Capítulo II O Crime do Padre Amaro · Capítulo 3 de 26
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Capítulo II

Uma semana depois soube-se que o novo parocho devia chegar pela diligencia de Chão de Maçãs, que traz o correio á tarde; e desde as seis horas o cônego Dias e o coadjutor passeavam no largo do Chafariz, á espera de Amaro.

Era então nos fins de agosto. Na longa alameda macadamisada que vai junto do rio, entre os dois renques de velhos choupos, entreviam-se vestidos claros de senhoras passeando. Do lado do Arco, na correnteza de casebres pobres, velhas fiavam á porta; crianças sujas brincavam pelo chão, mostrando os seus enormes ventres nús; e galinhas em redor iam picando vorazmente as imundícies esquecidas. Em redor do chafariz cheio de ruido, onde os cântaros arrastam sobre a pedra, criadas ralham, soldados, com a sua fardeta suja, enormes botas cambadas, namoravam, meneando a chibata de junco; com o seu cântaro bojudo de barro equilibrado á cabeça sobre a rodilha, raparigas iam-se aos pares, meneando os quadris; e dois oficiais ociosos, com a farda desapertada sobre o estomago, conversavam, esperando, a vêr quem viria. A diligencia tardava. Quando o crepúsculo desceu, uma lamparina luziu no nicho do santo, por cima do Arco; e defronte iam-se alumiando uma a uma, com uma luz soturna, as janelas do hospital.

Já tinha anoitecido quando a diligencia, com as lanternas acesas, entrou na Ponte ao trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e veio parar ao pé do chafariz, por baixo da estalagem do Cruz; o caixeiro do tio Patricio partiu logo a correr para a Praça com o maço dos Diarios Populares; o tio Batista, o patrão, com o cachimbo negro ao canto da boca, desatrelava, praguejando tranquilamente; e um homem que vinha na almofada, ao pé do cocheiro, de chapéo alto e comprido capote eclesiástico, desceu cautelosamente, agarrando-se ás guardas de ferro dos assentos, bateu com os pés no chão para os desentorpecer, e olhou em redor.

--Oh, Amaro! gritou o cônego que se tinha aproximado, oh, ladrão!

--Oh, Padre-Mestre! disse o outro com alegria. E abraçaram-se, enquanto o coadjutor, todo curvado, tinha o barrete na mão.

de aí a pouco as pessoas que estavam nas lojas viram atravessar a Praça, entre a corpulência vagarosa do cônego Dias e a figura esguia do coadjutor, um homem um pouco curvado, com um capote de padre. Soube-se que era o parocho novo; e disse-se logo na botica que era uma boa figura de homem. O João Bicha levava adiante um bahú e um saco de chita; e como àquela hora já estava bêbedo, ia resmungando o Bendito.

Eram quase nove horas, a noite cerrara. Em redor da Praça as casas estavam já adormecidas: das lojas debaixo da arcada saia a luz triste dos candieiros de petróleo, entreviam-se dentro figuras somnolentas, caturrando em cavaqueira, ao balcão. As ruas que vinham dar á Praça, tortuosas, tenebrosas, com um lampeão mortiço, pareciam desabitadas. E no silencio o sino da Sé dava vagarosamente o toque das almas.

O cônego Dias ia explicando pachorrentamente ao parocho «o que lhe arranjara». Não lhe tinha procurado casa: seria necessário comprar mobília, buscar criada, despezas inumeráveis! Parecera-lhe melhor tomar-lhe quartos em uma casa de hospedes respeitável, de muito conchego--e em essas condições (e ali estava o amigo coadjutor que o podia dizer), não havia como a da S. Joaneira. Era bem arejada, muito asseio, a cozinha não deitava cheiro; tinha lá estado o secretario geral e o inspector dos estudos; e a S. Joaneira (o Mendes amigo conhecia-a bem) era uma mulher temente a Deus, de boas contas, muito econômica e cheia de condescendências...

--Você está ali como em sua casa! Tem o seu cozido, prato de meio, café...

--Vamos a saber, Padre-Mestre: preço? disse o parocho.

--Seis tostões. Que diabo, é de graça! Tem um quarto, tem uma saleta...

--Uma rica saleta, comentou o coadjutor respeitosamente.

--E é longe da Sé? perguntou Amaro.

--Dois passos. Póde-se ir dizer missa de chinelos. Na casa ha uma rapariga, continuou com a sua voz pausada o cônego Dias. É a filha da S. Joaneira. Rapariga de vinte e dois anos. Bonita. Sua pontinha de gênio, mas bom fundo... Aqui tem vôsse a sua rua.

Era estreita, de casas baixas e pobres, esmagada pelas altas paredes da velha Misericórdia, com um lampeão lúgubre ao fundo.

--E aqui tem você o seu palácio! disse o cônego, batendo na aldraba de uma porta esguia.

No primeiro andar duas varandas de ferro, de aspecto antigo, faziam saliência, com os seus arbustos de alecrim, que se arredondavam aos cantos em caixas de madeira; as janelas de cima, pequeninas, eram de peitoril; e a parede, pelas suas irregularidades, fazia lembrar uma lata amolgada.

A S. Joaneira esperava no alto da escada; uma criada, enfezada e sardenta, alumiava com um candieiro de petróleo; e a figura da S. Joaneira destacava plenamente na luz sobre a parede caiada. Era gorda, alta, muito branca, de aspecto pachorrento. Os seus olhos pretos tinham já em redor a pele engelhada; os cabelos arripiados, com um enfeite escarlate, eram já raros aos cantos da testa e no começo da risca; mas percebiam-se uns braços rechonchudos, um colo copioso e roupas aceadas.

--Aqui tem a senhora o seu hospede, disse o cônego subindo.

--Muita honra em receber o senhor parocho! muita honra! Ha de vir muito cansado! por força! Para aqui, tem a bondade? Cuidado com o degrausinho.

Levou-o para uma sala pequena pintada de amarelo, com um vasto canapé de palhinha encostado à parede, e defronte, aberta, uma mesa forrada de baeta verde.

--É a sua sala, senhor parocho, disse a S. Joaneira. Para receber, para espairecer... Aqui--acrescentou abrindo uma porta--é o seu quarto de dormir. Tem a sua comoda, o seu guarda-roupa...--Abriu os gavetões, gabou a cama batendo a elasticidade dos colxões--Uma campainha para chamar sempre que queira... As chavinhas da comoda estão aqui... Se gosta de travesseirinho mais alto... Tem um cobertor só, mas querendo...

--Está bem, está tudo muito bem, minha senhora, disse o parocho com a sua voz baixa e suave.

--É pedir! O que ha, da melhor vontade...

--Oh creatura de Deus! interrompeu o cônego jovialmente, o que ele quer agora é cear!

--Também tem a ceiasinha pronta. Desde as seis que está o caldo a apurar...

E saiu, para apressar a criada, dizendo logo do fundo da escada:

--Vá, Ruça, mexe-te, mexe-te!...

O cônego sentou-se pesadamente no canapé, e sorvendo a sua pitada:

--É contentar, meu rico. Foi o que se pôde arranjar.

--Eu estou bem em toda a parte, Padre-Mestre, disse o parocho, calçando os seus chinelos de ourelo. Olha o seminário!... E em Feirão! Caía-me a chuva na cama.

Para o lado da Praça, então, sentiu-se o toque de cornetas.

--Que é aquilo? perguntou Amaro, indo á janela.

--Ás nove e meia, o toque de recolher.

Amaro abriu a vidraça. Ao fim da rua um candieiro esmorecia. A noite estava muito negra. E havia sobre a cidade um silencio concavo, de abobada.

Depois das cornetas, um rufar lento de tambores afastou-se para o lado do quartel; por baixo da janela um soldado, que se demorara em alguma viela do Castelo, passou correndo; e das paredes da Misericórdia saia constantemente o agudo piar das corujas.

--É triste isto, disse Amaro.

Mas a S. Joaneira gritou de cima:

--Póde subir, senhor cônego! Está o caldo na mesa!

--Ora vá, vá, que você deve estar a cahir de fome, Amaro!--disse o cônego, erguendo-se muito pesado.

E detendo um momento o parocho pela manga do casaco:

--Vai você vêr o que é um caldo de galinha feito cá pela senhora! Da gente se babar!...

No meio da sala de jantar, forrada de papel escuro, a claridade da mesa alegrava, com a sua toalha muito branca, a louça, os copos reluzindo á luz forte de um candieiro d'abat-jour verde. Da terrina subia o vapor cheiroso do caldo, e na larga travessa a galinha gorda, afogada em um arroz humido e branco, rodeada de nacos de bom paio, tinha uma aparência suculenta de prato morgado. No armário envidraçado, um pouco na sombra, viam-se cores claras de porcelana; a um canto, ao pé da janela, estava o piano, coberto com uma colcha de setim desbotado. Na cozinha frigia-se; e sentindo o cheiro fresco que vinha de um taboleiro de roupa lavada, o parocho esfregou as mãos, regalado.

--Para aqui, senhor parocho, para aqui, disse a S. Joaneira. de aí póde-lhe vir frio.--Foi fechar as portadas das janelas; chegou-lhe um caixão de areia para as pontas dos cigarros.--E o senhor cônego toma um copinho de geleia, sim?

--Vá lá, para fazer companhia, disse jovialmente o cônego, sentando-se e desdobrando o guardanapo.

A S. Joaneira, no emtanto, mexendo-se pela sala, ia admirando o parocho que, com a cabeça sobre o prato, comia em silencio o seu caldo, soprando a colhér. Parecia bem feito: tinha um cabelo muito preto, levemente anelado. O rosto era oval, de pele trigueira e fina, os olhos negros e grandes, com pestanas compridas.

O cônego, que não o via desde o seminário, achava-o mais forte, mais viril.

--Você era enfezadito...

--Foi o ar da serra, dizia o parocho, fez-me bem.--Contou então a sua triste existência em Feirão, na alta Beira, durante a aspereza do inverno, só, com pastores. O cônego deitava-lhe o vinho de alto, fazendo-o espumar.

--Pois é beber-lhe, homem! é beber-lhe! de esta gota não pilhava você no seminário.

Falaram do seminário.

--Que será feito do Rabicho, o despenseiro? disse o cônego.

--E do Carôcho, que roubava as batatas?

Riram; e bebendo, na alegria das reminiscencias, recordavam as historias de então, o catarro do reitor, e o mestre de canto-chão que deixara um dia cahir do bolso as poesias obscenas de Bocage.

--Como o tempo passa, como o tempo passa! diziam.

A S. Joaneira então pôs na mesa um prato covo com maçãs assadas.

--Viva! Não, lá em isso também eu entro! exclamou logo o cônego. A bela maçã assada! nunca me escapa! Grande dona de casa, meu amigo, rica dona de casa, cá a nossa S. Joaneira! Grande dona de casa!

Ela ria; viam-se os seus dois dentes de diante, grandes e chumbados. Foi buscar uma garrafa de vinho do Porto; pôs no prato do cônego, com requintes devotos, uma maçã desfeita polvilhada de assucar; e batendo-lhe nas costas com a mão papuda e mole:

--Isto é um santo, senhor parocho, isto é um santo! Ai, devo-lhe muitos favores!

--Deixe falar, deixe falar..., dizia o cônego.--Espalhava-se-lhe no rosto um contentamento baboso.--Boa gota! acrescentou, saboreando o seu cálix de porto. Boa gota!

--Olhe que ainda é dos anos da Amelia, senhor cônego.

--E onde está ela, a pequena?

--Foi ao Morenal com a D. Maria. Aquilo naturalmente foram para casa das Gansosos passar a noite.

--Cá esta senhora é proprietária, explicou o cônego, falando do Morenal. É um condado!--Ria com bonhomia, e os seus olhos luzidios percorriam ternamente a corpulência da S. Joaneira.

--Ah, senhor parocho, deixe falar, é uma nesga de terra..., disse ela.

Mas vendo a criada encostada á parede, sacudida com afflicções de tosse:

--Ó mulher, vai tossir lá pra dentro! credo!

A moça saiu, pondo o avental sobre a boca.

--Parece doente, coitada, observou o parocho.

Muito achacada, muito!... A pobre de Cristo era sua afilhada, orphã, e estava quase tisica. Tinha-a tomado por piedade...

--E também porque a criada que cá tinha foi para o hospital, a desavergonhada... Metteu-se aí com um soldado!...

O padre Amaro baixou devagar os olhos--e trincando migalhas perguntou se havia muitas doenças em aquele verão.

--Cholerinas, das fructas verdes, rosnou o cônego. Mettem-se pelas melancias, depois tarraçadas de água... E suas febritas...

Falaram então das sezões do campo, dos ares de Leiria.

--Que eu agora, dizia o padre Amaro, ando mais forte. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, tenho saúde, tenho!

--Ai, Nosso Senhor lha conserve, que nem sabe o bem que é! exclamou a S. Joaneira.--Contou imediatamente a grande desgraça que tinha em casa, uma irmã meia idiota entrevada havia dez anos! Ia fazer sessenta anos... No inverno viera-lhe um catarro, e desde então, coitadinha, definhava, definhava...

--Ha bocado, ao fim da tarde, teve ela um ataque de tosse! Pensei que se ia embora. Agora descansou mais...

Continuou a falar «de aquela tristeza», depois da sua Ameliasinha, das Gansosos, do antigo chantre, da carestia de tudo--sentada, com o gato no colo, rolando com os dois dedos, monotonamente, bolinhas de pão. O cônego, pesado, cerrava as pálpebras; tudo na sala parecia ir gradualmente adormecendo; a luz do candieiro esmorecia.

--Pois senhores, disse por fim o cônego mexendo-se, isto são horas!

O padre Amaro ergueu-se, e com os olhos baixos deu as graças.

--O senhor parocho quer lamparina? perguntou cuidadosamente a S. Joaneira.

--Não, minha senhora. Não uso. Boas noites!

E desceu devagar, palitando os dentes.

A S. Joaneira alumiava no patamar, com o candieiro. Mas nos primeiros degraus o parocho parou, e voltando-se, affectuosamente:

--É verdade, minha senhora, amanhã é sexta-feira, é jejum...

--Não, não, acudiu o cônego que se embrulhava na capa de lustrina, bocejando, você amanhã janta comigo. Eu venho por cá, vamos ao chantre, á Sé, e por aí... E olhe que tenho lulas. É um milagre, que isto aqui nunca ha peixe.

A S. Joaneira tranquilizou logo o parocho:

--Ai, é escusado lembrar os jejuns, senhor parocho. Tenho o maior escrúpulo!

--Eu dizia, explicou o parocho, porque infelizmente hoje em dia ninguém cumpre...

--Tem vossa senhoria muita razão, atalhou ela. Mas eu! credo!... A salvação da minha alma antes de tudo!

A campainha em baixo, então, retiniu fortemente.

--Ha de ser a pequena, disse a S. Joaneira. Abre, Ruça!

A porta bateu, sentiram-se vozes, risinhos.

-És tu, Amelia?

Uma voz disse adeusinho! adeusinho! E apareceu, subindo quase a correr, com os vestidos um pouco apanhados adiante, uma bela rapariga, forte, alta, bem feita, com uma manta branca pela cabeça e na mão um ramo de alecrim.

--Sobe, filha. Aqui está o senhor parocho. Chegou agora á noitinha, sobe!

Amelia tinha parado um pouco embaraçada, olhando para os degraus de cima, onde o parocho ficara, encostado ao corrimão. Respirava fortemente de ter corrido; vinha córada; os seus olhos vivos e negros luziam; e saia de ela uma sensação de frescura e de prados atravessados.

O parocho desceu, cingido ao corrimão, para a deixar passar, murmurando boas noites! com a cabeça baixa. O cônego, que descia atraz, pesadamente, tomou o meio da escada, diante de Amelia:

--Então isto são horas, sua bréjeira!

Ela teve um risinho, encolheu-se.

--Ora vá-se encomendar a Deus, vá! disse batendo-lhe no rosto devagarinho com a sua mão grossa e cabeluda.

Ela subiu a correr, enquanto o cônego, depois de ir buscar o guardasol á saleta, saia, dizendo á criada, que erguia o candieiro sobre a escada:

--Está bom, eu vejo, não apanhes frio, rapariga. Então ás oito, Amaro! Esteja a pé! Vai-te, rapariga, adeus! Reza á Senhora da Piedade que te seque essa catarreira.

O parocho fechou a porta do quarto. A roupa da cama entreaberta, alva, tinha um bom cheiro de linho lavado. Por cima da cabeceira pendia a gravura antiga de um Cristo crucificado. Amaro abriu o seu Breviario, ajoelhou aos pés da cama, persignou-se; mas estava fatigado, vinham-lhe grandes bocejos; e então por cima, sobre o tecto, através das orações rituais que machinalmente ia lendo, começou a sentir o tic-tic das botinas de Amelia e o ruido das saias engomadas que ela sacudia ao despir-se.

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