Livro terceiro - Canto primeiro Tabaré · Capítulo 11 de 16
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Livro terceiro - Canto primeiro

Livro terceiro - Canto primeiro

I

Gênios das ribeiras,

Invisíveis espíritos do bosque,

Que converteis em moscas ou répteis

Os índios que vagueiam pela noite;

Seres que, nas trevas,

Gastais o tempo em ajustar os broches

Da flor adormecida, enquanto seu ovário

Abre seu amor ao pólen aceso;

Que nela elaborais

O doce néctar que a abelha sorve

E os frescos aromas que, sedentos,

Os lábios dos zéfiros recolhem;

Ou na mortal cicuta

Viveis encolhidos, dos homens

Espreitando o segredo da vida

E destilais o fel das dores.

E azedais a erva crespa

Que nem a capivara nem a lontra comem,

E envenenais, sem que o note,

Os ovos sob a asa

Do avestruz adormecido.

II

Virgens transparentes

Que vos pendurais nos ramos dos molles,

E vos balançais, traçando com os pés

Riscos de luz sobre a linfa imóvel,

E por essas fibras lassas

Com que o salgueiro acaricia o camalote

Subis e desceis levando ao rio

Raios de lua em feixes brilhadores;

Ou afundadas num leito de espadanas

Vos reclinais nas margens desertas,

A escutar o segredo das ondas

Que transformais em trêmulas canções;

Povoadores do ar,

Leves e multiformes,

Filhos dos crepúsculos azuis

Que com as asas velais os montes;

Que perfurais o dente

Da víbora, onde

Derramais os licores peçonhentos

Que, ao se infiltrar, corroem o coração;

Que nos olhos do tigre

Acendeis vossa tocha, e as visões

Preparais à sua luz disparatadas

E as vazais em seus estranhos moldes;

Que na branca ossada

Fazeis brotar os fogos-fátuos duplos,

Esses que, sobre a face dos pântanos,

Ébrios, inquietos e impalpáveis correm.

Sobem, descem, arrastam-se, perseguem-se,

Agitam-se e se rompem,

E uns aos outros se apagam

Sem que o ar os mova nem sopre;

Almas dos murmúrios,

Espíritos errantes das flores

Que, ao murmurar, tornais mais perceptível

O solene silêncio dos orbes;

Invisíveis remadores

Que empurrais brandamente o camalote

Em que navega incorporado o tigre

Que, dormindo na margem, descuidou-se;

Engendros dos rios,

Que recortais a escama e os arpões

Do dourado debaixo das ilhas

Que em vossos ombros sustentais à tona,

Embalando-as sobre eles

Sem que o rio em que nadam transborde,

Nem o movimento imperceptível e brando

Desmorone as úmidas barrancas;

Seres que, como chamas apagadas,

Sois de um passado informe

A vida atual e eterna, cujo véu

A força do espírito descobre;

Testemunhas que não morrem.

Que acompanhastes as tribos nômades,

Vistes que se desprendiam de seu tronco

E viajavam, submergindo na noite:

Brotai de entre os tempos e escutai-me.

Eu vos chamarei por vossos próprios nomes;

Na forma, na voz e no movimento

Meu espírito sutil vos reconhece.

Cavalgando nas horas que passaram,

Que o tempo enfreia e em sua noite esconde,

Desatai vossas asas pontiagudas

Em legiões aéreas e disformes.

Perfurai-me essa terra!

Sacudi-me esse monte!

Como caem os cabelos de um ancião,

Como o cardo desgrana seus plumões,

Da cabeça morta

Em que pensou uma raça, talvez eu consiga

Ver desprender-se o pensamento oculto

Sobre minha fronte quando eu vos invoque.

Dai uma volta a esse rio!

Saí, desde o seu lodo até as suas margens,

Com segredos da água e da areia,

Dos ossos de pedra que se escondem

No limo profundo

Em que as algas têm seus amores,

Arrasta-se o jacaré, dorme a arraia,

E a tartaruga põe suas ninhadas.

Infundi nesse índio

Que agora penetra no calado bosque

Os últimos latidos de uma raça

Que ao vosso acento vivem e respondem;

Latidos de esperanças impossíveis,

Rude e último acorde

Das harpas malditas que soaram,

Tangidas pela morte e pelas dores.

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III

É Tabaré. Penetra novamente

Em seu bosque nativo,

Cujas árvores anosas o contemplam

E a seu passo interpõem seus troncos.

E estendem-lhe os braços descarnados

Com raras contorções,

Como fantasmas que em imóvel dança

Cruzam e se retorcem pelo monte.

E em torno dele se agrupam para olhá-lo,

E assim que o reconhecem,

Depois de feri-lo com os braços negros,

Dispersam-se em todas as direções.

E os duros lagartos, ao senti-lo,

Correm para as suas tocas,

E assomam as cabeças pontiagudas,

E o longo corpo sem calor encolhem.

E as rãs se calam por um instante

Enquanto ele passa, e suas vozes,

Como longos queixumes, às suas costas,

Quando passou, novamente se ouvem.

E os pássaros noturnos o seguem

Em negras procissões:

O chajá dando saltos pelo chão,

Rangendo esses morcegos enormes

Que, como manchas da própria sombra,

Percorrem a escuridão,

Perseguindo os átomos, ou fugindo,

Atarantados, de invisível açoite.

Atrás de cada tronco, agachada,

Parece que se esconde

Alguma coisa que, ao passar o índio,

Segue atrás dele com movimento torpe.

Ele sente às suas costas esse mundo

Que lhe sobressalta a alma;

Mas não se volta, e apressa o passo,

E segue, e segue sem saber para onde.

Quanto andou? O índio não o sabe.

Era a meia-noite,

Talvez, quando, rendido pela febre,

Deteve-se entre rudes convulsões,

Pois a lua, no alto dos céus,

As transparentes bordas

Das nuvens plúmbeas acendia,

Franjando-as de tênues resplendores.

Das que diante de seu disco atravessam,

Parecem os farrapos

As silhuetas de negros crocodilos

Que percorrem a infinita solidão;

Empalidecem, longínquas, as estrelas

Que, desde o alto, voam para o Norte,

A cruz do Sul inclina-se esplendorosa

Com os braços tocando o horizonte.

Tabaré escuta: no profundo vazio

De seus olhos imóveis

Introduz seus dedos o delírio

Que lhe atroa a cabeça com suas vozes;

E ora fugazes, ora persistentes,

Começaram então

A falar e a cobrar vida os espaços,

A terra, o ar, o coração do bosque.

IV

E aos pés do charrúa

A terra dava gritos.

Retorciam as árvores seus troncos

Como animadas por um irado espírito:

— O gênio da terra

Há de morder teus pés, com as presas

De suas víboras negras, que se arrastam

Silvando como o vento! Não és índio!

— Passa! Por que me pisas?

O sangue brota de teus pés feridos.

Por que me manchas? De teu sangue nascem

Más serpentes, negros crocodilos.

— Não te detenhas; foge!

Aqui em meu seio não acharás abrigo;

Já para ti a pátria é uma lembrança,

Não te sentes chamar? É o abismo.

Tabaré ouviu a voz, como se brotasse

Das fendas do solo revolvido:

Longínquas multidões

A seus pés agitavam o vazio;

Rangiam as raízes das árvores,

Como se um estranho fluido

As retorcesse ao circular por elas,

Dando-lhes movimentos convulsivos.

E do anoso ceibo

Caiu, volteando em animados giros,

Uma folha seca que fitou o charrúa,

Que por sua vez a fitava, e ela disse:

Eu rolarei a teus pés ensanguentados,

Realidade de meu símbolo;

O vento me arrancou de meu ramo,

A ti te empurra o vento do destino.

Eu vivo com a vida de tua estirpe,

Com tua febre palpito;

E meu pó e o pó de teus ossos

Hão de formar o lodo do rio.

Vamos, charrúa; segue-me, selvagem:

Chama-nos o torvelinho.

Tuas luas passaram; o sonho negro

Anda em tuas veias derramando frio.

O chão te derruba. Não o sentes? Vem;

Vem, segue comigo;

Não sentes o alento de outra raça

Que te sopra do solo em que nasceste?

É a raça de virgens tão pálidas

Como a flor do lírio,

Formosas qual a lua, quando afunda

Entre as águas trêmulas do rio;

E têm luz de aurora no olhar,

E seus olhos tranquilos

Olham com ódio o índio dos bosques,

E o chamam maldito.

Vamos, charrúa; segue-me, selvagem:

Olha aquele remoinho.

Ventos de tempestade vêm de longe

Uivando como cães fugitivos.

As sombras que percorrem a mata

Lançam agudos gritos;

Essas chamas sem luz marcam a rota

Por onde correm os que foram vivos.

Os impassíveis olhos do charrúa

Seguem os vãos giros

Da folha em cujas veias circulava

A vida de um espírito cativo,

Que em pé a sustentava,

Que a empurrava contra o próprio vento,

Que a levou saltando e retorcendo-se,

Sempre olhando e apontando para o índio.

V

Ouve então o ar da noite

Que a seu lado respira,

Ofegante e com penosa intermitência,

Como o hálito de alguém que agoniza:

Tu te afogas?, gritava-lhe. É que em teu bosque

Só a morte habita.

Está povoado o ar pelas sombras,

Pelas sombras charrúas que te miram.

Venho empapado no pranto das tribos

Que morrem fugitivas;

Venho carregado de vapor de sangue

Que forma sobre o campo uma neblina.

Sentes os ais? É a morte; corre

Atrás das mães índias

Que fogem sem filhos. Eles não se movem:

Estendidos lá estão nas colinas.

São teus irmãos, mortos em sua terra

Pela raça maldita.

Vês essa virgem que anda em seus sonhos?

Está empapada de teu sangue. Mira-a!

VI

O índio está de pé. Todos os seus membros

Enregelados tremem;

Falta-lhe o chão, e ele volta a recuperá-lo

Em atitude violenta e convulsiva.

A febre em sua cabeça eriçada

Afunda a mão rígida,

E em seus olhos atônitos flamejam

Com fosfórica luz as pupilas.

Tudo lhe é estranho: o vento,

As árvores que imitam

Seres nus, negros, que em torno dele

Se detiveram, e cujos olhos brilham

Entre cabelos que até o chão descem,

E lentamente oscilam;

Brilham marcando o sítio em que se encontram

Cabeças que, sem serem vistas, se adivinham.

Os rumores que passam vão deixando,

Pela extensão vazia,

Como esses remoinhos que as barcas

Fazem surgir do fundo das linfas,

Ressonâncias que brotam da sombra,

Tumultos que se agitam,

Silêncios prolongados que de novo

Estalam em confusas vozerias,

Ou dando passagem a uma voz triste e isolada,

Voz que parece amiga,

E diz algo ao ouvido numa língua

Inteligível, mas nunca ouvida.

VII

Por fim, como se as vagas sensações

Que o índio ainda percebia

Sofressem no nada tenebroso

Uma imersão violenta e repentina,

Tabaré desaba. Um ruído estranho

Produz sua queda.

Queixa-se o solo? Quem impõe ao bosque

Essa atitude de assombro ou de atonia?

As notas que passavam,

Os rumores que fugiam,

Os ramos que, inclinados pelo vento,

Iam novamente levantar-se,

Suspensos ficaram. É que o charrúa

Está na selva antiga

Do índio Caracé; é que tombou

Sobre o sepulcro de sua mãe extinta,

A cruz abre os braços a seu lado,

A cruz da cativa!

Parece que, inclinando a cabeça,

A cruz abriga o índio em seu regaço.

O que falou com o selvagem, naquela noite,

A alma errante que na cruz palpita,

É o segredo da sombra eterna...

Começa a amanhecer, quase é dia.

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