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Lágrimas Abençoadas

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Lágrimas Abençoadas

Capítulo 66 · Lágrimas Abençoadas

Livro III - Capítulo XVII

66 de 97 ≈ 5 min de leitura

O velho Silveira chamou seu filho, e disse:

--Que tristeza é a tua, e a da tua mulher, Álvaro?

--Não falemos nisso, meu pai. O sofrimento calado é o mais nobre, o sofrimento irremediável é criancice expô-lo à piedade dos outros.

--Soffrimento irremediável!? De que sofrés? Estás arrependido de casar com esta menina que adoravas tanto?! Aborreces... enfastiou-te este anjo?!

--Não me enfastiou... receio que venha a enfastiar-me... Está bom, meu pai, mudemos de prática. Para onde vamos nós a ares este ano?

--Que modos são esses, Álvaro! Entrou outra vez em ti o demônio da perdição!? Foi, pois, uma mentira, uma impostura, uma infame astúcia a tua emenda?

--Não dou motivo para semelhantes suspeitas, meu pai. O meu proceder é hoje como era há quatro meses. Ouvi-lo-ei, senhor, mas v. ex.a não me acuse sem fundar a sua acusação.

--É possível que já não ames Maria?!--replicou o pai--Em que desdiz ela do que tu e eu esperávamos, Álvaro?

--Pois eu não a amo?! O pai que quer que eu faça? Ser-me-á preciso trazer ao colo minha mulher para o persuadir de que a amo?! Eu não sei fazer carinhos piegas... Creio que ela não dirá que a trato mal, nem a privo dos seus prazeres...

--Que prazeres! Pois a pobre menina raras vezes sai do seu quarto, raras vezes, há quinze dias a esta parte, se encontra contigo... que prazeres lhe dás, Álvaro? É isto o que tu planizavas quando me pediste que empenhasse ao coronel a minha palavra de honra como abono do teu procedimento para que ele te não negasse a filha? Vejo que preparas para os meus últimos dias uma grande desonra, e um grande remorso! Com que cara me apresentarei ao coronel logo que ele saiba os surdos padecimentos da nobre menina, que não solta um gemido queixoso! Explica-te, Álvaro; não te ofendo, sequer, pedindo-te, como pai, uma explicação de essa frieza para com ela... O que é isto?

--Pois eu obedeço, senhor, respondendo em toda a verdade da minha alma. Creia que sofro, respondendo assim; mas eu preciso dizer a terrível verdade que me esmaga o coração. Maria não é a mulher, que eu devia procurar. Enganei-me. Foi um desencontro, uma desgraça, uma horrível ilusão! Eu não sou digno dela. Fui atraiçoado pelo amor que Maria me inspirou; julguei-me capaz de ocupar, toda a vida, o coração com a posse dela. O demônio venceu. Sinto-me enfastiado; tenho o gelo da indiferença na alma, violento este sentimento amargo a confessar as virtudes de minha mulher: vejo-a formosa, reconheço que é um anjo, mas não posso, ao pé dela, passar um quarto de hora sem fastio. Parece que o meu arrefecimento lhe passou à alma. Vejo-a triste, responde-me chorando se lhe pergunto que motivos tem de tristeza, evita-me quando eu faço sobre mim um grande esforço em mostrar-lhe agrado... Em fim, meu pai, não era eu o homem que devia fazer a felicidade desta mulher... Sou incapaz de a maltratar, terei com ela todas as atenções de irmão; mas... é necessário que deixe de sentir o que sinto... A violência é inútil... o amor não se crava no coração como quem crava um punhal... Basta-me o meu infortúnio de não poder amá-la. Os desgraçados como eu são amaldiçoados pela sociedade, e Deus sabe se eles não são mais dignos de piedade que de maldição!... Não poder amá-la como a adorei há três meses! Isto é angustioso, meu pai! Por quem é, não me agrave as minhas dores com as suas censuras... Não receie nada por ela... Eu tirarei da delicadeza todos os pretextos para que ela se capacite de que ainda a amo. É uma piedosa mentira em que meu pai, por meu bem, e dela, e de todos nós, deve consentir, e até empregar a sua influencia auxiliadora. Consiga v. ex.a que ela saia do quarto, que vá aos teatros, que vá aos bailes, que frequente as nossas imensas relações, que aprenda na sociedade com outras mulheres a esquecer os infortúnios domésticos, que eu farei o mesmo...

--É uma aliança infame, que tu queres que eu proteja?--interrompeu o velho.

--Como aliança infame!--redarguiu o filho.

--Sim! consentes a tua mulher...

--O que? queira dizer, meu pai!

--Tenho vergonha de o proferir!...

--Então não me compreendeu, ou me julga um homem destituído de honra. Lembre-se que sou seu filho, senhor! Eu não quero fazer com minha mulher alianças infames. Quero que ela não faça consistir a sua felicidade somente na minha convivência de todas as horas, e de todos os instantes. Quero que ela reparta os seus desejos, e as suas ideias por tudo que possa dar-lhe uma distração honesta, e concedida às senhoras da sua posição. Não quero que o seu amor à solidão me force, me algeme a um gosto que não tenho. Estamos na sociedade, eu sou um rapaz, e quero viver para a sociedade. Gozar não é ofender a Deus, como lhe incutiram a ela. Nunca a levei aos teatros, aos bailes, a uma visita, que não tivesse primeiro que destruir-lhe os preconceitos com que a criaram. Está sentada ao piano, ou ao bastidor: quer meu pai que eu esteja ali constantemente ao pé dela, repetindo-lhe as frases cansadas de um amor de convenção? É hipocrisia com que não posso...

O velho voltara as costas ao filho, e confundira as lágrimas com as de padre Antônio que se fizera anunciar.

Lágrimas Abençoadas

Sinopse

Leia gratuitamente Lágrimas Abençoadas, de Camilo Castelo Branco, romance em domínio público. Esta edição Literunico apresenta o prefácio e os 96 capítulos reais, em quatro livros, com normalização conservadora para PT-BR moderno.

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