Introdução Tabaré · Capítulo 2 de 16
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Introdução

Introdução

I

Levantarei a laje de uma tumba;

E, internando-me nela,

Acenderei no fundo o pensamento

Que há de iluminar a solidão imensa.

Dai-me a lira, e vamos: a de ferro,

A mais pesada e negra;

Essa, a de apoiar sobre os joelhos

E sustentar com a mão trêmula,

Enquanto açoita o vento temeroso

Que silva nas tormentas,

E, ao golpe do granizo estalando,

Seus acordes difunde nas trevas;

A de cantar sentado entre ruínas

Como a ave agoureira;

A que, lançada ao fundo do abismo,

Do fundo do abismo nos responde.

Ao se debulharem as potentes notas

De suas cordas feridas,

Despertarão os ecos que dormiram

Sono de séculos na escura cova;

E formarão a estrofe que revele

O que a morte pensa;

Ressurreição de vozes extinguidas,

Estranho acorde que em minha mente soa.

II

Vós, os que amais os impossíveis,

Os que viveis a vida da ideia;

Os que sabeis de ignotas multidões

Que os espaços infinitos povoam,

E desses seres que entram nas almas

E mensagens obscuras lhes revelam,

Desabotoam as flores no campo

E acendem no céu as estrelas;

Os que escutais queixumes e palavras

No triste rumor da folha seca,

E algo mais que a ideia do inverno

Próximo e frio à vossa mente chega,

Ao ver que os ventos outonais

Despem as árvores, e as deixam

Enregeladas, imóveis, disformes,

Como esqueletos de belezas mortas;

Segui-me até saber dessas histórias

Que o mar, o céu e a dor nos contam;

Que narram o ombú de nossas colinas,

O verde canelón das ribeiras,

A palmeira centenária, o camalote,

O ñandubay, os talas e os ceibos:

A história do sangue de um deserto,

A triste história de uma raça morta.

E vós ainda mais, bardos amigos,

Galantes trovadores de minha terra,

Virgens de minha pátria e de minha raça

Que temperais o alaúde dos poetas;

Segui-me juntos, a escutar as notas

De uma elegia que, na pátria nossa,

O bosque entoa quando fica só,

E tudo dorme entre seus ramos quietos;

Crescem loureiros, filhos da noite,

Que esperam liras para a elas se prenderem,

Lá na escuridão em que ainda palpita

O grito do deserto e da selva.

III

Estranha e negra noite? Aonde vamos?

É céu isto, ou terra?

É o de cima? O de baixo? É o fundo,

Sem relação, nem espaço, nem barreiras.

Submersão do espírito no obscuro,

Reino das quimeras,

Em que não sabe o pensamento humano

Se desce, ou sobe, ou se despenha;

O caos da mente que, pujante,

A inspiração ordena;

Os elementos vagos e dispersos

Que o gênio amassa e na forma encerra.

Notas, palavras, prantos, alaridos,

Preces, anátemas.

Formas que passam, pontos luminosos,

Germes de impossíveis existências:

Vidas absurdas, em eterna busca

De corpos que não se encontram,

Dias e noites em estreito abraço,

Que esperam espaço e tempo em que viver;

Linhas fosforescentes e fugazes,

E que nos olhos ficam

Como estrofes de um hino esboçado,

Ou germes de auroras ou de estrelas;

Cores que se embainham e se repelem

Em inquietude eterna,

Ânsias de luz, primeiras vibrações

Que não acham ritmo, não dão lume, e cessam;

Tipos que teriam sido e não foram,

E que ainda o ser esperam,

Informes criações, que se movem

Com uma vida estranha e incompleta.

Projetos, modelados pelo tempo,

De raças intermediárias;

Princípios sutilíssimos que oscilam

Entre a forma errante e a matéria;

Vozes que chamam, que interrogam sempre

Sem encontrar resposta;

Palavras de um idioma indefinível

Que não falaram as línguas humanas;

Acordes que, ao brotar, rompem a harpa,

E nos ares rebentam

Estridentes, sem ritmo, como notas

De mil pontos dispersos que se encontram,

E se abraçam em vão sem se fundirem,

E até essa mesma repulsão ingênita

Forma harmonia, porém rara, absurda,

Música indescritível, mas imensa;

Rumor de multidões silenciosas,

Tumultos que se afastam...

Tudo se agita em roda atropelada,

Nesta obscuridade que nos rodeia;

Tudo assalta em tropel o pensamento,

Que penetra em seu seio

Para tornar inteligente o confuso,

Para enfrentar o que foge e se rebela;

Para consagrar ao ritmo e ao som

A doce união eterna,

A da cor e da alma com a linha,

Da palavra virgem com a ideia.

Tudo brota em tropel, ao levantar-se

A poderosa pedra,

Como bando de aves que, chilreando,

Brota do fundo de profunda cova;

Nuvem com vida que, tomando formas

Variáveis e quiméricas,

Se contrai, se alonga e se revolve,

Por si mesma empurrada nas trevas.

Ali coagulou em minha mente, obedecendo

A uma atração secreta,

E entre risos e prantos, e alaridos,

Ergueu-se a sombra da raça morta;

Daquela raça que passou nua

E errante por minha terra,

Como o eco de uma súplica não ouvida

Que, a caminho do céu, o vento leva.

Tipo sonhado, surgido sobre a face

Da infinita névoa;

Em sonho de uma noite sem aurora,

Flor que uma tumba alimentou em suas fendas;

Quando vejo tua imagem impalpável

Encarnar nossa América,

E fundir-se na estrofe transparente,

Dar-lhe sua vida, e palpitar nela;

Quando creio formar o desposório

De tua essência ignorada

Com essa forma virgem, que os gênios

Para seu amor ou sua dor encontram;

Quando creio infundir-te, com minha vida,

O ser da epopeia

E legar-te à minha pátria e à minha glória,

Grande como meu amor e minha impotência;

O mais hábil contato das formas

Desvanece teu rastro,

Como, ao contato da luz, se apaga

O brilho sem cor dos vaga-lumes.

Mas eu te vi. Flutuavas no obscuro,

Como um farrapo de névoa;

Afluíam a ti, buscando vida,

Como ao seu centro acodem as moléculas.

Linhas, cores, notas de um acorde

Disperso, que frenéticas

Se buscavam em ti; palpitações

Que em ti buscavam coração e artérias;

Olhares que lutavam em teus olhos

Por imprimir sua marca,

E lágrimas, e anelos, esperanças

Que em tua alma reclamavam existência:

Tudo o que era da raça: o inaudito,

O que o tempo dispersa,

E não cabe na forma limitada,

E faz estalar a estrofe que o encerra.

Ficou em meu espírito tua sombra,

Como nos olhos ficam

Os pontos negros de contornos ígneos

Que neles deixa uma luz intensa...

Ah! não, não passarão, como a nuvem

Que a água imóvel em sua face reflete;

Como esses sonhos da meia-noite

Que pela manhã já não se recordam:

Eu te ofereço, ó sonho de meus dias!

A vida de meus cantos, que na terra

Viverão mais que eu... Palpita e anda,

Forma impossível da estirpe morta!

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