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Lágrimas Abençoadas

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo 35 · Lágrimas Abençoadas

Livro II - Capítulo X

35 de 97 ≈ 5 min de leitura

Decorreram algumas horas, e Fr. Antônio não podia demorar a sua visita. Álvaro da Silveira, fiel a seus hábitos, deveria despertar ao meio dia. O padre retirou com uma saudade profunda, e uma dor nova. A última aflição de um justo quer Deus que seja a agonia do pensamento. A vida nele é uma cadeia de pesares, que tem no esquife o último elo. Fr. Antônio, feliz com esta certeza, poderia fraquear na primeira luta com o sofrimento, mas a sua queda era sempre de joelhos aos pés da cruz. E esta foi a sua postura, apenas entrou no quarto que lhe fora dado em casa de Silveira.

A oração foi-lhe interrompida pelo toque da campainha. Esse som, que provocava pragas aos servos da casa, como sinal de estar acordado o tigre familiar, foi para frei Antônio um despertador da oração em favor daquele, que tão longe de Deus, sem um decreto do céu, mal poderia ser lá encaminhado pela débil mão de um pecador. E, terminada a oração, o padre chamou o criado, que saía do quarto de Álvaro, e mandou a s. exc.a pedir licença para fazer-lhe companhia ao almoço. A resposta, qual era de esperar, deferiu a humilde suplica, e Frei Antônio, insinuante de brandura e civilidade, apresentou-se, pela terceira vez, ao seu educando.

A face deste homem tinha uma alegre severidade, que não podia fitar-se sem respeitosa simpatia. Álvaro da Silveira ao vê-lo sentia uma impressão extraordinária, como não sentira na presença dalgum homem célebre em valentia, em talento, em devassidão, em prodigalidades, e em riqueza. A distinção da virtude ou do fanatismo, como ele dizia da religião, parecia-lhe uma coisa nunca vista na boa sociedade! Para não deixar-se vencer pelo panico da religião, Álvaro da Silveira dava-se uma explicação muito natural daquele fenômeno: era a falta de convivência com a classe dos padres.

Na verdade o jesuitismo e a hipocrisia pelos seus abusos interesseiros, tornando a religião instrumento inocente de uma política faciosa, tem dado causa a todos os homens de consciência conspirarem a expulsá-los como vendilhões do templo. Essa a razão por que os falsos religiosos blasfemam quando presentem que uma miníma centelha da razão ilumina o campo da religião que eles pretendem pôr em trevas. Todo o homem sensato e sãmente religioso sofré uma intima dor quando os falsos religiosos impelem os ignorantes, e alguns imorigerados como Álvaro da Silveira, a irem lançar-se na impiedade, fugindo da hipocrisia, que eles não sabem discernir da puríssima religião do crucificado.

Mas, a seu pesar, a entrada de Fr. Antônio, e as palavras urbanas, e poucas, com que o saudara, continuavam a impressioná-lo.

--Dormiu v. ex.a sossegadamente, não é assim?--perguntou o padre.

--Deliciosamente--respondeu Álvaro, apertando cortesmente a mão do sacerdote.--E v. s.a como se deu no seu novo quarto?

--O melhor possível. Um egresso, afeito a dormir na casa de um lavrador, acharia boa pousada em todos os lugares debaixo do céu. Uma boa cama não abona sempre uma noite deliciosa ao que se deita nela. O melhor gasalhado, senhor, é o que nos dá a consciência quando francamente se abre para receber-nos, e velar-nos o sono com o anjo da paz. Deus defenda v. ex.a de revolver-se um dia nos espinhos, que perturbam o sono do mau, deitado em leito de cortinas douradas.

--Então v. s.a--tornou Álvaro--tem andado por casa de lavradores? Eu cuidei que os frades eram ricos, e amigos das comodidades. Pelo menos é o que se diz por aí...

--Os frades, senhor, não só eram ricos, mas também opulentos; procuravam todas as comodidades, gozavam todas as delícias, todos os prazeres que podem ser desfrutados na vida material da terra. A ociosidade e a riqueza perverteu-os. As excepções choravam tal aberração. Como que olvidados do céu mergulharam-se em uma política inconveniente e injusta. Em pena de Talião, a política por eles hostilizada, por todos os meios, tão obstinadamente, puniu-os expulsando-os das casas que não deviam mais pertencer-lhes.

Estava na mesa o tabuleiro do almoço. Fr. Antônio pedia licença para servir o discípulo.

--Então v. s.a não almoça?--perguntou Álvaro, oferecendo ao hóspede uma chávena, não recebida.

--Almocei já, sr. Silveira.

--Com o pai, não é verdade?

--Não, senhor: com a minha família.

--Então v. s.a tem família em Lisboa?

--Nasci em Lisboa, e tenho uma família numerosa.

--Naturalmente pobre...

--Naturalmente, não, sr. Silveira; mas Deus indenizou-a. Deu-lhe o amor do trabalho, e a noite e o dia, para angariar o pão de uma hora. Tem sido feliz, penso eu. O temor de Deus é a coragem com que se vencem os infortúnios...

Álvaro, com a chávena esquecida na mão, escutava-o religiosamente. A novidade da linguagem, e o gesto religioso apraziam-lhe, e criavam-lhe desejos de ouvir o padre longo tempo.

Lágrimas Abençoadas

Sinopse

Leia gratuitamente Lágrimas Abençoadas, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o prefácio e os 96 capítulos reais, em quatro livros, com normalização conservadora para PT-BR moderno.

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