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Lágrimas Abençoadas

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo 57 · Lágrimas Abençoadas

Livro III - Capítulo VIII

57 de 97 ≈ 4 min de leitura

Ao mesmo tempo, Maria dos Prazeres, e sua mãe, tinham o seguinte diálogo:

--Se tivesses uma amiga muito do coração, minha filha, não terias pesar se ela te adivinhasse um segredo que tu deverias ter-lhe confiado?

--Pesar... conforme, minha mãe... Há segredos...

--Que se não dizem a uma amiga?

--Que se não dizem por que se não sabem dizer...

--E sentir, sim?

--Porque me faz semelhante pergunta, minha querida mãe? Não se queixe de mim, não?

--Pois eu vou queixar-me, Maria?!

--Falou-me em pesar... e eu começo a senti-lo...

--De que?

--Se eu pudesse... se eu soubesse dizer-lhe o que sinto... Deus sabe que o meu coração é incapaz de se esconder aos seus olhos, e mais depressa se esconde aos meus.

--Nada tens dito a teu tio, filha?

--De que?... diga, mãe, eu que devia ter dito a meu tio?

--Tudo o que sentes hoje, assim como lhe dizias tudo o que se passava em tua alma.

--E eu sei!...

--Sei eu, Maria. Olha, filha.. O amor de tua mãe, de teu pai, de teu bom tio, de teus queridos irmãos é um amor imenso; é, eu e tu sabemos que é; mas... olha... há no teu coração espaço para mais amor... Coras, Maria? Vês como a tua alma vem falar-me no teu semblante?

«Pois porque não, se essa alma é a minha, a da minha filha que não pode estar calada diante de mim, ainda que os lábios se não abram! Sei tudo, Maria. Agora, se não queres que te fale como mãe, aqui me tens como amiga. Vamos... levanta para mim os teus olhos... conversemos sozinhas. Tu amas Álvaro. A tua melancolia é amor. Esse corar, quando não acusa uma culpa escondida, é amor. Na tua idade, se o contentamento foge do coração, é que não cabem lá os gozos serenos da inocência, misturados com as esperanças vagas, com os desejos desconhecidos, com as saudades de não sei que recordações de uma outra vida em que todas as nossas se povoam de anjos.

«Há um mês, filha, não me entenderias esta linguagem. Hoje sou eu a que falo por ti, e cada palavra que me ouves, é um peso que te levanto de sobre o coração, não é? Assim é que tu querias falar-me, e eu desoprimo-te, explicando a confissão que tens nos lábios, e não confessas. Pois bem, Maria, louvores sejam dados à tua bela alma! A tua sensibilidade não pode ser só da tua família: deve estender-se a tudo que te rodeia.

«Eu esperava isto desde o momento em que vi entrar nesta casa um homem protegido pela confiança de meu cunhado. Sem virtudes, Álvaro não seria aqui trazido; e, sem virtudes, Deus não quereria que tu sentisses por ele a simpatia que prende a inocência à honradez. Poderei enganar-me eu, que sou velha? Posso, filha... E que farás tu que és criança? Estaremos ambas enganadas, amando-o ambas. Porque eu também o amo, filha; estou familiarizada com ele, vejo-o aqui entrar sem me sentir constrangida. Custa-me a crer que o conheço há tão pouco tempo!...

«E teu pai? Fala-me dele com certo interesse que me parece providencial. Nunca me disse que reparasse nas tuas ações, nem refletisse nas palavras de Álvaro. E eu, refletindo, ainda lhe não ouvi uma que desdiga das primeiras. Sempre a mesma bondade, o mesmo acanhamento honesto, a mesma docilidade, e não sei que interesse de filho por mim, e de irmão por ti. Teu tio, cada vez mais alegre com estas relações; teu pai, nem a mais ligeira sombra de desconfiança; teus irmãos querem-lhe como a ti; o pai dele quer por força que sejamos seus parentes, e diz-me que veio saber entre nós o que era a felicidade doméstica... Jesus! é impossível que tudo isto seja engano!

«Oh minha filha, o teu coração é puro, e eu quero ouvi-lo mais a ele do que ouvir-me a mim. Diz-me se não agouras uma grande felicidade para ti, e para os teus? Confessa-me o que pensas quando estás triste... Diz, diz, Maria...

A filha atirou-se a chorar ao seio da mãe. Balbuciava palavras sem sentido. O coração batia forte, e o tremor convulso dos braços, em redor do colo de sua mãe, supria a falta de expressão.

Assim as encontrou frei Antônio entrando sem se anunciar.

Lágrimas Abençoadas

Sinopse

Leia gratuitamente Lágrimas Abençoadas, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o prefácio e os 96 capítulos reais, em quatro livros, com normalização conservadora para PT-BR moderno.

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