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Lágrimas Abençoadas

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo 36 · Lágrimas Abençoadas

Livro II - Capítulo XI

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--A sua família é conhecida?

Esta pergunta de Álvaro da Silveira é textualmente o inquérito galhardamente fidalgo, que a nobreza destes reinos faz, antes de deixar aproximar-se por algum desconhecido, duvidosamente inscrito no livro dos costados. Perdoe-se-nos o estilo; mas, desgraçadamente, tudo que é ridículo traz inçadas certas classes, e não sabemos, quando se farão sérias, quando se aproximarão um dia as famílias, de modo que não possamos sem ofender a Deus, perguntar a nosso irmão se seu pai é conhecido...

--A minha família--respondeu frei Antônio--foi conhecida; mas não é de lamentar que seja hoje obscura. Mal dela se quisesse manter as vans regalias da sociedade, que v. ex.a chamou conhecida! Penso que a minha família não é conhecida.

--Mas deve estar aparentada...--replicou o fidalgo, instando nas perguntas inauferíveis da pragmática heráldica.

--Creio que sim... O coronel ***...

--Já sei--interrompeu Álvaro--pois não!... é muito fidalgo, e está aparentado com boa gente; mas não aparece. Então v. s.a é tio de uma menina muito falada?...

--Muito falada!?--atalhou o padre com sobresalto.

--Sim, senhor, dizem que é poeta, romântica, e muito linda.

--É virtuosa, senhor Silveira. Não lhe conheço outra qualidade, que valha a pena de mencionar-se. V. ex.a já viu poesias ou romances, ou o retrato de minha sobrinha?

--Não, senhor, mas creio que não é mentira o que se diz. A opinião de virtuosa também a tem; se não falei de virtude, é porque não sei verdadeiramente o que é virtude; mas acredito que ela é uma excelente menina a todos os respeitos.

--A virtude, meu caro senhor, é a censura prática do crime. Sabe v. ex.a o que é crime?

--Também não--respondeu Álvaro com uma vaidosa entoação de espírito-forte.

--Eis aí--disse Fr. Antônio sorrindo--uma violência que está fazendo à sua alma, sr. Silveira. V. ex.a disse que minha sobrinha era dotada de belos atributos. Falou pela boca da fama, e chamou-lhe poeta, romântica e formosa. Se minha sobrinha, apesar destas decantadas prendas e dons, que a sociedade encarece tanto, fosse má filha, e má irmã, poderia ela cegar os olhos da sociedade com a sua formosura e talento, para que lhe não vissem os defeitos...

--De certo não.

--Então é verdade, que a sociedade reprovaria o procedimento de minha sobrinha?

--Creio que sim.

--E v. ex.a?

Álvaro ficou suspenso, e balbuciou, depois:

--Eu... eu... naturalmente...

--Juntava a sua voz à opinião pública--interrompeu o padre--embora v. ex.a não antipatizasse com os atos repreensíveis de minha sobrinha.

--Assim é sempre--disse Silveira, com uma forçada resolução.

--E assim será sempre, porque há um juiz incorruptível, chamado a «verdade». As sentenças deste juiz, embora fulminem as paixões desatinadas, são sempre recebidas, senão pelo espírito de uma sociedade gasta e imorigerada, ao menos por a consciência de essa sociedade. Ora a inocência é invulnerável ao contagio da corrupção, como a lampada do templo às exalações pestilenciosas dos túmulos. A consciência é o pregoeiro das sentenças que a verdade profere, e v. ex.a, insensivelmente, apregoa. Será necessário dizer-lhe eu que sentimento é esse que se serve de v. ex.a, como de uma machina para se exprimir? É a virtude, sr. Álvaro, é a virtude que faz realçar os dons de minha sobrinha, que lhe dá a soberania de um anjo, que o crime não pode encarar sem curvar-se servilmente: é a virtude, galardão ao princípio do bem, que triunfa na luta incessante com o princípio do mal. A verdade não se desmente porque é o Evangelho identificado nos corações, e Cristo há dezoito séculos, encarnado na humanidade...

Álvaro parecia alegrar-se conforme ia perdendo o terreno, diante de um tão generoso como irrespondível adversário.

Como se ansiasse pela continuação da resposta do padre, quando este se calou, também Álvaro não teve uma sílaba, das que se pedem à «filosofia» irreconciliável, para responder.

--Crê na virtude, sr. Silveira?--perguntou o padre com suma bondade e modéstia.

--Tinha-me dito que o crime e a virtude eram relativos--respondeu o mancebo com ar de quem desacredita as doutrinas de um mestre que respeita.

--Tinham-lhe dito, senhor, que a consciência universal era uma mentira. Mentiram-lhe cruelmente, porque v. ex.a não podia, sem horror, encarar um filho que matou seu pai; um homem que traiu o seu benfeitor; um juiz que entregou um inocente ao carrasco; um sedutor que atou uma pobre mulher a um poste de ignomínia eterna. V. ex.a não pode, com indiferença, apertar a mão a este homem, não é assim?

--De certo: eu sou um extravagante, um vicioso, mas detesto infâmias...

--Que todo o mundo detesta; mas o mundo onde a luz da verdade venceu as trevas do erro, que a palavra do Cristo condenou.

--Mas diga-me v.a sr.a... não dizem que há países onde os pais matam os filhos, e os filhos os pais, legalmente?

--Houve, e haverá ainda. Mas sabe v. ex.a o que é permitido aí pela lei? É justamente o que é reprovado pelo cristianismo.

--Mas a consciência não se revolta contra tais atos sem que seja preciso que o cristianismo os declare criminosos?

--Revolta, sim. Quando as virgens indianas se lançavam nos túmulos dos maridos, ou nas fogueiras legalmente acesas, as lágrimas, vencendo a coragem da superstição religiosa, desciam nas faces de uma família, que seria injuriada se não cedesse em holocausto a desgraçada viúva. Os gritos desta eram os gritos da consciência contra a lei bárbara; eram a adivinhação da verdade denunciada pelo filho de Deus. Os filhos, que matavam os pais, eram algozes que a lei fizera, como entre nós a lei faz um carrasco. Poderemos nós argumentar contra a piedade, contra a virtude, e contra o amor porque um justiçado morre entre os braços de um homem, que executa a sentença de um juiz?! Persuade-se alguém que o homicídio legal, na consciência do algoz, é um ato de amor e caridade?

--Penso que não.

--Pois bem, senhor Silveira; respeite a sua própria dignidade, já que os homens sem crença, sem Deus e sem esperança, lha quiseram aviltar, dizendo-lhe que o crime e a virtude são relativos...

Fr. Antônio fez menção de levantar-se e continuou:

--Tenho-o talvez privado dos seus divertimentos...

--Não, senhor... pelo contrário tem-me dado momentos de muita satisfação...

--Encho-me de prazer, se o consegui... E como tenho a honra de ser hóspede de v. ex.a...

--Mestre...--interrompeu Álvaro com alegria sincera.

--Não posso aceitar esse lisonjeiro título;--amigo, se v. ex.a me quiser honrar com este parentesco.

--Não me embaraça... Tenho muito prazer em que esteja...--disse Álvaro, apertando-lhe cordialmente a mão.

--Tenho obrigações a cumprir para com Deus: não faltará tempo proveitoso para os meus deveres com o próximo. Não sabe v. ex.a que os padres têm um breviário, que a cada hora do dia lhe recorda o dever de orar por aqueles, que não cedem alguns minutos à oração? Filhos de Deus, pedimos uns pelos outros; e Jesus Cristo beneficiou-nos com a riqueza da prece, com este patrimônio comum a todos os irmãos... E não é isto uma consolação para os que são ateus por contagio e não por convicções; fanáticos e supersticiosos por ignorância e por estupidez?

--A respeito de ateísmo... tenho... minhas... dúvidas...--disse Álvaro com palavras entrecortadas por aquela pausa enfática, semelhante à ironia dos sábios, segundo a moda.

--Pois bem... Temos zelo e vontade para acertarmos... Deus há de conceder-nos o tempo, que é o desengano de todas as dúvidas... Até outra ocasião...

E retirou-se contra os desejos de Álvaro. Mas fr. Antônio conhecia o coração do homem. Chamara-o Deus para uma empresa trabalhosa. A força descia-lhe do céu. Não era em si que ele confiava.

Lágrimas Abençoadas

Sinopse

Leia gratuitamente Lágrimas Abençoadas, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o prefácio e os 96 capítulos reais, em quatro livros, com normalização conservadora para PT-BR moderno.

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