Livro segundo - Canto terceiro Tabaré · Capítulo 7 de 16
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Livro segundo - Canto terceiro

Livro segundo - Canto terceiro

I

Ali vai... calado, como sempre o veem

Passar pelo povoado:

Estranho, taciturno. O índio louco

Chamam-no os soldados; mas, ao vê-lo

Passar entre eles, pálido, absorto,

Olham-no em silêncio,

Seguem-no com os olhos e, apontando

Entre si o selvagem, dizem: Que é isto?

— Que dizes tu?

— Que é louco rematado,

Pelo que estou vendo.

— Rematado, bem dito; vede seus olhos;

Esse índio tem o juízo embaralhado.

— Mutuca que não zune me parece

Em seus mudos passeios.

— E parece que sofre!

— Qual! Essa gente

Não é capaz de dor... Morre em silêncio!

Vede como está pálido, desfalecido.

Seus passos são incertos:

Parece que seu pescoço não pudesse

Da cabeça suportar o peso.

— É que algo terá perdido, e anda sempre

Buscando-o no chão.

— E também no ar!

— Certo! O louco

Costuma procurar nele pássaros negros.

— E se eu vos dissesse que esse insano dorme

Com os olhos abertos?

— Ouça!

— Como vos digo. Tenho observado

Mais de uma noite, e assustou-me seu aspecto.

Parece um cadáver que nos mira!

— Terá o diabo no corpo?

— Tudo é possível. Se, nas altas horas,

Fordes observar os índios lá dentro,

Entre o grupo acobreado, ali entregue

Ao seu profundo sono,

Sempre tropeçará vosso olhar

Com os olhos diabólicos despertos.

São os desse índio: não se fecham nunca;

Sentado, imóvel, hirto.

Vê-lo-eis sempre, até à meia-noite,

Tal como agora mesmo o estamos vendo.

— Louco, não há mais.

Ou possesso, acaso.

— Que dizes? Falaremos com ele?

— Fala-lhe tu, que entendes de latins,

A ver se te responde.

— Não o creio.

Há um mês que vive entre nós,

Nem sua voz conhecemos.

— Não será mudo?

— Não; com o ancião

Falou alguma vez, segundo entendo.

— Vede-o, lá vai; quando naquela colina

Aparecer o luzeiro,

Diante de nós passará de volta;

Podes sair-lhe então ao encontro.

— Mas fala-lhe com tino, com medida:

Cuida de não ofendê-lo;

Sabes que o capitão tem ordenado

Que o Senhor Dom Charrúa não irritemos.

— Não é aquela a formosa Dona Blanca?

— A mesma. O prisioneiro

Vai passar a seu lado.

— Vede que formosa,

Que formosa está com esses olhos negros!

II

Tabaré segue; detém-se às vezes,

Como se escutasse atento,

E seu olhar se afunda nos espaços,

Ou vaga em torno seu, com receio.

Inclina novamente a cabeça,

E segue a passo incerto,

Como quem vai temendo a cada instante

Ser surpreendido por oculto risco.

Blanca o observa; segue do charrúa

Os tristes movimentos;

Espera a ocasião de ver seus olhos,

Pois sabe que algo há de encontrar neles.

Mas é em vão; o prisioneiro passa

Sem jamais fitá-la, anuviando o cenho,

E, ao cruzar diante dela, apressa-se

E se afasta tremendo, quase fugindo.

É que fecha os olhos e, no entanto,

Vê a imagem de Blanca entre os véus

De uma aurora confusa, imperceptível,

Que ilumina o nascer de suas lembranças.

É ela que flutua em seu passado?

É a branca visão de seus sonhos?

A uma mulher tão branca como aquela

Ouviu cantar os cânticos maternos.

O índio sente confusão ignota;

Vacila, tem medo,

Procura a menina, e foge ao encontrá-la,

Foge da ilusão e do mistério.

III

Assim passava Tabaré naquele dia

Diante da virgem que, com doce acento,

— Vá o índio com Deus! Por que assim corre?

Disse afinal. — Infundo-lhe algum receio?

Ele se deteve sem erguer a fronte,

Como chamado ao longe;

Como se a voz levasse longo espaço

Para ir do ouvido ao pensamento.

E ali fixo ficou, como tocado

Por um conjuro; trêmulo

Como o corcel que, em sua carreira, escuta

O bramido do tigre, no deserto.

Assim como uma pedra,

Ao fundo do abismo descendo,

Desperta temerosas ressonâncias,

Vozes longínquas, queixas e lamentos,

A voz da espanhola

Desceu à alma do selvagem enfermo,

E nesse abismo despertou a vida,

A queixa, o grito da dor e do tempo.

O índio ergueu a fronte: olhou para Blanca

De um modo fixo, iluminado, intenso.

Havia em sua atitude indecifrável

Terror, adoração, reproche, rogo.

IV

“— Tu falas ao índio! Tu, que das luas

Tens a claridade!

Por que o feres com tua voz tranquila,

Tranquila como o canto do sabiá?

Se tens nos olhos, das luas,

A transparente luz,

Por que tua alma para o índio é negra,

Negra como as plumas do urú?

Por que o feres na alma escura?

Deixa o índio morrer!

Tu tens ódio negro para o índio,

Para o triste cacique guarani.”

Blanca sentiu uma lágrima nos olhos

E uma amargura insólita no peito:

— Eu não tenho ódio por ti, charrúa;

Disse ao cacique com acento ingênuo.

As pupilas azuis do selvagem

Brilhavam assombradas; em seus nervos

Vibrava a alma. Tabaré sentia

O abismo soar em seu cérebro.

Fala pela vez primeira à espanhola:

Suas palavras, sem ordem nem concerto,

Brotam de seus lábios como informe

Tropel de sombras, luzes e reflexos.

“— Oh, sim! Eu sei que espreitas

Minhas horas de dor:

Sei que remexes asas de pintassilgos

Onde estou.

Eu sei que tu o segredo

Conheces do meu ser,

E sei que te escondes nas névoas...

Tudo eu sei!

Que gemes no vento,

Que nadas na luz,

Que ris no riso das águas

Do Iguazú;

Que olhas nas altas

Fogueiras de Tupá,

E em luas de fogo fugitivas

Que brilham ao passar.

Tu, como o algarrobo,

Dás sonho a beber;

E dás a sombra formosa que envenena

Como ele, ahué.

Eu, temendo tua sombra,

Tremo e fujo de ti,

E tu, no despertar de minhas memórias,

Vais atrás de mim.

Meus nervos, que eram fortes,

Fortes qual ñandubay,

Brandos como o rebento mais recente

Do ombú estão...

Não passou uma lua

Depois que eu te vi;

Olha como está enfermo o índio bravo

Somente por ti!”

A súplica, o reproche,

A imprecação, o rogo,

Sucediam-se na voz do índio

E em seu gesto nervoso e altaneiro;

Ele, que se afastara

Com a fronte inclinada sobre o peito,

Como impelido por interna força,

Para a menina se voltou de novo;

Olhou-a por breve espaço

E apontou-lhe o rosto com o dedo,

Como se, do fundo escuro de sua alma,

Envolto em luz brotasse um pensamento.

“— Era assim como tu... branca e formosa;

Era assim... como tu.

Olhava com teus olhos, e em tua vida

Pôs sua luz;

Eu a vi sobre o cerro das sombras

Pálida e sem cor;

O índio menino não beijou sua mãe...

Não a chorou!

As vespas de fogo das nuvens,

Elas brilharam mais;

Mas o lar do índio se apagava,

Seu doce lar.

Passaram mais frios que dois invernos

Por minhas mãos e meus pés...

Só nas horas lentas eu a vejo

Como corpo que foi.

Hoje vive em teu olhar transparente

E no espaço azul...

Era assim como tu a minha mãe,

Branca e formosa... Mas não és tu!”

Para ocultar o pranto

Que, sem molhar-lhe as pálpebras, acerbo

Como chuva de fel, se derramava

E empapava do índio as lembranças,

O infeliz charrúa,

Em convulso e mortal desassossego,

Afastava-se sombrio, e se voltava

À espanhola em gesto violento:

“— Assim como tua mão,

Branca como a flor do guayacán,

É a que tenho visto sempre na batalha

Minha fronte suarenta refrescar.

A mesma mão branca

De meu peito nu separou

O raio que arrojavam teus irmãos,

Mais rápido que o voo do falcão;

Eu a vi entre seus dedos

Romper a flecha que chegou a esconder

Em minhas veias o sono das sombras,

Esse pálido sono da dor...

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Mas... não era a tua!

Era outra aquela mão, não é verdade?

Dize ao charrúa que esses olhos teus

Não são os que em seus sonhos vê flutuar!

Dize que não é tua raça

A que verte essa tênue claridade

Que na alma do índio reproduz

Aquela luz de seu extinto lar;

Aquela luz que o astro dos mortos

Nunca saberá copiar,

Mais pura que o rir das manhãs,

E que o chorar das tardes, muito mais!

Oh! não: tu és a sombra,

Tu não vives a vida como eu;

Por que hás de arrebatar-me minhas lembranças

E vestir-te diante de mim de sua dor?

Deixa-me! Não me sigas!

Não sentes? Não o vês?

O coração do índio está muito negro!

Triste como a sombra do ahué!”

V

Com movimento brusco

Separou-se da menina o índio,

Voltando a cabeça, como se fugisse

Temendo a agressão de um inimigo.

Um eco amargo e triste

Ficou de Blanca no ouvido absorto.

Tabaré atravessou entre os soldados;

Nenhum o deteve em seu caminho.

Blanca seguiu com pena,

Com os olhos, o índio fugitivo.

Aquele estranho ser tinha em si

A atração do obscuro do abismo.

VI

Nesse estado em que, movida a alma

Por força superior, no infinito

Medita, sem consciência de seus atos,

Como outro eu, de nosso ser distinto;

E conhece os seres do ambiente

Em que vaga despida de sentidos,

Sem nos trazer, de volta de sua viagem,

Nada que de outros mundos nos dê indícios;

E, ao despertar de novo a sensação,

Rompe de um sonho o transparente fio;

Ficou a menina, até que ouviu às costas

Alguém dizer: — Que te falava o índio?

— O índio?... Nada. Em que eu estava pensando?

Ah! Luz, não te havia visto.

Que me disseste?... Agora me lembro:

Nada, nada me disse.

E acrescentou Dona Luz: — Mas aqui, falando,

Nós o vimos contigo!

E Blanca: — Sabes, Luz, que esse selvagem

Amou sua mãe? Ele mesmo me disse.

— E não o temes, Blanca?

— Temê-lo! Pode ser. O que, ao ouvi-lo,

Meu espírito sentiu foi algo raro,

Muito semelhante ao medo das crianças...

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Com terror, o olhar

Cravou em sua irmã Dona Luz.

Que terá visto

Ou crido advertir em suas pupilas?...

Aconselhou-a a fugir daquele índio.

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