Livro terceiro - Canto segundo Tabaré · Capítulo 12 de 16
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Livro terceiro - Canto segundo

I

Quem grita por ali, que treme o bosque,

E até os ares tremem?

Um vago resplendor, lá ao longe,

Sobre o céu escuro se projeta.

Destaca o bosquezinho, cujas formas

Vacilantes revela,

E ilumina aquele ombú, que só e negro

Está de pé, dormindo, lá na encosta.

Parece que se movem por um instante

As lombas sonolentas,

Que na turbada escuridão estavam,

E que assomam por entre as trevas.

De novo o alarido temeroso

Nos ares rebenta.

Acaso a fome congregou

Nesses matagais as feras?

Não; vede as feras: em rebanhos,

De orelhas estendidas,

Saltam daqui e dali; sobre as lombas

Detêm-se, voltando as cabeças;

Empreendem novamente, amedrontadas,

Sua rápida carreira;

E, alongando os corpos, deslizam

Com passo sigiloso entre as brenhas.

Arqueando os lombos amarelos,

Ficam encolhidas,

E na profunda escuridão do bosque

Seus dois olhos de fogo cintilam.

A ema corre pela planície,

Já com as asas soltas;

Sente-se o bater de asas dos pássaros

Que abandonam seus ninhos e se afastam;

E ouvem-se as corridas do veado

Que salta na ramagem,

E o rumor de manadas de capivaras

Que correm a buscar suas tocas.

II

Quem vai? Que sombras são essas que, correndo,

Vão entre as trevas

E indicam, com os braços estendidos,

O resplendor da fogueira distante?

São os índios charrúas. Brilharam

Os fogos da guerra

Nas lombas do Hum; fogos de morte,

Luzes do Uruguay nas ribeiras.

E o índio que perseguia o veado

Nas pampas desertas;

E o que acendia o tronco de algarrobo

No lar do vale, e às flechas

Atava, com os nervos da capivara,

O dente de pedra,

Ou torcia a corda do arco,

Feita de flexível trepadeira;

E o que olhava mais além, estendido

Com sua eterna indolência,

Suas mulheres fermentarem a chicha

E levantarem as peles da tenda,

Todos viram os fogos das lombas

E ergueram as cabeças,

E apontando o resplendor gritaram:

Ahú! Ahú! Ahú! Fogos de guerra!

Todos caminham; todos tomaram

Suas lanças e suas flechas;

Pintaram os rostos e os corpos

Com riscas muito azuis e muito negras,

Injetando em sua pele os sucos acres

Das ervas silvestres

Que o veado não come nem a lontra,

E que crescem de noite entre as pedras,

Sob as quais, nas horas altas,

Ladra a raposa em sua toca,

E se esconde a iguana perseguida,

E fazem ninho a coruja e a cobra.

Todos caminham; levam nos corpos

Arreios de peleja:

As plumas de ñandú sobre a fronte,

Nas lanças, cabeleiras humanas.

Aonde vão? Aonde os chama o fogo,

O fogo da guerra;

O que anuncia a morte do cacique

Lá no bosquezinho dos ceibos.

Ahú! Ahú! Ahú! Correm os índios,

Gritando nas trevas,

E o turbado silêncio da noite

Foge a esconder-se na selva próxima.

III

As nuvens de fumaça densa e iluminada

Que no ar se elevam

Sobre a massa negra das árvores

Marcam o sítio em que as tribos velam;

De longe se veem dos charrúas

As escuras silhuetas

Que, cruzando e saltando entre os troncos,

Sobre o fundo avermelhado se projetam.

IV

Estranho funeral! Os índios ébrios

Avivam dez fogueiras

Acesas em torno de um cadáver

Estendido sobre um leito de mato.

É um velho cacique. O sono frio

Entrou-lhe pelas veias;

Ninguém pôde arrancá-lo com a boca

Da pele do ancião; nela ficou,

Deixando-lhe a cor amarelada

Que entristece os ceibos

Quando o vento se esfria, e dos ramos

As folhas descem para morrer na terra.

Os médicos o ventre do cacique

Sugaram com força

Para arrancar-lhe o dardo e o verme

Que lhe causavam mal. Inútil luta.

Vede-o estendido, imóvel, taciturno,

Tão comprido como era;

Os índios gritam, em torno dele correm,

E golpeiam as bocas abertas.

O arco de urunday tem o cadáver

Entre as mãos hirtas;

Colocaram em ordem ao seu lado

Sua lança, suas macanas e suas flechas,

E peles de veado, e as vasilhas

Em que fermenta o sumo

De guaviyús silvestres e algarrobas,

E do mel que fabricam as abelhas.

V

As tribos cuidam para que tenha o morto

As pupilas abertas;

Bem atadas puseram em sua cintura

As assobiadoras boleadeiras de combate;

E, para que espante entre os negros toldos

A Añang e a Macachera,

Com sucos de urucum pintam seu corpo

E embijam-lhe o rosto que amedronta.

Tem azuis os pômulos salientes;

Amarelas e negras

São as riscas que cruzam suas faces,

E seu peito, e seus braços, e suas pernas.

O rosto deformado do cadáver

Forma uma horrível careta

Que infundirá terror quando o cacique

Dos gênios do ar se defender.

VI

Ahú! Ahú! Ahú! Por todos os lados

Os índios atravessam;

Uivam, correm, saltam arquejantes,

Dando ao ar as rígidas melenas.

Fazem assobiar as boleadeiras, agitadas

Em torno de suas cabeças,

Chocam as lanças, os punhos cerrados

Com gesto feroz elevam ao ar,

E formam um acorde indescritível

Que nos ares rebenta:

Ebulição de gritos e clamores,

Golpes, imprecações e corridas.

Ora ferindo-os em cheio, ora ao longe

Banhando-os pela metade,

Conforme das fogueiras se aproximam,

Ou delas, com vertigem, se afastam,

A luz faz brotar, como arrancados

Do meio em que se revolvem,

Corpos nus, rostos que aparecem

E de novo se afundam nas trevas.

VII

Não são mulheres essas que agora

As fogueiras iluminam,

Essas que dançam em redor do morto

E levam seus pequenos nos braços?

Sim; são mães de índios. Seus cabelos,

Em escuras madeixas,

Flutuam sobre as mórbidas espáduas,

Cingidos na fronte; mas não velam

Os corpos palpitantes e nus

Em que os fogos tremem,

Dando relevo aos seios redondos

Que, suados de cansaço, ondulam.

Têm seus movimentos convulsivos

Certa rude cadência,

E suas formas desnudas, às formas

Da fêmea do veado se assemelham.

Seus olhos negros brilham, embebidos

Na luz, e faiscam;

Cintilam suas cinturas elásticas,

Em plumas cinzentas de avestruz envoltas.

Os colares de pedras coloridas

Soam em suas gargantas,

E os cintilhos de brilhantes plumas

Adornam seus tornozelos e pulsos.

Aquele que, ajustado na fronte,

Ao erguer-se sobre ela,

Dá à figura a esbeltez do pássaro

Que ostenta seu penacho no salgueiral.

As índias vão cantando; seus cantares

São uma estranha mistura

De alaridos e gritos queixosos

Que num ritmo monótono se estreitam.

Os ruidosos bandos de gaivotas

Que sobre a água voam

Gritam como essas índias, e no ar

Como elas se revolvem e atropelam.

A turba dos índios as empurra,

E as mulheres rolam

Feridas, dando gritos que ao vagido

De seus filhos se unem. Não se arredam:

De novo se levantam, e prosseguem

Em sua dança frenética,

E nos cantares bárbaros que entoam

Em torno do cadáver, dando voltas.

VIII

Em redor daquele fogo e de cócoras,

Vede essas índias velhas;

Quase com os joelhos sobre o peito,

Revolvem suas vasilhas e bocejam.

Sobre seus rostos pendem os cabelos,

Que o tempo não branqueia,

Como rebentos lassos e murchos

Que ainda dos troncos vacilantes pendem.

Não adornam os corpos angulosos;

Suas mandíbulas secas

Mastigam algo que ao beberagem lançam,

Que nas silvestres cascas fermenta;

Gritam de vez em quando, e se levantam,

E de novo se sentam.

Há em suas vozes algo de rangido

Que talvez do grito do chajá se aproxime.

IX

E esses índios de bruços na sombra?

Por que dão esses queixumes?

Não é sangue o que brota de suas mãos

Que mostram destroçadas?

Cortaram os dedos. São parentes

Do cacique que velam:

Cortaram os dedos com o fio

De seus machados de pedra.

Assim, de que choraram o ancião,

Dão eloquente prova.

Quem porá em dúvida sua dor, que em vozes

Em coro manifestam?

X

Ninguém que à meia-noite aqueles gritos

E clamores ouvisse

Evitária que o terror lhe gelasse

Com um frio de morte até as veias.

Os prantos das crianças e mulheres

No ar se misturam

Com os gritos, palavras e alaridos

Dos índios que, irados, vociferam,

E com o choque das armas, e o assobio

Das boleadeiras de pedra,

E os golpes de corpos desabados

Que, feridos, no chão se revolvem.

XI

Que querem essas gentes? Por que correm?

Que veem nas trevas?

A quem ameaçam no ar

E dirigem suas bárbaras arenga?

Quem não o sabe! Espantam as sombras

Que, em bandos, se aproximam

Do índio morto, para fechar seus olhos

E apagar-lhe os fogos. Vede: são essas,

Essas que, com suas asas de carancho,

Entre os ramos voam;

Curupirá as sopra e as revolve,

O negro Añanguazú vem com elas.

São os filhos do ar e da noite,

Que andam nas tormentas

Acendendo seus fogos nas nuvens,

Espalhando nelas os grandes ruídos;

São os cães que roem as luas

E apagam as estrelas,

E lançam os latidos prolongados

Que se costumam ouvir nas cavernas;

Os que afiam os dentes das víboras

Adormecidas em suas covas,

E na relva que pisam os charrúas

Semeiam as aranhazinhas da morte.

São as sombras malditas que do cadáver

Do cacique se aproximam,

Para fechar suas pálpebras, ficando

Sob elas ocultas; ali esperam

Que se apague do índio o olhar

E para dentro se volte.

Então o perseguem e o acossam

Na noite sem luas que começa.

E ali, escondidos em seus toldos negros,

Disparam-lhe suas flechas,

Fingem rostos horríveis no escuro

E sopram como o vento em suas orelhas.

XII

O vento se acalmou; algumas vozes,

Em meio à incoerência

Da gritaria selvagem, com esforço

Talvez se compreendam.

Ouvi esses que cruzam: suas palavras

Claras ali ressoam;

Também aqueles que, com duros gestos,

Ameaçando o ar, vociferam:

— Ahú! Deixai o morto!

Deixai o tubichá!

Por que soprais a chama de seus fogos?

Deixai o morto, Añang!

— Não lhe fecheis os olhos!

— Ahú! Ahú! Ahú!

— Sentis ladrar as sombras? Saíram

Do tronco do ombú.

— Correi, segui aquela que ali se revolve!

Sacode a ramagem com as asas

E agita o ñapintá.

A quem leva o fantasma

De rápido correr?

Já fugitivo, em seus ombros leva

O cacique que foi.

— Como gritam as árvores!

— Ahú! Ahú! Ahú!

— O ar zumbe; são os moscardos

Que corre Añanguazú.

— Perseguindo a lua,

Os cães negros vão!

— Os cães negros que começam a beber

Sua tépida claridade!

Como olha essa sombra

Com seus olhos de luz!

— E como se retorcem e se alongam

Suas asas de ñandú!

— O vento! O vento negro!

Lá vai! Lá vai!

Quem zumbe nele? As moscas que conduz

Rosnando a mamangava!

XIII

As sombras da noite

Vêm voando em caravana aérea,

E lutam com as chamas, sacodem-nas,

E em torno do lar volteiam.

As chamas as rechaçam,

E as detêm em auréola negra,

Em cujo seio as árvores anosas

Tomam formas mutáveis e quiméricas.

Os olhos do cadáver,

Horrivelmente abertos, pestanejam;

Parece que seus membros estremecem

Ao avivar-se o fogo que o cerca,

Ou que o rígido corpo

Nada no ar, flutua nas trevas,

E afunda, e reaparece, e se transforma

Quando a inquieta labareda míngua,

Formando um fundo negro

Cheio de linhas vagas e revoltas;

Um meio em que se esfumam e se movem

Formas variegadas e incompletas.

XIV

O vento se calou entre os ares;

Os selvagens arquejam;

Apoiam-se nas lanças ou nos troncos,

Ou deixam-se cair sobre a relva.

A gritaria rareia: pelo ar

As vozes se dispersam.

Soam aqui os prantos das mulheres;

Além, os contundidos ainda se queixam.

Os fogos, não avivados, languescem;

Suas línguas oscilantes

Movem-se como o índio que, bêbado,

Leva de um ombro ao outro a cabeça.

Corre entre aquelas vozes um silêncio

Semelhante ao que reina

Sobre a onda do rio quando acaba

De passar pelo ar a tormenta.

XV

Rompe-o um jovem índio que, saltando,

Chega desvairado;

Dá um grito clamoroso e, com sua lança,

Fura a casca de um velho tronco.

Fala aos brados, furioso, sacudindo

Sua cabeleira negra;

Suas palavras parecem alaridos

De uma rude e fantástica eloquência;

E salta como o tigre, e com a maça

Ensanguenta o corpo,

E sobre o negro matagal de plumas

Agita a bola atada ao seu pulso.

São de ferro seus membros; ninguém excede

Sua estatura gigantesca;

Ramos de salgueiro negro, seus cabelos

Pelo rosto e ombros se despenham,

E em seus olhos pequenos e escondidos

Os olhares faíscam

Como águas negras e profundas,

Tocadas pelo raio de uma estrela.

XVI

É o cacique Yamandú. Os índios

Erguem-se e o rodeiam.

Que quer Yamandú? Reclama o mando,

Mostrando suas feridas e sua força.

Ninguém como ele descompõe o rosto

Com espantosa careta,

Nem lança o alarido que, na luta,

Brota do oco de sua boca aberta;

Ninguém como ele no lábio inchado

Atravessa o sinal

Que distingue os índios das tribos

Que mais espanto infundem na guerra.

Quem, senão ele, então, a gente

Levará à peleja?

Quem senão ele, que de inimigos mortos

Cem cabeleiras ostenta em sua tenda,

E adorna sua garganta com colares

De dentes e molares

De arachanes vencidos, cujas peles

Formam de seu arco a flexível corda?

Jamais o gamo, fugindo na planície,

Pôde esquivar-se à sua flecha,

Nem a ema ao golpe de sua bola,

Que silva como víbora sedenta.

Ahú! clama com grito prolongado,

Aqui, no urunday,

O índio Yamandú cravou sua lança...

Ninguém a arrancará!

Eu pelejei com ela entre as tribos

Que veem nascer o sol;

Nem jamais a quebrei no joelho,

Nem em meu braço tremeu.

Cravei-a no bosque onde acendem,

Os caciques chanás,

E os manuanos, tapes e bohanes,

Os fogos de seu lar.

Eu arranquei a sangrenta cabeleira

Do feroz Tubichá,

Cuja piroga atravessou as ondas

Do rio como mar.

Vede minha pele! Tem mais feridas

Que plumas o ñandú,

E que luas viram os anciãos

Sair do guaycurú.

Eu derramo o sangue de meu corpo,

Do qual, no chircal,

Brotam os yacarés que entre os juncos

Dormem do Uruguay.

Os raios dos brancos não penetram

Em minha curtida pele,

Mais dura que a pele da tartaruga

E do Jaguareté.

Olhai meus olhos: brilham na sombra;

São os ñacurutú...

Qual dos índios tem o olhar

De meus olhos de luz?

XVII

Um murmúrio de assombro se difunde

Entre aquela turba;

A tribo, fascinada e aturdida,

Encontra novo cacique no selvagem.

Já em algumas gargantas comprimido

Está o grito de guerra;

A aclamação ao índio cujos olhos

Ao mover-se na sombra centelham.

Entreabertos e imóveis os lábios,

Os outros o contemplam;

Sobre aquele grupo de corpos nus

As rubras labaredas se refletem.

Só elas se movem, e o cacique,

Cuja rude eloquência

É algo como uma vertigem que estoura;

Uma dança fantástica e sinistra.

Só ele se agita, salta, se retorce

Com espantosa força.

Imóvel o restante; todas as almas

Nos olhos absortos se condensam.

Ninguém, prossegue o índio, estremecendo

A turba com sua voz,

Ninguém a lança que meu braço cravou

De seu tronco arrancou!

Chega à minha tenda, sem morder-me as pernas,

O mau añanguazú;

Eu penetro de noite no mais escuro

Bosquezinho do Hum;

As sombras dos velhos de minha tribo,

Que vivem em Tupá,

Vêm em suas nuvens ensinar-me o grito

Que lançam os chajás;

Os cães que devoram as luas

Não ladram como eu;

O vento negro da noite se cala

Quando escuta minha voz.

Quem arranca minha lança? Quem sua força

Mede com Yamandú,

O índio dos braços como o tronco

Do velho guabiyú?

Não ouvis o rio? Soa em suas barrancas.

Ouvi o Uruguay!

É rio dos índios. E os brancos

Em sua margem estão!

Os brancos que vieram de lá longe,

De onde nasce o sol;

Os que matam os índios com os raios

Que o astro lhes emprestou,

E lhes cortam as negras cabeleiras,

E lhes tiram a pele;

E lhes roubam a terra em que nasceram

E em que pousam os pés.

Dando um gemido morrerá o charrúa

Que nunca se queixou,

E suas mulheres correrão lançando

Seus gritos de dor.

Quereis matar o estrangeiro? Então

Segui Yamandú.

Eu sei matá-lo como ao gato bravo

Dos bosques do Hum.

Os crânios dos pálidos guerreiros

Ao índio servirão

Para beber a chicha de algarrobas

E o sumo do palmar.

Seus raios não me ofendem; em seu sangue

Afundarão nossos pés;

Suas cabeleiras em nossas lanças

O vento há de mover;

Virgens brancas, que nos olhos têm

Formosa claridade,

Acenderão em nossos livres vales

Nosso selvagem lar.

Nesses dias de horas longas

Em que canta o sabiá,

E ao pé da barranca está o banhado

Adormecido no juncal;

Nessas noites em que de quando em quando se ouve

O canto do urú,

As virgens escravas do charrúa

Brilharão com sua luz.

Seus corpos são mais brandos que o veado

Que acaba de nascer,

E tremem como treme entre a relva

A verde caicobé.

Seus cabelos parecem os renovos

Mais tenros do salgueiral;

Suas bocas se abrem como o doce fruto

Que dá o mburucuyá...

Vamos! Segui-me! O estrangeiro dorme,

Dorme no Uruguay!

O sono que em seus olhos se sentou

Não se levantará!

Vedes? A lua de fogo das colinas

Ainda não se distingue;

Ainda se sente ao longe, nos ramos,

O canto do urú!

Só escravos do branco, lá em sua tenda,

O índio engendrará,

E em seus bosques o fogo da guerra

Não acenderá jamais;

XVIII

Um alarido imenso, pavoroso,

Nos ares rebenta;

Ninguém a fauces humanas tais gritos,

Ao ouvi-los de noite, atribuiria.

Uma águia tranquila, que passava

Sobre aquela selva,

Acelerou o voo, mudou de rumo,

E se perdeu na solidão imensa;

E o tigre, sob a pálpebra apagando

De sua enorme pupila a luz,

E varrendo a terra com a cauda,

E estendendo para trás a aguda orelha,

A passo largo, e com temor mudando

De lugar na macega,

Revolveu-se três vezes para afundar-se

E ficar mais oculto entre as brenhas.

XIX

Yamandú tubichá! Yamandú acende

Os fogos da guerra!

Ao rio! Ao rio! O estrangeiro branco

Estendido dorme em sua tenda fechada!

Ahú! ahú! ahú! Vamos, cacique,

Lança ao ar tua flecha,

Para que o astro dos índios a alcance,

E com presságios de vitória volte!

E a flecha do índio pelo ar

Estende as asas mortas...

Ahú! ahú! ahú! Voltou do astro,

Voltou do astro e cravou-se na terra.

Reta como as palmas das ilhas!

O astro falou com ela!

Ao rio! Ao rio! Ao Uruguay! Ao rio!

Cacique Yamandú! Fogos de guerra!

XX

Atrás de Yamandú corre a tribo.

Sua negra silhueta

Vê-se ao longe transmontar as colinas

Como escuro rebanho de cobras.

Seus gritos e os choques de suas armas

Mal se percebem;

As mulheres, as crianças, os feridos

Em todas as direções se dispersam.

Escutam-se seus gemidos por algum tempo,

Que no bosque se internam;

O silêncio que fugiu, de novo volta

A deitar-se fatigado entre a relva.

XXI

Tudo está em calma; o vento está calado,

Voltaram as estrelas

A brilhar através de seus vapores,

E seguem em silêncio sua carreira.

O cadáver do índio, abandonado,

Flutua entre as trevas;

As fogueiras a ponto de extinguir-se

Iluminam-no com penosa intermitência,

Banhando-o nas tênues labaredas

Que, oscilantes e trêmulas,

Arrancam de entre as cálidas cinzas

As pontiagudas e azuladas línguas.

As sombras que adejam, pouco a pouco

Baixaram à terra,

E em torno dos fogos expirantes

Arrastam-se, agarrando-se às brenhas.

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