Capítulo 9 A Um Sorriso de Distância · Capítulo 9 de 12
Obra Menu

Capítulo 9

Ao chegar em casa, ainda radiante com o pedido de

noivado, meu celular vibrou com uma mensagem de

Júlio que dizia: “Obrigado por ser essa pessoa incrível ao

meu lado. Espero ser alguém incrível para você

também”. Além disso, ele havia postado uma foto minha

e de Arthur, acompanhada de uma legenda tocante: “Um

dia me perguntaram se eu sabia o significado da palavra

AMOR... Naquela ocasião, não soube responder, até que

um dia encontrei vocês. Hoje posso dizer que conheço o

verdadeiro significado... Com vocês, aprendi a amar e a

ser amado”. Essas palavras tocaram profundamente meu

coração, reforçando a certeza de que Júlio era a pessoa

certa para mim. Lágrimas de emoção escorriam enquanto

eu lia aquelas expressões de amor. Curiosa, perguntei:

“O que é o amor para você?”. Após um tempo digitando,

ele respondeu: “Ali, não expliquei o significado da

palavra amor, mas quero que saiba... Amor é estar

disposto a cuidar de alguém como se fosse seu bem mais

precioso. Amor é cuidar, respeitar, valorizar e se

entregar em todos os momentos.Dizem que o amor é

inexplicável, talvez seja, mas quero que saiba que HOJE,

tendo vocês, posso dizer que sinto um amor verdadeiro”.

As palavras de Júlio fluíam como uma melodia, e ele

tinha uma habilidade incrível de tornar tudo claro e

profundo. Eu sorria, sentindo-me como a protagonista de

um filme romântico e clichê que sempre desprezei, mas

que agora vivia intensamente. A felicidade dentro de

mim crescia a cada demonstração de afeto de Júlio. Eu

havia encontrado o amor? A dúvida já não existia, e

meus pensamentos se voltavam para nosso casamento,

que começávamos a planejar junto com nossa família.

Em um final de semana na casa de Júlio, enquanto

conversávamos, ele me interrompeu, dizendo: — AAA

ESSE SORRISO... — falou, acariciando meu rosto. —

Vamos nos casar amanhã? Não suporto mais te ver só

nos finais de semana — disse ele, com um olhar

carinhoso. — Não, precisamos planejar — mencionei,

rindo. — Vamos escolher uma data? — insistiu. —

Vamos! — respondi, animada. — Quando serão suas

férias? — perguntei.Ele comentou: — Setembro. Mas

está longe, amor. Vamos nos casar amanhã — brincou,

arrancando risadas. — Por mim, não fazemos festa. O

que acha? — perguntei. — Eu quero festa, te ver

entrando na igreja, meu sonho se realizará — disse,

empolgado, gesticulando. — Então nos casamos no civil

antes? O que acha? — sugeriu, sorrindo. Concordei: —

Pode ser, se já tivermos nos mudado para o apartamento

até lá. — Em julho, vou para a Bahia para o aniversário

da minha avó. Vamos? —perguntei. — Vou ver na

empresa — Júlio concluiu. Após essa conversa,

começamos a pesquisar fornecedores e dar vida aos

nossos sonhos. Júlio ficou de verificar com a empresa se

poderia dividir as férias, metade em julho, para ir

comigo ao aniversário da minha avó e conhecer meu pai,

e metade em setembro, para passarmos um tempo juntos

após o casamento. A data já estava marcada: 7 de

setembro foi o dia escolhido por nós para ser o nosso

grande dia. Estávamos a sete meses de distância e já

orquestrávamos tudo com entusiasmo e amor.Nossos

dias eram uma mistura vibrante de alegria e correria,

enquanto buscávamos incansavelmente fornecedores que

pudessem atender aos nossos objetivos. Cada dia nos

aproximava mais do tão aguardado 7 de setembro.

Apesar das semanas parecerem intermináveis e os finais

de semana passarem num piscar de olhos, mantínhamos

o entusiasmo. Meu noivado era uma fonte constante de

felicidade; Júlio me presenteava com flores, viajávamos

bastante e aproveitávamos intensamente a companhia um

do outro. Quando abril chegou, trouxe consigo a

celebração do meu aniversário. Decidimos, como os

aventureiros que somos, embarcar em nossa primeira

experiência de acampamento juntos. Júlio veio me

buscar no sábado pela manhã, e partimos cedo, cheios de

entusiasmo por essa nova aventura. Eu tinha acampado

algumas vezes na infância, enquanto Júlio tinha o hábito

frequente de acampar quase todo final de semana antes

de nos conhecermos. Nosso amor pela natureza era um

dos laços que nos unia profundamente.Assim que

chegamos ao destino, escolhemos um local perfeito à

beira de um lago azul cintilante. Júlio e Arthur, em

perfeita harmonia, montaram nossa barraca,

transformando rapidamente o espaço em nosso lar

temporário. Com o sol ainda no horizonte, preparamos

uma fogueira, e o aroma de marshmallows assados logo

permeou o ar. Quando a noite caiu, trouxe consigo a

inevitável presença dos pernilongos, que, apesar de

incômodos, não conseguiram diminuir a magia do

momento. Comparados às ricas memórias que estávamos

criando junto a Arthur, pequenas picadas de inseto eram

insignificantes. O Arthur foi, sem dúvida, quem mais

aproveitou aquela experiência. Observá-lo radiante

dentro da barraca, enquanto ouvíamos histórias sob o céu

estrelado, aqueceu nossos corações naquela noite fria.

Ainda naquele mês, fizemos uma viagem memorável ao

Rio com Patrícia e Rafael. No meio do caminho em

direção ao Rio, ia conversando animadamente com

Patrícia. — Não vejo a hora de reencontrar a tia e as

meninas — disse, enquanto apreciava a paisagem

durante a viagem.Fazia seis anos desde a última vez que

havia visto minha tia, e a saudade era grande. Minhas

primas tinham sido parte essencial da nossa infância,

sempre presentes e especiais. — Parece que foi ontem

que éramos pequenas, e agora estamos visitando-as em

outro estado — comentou minha irmã Patrícia, com um

sorriso nostálgico no rosto. — Nunca imaginei que nos

mudaríamos para tão longe. Apesar de tudo,

continuamos unidas — acrescentei, virando-me para

olhar Patrícia, que estava sentada no banco de trás do

carro. A viagem foi tranquila; ouvimos músicas,

conversamos bastante e só fizemos uma parada para

tomar café e usar o banheiro. Poucas horas depois,

chegamos em Rio das Ostras, na casa da nossa prima.

Fomos calorosamente acolhidos por ela e nossa tia, que

já nos aguardavam. Foi um fim de semana maravilhoso,

repleto de risadas e boas lembranças na companhia

delas. Já era final de abril quando, numa tarde específica,

estava no meu quarto planejando uma visita à cidade do

Júlio no final de semana.Ele, eufórico, me contou que

havia finalmente pegado a chave do nosso apartamento e

queria que eu estivesse presente na nossa primeira

entrada. Enquanto eu sonhava acordada com os planos,

fui interrompida pela Vê, que entrou no quarto com um

semblante triste, informando que a tia não estava bem e

precisava ser levada ao médico. Após uma breve

conversa, ela se dirigiu ao hospital, enquanto eu fiquei

em casa, ansiosa por notícias. Na manhã seguinte, desci

do meu quarto na esperança de encontrá-las dormindo,

mas sem sucesso. Mandei uma mensagem para Verônica,

que, com voz preocupada, me informou que a tia não

estava bem, recusava-se a comer e estava em

observação, realizando exames. Aquela notícia foi como

um balde de água fria logo cedo. Meus pensamentos se

voltaram para Deus, pedindo que tudo ficasse bem. Tia

era a irmã mais velha do meu pai, ela sofria de

Alzheimer e estava acamada há mais de cinco anos.

Lembro-me do início da sua doença, quando eu já

morava com ela e fazia de tudo para vê-la sorrir,

tentando alegrar seus dias.Recordo também que suas

últimas palavras foram meu nome, que ela repetia

baixinho até parar de falar de vez. Enquanto tomava meu

café da manhã, memórias de um dia específico

inundaram minha mente. Recordo-me de como me sentia

naquele dia, quando a tristeza me envolvia. Eu havia

acabado de chegar a São Paulo e a saudade da Bahia era

intensa, e, ao entrar na sala onde ela assistia à sua novela

favorita, tive uma ideia brilhante: me fantasiei de

velhinha, com um cabo de vassoura velho e um pano na

cabeça, e entrei na sala contando histórias engraçadas

com uma voz arrastada. Ao vê-la rir, senti minha alma

aquecida. Aqueles minutos de descontração não só a

alegravam, mas também me acalmava por dentro. Talvez

ela nunca soubesse o quanto me fazia bem vê-la rir, ou

talvez soubesse, pois sempre foi esperta. Tia Creuza era

uma mulher forte, mas vê-la recusar comida me causava

preocupação.Após o café, imersa em pensamentos e

lembranças, comuniquei ao Júlio, e decidimos adiar

minha viagem para São José dos Campos, adiando

também nossa primeira entrada no novo apartamento. No

dia seguinte, fui ao hospital ficar com minha tia,

enquanto Verônica voltava para casa para descansar e

pegar algumas roupas. O hospital estava um caos devido

a um surto de dengue, e tia seria transferida para um

quarto para tratamento de uma infecção urinária. Ao

chegar, encontrei-a deitada, e, após cumprimentá-la,

apertei sua mão e recitei o Pai Nosso. Passei o dia lendo

meu livro de poemas para ela, e, à noite, voltei para casa,

pois o filho mais velho dela passaria a noite com ela.

Revezávamos as visitas, até que ela foi transferida para o

quarto, e minha prima Verônica ficou com ela. Em casa,

eu ficava aflita; os exames mostraram alterações, e a tia

continuava a recusar-se a comer, o que levou os médicos

a recorrerem à alimentação por sonda nasoenteral.

Aqueles dias eram sombrios.Conversando com Júlio por

telefone, decidimos que ele viria na semana seguinte,

pois eu precisava de sua presença. Foram dias de

angústia, meu coração despedaçado a cada visita ao

hospital. Ver tia tão frágil me destruía, e o sofrimento da

Vê, sua filha, corroía-me ainda mais. Não conseguíamos

falar sobre o estado da tia sem derramar lágrimas.

Temíamos que ela nos deixasse a qualquer momento, e

isso nos consumia lentamente. Certa noite, eu planejava

dormir no hospital no dia seguinte, pois Verônica

precisava voltar ao trabalho. Lembro-me bem daquela

triste noite, quando Verônica, chorosa, comentou que

temia o pior. A pressão da tia estava baixa, e ela só

dormia serenamente. No outro dia, iria cedo para o

hospital e passaria o dia e, possivelmente, a noite lá.

Tentei dormir cedo, pois precisava acordar às 5, já que

meu primo, que acompanhava minha tia naquela noite,

precisava sair cedo para ir ao trabalho. Ao chegar no

hospital, lembro-me de ter subido as escadas até o

décimo primeiro andar, pois não gosto de elevadores.Ao

entrar no quarto, tia estava deitada, sonolenta, recebendo

alimento por sonda. Um pouco mais afastada, havia uma

senhora internada com sua adorável filha. Aproximei-me

de tia, acariciei seus cabelos grisalhos e falei: – Oi tia! É

a Letícia –Ela abriu os olhos lentamente, o que me

deixou contente, mas logo adormeceu novamente.

Conversei um pouco com a filha da senhora ao lado, que

era alegre e espontânea. Estava acomodada na poltrona

ao lado do leito da tia, quando dois médicos de plantão

passaram. — Oi, dona Maria Creusa — disseram. Com

semblantes sérios, voltaram-se para mim. Perguntaram o

que eu era da tia, e, após informá-los que era sua

sobrinha e que poderiam passar qualquer informação, um

deles, que parecia ser o chefe, disse: — Precisamos da

filha dela aqui. Franzi a testa, sem entender a situação.

Minha prima estava no trabalho e já havia ficado

bastante tempo afastada. Com um tom sério, perguntei:

— Está tudo bem? — Os exames que fizemos mostraram

alterações, e os rins estão prestes a parar de funcionar.

Precisamos da sua prima aqui ainda hoje — insistiu.

Quando aquelas palavras chegaram aos meus ouvidos,

senti meus pés perderem o chão. Eu estava em choque,

chorando como uma criança na frente dos médicos, que

tentavam me acalmar. Tremia, imaginando o pior. A

acompanhante da senhora ao lado me ofereceu um suco

de laranja, que recusei, percebendo que minha pressão

havia caído. Em seguida, ela me ofereceu água, que logo

tomei, sentindo o gosto salgado das lágrimas que

escorriam no meu rosto. Após me estabilizar um pouco,

os médicos explicaram calmamente: — Você sabe que

sua tia tem Alzheimer, e essa doença progride. Hoje, sua

tia desceu mais um degrau. Pode ser que ela melhore,

mas isso é muito difícil, devido à idade e ao estágio da

doença. Os rins dela estão parando, mas ela não está

sentindo dor. Veja, ela está serena. Meus olhos se

voltaram para o rosto da tia, e ela realmente estava

dormindo serenamente.O médico tocou levemente os

pés da tia, fazendo carinho, enquanto continuava

explicando: — Precisamos da filha dela, porque, se ela

regredir ainda mais e precisar ser entubada ou fazer

hemodiálise, vale a pena para a idade dela? Se caso ela

piorar e precisar reanimar, temos autorização? Cada

palavra era como um soco no estômago, aumentando o

nó na garganta. Após ouvi-los atentamente, informei-os

que chamaria minha prima, enquanto as lágrimas ainda

escorriam pelo meu rosto. Eles avisaram que tia estava

partindo, porém não podiam prever o dia, poderia ser em

poucas horas ou dias. informaram também que

mudariam o horário de visita para que ela pudesse ser

visitada a qualquer momento. Após um leve toque no

meu ombro em sinal de empatia, os médicos me

deixaram no quarto com a responsabilidade de contar

para minha prima. O que eu faria? A moça ao lado me

abraçou e pediu calma. Eu não poderia contar para

Verônica naquele momento, eu claramente não estava

preparada para falar. Na verdade, nunca estaria. Como

contar para minha prima que a mãe dela estava partindo?

Chorei bastante, acariciando a mão gelada da tia, que

dormia tranquilamente, logo depois mandei uma

mensagem para Verônica, que é professora e poderia

estar em aula. Por isso, optei por enviar uma mensagem:

— Vê, o médico disse que precisa de você aqui. Após ler

a mensagem, ela me ligou de imediato. Atendi, tentando

camuflar meu choro, que insistia em escapar. — Que

foi? — perguntou, nervosa. — O médico disse que

precisa de você aqui ainda hoje — repeti. — Pode falar,

Letícia, quero saber a verdade — insistiu. E eu, entre

choramingas, contei para ela toda a situação, repassando

as informações que os médicos haviam relatado. Após

saber, Verônica foi levada para casa pelas colegas de

trabalho para pegar suas coisas e vir ao meu encontro no

hospital. Até a chegada de Verônica, fiquei remoendo

momentos felizes ao lado da minha amada tia,

lembrando das risadas que dávamos na Bahia com a

minha avó. Quando Verônica chegou ao hospital, pediu

para descer até a sala de espera para conversarmos.Ao

chegar na sala, meus olhos transcorreram diretamente

para ela, que estava chorando. Abracei-a, e ela articulou

as seguintes palavras: — Me conta de novo o que os

médicos disseram. E eu calmamente repeti o que eles

disseram. Após ouvir, ela disse: — Estou achando que a

mãe vai nos deixar. Não sei o que fazer. Vou falar com

meus irmãos antes de tomar qualquer decisão. Ficamos

um tempo ali e logo ela entrou para ver a mãe, e eu

voltei para casa devastada e esgotada. Depois de chegar

em casa, tomei um banho e liguei para Júlio,

contando-lhe o que estava acontecendo. Ele viria me ver

no dia seguinte. Posteriormente, ao contar para nossos

familiares sobre a situação da tia, minha mãe e Patrícia

decidiram vir com Júlio para visitá-la no hospital. Assim

que Júlio chegou à minha casa e me avistou, ele logo me

abraçou. Senti um alento imediato; eu realmente

precisava daquele abraço. Antes de dormir, deitei no

peito de Júlio, onde chorei como uma criança.— Estou

com medo — disse entre soluços, enquanto ele fazia

cafuné em meus cabelos, me acalmando e me fazendo

adormecer. Acordei no dia seguinte, minha mãe já estava

de pé. Com os olhos fixos nela, perguntei: — Quero

levar Arthur para ver tia, o que a senhora acha? Verônica

havia mencionado antes que levá-lo poderia

impressioná-lo, pois ele era pequeno e tia estava com a

sonda no nariz. “Talvez ele não entendesse”, ela alegava.

— Leva ele — disse minha mãe. Assim, logo me

arrumei e arrumei o Arthur para juntos irmos visitá-la.

No caminho para o hospital, expliquei para Arthur: —

Filho, a tia está doente, vamos visitá-la. Ele logo

respondeu: — Eu sei, mamãe, vou curá-la. Fiquei

impressionada com suas palavras, mas acreditei ser

apenas a imaginação fértil de uma criança. Chegamos ao

hospital, subimos com Arthur, minha irmã, minha mãe e

Júlio. O filho mais velho da minha tia também estava lá,

e o clima era de despedida.Mas, para nossa alegria e

surpresa, tia começou a melhorar, no dia seguinte, os

exames da tia estavam melhores, algo que os médicos

não souberam explicar. Ela estava melhorando, e, em um

vídeo feito por minha prima, ela esboçava um sorriso no

seu rosto meigo. Nossos corações tristes e dias

turbulentos começaram a ganhar um pouco de esperança.

Tia estava inexplicavelmente melhorando. Dias depois,

ela finalmente recebeu alta. Embora clinicamente bem,

enfrentávamos o desafio de alimentá-la por sonda, algo

novo para nós. A alegria de tê-la de volta em casa enchia

nossos corações, mas a aflição de não ter Vê presente no

meu casamento começou a me preocupar. Tia, embora

em casa, estava debilitada e precisaria de alguém com

experiência para cuidar dela. Meu casamento seria na

cidade do Júlio, e meu pai não poderia entrar comigo na

igreja. Queria entrar com Oscar e ter Verônica como

madrinha. Eles foram meu refúgio desde que fui morar

com eles.Não os ter no meu casamento não fazia parte

dos meus planos, mas a saúde da tia era incerta, e a data

do casamento se aproximava rapidamente.

1/1
Menu

Fazer anotação