Universo da obra
Universo da obra
Fr. Antônio dos Anjos concluíra a sua reza. Gonçalo da Silveira esperava ansiosamente o ensejo de visitá-lo. Mal ouviu passos no quarto, entrou. Riam-se-lhe as feições, e pulava-lhe o coração na face. O sacerdote achou-se nos braços do velho pai, que soluçava expressões de reconhecimento.
O padre maravilhava-se.
--Pois a que devo eu esta comoção de agradecimentos?--perguntava ele enternecido.
--Salvou meu filho!--exclamava o fidalgo, beijando-lhe as mãos.--Amenisou-me a velhice... Deu-me um bom fim de vida, e uma boa morte. Vós arrancastes meu filho do mau caminho.
Era bem justificado o pasmo de frei Antônio! Gonçalo da Silveira contara-lhe o que vinha de passar com Álvaro. Exagerára, talvez, as suas expressões, as palavras do filho, os elogios do mestre, e as esperanças da sua boa alma. Frei Antônio, que não podia atribuir-se a rápida mudança do neófito, agradecia tacitamente a Deus o raio luminoso de graça que fizera baixar ao coração escuro do convertido. Depois, quando a comoção do contentamento serenou em Silveira, o padre, majestoso como um profeta, apontou para o crucifixo.
--É ali--exclamou com uma voz vibrante e patética.--É ali, que v. exc.a deve ajoelhar e agradecer.
Gonçalo da Silveira ajoelhou. Pouco mais atrás ajoelhara o padre.
O lance era sublime, o que há de mais sublime debaixo do céu. Adorar com mais fervor, só os anjos na presença imediata do Altíssimo!
Álvaro entrava no quarto do padre, cuja porta ficara meio aberta. Ao ver seu pai naquela postura estranha, e mais atrás, o vulto imóvel do levita, recuou maquinalmente.
Que sentimento o fez recuar? Não saberia ele dizê-lo! Susteve-se irresoluto. Ergueram-se os que oravam, e ambos olhavam para a porta. Viram Álvaro, que parecia ceder ao pejo. Pejo! um tal sentimento nas faces petrificadas pelo gelo da libertinagem! Pejo no mancebo, que se vangloriava de um cinismo inalterável!
--Não quer entrar na sua casa, sr. Álvaro?--perguntou Fr. Antônio, colocando-se cortesmente fora da porta do quarto.
--Vim perturbá-lo...--murmurou Álvaro, hesitando entrar.
--Não era possível...--O espírito quanto mais se avizinha de Deus, menos cede às perturbações... Nós orávamos com fé, e ardor. E, demais, a entrada de v. exc.a não podia distrair-nos para mal.
Álvaro tinha entrado.
Agitou-se uma conversação variada entre as três pessoas. Fr. Antônio, que vivera na casa do agricultor nas províncias do norte, falava de agricultura. Gonçalo parecia versado neste ramo, e aplaudia os melhoramentos, a que ele devia um duplicado rendimento das suas grandes propriedades. Álvaro escutava, pela primeira vez, um discurso sério, especialmente sobre agricultura, que ele ignorava desde a estação das sementeiras à das colheitas. E não parecia enfastiado, com quanto guardasse um justificado silêncio na matéria.
Era já outra a conversa. Frei Antônio estudava a maneira de entreter a atenção do discípulo. Falou desta literatura amena, que se tornou universal por ser perigosa, por ser destruidora dos costumes, e dos estudos sérios. Falou de romances, como falaria de livros canônicos.
Conhecia-os como um vigilante examinador da origem da imoralidade. Álvaro conhecia alguns e honrava-os com a posse privilegiada de uma pequena estante que decorava no seu quarto. Fr. Antônio reparava nas encadernações de marroquim douradas, e nos títulos com que os licenciosos Paulo de Kock e Pigault Lebrun assinalaram os seus tesouros de libertinagem, escândalos da pervertida arte de imprimir.
Álvaro que não podia impugnar os argumentos do padre, e tivera a louvável modéstia de ouvi-lo apenas, não quis deixar-lhe plena glória de triunfo, sem uma observação que ele julgava um golpe certeiro:
--Mas sua sobrinha--diz ele--é romântica...
--Que é ser minha sobrinha romântica?--atalhou o padre, sorrindo.
--Lê romances, escreve romances, pensa como nos romances... emfim, não vive, nem pensa, nem fala como a maior parte das mulheres...
--Ora aí está uma definição de mestre!--disse o padre, soltando uma risada que parecia um motejo, se não fosse sua.--O romancista deve ser uma coisa bem extraordinária!--prosseguiu ele, batendo levemente no ombro do discípulo.--Quem me parece romântico, segundo a arte, é v. exc.a, sr. Álvaro.
--Eu!?--interrompeu Álvaro com inocente admiração.
--Sim, meu caro senhor. Não pode assim fazer-se uma ideia tão singular de uma pobre rapariga, sem contempla-la pelos olhos de uma imaginação maravilhosa! Minha sobrinha é uma artista que trabalha muito para sustentar-se, e vestir-se. Ora isto é muito positivo, muito trivial, muito comum com a vida do pobres, onde nunca entrou a palavra romance. Minha sobrinha nas horas furtadas ao trabalho, lê os livros que eu escolhi para a sua cultura espiritual, mas todos eles conselheiros da virtude, da probidade, da paciência, e do temor de Deus. A ciência profana, que eu afeiçoei às necessidades do seu espírito, é muito pouca, porque, se fosse muita, seria um desperdício de tempo, e de canseira inútil. A ciência de ser boa filha, boa esposa e boa mãe, limita-se a muito poucas regras; e uma mulher não precisa outra ciência. Minha sobrinha não leu ainda romances. Sabe que existem enredos torpes, escritos em bela linguagem, como os cadáveres fétidos envoltos nos veludos prateados da eça; mas os seus dedos não levantaram ainda esse envoltório de podridão. Minha sobrinha fala esta linguagem, senão geral, a melhor que os filhos podem aprender para falarem a seus pais, porque minha sobrinha conhece apenas o metal de voz de sua família... É isto que v. ex.a chama «mulher romântica?»
Álvaro demorou a resposta.
--Eu pensava--balbuciou ele--outra coisa... O mundo engana-se muito nos seus juízos.
--Pois--tornou o padre com tristeza--que juízos são os do mundo a respeito dela?
--Eu lhe digo... O mundo chama romântica uma mulher, como muitas mulheres, que os romances nos pintam. Por exemplo, uma virgem, que vive em um sonho continuado; que vê anjos onde as mulheres prosaicas não veem nada; que cisma em continuas tristezas, ao lado dos que vivem em uma continua gargalhada; que busca a solidão, encosta a face pálida à mão direita, como a estátua da melancolia, e se devora incessantemente sem poder explicar o motivo por que se devora. É o ideal que a mata; é a febre de uma paixão indefinível que a consome, é a esperança de um sonho, de que não acorda; é finalmente, a poesia, o romantismo.
Frei Antônio ouvira religiosamente este harmônico de palavras, que algumas vezes lhe pareceram desapegadas, e vazias de sentido. Respeitador das conveniências, fez calar a verdade austera, que o mandava pedir uma definição lógica de todo aquele espiritualismo, de toda aquela linguagem refolhuda. Absteve-se da sua autoridade, e transigiu discretamente.
--Serão esses--diz ele--os predicados da mulher romântica; mas o que eu posso conscienciosamente asseverar a v. ex.a, é que minha sobrinha está tão longe de ser romântica, quão longe de compreender a definição que o meu amigo acaba de dar.
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