Capítulo 10 A Um Sorriso de Distância · Capítulo 10 de 12
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Capítulo 10

Cuidar da tia foi um aprendizado constante, mas, com

amor e dedicação, conseguimos superar as inseguranças.

Verônica, sempre atenciosa, cuidava da mãe com um

carinho inigualável. Pouco tempo depois, finalmente fui

para São José dos Campos para a tão esperada primeira

entrada no nosso apartamento. Ao cruzar a porta, nossos

olhos brilhavam de emoção e gratidão. O espaço era

perfeito para nós três, e a expectativa de mudar para lá só

aumentava. Poucos dias antes de ir para a Bahia,

planejava me casar no civil, em 26 de junho. Em 2 de

julho, viajaríamos para comemorar os 70 anos da minha

avó, que há três anos anunciara uma grande festa de

aniversário, desejando a presença de toda a família. Já

estávamos em junho, mês do nosso casamento civil.

Havíamos começado a transformar o apartamento em um

lar que refletia nossa essência. Recebemos presentes

generosos dos nossos futuros padrinhos de casamento.

Além disso, a mãe do Júlio nos presenteou com uma

geladeira, e o pai dele com um sofá, compramos uma

cama para o Arthur.E dormiríamos na cama que o Júlio

já possuía, os móveis planejados que o apartamento

continha facilitaria nossa vida. A proximidade do

casamento civil trouxe uma mistura de emoções.

Preparava-me para partir, deixando Verônica e Oscar,

pessoas tão queridas para mim. Eles me apoiaram de

forma indescritível quando engravidei, aos meus 22

anos. Lembro-me vividamente de contar à Verônica

sobre a gravidez. Ela estava no sofá quando entreguei o

exame que confirmava os cinco meses de gestação.

Inicialmente incrédula, por não ter percebido antes, ela

arregalou os olhos de surpresa, mas logo me envolveu

em um abraço cheio de amor. Confesso que o Arthur

veio para nossas vidas para nos dar alegrias, e ver o

brilho nos olhos da Verônica toda vez que ela olha para o

Arthur enche meu coração de uma forma que jamais

poderei explicar. Afinal, tudo o que fizeram e fazem por

nós não tem preço. Eles se tornaram especiais para nós.

Não é à toa que os considero meus segundos pais. E a

despedida para São José foi difícil.Claro, além do mais,

não estava apenas partindo, mas também levando Arthur,

que era tão apegado a eles. Após um discurso

emocionado, prometemos à Verônica que visitaríamos

todos os meses, promessa que mantemos até os dias de

hoje. Entre abraços e lágrimas, partimos com Júlio,

deixando Verônica e Oscar na porta, com olhos

marejados. Enquanto o carro se afastava, as últimas

palavras de Verônica ecoavam em meus ouvidos: “Leva

a chave, aqui sempre será o lar de vocês”. Ao chegarmos

em casa, Júlio preparou um jantar especial, que, de certa

forma, acalentou nossos corações. A semana passou

rapidamente, e logo estava morando com ele. Enquanto

jantávamos, admirava o Júlio, que comentava, com

orgulho de si mesmo: — Finalmente consegui te trazer.

Você não imagina o quanto sonhei com isso. Após dar

um sorriso de “não acredito que ele está todo orgulhoso

com isso”, respondi: — Parabéns, agora meu sorriso tem

morada no mesmo teto que o seu. — Repete — disse,

com os olhos cheios de brilho, que revelavam a alegria

em segundos de vislumbre.— Você tem muita sorte,

quis dizer — disse, sorrindo. — Concordo com você,

meu amor — disse, dando um sorriso bobo. A rotina que

começamos a criar era tranquila, e eu me encantava cada

vez mais com o cuidado e carinho que o Júlio

demonstrava. O dia 26 chegou, e acordei empolgada com

o dia lindo que seria nosso casamento civil. Verônica e

Oscar seriam padrinhos, mas, devido à rotina com a tia,

não puderam comparecer. A esperança de tê-los no

casamento religioso me consolava. Daniel, amigo da

família, e Jéssica, irmã do Júlio, assinariam como

padrinhos. Planejamos um almoço na casa dos pais do

Júlio, Helena e Israel, e à noite jantaríamos em um

restaurante famoso por pratos deliciosos de camarão.

Após o café da manhã, vesti um lindo vestido branco e

chamei Júlio para entrar no quarto. Seus olhos brilhavam

de contentamento. — Parece que gostou do que viu —

disse, sorrindo timidamente. — Você está incrível, amor.

Que linda! — repetia, encantado. — Vamos nos casar

mesmo? — perguntou, sorrindo.— Somos duas pessoas

apaixonadas que vão se casar em menos de um ano, você

tem noção? Embora pareça que nos conhecemos há

muito tempo, faz apenas alguns meses. E o melhor, sinto

que Deus separou você para mim, assim como me

separou para você, como se tudo que vivemos antes

fizesse parte do caminho até te encontrar. Sou tão

pequena, mas me sinto cheia do amor e da graça de

Deus. Fui boba se duvidei um dia — disse,

profundamente grata por tudo. Nos abraçamos por um

momento e silenciosamente agradecemos por

absolutamente tudo, todas as pequenas coisas que nos

levaram até um ao outro. Dirigimos para o cartório,

nervosos e eufóricos. Enquanto esperávamos, tiramos

fotos para registrar o momento, capturadas por Jéssica. A

cerimônia foi rápida, e em minutos trocamos alianças,

tornando-nos oficialmente casados. Que momento lindo!

Ao olhar para Júlio, tinha certeza de que queria passar o

resto dos meus dias ao seu lado. De volta a casa, antes do

almoço, minha mãe fez um discurso emocionado,

seguido pelos pais do Júlio, que reafirmaram ter ganhado

uma filha.Momentos de felicidade e sorrisos

compartilhados à mesa. Estava casada com meu amor,

menos de um ano após conhecê-lo, e já havia uma

aliança dourada no meu dedo. Durante o almoço,

falamos sobre o casamento religioso, ansiosos pelo

grande dia. À noite, Arthur ficou com Helena, e Júlio e

eu fomos jantar. No restaurante, relembramos nosso

primeiro encontro e a trajetória até aquele dia. Júlio

comentou: — De todos os dias, o dia que te conheci foi

especial. — O sol brilhou naquele lindo dia azul, é

incrível como tudo pode mudar de repente — respondi,

sorrindo. — Seu sorriso brilhou ainda mais — disse, “e

percebi que estava apenas a um passo de alcançar o seu

sorriso”. — Isso vai estar nos votos? Meu sorriso? —

perguntei. — Não sei — respondeu, desviando o olhar.

— Já começou a fazer? — insisti. — Ainda não. Quando

você estiver na Bahia, faço, para não correr o risco de

você ver — concluiu. — Queria que você fosse comigo,

conheceria minha família de uma vez só — disse. —

Imagina todos te olhando numa vez só — Brinquei.—

Vou ficar com saudades, acabamos de casar — ele disse,

segurando minha mão. — Vai passar rápido. Quando eu

voltar, o casamento religioso já estará próximo —

respondi. Júlio não conseguiu dividir as férias, mas em

setembro teríamos bastante tempo juntos. A noite foi

agradável, como sempre com Júlio. No dia seguinte, fui

ver meu vestido de noiva, acompanhada por minha mãe

e irmã Patrícia. Ao experimentar o segundo vestido, me

apaixonei. Era ele! Dividir aquele momento com elas

aumentou minha felicidade. O dia de viajar para a Bahia

finalmente chegou. Estava triste por deixar Júlio, mas a

viagem estava planejada bem antes de conhecê-lo.

Embarquei com Arthur, Patrícia, minha mãe, três primas,

um primo, uma tia e um tio. Praticamente lotamos o

ônibus. A viagem foi tranquila e agradável, cheia de

momentos inesquecíveis. Em um trecho, enquanto todos

dormiam, Patrícia e eu conversamos sobre meu livro

“Pequenos Detalhes”, que ela lia durante a viagem. Ela

elogiou minha habilidade de escrever, dom herdado da

minha mãe.— Escrever é bom, esvazia o coração,

acalma a alma e traz clareza à mente — disse, sorrindo.

Refletindo sobre a vida e como tudo mudou

rapidamente, digitei para Júlio: — Saudades de você.

Tinha esquecido como é chato ficarmos longe.

Conversamos durante todo o trajeto. Chegamos na

sexta-feira à Bahia e fomos direto para a roça da minha

avó, onde todos estavam reunidos. Se há uma família

que fala mais alto que a minha, desconheço. Todos

estavam felizes pelo reencontro. No dia seguinte,

amanheceu chuvoso, mas isso não nos impediu de nos

divertirmos. Começamos uma guerra de lama, e todos,

inclusive as crianças, acabaram sujos. Após aquele final

de semana inesquecível celebrando a vida da minha avó

materna, seguimos para a fazenda do meu pai, que ficava

ali perto. Já estava ciente de que ele não conseguiria

comparecer ao meu casamento, pois seria em outro

estado. Meu pai nunca havia saído da Bahia, e, embora

eu já tivesse me conformado com a ideia, naquele dia

tentei convencê-lo do contrário.Já era de tarde, a brisa

corria tranquila e suave, painho estava sentado na sala,

quando me aproximei dele com uma expressão de

tristeza. — O senhor não vai mesmo ao meu casamento?

— perguntei, tentando persuadi-lo. Ele, com seu jeito

rápido, respondeu: — Não vai dar, Lelê. — Meu pai

justificou que precisava cuidar da horta, que demandava

sua atenção constante. Ele mencionou que já havia

separado o dinheiro para o meu vestido de noiva, que

tinha um custo considerável. Tudo relacionado ao

casamento parecia estranhamente caro. Desejou-me

felicidade e, como Júlio ainda não o conhecia

pessoalmente, prometi que o apresentaria formalmente

no próximo ano. Também informei que entraria na igreja

com Oscar, e ele pareceu genuinamente contente com a

notícia. Após a conversa, fiquei refletindo sobre o fato

de ele não ver sua filha favorita se casar. “Como ele

consegue?” — pensei. Será que já não sou mais a

favorita?Lembrei-me de uma vez em que minha mãe

comentou que eu era a filha preferida dele, após

questioná-la sobre por que meu pai sempre me chamava

para ajudá-lo com mais frequência. Quando eu era

pequena, nas sextas-feiras, costumávamos colher

verduras e deixá-las em uma bancada. De madrugada,

meu pai acordava um dos filhos para ajudá-lo a organizar

tudo em uma lona para levar à feira. Percebia que ele me

chamava mais frequentemente do que meus irmãos, e, na

maioria das vezes, íamos ajudar emburrados, desejando

continuar dormindo. Se soubesse, na época, que ele me

chamava mais vezes por ser sua filha favorita, teria ido

de bom grado. Fiquei imersa em pensamentos do

passado por um bom tempo, até ser trazida de volta ao

presente pela voz do meu pai, que me chamava com um

sorriso e uma vara de colher de coco na mão. Ele

convidou todos para tomar água de coco, e aquele

momento simples trouxe uma sensação de conforto e

nostalgia.

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