia, repelira os criados com desabrimento e ficara sozinho trauteando e comendo promiscuamente.

Álvaro acabava de cear, esquecido da apresentação do padre, quando ouviu na porta um toque.

--Entre quem é!--bradou ele.

Quem quer que era cumpriu. A presença veneranda de Fr. Antônio, um passo dentro do quarto, era uma impressão nova para o mancebo! Involuntariamente sentiu curvar-se-lhe o pescoço à cortesia grave com que o sacerdote o saudara.

--Então ainda a pé?!--perguntou Álvaro.

--Ainda a pé, e Deus sabe se me deitarei... As horas da noite são as horas da oração. Parece que o ermo e o silêncio excitam a conversação do espírito com Deus... E v. ex.a recolheu-se agora, não é verdade?

--É verdade...--respondeu o mancebo com um embaraço, que revelava a sua estranheza nestes diálogos.

--Precisa repousar--tornou o padre--Eu, como estava a pé, quis dar-lhe as boas noites. Agora recolho-me pedindo a Deus o seu descanso, como condição da vida, para amanhã abrir os olhos à luz que bem pode não alvorecer para nós. Fique v. ex.a com Deus.

E retirou-se. As últimas palavras de Álvaro pareciam sílabas desarticuladas. O frade ferira-lhe um órgão ainda virgem daquelas impressões. Aquele memento, àquela hora, por aquele homem, acordara-lhe o mais nobre dos pensamentos, que o materialismo lhe adormecera nos gelos do coração: DEUS. Os confusos projetos do dia seguinte aturdiam-se-lhe na cabeça, como alvoroçados pelo pregão da morte, que mandava calar os desígnios humanos na presença do destino eterno.

O abalo fora veemente, mas pouco duradouro. Álvaro da Silveira adormeceu. É que o som vibrado na corda da religião, devia esvaecer-se entre o estrondo das paixões ruidosas, como o vagido da criança no alarido das turbas amotinadas.

Lágrimas Abençoadas

Sinopse

Leia gratuitamente Lágrimas Abençoadas, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o prefácio e os 96 capítulos reais, em quatro livros, com normalização conservadora para PT-BR moderno.

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