Universo da obra
Universo da obra
Malu Farias reconheceu Porto das Garças antes de ver o mar. O ônibus ainda descia a serra quando o cheiro de sal, diesel velho e fruta madura entrou pelas frestas da janela, misturado ao bafo quente de banco rasgado. A cidade não aparecia inteira de uma vez. Primeiro vinham os telhados baixos, depois as antenas tortas, depois o campanário da igreja, sempre pintado de branco demais para a maresia que comia tudo ao redor. Malu segurava a pasta do inventário no colo com as duas mãos, porque o papel parecia mais perigoso que bagagem. O advogado dissera que bastava assinar, ouvir a proposta de compra e encerrar o assunto. Ninguém voltava para uma cidade pequena apenas para encerrar assunto. Voltava para pagar alguma conta que ainda respirava escondida.
O terminal rodoviário continuava pequeno, com três plataformas, uma lanchonete e o mesmo homem vendendo cocada em tabuleiro de alumínio. Ele não reconheceu Malu, ou fingiu bem. Ela desceu sem pedir ajuda, puxou a mala pelo concreto rachado e viu, na parede do banheiro, um cartaz novo de empreendimento turístico. Villas do Atlântico. Letras douradas, casal sorrindo, piscina azul impossível diante de um mar que ali sempre chegava mexido e escuro. No canto inferior, havia a foto aérea da ilha do pai, limpa de mato por computador, cercada de barcos brancos que jamais atracariam naquelas pedras. Malu ficou diante do cartaz tempo demais. O corretor havia ligado três vezes durante a viagem. A proposta cobria a dívida da clínica da mãe, o aluguel atrasado em Salvador e ainda deixava sobra para recomeçar. Era o tipo de solução que vinha com algema dentro do envelope.
O cartório ficava na praça, entre uma farmácia e uma loja de conserto de motores. A fachada tinha sido pintada de amarelo, porém o cheiro interno continuava de papel úmido, café requentado e ventilador quente. Doutor Anselmo recebeu Malu com uma cordialidade cansada, chamando-a de Maria Luísa apenas uma vez antes de corrigir para Malu ao ver o rosto dela fechar. Sobre a mesa, além do inventário, havia uma garrafa de água, duas canetas e um contrato de intenção de compra já impresso. Isso a irritou além da conta. O comprador nem esperara a herdeira chegar para ocupar espaço. Anselmo explicou que Rômulo Sampaio representava um grupo de investidores, gente séria, documentação limpa, pagamento rápido. Malu perguntou se gente séria costumava deixar proposta pronta antes de a família ler a escritura. O advogado olhou para a janela, onde duas gaivotas brigavam por resto de pastel, e demorou a responder.
A escritura de Bento Farias tinha a letra dele em uma folha anexada, reconhecida em cartório muitos anos antes. Malu conhecia aquela letra. Grande, inclinada para a direita, com o m sempre aberto e o s final parecendo anzol. Sentiu raiva da precisão com que o corpo lembrava. Bento deixara a ilha para a filha, sem divisão, sem venda antecipada, sem procuração válida para terceiros. Até ali, nada impedia o negócio. A condição vinha no parágrafo seguinte, escrita por ele como quem anota receita de isca. Antes de qualquer transferência, a herdeira deverá permanecer sete noites consecutivas na casa principal da ilha, sem hóspede contratado pelo comprador e sem assinatura de desistência fora do imóvel. Anselmo pigarreou. Disse que a cláusula era excêntrica, talvez questionável, talvez fruto de superstição. Malu leu de novo. O pai podia ser teimoso, alcoólatra em seus piores anos, mentiroso quando queria proteger alguém. Nunca fora excêntrico em papel registrado.
Rômulo Sampaio entrou sem bater, trazendo perfume caro e camisa de linho aberta no colarinho. Malu o reconheceu do cartaz, embora a foto pública suavizasse sua boca. Ele pediu desculpa pelo atraso sem ter sido convidado a sentar, colocou uma pasta preta ao lado do inventário e falou da ilha como área, potencial, ativo, oportunidade. Nenhuma vez disse casa. Nenhuma vez disse Bento. Malu deixou que ele falasse até o silêncio começar a constrangê-lo. Depois perguntou por que compraria uma terra que todo pescador da cidade evitava depois das cinco da tarde. Rômulo sorriu com paciência ensaiada. Disse que medo local sempre acompanha lugares bonitos. Disse que investidores gostam de resolver medo com escritura. A frase teria parecido apenas arrogante, se Anselmo não tivesse baixado os olhos para a mesa. Malu percebeu ali que a venda não começara naquela manhã. Começara antes de sua chegada, talvez antes da morte civil do pai ser aceita pela família.
O atestado de ausência de Bento permanecia dentro da pasta, preso por clipe enferrujado. O corpo nunca fora encontrado. A lancha apareceu três dias depois da tempestade, batida nas pedras da enseada norte, motor aberto, colete salvo sob o banco, caixa de ferramentas vazia. A cidade repetiu que Bento bebera, saiu sozinho e pagou pelo próprio orgulho. Malu passou oito anos acreditando e rejeitando a mesma versão, dependendo do dia. Rômulo empurrou a proposta para perto dela. O valor vinha digitado em números grandes, quase indecentes. Bastava assinar compromisso, cumprir a exigência das sete noites sob acompanhamento de segurança privada e transferir a escritura na semana seguinte. Malu notou a palavra acompanhamento. Apontou para a cláusula de Bento. Sem hóspede contratado pelo comprador. Rômulo disse que segurança não era hóspede. Malu respondeu que o pai escrevia mal em aniversário, porém muito bem quando desconfiava de alguém.
Anselmo tentou encerrar a reunião com promessa de análise jurídica. Malu guardou a cópia da escritura na pasta e saiu antes que Rômulo oferecesse café, desconto ou ameaça com polidez. A praça doía de sol. Crianças voltavam da escola, motoboys cortavam caminho pela calçada, e uma fila se formava diante da lotérica. Nada parecia à altura da ilha, do pai, da proposta. Essa normalidade era uma das crueldades de Porto das Garças. Qualquer tragédia precisava caber ao lado de conta de luz e feira de banana. Malu caminhou até o cais velho, onde barcos coloridos batiam contra pneus presos na madeira. O mar estava baixo, revelando pedras verdes e garrafas antigas entre os pilares. No fim do trapiche, um homem consertava um motor de popa com a camisa grudada nas costas. Mesmo antes que ele levantasse o rosto, ela soube quem era. Caio Lemos continuava usando silêncio como ferramenta.
Caio ergueu os olhos, limpou graxa no pano e não sorriu. Malu preferiu isso. Um sorriso faria parecer que oito anos cabiam em educação. Ele estava mais magro, com barba curta, ombros queimados de sol e uma cicatriz nova cortando a sobrancelha esquerda. Disse que soube que ela chegaria. Ela perguntou se a cidade ainda vendia notícia junto com peixe. Ele respondeu que notícia ruim vinha de graça. A primeira troca saiu seca, velha, treinada por duas pessoas que haviam se conhecido antes de aprender defesa. Malu mostrou a escritura. Precisava ir à ilha naquela tarde. Caio voltou a olhar para o motor. Disse que não levava ninguém para lá com mar virando. Ela apontou para a baía quase lisa. Ele disse que mar liso enganava turista e herdeira apressada. Malu quase agradeceu pelo insulto, porque raiva era menos perigosa que saudade.
Havia outros barqueiros no cais, e Malu sabia disso. Também sabia que todos ouviram o nome da ilha antes de recusar com desculpas rápidas. Um tinha motor falhando. Outro esperava gelo. Um terceiro precisava buscar a sogra em Itaparica, apesar de a sogra ter morrido quando Malu ainda usava uniforme escolar. Caio acompanhou a sequência sem interferir. Depois pegou a escritura das mãos dela, leu a cláusula uma única vez e devolveu o papel. Perguntou se Rômulo já oferecera segurança. Malu confirmou com o queixo. Caio soltou uma risada curta, sem humor. Disse que segurança de Rômulo protegia o dono do dinheiro, nunca a pessoa dentro do barco. Malu perguntou o que ele sabia. Caio fechou a tampa do motor, apertou duas travas e respondeu que sabia o suficiente para cobrar adiantado. A frase foi covarde de propósito. Ela viu isso no rosto dele.
Foram para o mar no fim da tarde, em uma lancha menor do que Malu lembrava e mais bem cuidada do que o cais permitia supor. Caio recusou a mala grande, separou apenas uma mochila com roupas, lanterna, remédios, garrafa de água e faca de cozinha que ele pegou sem pedir da barraca de uma tia. Malu protestou pela faca. Ele perguntou se ela pretendia abrir coco com contrato. O barco deixou Porto das Garças devagar, passando pela área onde os turistas tiravam foto e seguindo para a parte da baía que as pousadas evitavam anunciar. A ilha surgia baixa, coberta por mata densa, com a casa principal aparecendo no alto de uma pedra, branca e estreita, varanda voltada para o canal. Malu sentiu o estômago apertar quando viu a janela do quarto do pai aberta. Bento nunca deixava janela aberta para a chuva de sal. Nem bêbado. Nem distraído.
Caio reduziu o motor antes da enseada norte. Disse que a maré descia rápido e que eles precisariam descarregar antes de escurecer. Malu perguntou por que aceitara levá-la se achava perigoso. Ele olhou para a casa, não para ela. Disse que alguém já tentaria naquela noite, com ela ou sem ela, e que preferia ver quem saía do outro barco. A resposta trouxe a primeira informação útil desde o cartório. Antes que Malu perguntasse, um reflexo escuro apareceu entre duas pedras, longe o bastante para parecer sombra. Caio desligou o motor. A lancha seguiu no embalo, sem barulho, enquanto ele observava a água. Malu viu então uma segunda embarcação parada do lado oposto da ilha, sem luz, baixa demais para pescador comum. Um homem de boné levantou binóculo. Caio empurrou Malu para baixo antes que ela reagisse. O corpo dele ficou sobre o dela por um segundo, quente, firme, irritante. Ele saiu rápido. Ela guardou a sensação para odiar depois.
Atracaram em uma rampa de pedra coberta por limo. Caio amarrou a lancha em silêncio e subiu primeiro, testando cada passo. Malu veio atrás, com a mochila no ombro e a pasta da escritura dentro da blusa, protegida do vento. O caminho até a casa cortava um trecho de mata baixa, passava por um poço desativado e chegava a uma varanda de madeira que gemia sob pouco peso. A porta principal estava apenas encostada. Malu parou. Oito anos de abandono deveriam ter produzido ferrugem, fechadura dura, cheiro fechado. Encontrou a sala varrida, uma lamparina limpa sobre a mesa e duas canecas viradas de boca para baixo. Caio entrou com a faca na mão. Malu percebeu uma marca recente de bota no chão. Grande. Masculina. Molhada. Do corredor, veio um chiado de rádio. O aparelho do pai, guardado na prateleira desde antes do desaparecimento, acendeu sozinho com uma luz fraca. A voz que saiu dele chamou Malu pelo apelido que só Bento usava quando queria que ela obedecesse sem discutir. Luluca, fecha a porta.
Malu Farias saiu de Porto das Garças depois que o pai, Bento, sumiu durante uma tempestade e a cidade preferiu tratar o caso como acidente. Oito anos depois, volta para assinar a venda da pequena ilha herdada por ele, pressionada por dívidas e por um comprador que aparece antes mesmo do inventário terminar. A escritura, porém, traz uma condição absurda escrita por Bento. Malu precisa passar sete noites na ilha antes de vendê-la. Para chegar lá, depende de Caio Lemos, barqueiro, antigo amigo e homem que sabe demais sobre a noite do desaparecimento. Entre marés perigosas, uma casa deixada aberta, cadernos escondidos e uma empresa tentando comprar silêncio com dinheiro, Malu descobre que a ilha guarda uma rota clandestina e uma prova que pode mudar a história da família. Vender talvez seja o modo mais rápido de sobreviver. Ficar pode ser a única chance de descobrir quem voltou do mar sem querer ser visto.
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