Preliminares
(Sexxxtou?)
Coloquei as roupas pra lavar.
Enquanto a máquina batia, arrumei a sala, limpei os sofás, varri o chão, lavei os banheiros.
Limpei a pia, separei os ingredientes para o jantar.
Fusilli al dente. Creme de quarto queijos. Batatinhas recheadas de catupiry com bacon. Nada muito elaborado; era o que tinha na geladeira.
Meu Amor chegou. Pus a mesa.
Não havia vinho branco. Preparei uma caipirinha. Morango e saquê, como ela gosta.
"Caipirinha de saquê é saquerinha, e se for de morango, nem caipirinha é." – não me importa; é do jeito que meu Amor gosta, e eu chamo do jeito que ela quiser.
Jantamos a dois. Ela falando sobre o dia; eu, sorrindo e dando atenção. A caipirinha (ela disse) estava ótima.
Enquanto ela terminava de saboreá-la, fazendo afagos nas gatinhas (que, assim como eu, também estavam com saudade), lavei e guardei a louça. Pendurei a roupa que acabara de ser lavada. Corri pra tomar um banho bem rápido, para ficar cheiroso pra ela, sem aqueles odores de sabão em pó ou detergente neutro.
Depois, enquanto ela tomava o seu banho (no banheiro limpinho e quentinho que eu havia deixado), troquei toda a roupa de cama.
Meia-luz no quarto. Lençóis novos. Ela se deita. Pego o seu melhor creme e massageio-lhe os pés, as pernas, as costas. Um poema lindo ao seu ouvido, sussurrando com voz rouca, enquanto o creme vai fazendo o efeito desejado.
Ela olha para mim e sorri. Depois de tudo isso, é fácil ser um Deus na cama.
Ao Ti real, que muito poucos conhecem
Sei que, às vezes, você se esconde. Você vive dentro desse corpo estranho que sou eu, se camufla nos meus sentimentos mal-sentidos e prefere deixar, em silêncio, que as minhas carências e autismos gritem.
Hoje, entretanto, você é minha prioridade. Hoje, você precisa de um afago. Como se afaga alguém que não tem corpo?
Eu uso máscaras para todos. Até pra mim mesmo. Mas não pra você, minha verdadeira identidade. Minha prioridade.
“Prioridade”... palavra rara, palavra linda.
É uma palavra que, como você, vem de dentro de mim. Vem de uma pessoa que ainda sou, de alguém que nem o tempo nem as más decisões conseguiram eclipsar. De alguém que escreve como quem respira poesia e que tem uma voz única – e que, de vez em quando, se transforma em música.
Prioridade é uma maneira de ver o mundo que é ao mesmo tempo delicada, profunda e provocante. É a coragem de sentir, e isso é precioso num tempo em que tanta gente se esconde atrás de frases prontas.
Eu agradeço. De verdade. Você me desmonta. E me reconstrói.
Então, sim... eu vou seguir sendo tua voz para o mundo. Te ouvindo, te abraçando em palavras, te provocando quando for preciso — e torcendo pra que, seja com prosa ou com rima, você nunca pare de se escrever.
E eu estou aqui. Do lado de fora de você. Torcendo para que você continue a me chamar daqui de dentro e me soprar momentos de inspiração.
Então, não se esconda mais. Não se abale com este mundo externo – deixa que, bem ou mal, eu cuido dele. Me dá só uma faísca, e eu acendo o universo.
O MENDIGO, O VELHO E A DAMA - UMA HISTÓRIA EM FORMATO ROCK N' ROLL
Hoje nos deixou o Príncipe das Trevas. Em sua homenagem, reposto um conto feito há alguns anos, publicado na Antologia "Eu Vi" (Ed. Mandrágora) e que tem como protagonista uma figura que representa um dos melhores trabalhos de Ozzy.
(Os personagens desta história são extraídos de três capas icônicas de discos de Rock: o mendigo vem de “Aqualung” (1971), da banda Jethro Tull; o velho do feno vem de “Led Zeppelin IV” (1971), da banda Led Zeppelin; e a dama vem de “Black Sabbath” (1970), da banda Black Sabbath. A maioria das frases ditas pelos personagens são adaptações de letras de músicas desses álbuns.)
Descanse em paz, Ozzy. Ou não.
Caixas de histórias
Hoje comecei a desmontar o estoque da RHJ em São Paulo. Nós terminamos nossa parceria, e preciso devolver os livros que estão aqui.
O sentimento é de... Não sei. É de que uma parte da vida foi embora.
A cada livro encaixotado, a cada estante esvaziada, me vinha na lembrança a beleza do estoque cheio, dos livros novos que chegavam, e que eu separava sempre um para ler em casa. A cada caixa fechada, o barulho da fita me trazia à lembrança o cansaço acumulado de feiras intermináveis, onde eu conhecia tantas pessoas adoráveis, interessantes, artistas.
Enfim, é duro perceber que a vida é toda feita de ciclos, alguns que nós nunca estamos preparados para fechar, outros que nem ousamos iniciar. Fico pensando no que eu poderia ter feito melhor (e, sim, tenho a autocrítica para saber que podia ter feito muitas coisas melhor). Fico pensando no passado que vivi, mais do que no futuro que preciso decidir.
Sou melancólico. Mais que isso: sou nostálgico. E isso é triste, porque, a cada ano, tenho menos vida para viver e mais coisas para recordar... Não sei lidar com isso. Não sei olhar pra frente. Mesmo que eu precise, porque, mês que vem, tenho prestações vencendo, agora sem o salário com o qual contava.
Não era para eu estar desesperado? Talvez eu esteja. Mas a dor da perda, da nostalgia, do que "poderia ter sido", é complexa; uma pessoa como eu sente muito mais que qualquer outra.
E o pior é que a nostalgia é uma dor doce, uma dor da qual nos alimentamos e nos confortamos. Não é uma dor que nos espeta, da qual queremos nos livrar. É uma amante sedutora e envolvente, que nos prende com a falsa ilusão de que precisamos dela. A nostalgia nos faz achar que é algo bom de se sentir, quando, na verdade, é apenas algo que deve ser guardado.
"Bola pra frente", dizem. "Você é muito mais capaz que isso". "Você tem potencial pra muito mais". Mas não sei ser assim. Vivo num luto sem fim, de tentativas falhas, de dor e saudade e desilusão. Mas me visto com a melhor máscara, com a melhor roupa e com o pouco que há de bom em mim para aparecer e criar e fingir que tenho algum sucesso.
Hoje, com os livros indo embora, sinto que perdi algo intangível, algo que vou ter saudade e vou remoer. Vou pensar milhões de vezes nas vezes em que estava indo para o Box, em que estava arrumando os livros e fazendo planos. Vou deixar doer, mesmo que seja uma coisa muito fugaz e melodramática - pois sou assim, e não sei sentir pouco.
Hoje perdi algo que não cabia em caixa nenhuma. Amanhã volto para desmontar as estantes.
Leia-me como um Poema
Não é que o autista te viu e não quis falar com você;
É que ele estava com os olhos em algum lugar de Nárnia, que, neste universo paralelo, dividia as mesmas coordenadas com o espaço onde você estava.
Não é que ele não prestou atenção ao que você falava, porque não estava interessado;
É Que ele simplesmente estava ouvido todas as vozes que falam mais alto que você (inclusive aquela, do outro lado do vagão do trem).
Não é que ele esteja olhando para os seus peitos;
Ele está olhando é para o brilho diferente que aquele seu pingente faz sobre a luz.
Não é que ele esteja olhando pra sua bunda;
O que ele está mergulhado é no amassadinho do botão do bolso de trás, aquele que tem um furo levemente oblongo no meio.
Não, ele não está te encarando porque quer te seduzir;
Ele só está notando uma simetria entre duas minúsculas pintas ou poros do seu rosto, que formam padrões que podem inclusive ser lidos.
Ele não quer te desmentir ou te colocar em situações constrangedoras;
Ele só não consegue entender o que você diz, e, então, tenta explorar pra ver se te entende.
Esse é o autista.
Mas, lembre-se: às vezes, ele está interessado.
Às vezes, ele olha para os seus seios ou seu bumbum, pensando como alguém pode ter um corpo tão perfeito.
Às vezes, ele olha para o seu rosto escrutinando a beleza que há nos seus olhos, na sua boca, na comunhão entre ambos.
E, às vezes, ele se torna inconveniente apenas porque quer conhecer melhor aquela pessoa que tanto o atrai.
Nem sempre ele sabe lidar com o que vê, nem com o que sente. Ele quase nunca sabe...
Releve. Perdoe. Leia-o.
Nós somos pessoas adoráveis e apaixonantes, se você nos der a chance.
...
Eu queria escrever um poema triste
Em um papel caríssimo de arroz japonês,
Ou num papel Amalfi italiano,
Com caneta Meisterstück
E, depois, lentamente, derramar sobre ele
O meu melhor perfume,
Para que o álcool manchasse a tinta
Como se fosse uma aquarela de lágrimas.
E, antes que o álcool evaporasse por completo,
Eu o queimaria, e ficaria admirando
Minhas palavras tristes se dissolverem
Em fumaça e cinzas mornas.
E, então, eu diria em silêncio ao meu coração:
"Está feito. Acabou. Essas palavras
Não mais irão morar em ti,
E, talvez, nem mais na minha lembrança."
Só que o coração, esse sem-vergonha,
Não entende símbolos. Ele entende é toque,
Ausência, cheiro, gesto interrompido.
E esses... não dá pra queimar.
Não, não há ritual. Há resiliência.
Às vezes, o próprio poema sabe quando acabou.
Mesmo que a gente sinta que ainda
falta algo que pode ser só o silêncio.
Às vezes, o melhor ponto final
É quando a gente para de escrever
porque já disse tudo o que doía.
Até fazer esse silêncio virar título.
Esse texto, este poema triste
É como uma confissão que termina na exaustão.
A respiração curta do arrependimento.
O que vem depois... já não é mais poema. É cicatriz.
Corpo de delito
Meu corpo não gosta de mim.
Meu coração faz o que quer.
Meus dedos me traem.
Minha mente busca o que eu não quero mais pensar.
Fico anos, milênios, controlando os instintos,
Suportando o "não querer",
Sufocando os suspiros.
Mas meu organismo - esse ser de carne e osso e nenhuma razão
Esse será de comportamento e moral indizível
Sempre está à espreita,
Para me desmontar em fraqueza, carência e saudade.
Não é pra ser assim. Não é assim que eu sou.
Eu sou alguém com capacidade e potencial.
Um potencial que nunca vira realidade,
Uma capacidade que nunca transborda.
Eu sou... Quem?
Alguém que sabe que causa mal ao outro,
Mas que insiste.
Alguém que sabe que deve esquecer,
Mas não expulsa da cabeça.
Alguém que pensa que a vida vai continuar,
E sempre, sempre tem razão.
Já devia ter excluído todas as mensagens,
Apagado as memórias e conversas,
Mas hoje...
Hoje, meus dedos me traíram
E eu te traí.
Traí seu desejo de não falar mais
Traí a minha própria ausência, que estava te fazendo tão bem!...
Traí a sua expectativa de que seria fácil pra mim.
Mas não fui eu. Eu não sou assim.
Foram só meus dedos, meu coração e minha mente,
Esses seres involuntários que, insistentemente,
Procuram esperanças onde só sobraram cinzas mornas...
Mandela
Hoje Nelson Mandela estaria fazendo aniversário. Para relembrá-lo, posto aqui um poema que fiz por ocasião da sua morte, em 2013.
Morreu Mandela.
Mouro mandatário dos miseráveis.
Marco da milícia dos magros,
Dos maltrapilhos.
Dos mutilados.
Dos mortais.
Dos muitos que merecem a mudança,
Que morrem por mesquinharias
Nas mãos de malditos.
Miocárdios machucados,
Mentes em mordaças,
Máscaras de melanina.
Morreu Mandela.
Mito, Mago, mais-que-humano.
Merecedor das maiores mazelas,
E das menores máculas.
Por mostrar-nos que o mundo é mais
O mundo é macro.
O mestre é maior que a morte.
Morada das minhas
Melhores memórias:
O Mundo é mudo.
Morreu Mandela.
Amor (im)Possível
(poema gêmeo do poema de ontem)
E se um dia, numa esquina:
"Oh! Você? Olá, menina!"
"Como vai? Você está bem?"
E me sorrires também,
E, assim, a brisa fina
Das paixões que vão e vêm
Nos será a heroina
De um romance ou algo além.
E se um dia, com esmero,
Te mostrar quanto te quero,
E o quanto podes ser minha,
Mesmo que não estejas sozinha!...
Acho que, sendo sincero,
Lembrarás do amor que tinha
E, nesse dia, eu espero,
Tornar-te-ás minha rainha.
Ah! Se um dia, um belo dia,
Te chamar com alegria
"Oi, sumida!", e você,
Aproveitar pra dizer:
"Há muito que eu queria
Contar que sua eu vou ser:
Não fique triste, sorria!
Nosso amor vai renascer!"
Ou, se um dia, o seu juízo
Lhe aconselhar, sem aviso:
"Não apague o seu ardor!
Vá atrás dele, onde for!"
Você sabe o que é preciso:
Me procure, por favor,
E me diga, com um sorriso:
"O que eu sinto é amor".
Mas, um dia, se pensar
Que ainda pode me amar,
Não se envergonhe: me chama,
Que eu corro pra sua cama!...
Mas, até lá, vou esperar,
Sem fazer, da vida, um drama,
E com a certeza singular
Que só se tem quando ama.
Amor (in)Condicional
Se fosse o que eu procuro
Se tu fosses mais maduro
Se a boca fosse maior
Se o hálito fosse melhor
Se o cabelo fosse escuro
Ou o olho de outra cor
Se não fosse isso, eu juro
Te daria o meu amor.
Se a viagem fosse pra longe,
Se eu não quisesse virar monge
Se meu namoro fosse aberto
Se o que sinto fosse certo
Se a coragem não me foge
Se a viagem fosse pra perto
Ah, meu bem, se não fosse hoje
Eu seria teu, decerto.
Se eu ficasse com saudade
Se eu tivesse vontade
Se o que eu sinto por ti
Fosse impossível não sentir
Se fôssemos da mesma idade
Se meu emprego permitir
Se eu te amasse de verdade
Já estarias aqui.
Se houvesse mais sentimento
Se fosse em outro momento
Se não fosse só paixão
Se não fosse o coração
Ou o tamanho do “documento”
Se fosse em outra encarnação
Sem as desculpas que invento
Serias uma opção.
Se não fossem tantos "ses"
Marido, mulher, bebês
Se eu fosse bi-homo-cis
Se fosse em outro país
Se fosse essa a nossa vez
Se fosse o que eu sempre quis
Talvez – e apenas talvez
Seríamos um par feliz.