Livro segundo - Canto sexto Tabaré · Capítulo 10 de 16
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Livro segundo - Canto sexto

Livro segundo - Canto sexto

I

Por trás dos bosques de acácias das Ilhas

Esconde-se o sol; nos ramos mais altos

Deixa um toque de luz alaranjada,

E pó de ouro nas águas adormecidas.

Tremem nos vapores, ao perderem-se,

Dos corpos as linhas esfumadas;

Cruzam para as ilhas as bandurrias,

Os cisnes, e os patos, e as garças.

Que já, ao longo do rio brunido,

Quase roçando a água se adiantam,

Ou formam, na altura que atravessam,

Simétricas e longas caravanas.

O Uruguay se envolve em sua neblina;

Chega ao ninho em silêncio a calhandra;

Buscando seu pouso noturno,

A rolinha adeja entre os ramos.

Os flexíveis e esbeltos sarandis,

Em seu tapete de juncos e taboas,

Abrigam o camalote adormecido,

Cujas folhas se estendem sobre a água.

Os sabiás se escondem; ao longe,

Gritando, o teru-tero se agacha.

Sai a pastar a lontra, e a capivara

Deixa sua toca ao pé da barranca.

Qual sobre dois abismos refletidos,

Na margem os salgueiros e os talas

Projetam suas cabeças sobre um céu,

E em outro céu banham suas raízes.

II

Entretanto, a fronte sobre o peito,

E o caos na alma,

Tabaré cruza o povoado lentamente;

Volta à sua selva, à sua pátria selvagem.

Já sombrio, arisco e silencioso.

O monge o acompanha.

Por que essa sombra, quando vai ser livre,

Livre como o veado da pampa?

Não é Tabaré charrúa?

Não são a liberdade, o céu, a aura

E a selva nativa e os combates

A paixão do charrúa e sua esperança?

Ai do índio impossível!

Já uma mulher da raça inimiga

É liberdade para ele, e céu e nuvens,

E lar nativo, e selvas e batalhas!

III

Cruza entre os corrilhos de soldados

Que falam deitados na relva, ou cantam

Ao ritmo dos golpes com que consertam

Seus coseletes e maltratadas armas.

Ao ver passar o índio com o monge,

Suspendem o labor e se levantam:

O índio louco! dizem em voz baixa:

Já o encontraremos! Esse não me engana!

— Que pensará, dizei, dessa matilha

Nosso bom capitão? Acaso espera

Que aqui nos mate como coelhos,

Na melhor noite, essa canalha?

Dar-lhes a liberdade! Valente ideia!

Como se nada custasse caçá-los!

Ferro e fogo eu lhes daria, ferro e fogo!

— Ferro, bem dito, exterminar a praga!

— Pois não deu em crer o bom fidalgo

Que o índio destes bosques tem uma alma

Como a nossa, e é vassalo e súdito

Do Rei Nosso Senhor?

— Ouça!

— Não é nada!

— Como o ouvis. O padre franciscano,

O claro!, o aconselha, o acompanha,

E aqui estamos, por Deus!, sempre olhando

O senhor índio como mente honrada.

— Os vassalos do rei!

— Não é uma ofensa

Que se infere, dizei, ao grande monarca?

Que dizes tu, Rodrigo? Tu és velho;

Vejamos o que dizes tu; deixa essa adarga.

— Pois eu... que hei de dizer? Há vinte anos

Que ando nessas diabólicas andanças.

Por certo, eu era da partida

Quando encalhou a nau capitânia.

Foi ali, sobre essa areia, triste noite!

Vedes aquela lomba? Distinguis a praia

Que se vê mais além? Atrás daquela árvore,

Vedes bem? Atrás daquela, vai a barranca.

Pois bem: ali. Caíram os charrúas

Sobre nós, como vespas bravas;

Incendiaram as tendas, e dizimaram

Nossa gente mais firme e mais bizarra.

Boa a tivemos, por São Jorge, boa!

Por pouco ali os índios nos acabam!

Estávamos sitiados nas naus,

Ouvindo seus uivos e ameaças:

Vendo-os chegar até a margem

Com gritos e insolentes caretas,

E chamar o mais bravo de nós

Para desafiá-lo a singular batalha.

As peles ou cabelos dos nossos

Que no campo ficaram, hasteavam

Em suas lanças, uivando os malditos,

E dando saltos em dança sinistra.

Assim passamos as eternas horas

Aguardando a morte, como ratos,

Famintos e nus, dando ao rio

Tributo de cadáveres; sem armas.

Pois nem um grão de pólvora tínhamos

Que dar ao arcabuz; sem esperança.

Pois uma tempestade tornava impossível

A chegada de socorros humanos.

Ah, Dom Juan de Garay! Sem ele, eu vos juro

Que não levamos este conto à Espanha;

Nos barcos achamos nossa tumba

Sem sua chegada com tropas bem armadas.

E não era a primeira, voto a Sanes!

Nem a última será... Maldita raça!

Lutam como demônios, não como homens.

Digo bem?

— Bem, muito bem!

— Então, nada?

Bem os conheces! Enquanto restar um

Capaz de erguer a endiabrada lança,

Não há que andar com escrúpulos; ao índio,

Lançada firme; nada de palavras.

— O mesmo digo eu.

— Pois eu outro tanto.

Que fazemos, vive Deus!, nesta praça?

Sem um cavalo, expostos noite e dia...

— Noite e dia, bem dito, desde a alvorada.

E o capitão, entretanto, se entretém

Em dar a liberdade a essa canalha.

Boa eu lhes daria!

— Olhai o índio:

Lá vai com o Padre; a esse, amanhã,

Talvez veremos acaudilhar

Alguma turba desses cães.

— Cáspita!

Que venham, voto ao diabo!

— Que me apraz!

Há tempos já que não temos dança!

— Eu vos juro que, nas noites, a meu lado,

Boceja meu arcabuz de tanto ócio.

— Bem dito, o arcabuz!

— Ouça! Que esperam

O índio e o ancião? Que lhes acontece?

IV

Tabaré já se afasta;

Já o despede o monge com palavras

De consolo e de amor; indiferente

O escuta o índio que a seu lado marcha,

Terrível, duro, de cenho torvo,

Fera como nunca a atitude, e arisca;

Leva a noite, a infinita noite,

Sem um raio de luz nas entranhas.

De súbito se detém,

Num ponto cravada a mirada.

Que o agita? Que vê? Tremor de morte

Por seus rígidos membros se derrama.

A víbora, sibilando,

Quase invisível no chircal se arrasta?

Ou é o jaguar desperto na ramagem,

Que para o charrúa silencioso avança?

Não: Tabaré não teme

A amarela fera que a seus pés

Já muitas vezes viu, quando sua flecha

Até a morder-lhe o coração chegava;

Não é fera o que viu;

Uma mulher o olha entre os ramos;

Olhando-o, aproxima-se do Padre Esteban,

E essa mulher que dele se aproxima é Blanca.

Já não pode duvidar:

Não, não é ilusão, não é fantasma:

Crisparam-se a seus pés as folhas secas,

Fez mover os ramos ao tocá-los.

O vento da tarde

Vem agitar com suas móveis asas

Seu cabelo em desalinho, e em seu rosto

Arejar o vestígio de recentes lágrimas.

É ela: traz um ramo

De margaridas na saia branca;

Ela, com suas estrelas nos olhos,

Suas asas invisíveis às costas.

Vem a doce menina

Como um raio da aurora

Que na profunda escuridão penetra

E no seio negro da noite aclara.

Traz-lhe o mesmo impulso

Que conduz os beijos, das palmas,

Que desperta sorrisos nos lábios

E dos olhos arranca lágrimas,

Quando a alma sorri

E o espírito chora sem mais causa

Que essas ânsias de pranto ou de ternura

Que em certas horas nosso ser assaltam.

Beijou a mão do Padre,

Que com muda surpresa a observava;

Ergueu timidamente a cabeça

E banhou Tabaré com o olhar.

Ao vê-lo, sacudido

Pela luta que sua alma despedaça,

O cenho torvo, ardente a pupila,

Convulso e presa de mortais ânsias,

Em terror e amargura

Sentiu inundar-se-lhe o coração.

Como se à beira de ignorado abismo

Depois de um breve sono despertasse.

Deu um grito: as azuis margaridas

Rolaram até o chão por sua saia;

Acolheu-se horrorizada ao Padre Esteban,

E escondeu no burel a fronte gelada.

Então é verdade, verdade, Deus santo!

Que o índio nos odiava?

É verdade que em seu peito não há pulsações

E que jamais seu coração se abranda?

Oh, Padre!... Por que então desses seres

O amor me ensináveis?

Padre, não me deixeis, voltemos logo...

Olhai: a noite baixa.

Foge do índio escravo, me diziam,

Só há ódio em sua alma;

Não teve lar, nem mãe; de ternura

Sua raça é incapaz, tudo ultraja.

Eu nunca o cri; vi em seus olhos

Dor... e tive pena!

Vinha consolar sua desventura,

E nada mais... Fiz mal? Não o pensava.

Não quis nada mais, nada, eu vos juro;

Vim por consolá-la.

Deus bem o sabe... Mas que tarde!

Que tarde já é! Como a névoa se ergue!

E o índio, Padre Esteban, me dá medo.

Que tem? Que lhe acontece?

Vede-o... Voltemos, por piedade, voltemos.

Por que vim até aqui? Quem o pensaria!

Índio... Adeus. Tabaré. Terror e pena

Me inspira tua desgraça.

Que tarde já é!... Que a Virgem te proteja!

Vai com Deus à tua pátria selvagem!

V

Já fugindo, trêmula, para a vila,

Blanca exalou suas últimas palavras.

A tarde a envolvia em seus vapores,

E ela, em seu seio, parecia flutuar.

O charrúa a viu tênue, impalpável;

Seguiu-a com estúpido olhar;

Viu-a volver de novo a cabeça,

E ocultar-se, por fim, entre os talas.

Quando a viu perder-se para sempre,

Sentiu a solidão. Toda a sua raça

Nele morria, muda, sem queixar-se.

Sola na densa noite de sua alma.

Nos braços do ancião missionário

Lança-se o índio, cuja tez ele abraça.

Soluça... Seus soluços, quais rugidos

De feras moribundas, se dilatam.

Ao sentir nas pálpebras o pranto,

Exala um grito de dor ou de raiva,

Um grito que ao longe, ao perder-se,

Transforma-se em lamento ou em prece:

De súbito, com brusco movimento,

Desprende-se do monge; a mirada

Crava no ponto em que, pela vez derradeira,

Sobre o fundo do céu mirou Blanca.

E foge como a fera perseguida

E se interna na selva solitária...

Por longo tempo ouviram-se seus queixumes

Como se um tigre ferido se afastasse.

VI

Sobre o burel do monge

Do charrúa ficou a primeira lágrima;

A suprema dor, entre seus dedos,

Uma raça espremeu para arrancá-la.

As horas da noite

Já vestidas de luto se adiantam;

E entram no bosque, e seus véus negros

Vão pendurando em silêncio dos ramos.

Sobre o burel do monge

Do charrúa ficou a primeira lágrima.

Para chorar a estirpe moribunda

Uma pupila azul se necessitava!

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