Capítulo 1 A Um Sorriso de Distância · Capítulo 1 de 12
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Capítulo 1

— Se não fosse aquele seu sorriso despretensioso na

primeira vez que eu a vi, talvez hoje não estivéssemos

aqui. E olha que o sorriso não foi para mim, e muito

menos eu era o motivo dele... Enquanto ele dizia “Se não

fosse aquele sorriso”, a frase ressoava em meus ouvidos

e meus olhos lacrimejavam. Era como se uma porta se

abrisse na minha mente, lembrando-me de que meu

sorriso havia viajado bastante até encontrar o amor, que

agora estava diante dos meus olhos, dizendo aquelas

lindas palavras. Pensei comigo: “Fizeste bem”. Sorri,

concluindo meu pensamento: ele é exatamente o que eu

imaginava encontrar quando era criança e sonhava com a

ideia de construir uma família. Ele era, sem dúvidas, a

pessoa certa. Não nego que, de alguma forma, minhas

aspirações de infância me levaram até aquele momento

magnífico em minha vida. Dando um breve esboço sobre

a minha infância, que hoje, com um olhar maduro,

considero uma das melhores fases da minha vida, senão

a melhor. Já se perguntou qual o melhor momento da

vida?Quando se é criança, você almeja ser adulto; e,

quando se é adulto, você percebe o quanto é maravilhoso

ser criança; quando idoso, você deseja ter aquela força

de jovem. Temos medo de encarar o presente? Vive-se

uma vez só em cada estação da vida. Pergunto a você.

Consegue encarar o presente como a melhor fase?

Embora eu almejasse um futuro grandioso naquela

época, tinha convicção da riqueza que nos cercava.

Apesar de viver uma vida meio reclusa na minha

infância, vivia no sul da Bahia, numa fazenda, com meus

quatro irmãos, meus pais e nossa querida vozinha.

Sempre fui uma garota sorridente e grata, claro que a

vida não era nada fácil, mas sempre fui aquela pessoa

que via o copo meio cheio, sabe? Meu nome tem grande

influência sobre isso. O nome Letícia tem origem no

latim laetitia, que significa alegria e felicidade. Sempre

me considerei feliz, isso estava claramente desenhado,

frequentemente era elogiada por ter um sorriso lindo em

meu rosto, mas nunca imaginei que, anos mais tarde, iria

encontrar o amor da minha vida através dele.Ainda

sobre minha infância, certa vez, eu estava em cima de

uma árvore com minha três irmãs, conversando sobre os

nossos sonhos, imaginávamos um futuro em uma

cidadezinha perto da zona rural que a gente morava,

aspiração de amores da adolescência pairava em nossa

mente, até sermos interrompidas pela nossa avó

chamando a gente para ir tomar banho, com a

justificativa que já estava ficando tarde, nossa mãe tinha

saído com nosso pai, ela, no entanto, era responsável por

coordenar as nossas tarefas e afazeres rotineiros quando

eles não estavam presentes, como tomar banho e comer,

a gente não deixava essa tarefa fácil para ela. Após um

longo tempo chamando, a gente desceu da árvore e

fomos em direção à casa. — Não quero tomar banho —

resmunguei, aproximando-me da minha avó. — Venha

logo — disse ela, irritada. Maria, minha irmã mais velha,

desceu correndo em direção ao riacho — quem chegar

por último é mulher do padre! A gente seguiu correndo

aos gritos, mal ouvimos nossa avó gritando da porta de

casa — parem de correr!Vocês vão cair, parece um

rebanho de mula! — ela esbravejava irritada. Depois de

dar uns pulos no riacho, eu esquecia a minha

desaprovação de ir tomar banho, se é que podia

considerar aquilo um banho, a gente saia mais sujas do

que entrava. Pois o rio tinha barro no fundo e a sujeira

subia com os nossos pulos. Logo depois de sairmos do

suposto banho, fomos comer banana da terra com carne

seca, que, por sinal, era minha comida favorita naquele

tempo. Logo em seguida ao jantar, caminhamos até o

exterior da casa, para contemplar o céu estrelado e a

noite iluminada pela lua cheia. Ficávamos lá fora

ouvindo as histórias que nossa querida avó amava contar.

— Acabou, está na hora de dormir — disse vovó

calmamente, enquanto fazia movimentos de se levantar

da cadeira que estava sentada. — Nãoooo! Conta mais

uma, vovó — gritamos em sintonia. Ela sempre cedia e

contava mais uma história, enquanto eu ficava fixada

olhando para a lua, ouvindo suas histórias malucas e

engraçadas.Eu imaginava o dia em que me casaria e

teria netos para compartilhar essas mesmas histórias. —

Agora vamos entrar — concluiu minha avó entre

bocejos. — Vamos, já que não podemos ficar a noite

toda olhando a lua — respondi, fazendo todos rirem.

Todos já estavam preparados para dormir. Nós nos

dividíamos no único quarto que tínhamos, e eu sempre

dormia com minha irmã Patrícia em uma cama de

solteiro. Meus olhos já estavam fechados, e minha mente

fantasiava filmes aleatórios, quando fui levemente

esbarrada por Patrícia. — Tá acordada? — cochichou

baixinho, para não acordar os outros no quarto. — Que

foi? — respondi descontente, por ter sido tirada da

minha fantasia. Patrícia amava criar histórias e falar;

digamos que ela era a mais tagarela da família. E pelo

fato de dormirmos juntas todas as noites, tínhamos uma

ligação inestimável, que perdura até os dias de hoje. De

repente, senti-a segurando minha mão e sussurrando: —

A gente vai crescer e morar uma perto da outra, né? —

Sim, a gente vai criar nossos filhos juntas.Vamos viver

uma perto da outra até ficarmos velhinhas — respondi,

apertando a mão dela de volta. Pegamos no sono de

mãos dadas naquela noite. No dia seguinte, era

sexta-feira, passávamos a tarde toda na horta da família

colhendo legumes e verduras para que nossos pais

pudessem levá-los à feira no dia seguinte. Desde os meus

seis anos, eu já ajudava no cultivo das hortaliças. Todos

participavam, sem exceção. Além de ajudar nas tarefas

diárias, passávamos muito tempo no mato, correndo

atrás de borboletas, brincando de esconde-esconde,

explorando e subindo em árvores, sempre com sonhos

mirabolantes e uma busca implacável por aprender a

voar. Confesso que até hoje não consegui, mas sigo

tentando — risos. Sábado cedo de manhã, meus pais

foram pra feira antes do galo cantar, todos nós ficamos

acordados esperando eles saírem para fazer bagunça. Era

lei, meus pais saiam e a gente levantava para fazer a

festa. Assim que o carro pegava certa distância, a gente

pulava da cama e comia literalmente tudo que via pela

frente.Nesse dia específico, já era por volta das

04h00min horas da manhã e a gente tinha colocado velas

num campo de futebol improvisado perto da nossa casa,

para conseguir jogar bola até o raiar do sol. A energia

elétrica ainda não tinha chegado à nossa fazenda naquela

época, então recorremos à luz de velas para iluminar

nossas noites. No auge de uma famosa pelada entre

irmãos, ouvimos o ruído de um carro se aproximando.

Com os olhos arregalados, Estevinho gritou: — Mainha

e painho estão voltando! Ele mal tinha fechado a boca

quando minha irmã ordenou: — Apaga as velas e corre!

Foi um verdadeiro alvoroço. Não sabíamos se

apagávamos as velas ou se corríamos para dentro de

casa, para fingir que estávamos dormindo. No final,

descobrimos que era o barulho de outro carro, não se

tratava dos nossos pais. Gargalhadas espontâneas

começaram a surgir, contagiando um a um. Não era de se

admirar, tudo era motivo de riso naquela época, e era

impossível não sorrir diante daquela situação inusitada.

Os dias foram se passando, os meses se transformaram

em anos, e minha doce infância voou com o vento que

me arrastou para o caos chamado vida adulta. A

simplicidade e a inocência daqueles tempos deram lugar

às responsabilidades e desafios que a vida adulta traz.

Contudo as lembranças daqueles momentos preciosos

permanecem vivas em minha memória, como um

lembrete constante da alegria e da leveza que a infância

proporcionou.

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