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Lágrimas Abençoadas

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo 45 · Lágrimas Abençoadas

Livro II - Capítulo XX

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O conde tomara uma postura cômica de pasmo, quando Álvaro entrou no quarto. Alguma coisa o impressionara; mas em homens tais as impressões são fugitivas, e frouxas, porque não há aí entusiasmo, nem grandeza em essas almas caídas do sublime para o raso dos sentimentos grosseiros e triviais.

O procedimento do seu amigo devia maravilhá-lo. Era extraordinário! Apenas entrou no quarto, Álvaro estendera-lhe friamente a mão, e mandara-o sentar-se com um gesto, muito significativo de fastio. Que o hóspede lhe era aborrecido, bem o denunciava ele no franzir da testa, onde por força vem à luz da fisionomia sentimentos que a delicadeza quisera algumas vezes abafar.

--Doe-te a cabeça?--perguntou o conde.

--Não... doe-me o espírito--respondeu Álvaro.

--As dores do espírito, matam-se com espírito... mas é de vinho... Bebe... Obriga a matéria a pensar de outra maneira, como diz Rousseau.

--E diz Rousseau que a matéria pensa?--perguntou Álvaro, com um sorriso motejador.

--Que dúvida!... A matéria organizada, chamada homem, é uma coisa que pensa. Quando pensa mal, isto é, quando nos apoquenta, modifica-se a matéria, imprimindo lhe uma ação nova. A maneira de modificá-la é simplicíssima. Disseste que estavas triste, não é verdade?

--Sim.

--Pois bem: bebe cognac, come fiambre, afoga-o em vinho de Setúbal, que é de mais a mais um triunfo patriótico sobre o Champagne e Bordéus. Seja o que for o bolo alimentício, que alojas no estômago, é matéria: esta, posta em contacto com a matéria que pensa, altera-a; e desta alteração química e fisiológica resulta um novo ser pensante, uma solene pirraça à tristeza.

O conde esperava merecer uma risada com a sua dissaborida teoria. Foi para ele uma segunda surpresa o silêncio de Álvaro da Silveira. Neste silêncio transparecia o desprezo a que nos movem as chufas desengraçadas de um truão, invita Minerva, que nos noja, quando pensa recrear-nos. O conde não estava afeito a estas decepções. O orgulho doía-se. Álvaro seria o último de quem ele devia esperar um mau acolhimento.

--Agora vejo eu--disse ele contrafazendo o pejo, que mais acertadamente chamaríamos despejo.--Agora vejo eu, que o teu cérebro de hoje conspira contra a tua felicidade de ontem... que tens tu, mancebo gentil? A brisa da noite desfolhou-te a rosa, que te embalsamava o olfato do coração? Sonhaste alguma virgem de olhos garços, que não pudeste realizar em matéria corrente e sonante nestes reinos?

Álvaro, nem um sorriso! Era demais para tanto espírito! O conde só agora compreendeu que os seus ditos causticavam a paciência do discípulo. Este, apesar de molestado, não queria ser incivil. O predomínio do conde sobre o seu gênio não estava inteiramente extinto. Era-lhe necessário justificar-se de algum modo. Qualquer evasiva podia servir-lhe; mas a transfiguração do seu caráter, naquele momento, não lhe permitia uma mentira. Bem pudera Álvaro queixar-se de um padecimento físico, e tinha bem justificada a sua indolência para as carícias folgazãs do conde; mas não o fez assim, e, se consultarmos o coração humano, ouviremos um aplauso à franqueza que depois ostentava Álvaro. É que, se, por ventura, um sentimento novo acorda em nós desejos bons, o primeiro desses desejos é comunicar aos outros uma felicidade, que tanto menos egoísta, tanto mais perfeita se nos afigura. A passagem da indiferença para a observância da religião revela-se sempre com esses sintomas. O zelo de um neófito manifesta-se mais corajoso e ardente que o apostolado de um orador feito, e encanecido em desalojar a impiedade dos seus últimos redutos. E depois, no espírito iluminado pela efusão rápida e imperceptível da graça divina, há um desejo forte, uma vaidade santa de atrair espíritos contumazes, de curvar os joelhos arrogantes, e de vencer razões, cuja pertinácia nos parece impossível na presença dos argumentos que humilharam a nossa. O que então se dá na alma é uma paixão sublime. A eloquência do que fala, convicto de verdades que lhe prometem uma aspiração imortal, parece um empréstimo da linguagem dos anjos. Ei-los aí, de repente, crédulos, os apóstolos, que estendiam há pouco as redes no lago de Getsêmani, e surgem agora entre os interpretes da lei, nas praças da Galiléa, falando línguas que nunca ouviram.

Lágrimas Abençoadas

Sinopse

Leia gratuitamente Lágrimas Abençoadas, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o prefácio e os 96 capítulos reais, em quatro livros, com normalização conservadora para PT-BR moderno.

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