Capítulo 6 A Um Sorriso de Distância · Capítulo 6 de 12
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Capítulo 6

Na manhã de sábado, o dia da viagem, acordei com uma

animação que iluminava meu coração. Seria o dia em

que partiria para a Bahia, um lugar que sempre me

trouxe paz e onde meus sonhos de infância floresceram.

Rever meu pai, após quase um ano sem vê-lo, era um

presente que eu mal podia esperar para desembrulhar.

Enquanto me preparava, um flashback da minha infância

inundou minha mente, trazendo de volta a memória de

quando minha avó ainda estava viva. Era uma tarde

dourada, e estávamos brincando sob as sombras

acolhedoras dos pés de cacau. Naquele dia, falávamos

sobre o aniversário da vovó. Era o aniversário dela, e

ninguém havia planejado nada. Nossos pais tinham

saído, e lembramos que ela nos dissera que nunca havia

recebido uma surpresa de aniversário, nem mesmo um

bolo. Depois de um breve debate, decidimos fazer uma

surpresa para ela. Estávamos na roça, longe da cidade, e

o que podíamos fazer era preparar um jantar especial.

Sempre fazíamos um culto, então o plano era

surpreendê-la após a oração.Quando a noite caiu,

preparamos um arroz em formato de bolo, decorado com

carne por cima. Eu e minha irmã Patrícia ficamos

encarregadas de orar por ela, enquanto nossos irmãos,

Deise, Maria e Estevinho, montavam a mesa à luz de

velas. Durante a oração, alguém esbarrou nos talheres,

fazendo um barulho que quase fez minha avó abrir os

olhos. Patrícia, rápida, colocou os dedos nos olhos da

vovó e disse: “Calma, a oração ainda não acabou!”.

Cantamos parabéns, envolvidos por uma crise de risos, e

nossa avó ficou radiante com a surpresa. Sentimos um

orgulho imenso por termos proporcionado a primeira

surpresa de aniversário para nossa querida vozinha.

Voltar àquele lugar trazia à tona todos os momentos

felizes que vivi ali, como um filme que se desenrolava

diante dos meus olhos. O tempo voou, e logo percebi que

estava quase na hora de partir. Terminei de arrumar

minhas coisas e preparei o Arthur. No ônibus, a viagem

levou um pouco mais de duas horas até que minha irmã

embarcasse, em uma cidade próxima a São Paulo.As

expectativas da viagem e das lembranças que me

aguardavam na Bahia faziam meu coração bater mais

forte, como se cada quilômetro percorrido me

aproximasse não apenas de um lugar, mas de um pedaço

de mim mesma. Ao avistar minha irmã, cumprimentei-a

com um abraço caloroso. Ela logo comentou sobre o

Júlio, e eu confessei que tudo estava acontecendo muito

rápido. Com um sorriso sábio, ela disse: — O amor

chega tão sutilmente, sem bater na porta, trazendo um

turbilhão de emoções. Faz você sentir mil sensações em

um só momento. Que louco, né? Do nada, o que estava

vazio agora está quase a transbordar. É o amor, e o amor

não dá para explicar — completou, enquanto seu sorriso

iluminava o ambiente. Fiquei parada, refletindo sobre

aquelas palavras que, inesperadamente, faziam tanto

sentido naquele momento. Eu e o Júlio continuávamos a

trocar mensagens apaixonadas todos os momentos, cada

palavra carregando a doçura de um sentimento crescente.

Conversávamos sobre nossos dias, tentando nos

conhecer e nos conectar ainda mais profundamente.Ele

havia comprado dois dos meus livros e aguardava

ansiosamente sua chegada, como se cada página fosse

uma extensão de mim. Depois de 30 horas dentro do

ônibus, finalmente chegamos à nossa cidade, onde minha

irmã Maria e minhas sobrinhas nos aguardavam com

abraços afetuosos. Após os cumprimentos de

boas-vindas, comentei: — Meu Deus, que cansativo! Na

próxima, quero vir de avião. Fomos rapidamente para a

casa da minha irmã, tentando não fazer muito alvoroço,

pois estávamos chegando de surpresa. Nosso pai não

sabia que estávamos vindo, e, em cidade pequena, as

notícias correm rápido. Chegamos, comemos e

descansamos um pouco. Liguei para o Júlio e

conversamos, sentindo a conexão que crescia entre nós.

No dia seguinte, planejávamos visitar a roça onde meu

pai residia. Ao amanhecer, levantei-me antes das seis,

ainda sentindo o peso do sono. O sol baiano já brilhava

no horizonte, iluminando nossa partida matutina com o

objetivo de surpreendê-lo com nossa visita. No entanto,

ao chegarmos à roça, percebemos que ele não estava em

casa.Enquanto esperávamos do lado de fora da antiga

casa de campo, meus olhos vagaram pelos arredores,

absorvendo as mudanças ao meu redor. O lugar, que

outrora foi palco de tantas lembranças, parecia tanto

familiar quanto transformado. — Como as coisas

mudaram — declarei, enquanto meus olhos percorriam o

horizonte distante. Deise, ao meu lado, comentou com

um leve suspiro: — Mudou muita coisa, né? — Sim —

concordei, rememorando os dias passados. — Aqui era

repleto de vida. Nós infundíamos energia a este lugar.

Nossa inocência era a sua essência. Vivíamos com o

desejo de partir, sem perceber que, no futuro,

anelaríamos voltar, ansiando por aquele tempo bom, um

tempo que não retorna — concluí, olhando

pensativamente para Deise, enquanto compartilhávamos

um silencioso entendimento das memórias que ali

permaneciam. Após uma breve pausa, declarei

novamente: — Se eu soubesse que iria embora, teria

aproveitado mais. Teria admirado mais aquele sorriso,

aproveitado a calmaria do nosso paraíso. Todos nós, no

fundo, sabíamos que um dia iríamos embora.Hoje, sinto

saudades do tempo em que queria ir embora, do tempo

em que não sabia o significado de ir embora. Queria

voltar. Mas esse lugar já não existe depois que fomos

embora. Ela hesitou um pouco e respondeu, sorrindo

num tom descontraído: — Se a gente soubesse que iria

embora, não iríamos tão cedo. De repente, um ruído se

aproximou da casa. Era a motocicleta do nosso pai. — É

painho! — gritei. — Se esconde! — completou Deise.

Painho entrou pela frente da casa, e nós, que estávamos

nos fundos, gritamos juntas quando ele abriu a porta dos

fundos: — Surpresa!! Ele, assustado, exclamou: — Oxi,

o que vocês estão fazendo aqui? Corremos para

abraçá-lo, contando nossa trama de chegar de surpresa.

Após sermos acolhidas por nosso pai, que prontamente

nos convidou para entrar e tomar café, guardamos nossas

coisas, sentindo o calor do lar e a alegria de estar juntos

novamente. — Já era quase noite, e a escuridão se

aproximava lentamente, envolvendo o lugar em um

manto de tranquilidade.Painho estava sentado na frente

da casa, ajeitando a vara de anzol para irmos pescar.

Aproximei-me dele e perguntei: — Como andam as

coisas? — Bem — ele respondeu, com a serenidade de

sempre. — Eu estou namorando — mencionei, com um

sorriso tímido. Fazia apenas uma semana, mas já o

apresentava como namorado, mesmo sem o pedido

oficial. Meu pai não demonstrou muito interesse, talvez

por não ser de conversar sobre esses assuntos. Fez

algumas perguntas curtas e logo mudou de assunto: —

Vamos pescar — disse, desviando-se da conversa.

Descemos até um riacho, onde pescamos para relembrar

os bons tempos e saborear um peixinho fresco. Meu pai

criava alguns em uma represa. Na volta, passamos pela

horta da família, que painho ainda cultivava, agora um

pouco menor. As lembranças dos tempos em que

passávamos as tardes de sexta-feira ali, entre risos e

conversas, sob o sol ou a chuva, inundaram minha

mente. Aquele lugar continuava sendo meu lar, e as

nossas risadas ainda ecoavam nos meus ouvidos. Afinal,

o que é um lar, senão acolhimento e a liberdade de ser

quem somos?E o que tínhamos era muita liberdade para

sonhar, viver e nos permitir ser felizes. Assim que

cheguei em casa, fui verificar se havia mensagem do

Júlio. — Meu celular não está pegando sinal —

mencionei ao meu pai, um pouco triste. Ele logo

respondeu: — Aqui o sinal é ruim. Fiquei desapontada,

queria falar com o Júlio e contar-lhe sobre meu dia. Sem

sucesso, contive-me e fui jantar. Após o jantar, tirei da

minha bolsa meu livro, “Pequenos Detalhes”, e entreguei

ao meu pai, que, sorridente, me questionou: — Tu que

fez, Lelê? — Como ele carinhosamente me chama. —

Sim! — respondi contente, acrescentando — É seu! Ele

agradeceu e me deu um abraço caloroso. — É pra ler —

falei baixinho. — Vou ler — disse ele, sorrindo. Saí um

pouco para fora de casa e fiquei estagnada com a

quantidade de estrelas no céu. — Meu Deus! Olha esse

céu! — gritei para minha irmã Deise. O céu estava

esplendoroso, e fazia muito tempo que eu não via algo

assim. Desde criança, sou apaixonada pelo céu. Aquilo

me deixou maravilhada, e logo quis contar para o Júlio.

Ele era aventureiro, mas aposto que jamais tinha visto

um céu daqueles. — Vou tentar falar com o Júlio —

mencionei para Deise, que estava ao meu lado,

contemplando a beleza daquela noite. — Tá apaixonada,

né? — ela me perguntou, sorrindo. Tirei meus olhos do

céu, olhei para ela sorrindo e, após um silêncio,

acrescentei: — Estava sorrindo quando seus olhos

castanhos me encontraram, e de uma forma genuína, ele

me fez sorrir ainda mais. Depois de dizer essas palavras,

toquei levemente em seus ombros e entrei na casa, onde

meu pai estava com o Arthur. Painho mostrava a lanterna

para o Arthur, que estava encantado. Os dois se

divertiam quando passei por eles e falei: — Vou tentar

falar com o Júlio. — Desde o último dia de chuva forte,

meu celular não pega sinal aqui — ele comentou. Ainda

bem que ele sabia que eu estava na roça e que o sinal era

ruim, senão poderia achar que eu tinha dado um perdido,

pensei comigo mesma.Dormir na cama do meu irmão

Estevinho foi uma experiência cheia de carinho, pois ele

generosamente cedeu seu espaço para mim e para o

pequeno Arthur. Antes de dormir, falei para Arthur: — A

mamãe vai contar uma história para você. — Então

compartilhei uma narrativa para ajudá-lo a adormecer. Já

meio sonolento, ele murmurou: — Mamãe, você é a

maior escritora do mundo — exclamou Arthur, erguendo

seus pequenos braços na minha direção, para me

envolver em um abraço. Meu coração se encheu de

alegria. Apesar de saber que, objetivamente, não era a

maior escritora do mundo, mas naquele instante, para

ele, eu realmente era. Na manhã seguinte, bem cedo, me

juntei à minha querida tia Gilda para uma caminhada até

a fazenda da minha avó, que ficava a uma distância

razoável, mas ainda assim acessível a pé. Caminhamos

por cerca de 30 minutos, aproveitando o trajeto para

conversar e rir, enquanto Arthur, cheio de energia,

caminhava ao nosso lado por pura vontade. Ao

chegarmos à fazenda, fomos recebidas pela minha avó

materna, a quem eu não via há algum tempo.A nostalgia

do reencontro foi suavizada pela pergunta que logo me

veio à mente: “Aqui tem Wi-Fi?”. Minha avó respondeu

que na casa do meu tio havia internet, instalada para que

os meus primos pudessem estudar. Com essa

informação, me apressei para a casa do meu tio, que

ficava a cerca de 600 metros de distância. Ao chegar,

cumprimentei-o com carinho: “Bença, tio”. Ele, com um

sorriso no rosto, respondeu: “Deus te abençoe, minha

linda”. Sem perder tempo, pedi a senha da internet, que

ele prontamente forneceu. Meu celular vibrou com uma

enxurrada de mensagens, mas fui direto à conversa com

Júlio. Após ler suas mensagens, liguei para ele. Assim

que atendeu, Júlio comentou: — O Caju está com

saudades de vocês dois. — Ele mencionou estar com

uma ligeira febre, mas ainda brincou dizendo — Sua

mãe acha que é saudade de você. Com um sorriso, eu

disse: — Melhora! — E ele rapidamente perguntou: —

Você falou com seu pai sobre a gente? Como foi a

surpresa? — concluiu.Confirmei que sim, havia

comentado, mas mencionei que o sinal estava ruim,

prometendo mais detalhes depois. Após desfrutar de um

breve período na fazenda da minha avó, apreciando a

agradável companhia da minha querida tia Gilda e da

minha avó, partimos em direção à cidade próxima.

Durante minha estadia, fiquei hospedada na casa da

minha irmã, alternando entre momentos tranquilos na

fazenda do meu pai. Assim que cheguei à casa da Maria,

tomei um banho revigorante e fui para o quarto brincar

com Arthur e minhas sobrinhas. No meio da diversão,

recebi uma ligação de Júlio. Sua voz soava diferente, um

tom que eu não reconhecia. Perguntei preocupada: —

Está tudo bem? — Ele respondeu que sim, e que meu

livro havia chegado. Curiosa, perguntei se ele havia

gostado. Júlio elogiou meu talento, mas confessou ter

ficado um pouco abalado com o que leu. Intrigada,

perguntei o motivo, e ele, num tom levemente

enciumado, revelou que se tratava de poemas sobre

amores passados e desilusões amorosas. Surpresa,

perguntei: — Sério? Você está com ciúmes do meu

passado?Embora achasse a situação um tanto sem

sentido, não pude deixar de me sentir estranhamente

contente. Júlio admitiu: — Talvez um pouco. Não pode,

amor? A palavra “amor” ressoou em meus ouvidos, e

perguntei, entre sorrisos: — A-M-O-R? — Era a

primeira vez que ele me chamava assim, meu estômago

borbulhava de contentamento enquanto eu tentava

manter a compostura. Ele reafirmou: — Você é o meu

amor, ainda não sabia disso? Respondi, sorrindo

timidamente: — Agora estou sabendo. Nesse momento,

minha irmã Maria entrou no quarto e pegou meu

telefone, brincando: — Alô, tudo bem, cunhado? Após

uma breve conversa com o Júlio, Maria me devolveu o

telefone e perguntou, sorrindo: —Vai ficar a tarde toda

falando com ele? Vem tomar café. E assim, com o

coração aquecido, me juntei à família para um café

repleto de amor e risadas. Passamos dias

verdadeiramente memoráveis na Bahia, imersos na

tranquilidade da fazenda do meu pai. Cada momento era

uma celebração de alegria, especialmente na companhia

agradável dos meus irmãos.Minhas sobrinhas, sempre

cheias de energia, encontraram no Arthur um parceiro

perfeito para suas brincadeiras, e eu me sentia

imensamente feliz por revisitar minha terra natal. No

entanto, não podia negar que contava os dias para

retornar aos braços do meu amor. Em uma noite, Júlio,

ansioso, digitou para mim: “Falta muito tempo?”. A sua

impaciência transparecia nas poucas palavras, refletindo

a saudade que ambos sentíamos. “Não, amor, falta

pouco”, respondi, tentando tranquilizá-lo. Ele então

mencionou que havia conversado com minha irmã

Patrícia, que estava na igreja com minha mãe. “Queria te

buscar na rodoviária, mas não consigo. Vou voltar a

trabalhar amanhã”, ele escreveu, encerrando a mensagem

com um emoji triste, que expressava sua frustração.

Após um tempo de conversa, combinamos que eu

desembarcaria na cidade da minha mãe. Nos

encontramos à noite, no culto, e passaríamos um final de

semana juntos, já que eu chegaria numa quinta-feira.

Depois, ele me levaria para casa no domingo. O dia de

pegar o ônibus de volta finalmente chegou.Eu estava

radiante e satisfeita, pois, apesar da viagem curta,

aproveitamos intensamente cada instante. Poucas horas

antes da partida, enquanto admirava a paisagem

deslumbrante que se estendia no horizonte, meu telefone

tocou. Era a Vê. — Já saiu? — Ela perguntou. — Ainda

não, estou no caminho, indo para a rodoviária —

respondi, sentindo a expectativa da viagem de volta.

Após me desejar uma boa viagem, ela disparou: —

Leticia, sonhei que você estava se casando. —

Casando-me!? Eu vou me casar um dia — brinquei,

rindo da ideia. — Menina, sonhei que você já ia casar e

eu te falava que estava cedo, que você não conhecia ele

direito. — Ela contou, espantada, como se o sonho fosse

uma premonição. Rimos juntas daquele sonho maluco,

que de alguma forma parecia prever meu casamento,

considerado por muitos como repentino. A conversa com

Vê trouxe um toque de humor e reflexão à viagem,

enquanto eu seguia rumo ao reencontro com Júlio,

ansiosa por tudo que o futuro nos reservava.

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