Capítulo 5 A Um Sorriso de Distância · Capítulo 5 de 12
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Capítulo 5

Logo cedo, por volta das sete da manhã, eu estava na

rodoviária, aguardando o ônibus, quando meu celular

tocou. Era o Daniel. — Alô — respondi ao atender a

ligação. Ele começou a narrar, num tom de brincadeira:

— Ele puxou a cadeira para você se sentar, abriu a porta

do carro, blá blá blá... Surpresa, eu argumentei: — Quem

te contou? Não acredito que mainha falou para você! —

Tchau, Daniel — respondi, tentando encerrar a conversa.

Mas antes que eu pudesse desligar, ele gritou: — Está

apaixonada! — e desligou em seguida, deixando-me

sorrindo e um tanto embaraçada. Antes de o ônibus

chegar, recebi uma mensagem do Júlio desejando-me

uma boa viagem e perguntando se o Arthur estava

melhor. Respondi que sim, agradecendo — Ele quer vir

aqui na quinta-feira. em seguida. Logo, ele mandou:

“Acredito que antes de você ir para a Bahia ainda dê para

a gente se ver”. “Como?”, respondi. “E se eu fosse para

Ferraz na quinta ou sexta? (risos) Como estou de férias,

poderíamos combinar de passar o dia juntos.Em algum

parque por aí, e o Arthur passaria o dia com a gente.”

“Na quinta”, respondi de volta. “Na sexta estará corrido,

estarei arrumando as coisas para a viagem no dia

seguinte.” Ele logo disse: “Na quinta, qual o horário que

você acha melhor eu chegar aí?”. “A hora que você

conseguir.” “Olha que eu amanheço aí na porta”, ele

respondeu. Ao chegar em casa, corri para Verônica,

minha prima, e falei meio receosa: — Encontrei alguém.

Tivemos um encontro ontem. — O quê? — ela indagou

espantada. — Como assim, Letícia? Como assim?

Contei para ela como aconteceu, e ela logo perguntou:

— Mas como ele é? — Toda precavida, ela falou: —

Olha, tem que viver, você está nova, mas use

preservativo para não vir outro Arthurzinho por aí. Olhei

para ela com cara de surpresa, mas engoli seco e não

retruquei; ela estava certa, apesar de eu ter dado só uns

beijinhos. — Ele não trabalha? — perguntou num tom de

preocupação. — Sim, ele trabalha, mas está de férias.O

Oscar foi chegando na hora, quando a Vê exclamou: —

Letícia está namorando, Oscar! Ele logo voltou seus

olhos intrigantes para mim e indagou: — Com quem? —

E pela segunda vez contei a mesma história. O Oscar

sempre foi receptivo e logo perguntou, ao saber que o

Júlio viria na quinta: — Que horas ele vem? Fala para

ele vir cedo para tomar café com a gente. Quero ver se

ele passa no teste — brincou. Aquele dia passou rápido;

desfiz a mala e fiz minha atividade física rotineira.

Troquei diversas mensagens com o Júlio durante o dia,

que mostrou interesse em meus livros. Já tínhamos nos

despedido, quando ele disse “boa noite”, e eu liguei para

ele. — Alô — ele atendeu surpreso. — Confesso que não

esperava por essa ligação. Como uma simples ligação

me fez ter a certeza de que era você a pessoa certa? —

ele concluiu. — Não sei — respondi entre sorrisos. —

Liguei para te dizer boa noite. — Saudades de ontem —

comentei ainda. Ele disse: — Estava pensando aqui,

ontem a essa hora. — Um pouco mais tarde — respondi.

— Foi tão bom ter você deitada em meu peito, nos meus

braços. Sorriu por um instante e completou: — É tão

bom ouvir sua voz. — É bom ouvir a sua também —

respondi. Logo ele sugeriu: — Vamos levar o Arthur

para ver a Patrulha Canina no cinema na quinta? “Ele é

diferente”, pensei comigo. “Legal, ele já está incluindo

meu filho no segundo encontro; não esperava atitude

diferente, mas ele realmente era especial.” — Claro, vai

ser a primeira vez dele no cinema — respondi. — Mas aí

a gente combina direitinho; provavelmente vai chover na

quinta, então podemos mudar nossos planos do parque e

ir ao shopping — ele falou. — Sua mãe me seguiu no

Instagram mais cedo — comentei. — Conversei sobre

você com ela hoje — ele disse sorrindo. Após uma

pausa: — Conversou!? — perguntei, dando um pulo da

cama em que estava deitada, derrubando o controle da

TV que estava em cima de mim. — Que barulho foi

esse? — ele questionou. — O controle caiu — falei

enquanto pegava o controle do chão. — Você mencionou

sobre a gente para sua mãe?Que empolgado — pensei

em voz alta. — Que? Não entendi a última parte — ele

perguntou. — Sua mãe — eu disse. — Ah, contei que

iria aí te ver na quinta. — Hum, entendi. — Vou ir

dormir — ele disse meio sonolento. — Ansioso para

quinta-feira — ele terminou. — Boa noite — respondi e

desliguei o celular. A semana deslizou suavemente,

como uma melodia que nos embala, e logo chegou a tão

esperada quinta-feira. Acordei cedinho, ansiosa para

recebê-lo. O dia estava envolto em uma leve garoa, mas

nada poderia ofuscar o brilho daquele momento. Para ser

sincera, eu amo dias chuvosos; eles têm uma magia

própria, um encanto que acende a alma. Estava

completamente apaixonada, como se cada gota de chuva

sussurrasse segredos de amor. Pouco antes das 08h00,

meu celular vibrou com uma mensagem: “Cheguei”.

Meu coração deu um salto, uma dança de alegria e

entusiasmo. Corri para abrir a porta, e lá estava ele. Ao

nos encontrarmos, fui imediatamente envolvida por seu

abraço. Ah, aquele abraço!Era como se já o conhecesse

há muito tempo, um abraço que trazia a sensação de lar,

de pertencimento. Era familiar de uma forma que

palavras não conseguem capturar, um abraço que aquecia

a alma. Depois que ele entrou, apresentei-o ao Oscar.

Fiquei observando os dois conversarem, e era como se o

tempo tivesse parado. A chuva continuava a cair lá fora,

mas, dentro de mim, havia um sol radiante, iluminando

cada canto do meu ser. — Chegou rápido — comentou o

Oscar, com um sorriso acolhedor. — Não tinha trânsito

— respondeu Júlio, um pouco envergonhado, mas com

um brilho nos olhos que não passava despercebido.

Enquanto tomávamos café, me diverti com as inúmeras

perguntas que o Oscar fazia para o Júlio. Era como se

estivesse conduzindo uma entrevista, mas com um toque

de humor e carinho. Por fim, Oscar brincou: — O teste é

lavar os pratos — e caiu na risada, logo acompanhado

por Júlio, que respondeu com um sorriso: — Isso é fácil.

E já estava se levantando da mesa, disposto a lavar a

louça, quando Oscar falou: — Estou brincando, na

próxima vez você lava. Depois do café, levei Júlio até o

escritório da casa para mostrar meu livro. Assim que ele

se sentou, mostrei-lhe “Pequenos Detalhes”, e ele logo se

interessou pelo poema “O Tempo”. Enquanto ele lia em

voz alta, eu o observava calmamente. Ouvir meus

poemas através de seus lábios era incrivelmente atraente;

seus olhos brilhavam enquanto ele tecia as palavras que

eu havia escrito. Estava fixada nele, ansiosa para ver sua

reação. Será que ele estava gostando das minhas

palavras? De repente, fomos surpreendidos por Arthur,

que chegou timidamente perto de mim, olhando

curiosamente para Júlio. Com uma vozinha tímida, ele

mal conseguiu dizer: — Mamãe... — Oi, filho, esse é o

Júlio — comentei, tentando tranquilizá-lo. Peguei Arthur

no colo para dividir a atenção, enquanto Júlio continuava

a leitura. Arthur sempre gostou de histórias e logo se

enturmou com Júlio, a quem ele carinhosamente chamou

de Caju.Júlio desceu para a sala, enquanto eu me

arrumava com Arthur. Quando desci do quarto, Caju,

com um sorriso espontâneo, disse: — Uau, que linda!

Onde você estava escondida esse tempo todo? — Bem

aqui, bem aqui — repeti, sorrindo. — Você gosta de

caju? — perguntou ele, brincando. — Sim — respondi,

rindo. — Menos mal — disse ele, sorrindo, já que Arthur

o chamava assim. Em seguida, caminhei até o quarto e

apresentei a ele minha tia paterna, que estava acamada.

— Olha, tia, esse é o Júlio — disse, enquanto ele

carinhosamente apertava a mão dela. Pouco tempo

depois, saímos. Ao chegar no shopping, fomos direto

para a praça de alimentação. Durante nosso passeio, senti

seu cuidado não só comigo, mas também com Arthur.

Júlio estava atento a nós, compramos ingressos para o

filme, que mal conseguimos assistir, pois Arthur pedia

para ir ao banheiro a todo momento. — Quer que eu o

leve? — perguntou Júlio, gentilmente. — Não, obrigada,

eu o levo — respondi, apreciando seu gesto. Aquele dia

foi perfeito.Após nos deixar em casa e conhecer a Vê,

Júlio se despediu, e foi embora para sua casa, que ficava

em outra cidade. Era uma quinta-feira, e no sábado eu

partiria para a Bahia, onde eu reencontraria meu pai e

irmãos, iria acompanhada pela minha irmã Deise.

Enquanto a noite avançava, meus pensamentos se

voltavam para o Júlio, e um misto de saudade e incerteza

tomava conta de mim. “Poxa, ele acabou de sair e já

estou com saudades”, pensei. “E se a gente der certo, o

que vamos fazer? Se der certo, daremos um jeito. E se

não der? Isso me preocupa ainda mais.” Ele vivia em

outra cidade, e, embora a distância fosse de apenas uma

hora e meia de carro, não seria fácil nos vermos com

frequência, talvez apenas nos finais de semana.

Conhecemo-nos há menos de uma semana, mas ele já

havia conquistado o Arthur e, de alguma forma,

começava a consertar meu coração. Fazia tanto tempo

que alguém não entrava na minha vida dessa maneira, e,

agora que ele estava aqui, eu me sentia insegura, receosa.

Confesso que havia esquecido como é intenso e

desafiador se apaixonar por alguém. Sinto-me como uma

novata no amor, como se todas as outras experiências

não contassem. E talvez realmente não contem. Amar

exige coragem, equilíbrio, e eu havia claramente

esquecido o quão grande é esse desafio, especialmente

quando se trata de um amor à distância. Na véspera da

viagem, enquanto organizava as últimas coisas, meus

olhos foram atraídos por uma folha rabiscada no fundo

da gaveta de documentos. Ao examiná-la com cuidado,

percebi que era uma carta que eu havia escrito para mim

mesma. Tinha o hábito de enviar cartas para meu eu do

futuro. A carta, datada de 19 de novembro de 2021, às

21:25, dizia: “Olá, eu do futuro... O Arthur está

dormindo, ele é lindo. Agora ele tem 1 ano, 5 meses e

alguns dias. Mas a questão não é ele, e sim você do

passado. Estou debruçada sobre o caderno, sob a

meia-luz do abajur, metade no tapete e metade no frio da

cerâmica.Estou escrevendo na esperança de que você

leia esta carta com o coração cheio de alegria por ter

dado certo aí no futuro”. Na carta, eu descrevia minhas

aspirações de sucesso com meus livros, além de relatar

os momentos turbulentos da minha vida amorosa do

passado. Terminei a carta com um desejo sincero:

“Tomara que você esteja lendo isso com um sorriso bobo

e se sinta confortável nesse exato momento, seja ele qual

for. Hoje, tive uma conversa com Deus, e fazia tempo

que não era tão sincera com Ele. Espero que seja feita a

vontade d’Ele. Logo irei para a Bahia. Espero que você

esteja feliz. Com amor, Letícia de 2021”.

Coincidentemente, eu estava prestes a ir para a Bahia, e

minha situação amorosa atual era estável. Pensei comigo

mesma: “Parece que deu certo, Letícia do passado”. E,

com um sorriso no rosto, senti que estava exatamente

onde deveria estar, pronta para abraçar o futuro com

esperança e amor.

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