Capítulo XXI O Crime do Padre Amaro · Capítulo 21 de 26
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Capítulo XXI

Que lagrimas quando Amelia soube a noticia! A sua honra, a paz da sua vida, tantas felicidades combinadas, tudo perdido e sumido nas brumas do mar, a caminho para o Brasil!

Foram as semanas piores da sua vida. Ia para o parocho, banhada em lagrimas, perguntando-lhe todos os dias o que havia de fazer.

Amaro, sucumbido, sem idéa, ia para o padre-mestre.

--Fez-se tudo o que se pôde, dizia o cônego desolado. É aguentar. Não se metesse em elas!

E Amaro voltava para Amelia com consolações muito murchas:

--Tudo se ha de arranjar, é esperar em Deus!

Era bom o momento para contar com Deus, quando Ele, indignado, a acabrunhava de misérias! E aquela indecisão, em um homem e em um padre, que devia ter a habilidade e a força de a salvar, desesperavam-na; a sua ternura por ele sumia-se como a água que a areia absorve; e ficava um sentimento confuso em que sob o desejo persistente já transluzia o ódio.

Espaçava agora de semana a semana os encontros na casa do sineiro. Amaro não se queixava; aquelas boas manhãs do quarto do tio Esguelhas, eram sempre estragadas com queixumes; cada beijo tinha um rastro de soluços; e aquilo enervava-o tanto, que lhe vinham desejos de se atirar também de bruços para a enxerga e chorar toda a sua amargura.

No fundo acusava-a de exagerar os seus embaraços, de lhe comunicar um terror desproporcionado. Outra mulher, de melhor senso, não faria semelhante espalhafato... Mas quê, uma beata histérica, toda nervos, toda medo, toda exaltação!... Ah, não havia dúvida, fora «uma famosa asneira»!

Também Amelia pensava que fora «uma asneira». E não ter nunca imaginado que aquilo lhe poderia suceder! Qual! Como mulher, correra para o amor, toda tonta, certa que escaparia, ela,--e agora que sentia nas entranhas o filho, eram as lagrimas e os espantos e as queixas! A sua vida era lúgubre: de dia tinha de se conter diante da mãe, aplicar-se á sua costura, conversar, affectar felicidade... Era de noite que a imaginação desencadeada a torturava com uma incessante fantasmagoria de castigos, de este e do outro mundo, misérias, abandonos, desprezo da gente honrada e chamas do purgatório...

Foi então que um acontecimento inesperado veio fazer diversão àquela ansiedade que se ia tornando um habito mórbido do seu espirito. Uma noite a criada do cônego apareceu, esfalfada de correr, a dizer que a Sr..^a D. Josefa estava á morte.

Na véspera a excelente senhora sentira-se doente com uma pontada no lado, mas insistira em ir á Senhora da Incarnação rezar a sua corôa; voltou transida, com uma dor maior e uma ponta de febre; e em essa tarde, quando o doutor Gouvêa foi chamado, tinha-se declarado uma pneumonia aguda.

A S. Joaneira correu logo a instalar-se lá como enfermeira. E então, durante semanas, na tranquila casa do cônego, foi um alvoroço de dedicações afflictas: as amigas, quando se não espalhavam pelas igrejas a fazer promessas e a implorar os seus santos devotos, estavam lá em permanência, saindo e entrando no quarto da doente com passos de fantasmas, acendendo aqui e além lamparinas ás imagens, torturando o doutor Gouvêa com perguntas piegas. Á noite na sala, com o candieiro a meia luz, era pelos cantos um cochichar de vozes lúgubres; e ao chá, entre cada mastigadela de torrada, havia suspiros, lagrimas furtivamente limpadas...

O cônego lá estava a um canto, aniquilado, sucumbido com aquela brusca aparição da doença e do seu scenario melancólico--as garrafadas de botica enchendo as mesas, as entradas solemnes do medico, as faces compungidas que vem saber se ha melhoras, o halito febril espalhado em toda a casa, o timbre funerário que toma o relógio de parede no abafamento de todo o ruido, as toalhas sujas que ficam dias no logar em que cahiram, o anoitecer de cada dia com a sua ameaça de treva eterna... De resto, um pezar sincero prostrava-o; havia cincoenta anos que vivia com a mana e era animado por ela; o longo habito tornara-lh'a cara; e as suas caturrices, as suas toucas negras, o seu espalhafato pela casa faziam como uma parte mesma de seu sêr... Além de isso, quem sabe se a morte, entrando-lhe em casa, para poupar passos, o não levaria também!...

Para Amelia aquele tempo foi um alivio; ao menos ninguém pensava, ninguém reparava em ela; nem a sua face triste e os vestígios de lagrimas pareceriam estranhos, em aquele perigo em que estava a madrinha. Demais os serviços de enfermeira ocupavam-em a: como era a mais forte e a mais nova, agora que a S. Joaneira estava estafada de vigílias, era ela que passava as longas noites á beira de D. Josefa: e não havia então desvelos que não tivesse, para abrandar Nossa Senhora e o céo com aquela caridade pela doente, para merecer igual piedade quando o seu dia viesse de estar também prostrada em um leito... Vinha-lhe agora, sob a impressão fúnebre que se exhalava da casa, o presentimento repetido que morreria de parto; ás vezes só, embrulhada no seu chale aos pés da doente, ouvindo-lhe o gemer monótono, enternecia-se sobre a sua própria morte que julgava certa, e molhavam-se-lhe os olhos de lagrimas, em uma saudade vaga de si mesma, da sua mocidade e dos seus amores... Ia então ajoelhar-se junto da comoda onde uma lamparina bruxoleava diante de um Cristo projectando sobre o papel claro da parede a sua sombra disforme que se quebrava no tecto; e ali ficava rezando, pedindo a Nossa Senhora que não lhe recusasse o paraíso... Mas a velha mexia-se com um ai doloroso; ia então aconchegar-lhe a roupa, falar-lhe baixo. Vinha depois á sala vêr no relógio se era o momento do remedio; e estremecia ás vezes, sentindo vir do quarto próximo um pio de flautim ou um som rouco de trombone; era o cônego a resonar.

Emfim, uma manhã, o doutor Gouvêa declarou D. Josefa livre de perigo. Foi um vivo regosijo para as senhoras--certa, cada uma, que aquilo era devido á intervenção particular do seu santo devoto. E de aí a duas semanas houve uma festa na casa, quando D. Josefa, pela primeira vez, amparada nos braços de todas as amigas, deu dois passos trêmulos no quarto. Pobre D. Josefa, o que de ela fizera a doença! Aquela vozinha irritada, em que as palavras eram despedidas como setas envenenadas, assemelhava-se agora apenas a um som expirante, quando, em um esforço ancioso da vontade, pedia a escarradeira ou o xarope. Aquele olhar sempre álerta, escrutador e maligno, estava hoje como refugiado no fundo das orbitas, assustado da luz, das sombras e dos contornos das coisas. E o seu corpo, tão têso outr'ora, de uma secura de ramo de sarmento, agora ao cahir no fundo da poltrona, sob a trapalhada dos agasalhos, parecia um trapo também.

Mas emfim o doutor Gouvêa, apesar de anunciar uma convalescença longa e delicada, dissera rindo ao cônego, diante das amigas (depois de ter visto D. Josefa manifestar o seu primeiro desejo, o desejo de se chegar á janela), que com muita cautela, tônicos, e as orações de todas aquelas boas senhoras--a mana estava ainda para amores...

--Ai, doutor, exclamou D. Maria, as nossas orações não lhe hão de faltar...

--E eu não lhe hei de faltar com os tônicos, disse o doutor. De modo que, o que resta é congratularmo-nos.

Aquela jovialidade do doutor era para todos como a certeza da saúde próxima.

E de aí a dias, o cônego vendo aproximar-se o fim de agosto, falou de alugar casa na Vieira, como costumava um ano sim outro não, para ir tomar os seus banhos de mar. O ano passado não fora. Este era o ano de praia...

--E a mana lá, em aqueles ares saudaveis da beira-mar, é que acaba de ganhar forças e carnes...

Mas o doutor Gouvêa desaprovou a jornada. O ar muito picante e muito rico do mar não convinha á fraqueza de D. Josefa. Era preferível irem para a quinta da Ricoça, nos Poyaes, logar abrigado e muito temperado.

Foi um desgosto para o pobre cônego, que prodigalisou as lamurias. O quê! ir enterrar-se todo o verão, o melhor tempo do ano, na Ricoça! E os seus banhos, meu Deus, os seus banhos?

--Veja o senhor,--dizia ele a Amaro, uma noite no escriptorio,--veja o que eu tenho sofrido... Durante a doença, que desarranjo, que desordem na casa! Chá fora de horas, jantar esturrado! E os cuidados que tive, que me emagreceram... E agora, quando eu pensava poder ir refazer-me para a praia, não senhor, vai p'r'á Ricoça, dispensa os teus banhos... Isto é o que eu chamo sofrer! E no fim de tudo não fui eu que estive doente. Mas sou eu que as aguento... Perder dois anos a fio os meus banhos!...

Amaro, então, deu de repente uma punhada na mesa, e exclamou:

--Homem, veio-me uma boa idéa!

O cônego olhou-o com dúvida, como se não achasse possível a uma inteligência humana descobrir o fim dos seus males.

--Quando digo uma boa idéa, padre-mestre, devia dizer uma idéa sublime!

--Acabe, creatura...

--Escute. O senhor vai p'r'á Vieira, e a S. Joaneira, está claro, vai também. Naturalmente alugam casa um ao pé do outro, como ela me disse que tinham feito ha dois anos...

--Adiante...

--Bem. Aqui temos a S. Joaneira na Vieira. Agora, a senhora sua mana parte p'r'á Ricoça.

--E então a creatura ha de ir só?

--Não! exclamou Amaro em triunfo. Vai com a Amelia! A Amelia vai-lhe servir de enfermeira! Vão ambas sós! e lá na Ricoça, em aquele buraco onde não vai viva alma, em aquele casarão onde póde uma pessoa viver sem que ninguém em roda suspeite, lá é que a rapariga tem o filho! Hein, que lhe parece?

O cônego erguera-se com os olhos redondos de admiração.

--Homem, famosa idéa!

--É que concilia tudo! O senhor toma os seus banhos. A S. Joaneira, longe, não sabe o que se passa. Sua mana goza os ares... A Amelia tem um sitio escondido p'r'á coisa... Á Ricoça ninguém a vai vêr... A D. Maria também vai p'r'á Vieira. As Gansosos idem. A rapariga deve ter o bom sucesso aí pelos princípios de novembro... Da Vieira, e isso fica por sua conta, não volta ninguém dos nossos até princípios de dezembro... E quando nos reunirmos de novo está a rapariga limpa e fresca.

--Pois senhores, por ser a primeira idéa que você tem em estes dois últimos anos, é uma grande idéa!

--Obrigado, padre-mestre.

Mas havia uma dificuldade feia: era o ir á D. Josefa, á rigorista D. Josefa, tão implacavel ás fraquezas do sentimento, á D. Josefa que pedia para as mulheres frageis as antigas penalidades góticas--as letras marcadas na testa com ferro em braza, os açoutes nas praças publicas, os in pacé tenebrosos--ir á D. Josefa e pedir-lhe para ser cúmplice de um parto!

--A mana vai dar urros! disse o cônego.

--Nós veremos, padre-mestre, replicou Amaro repoltreando-se e balouçando a perna, muito certo do seu prestigio devoto. Nós veremos... Hei de lhe eu falar... E quando lhe tiver contado umas lérias... Quando lhe tiver representado que é para ela um caso de consciência encobrir a pequena... Quando lhe lembrar que nas vésperas da morte é que se deve fazer alguma boa acção, para não se apresentar á porta do paraíso com as mãos vazias... Nós veremos!

--Talvez, talvez, disse o cônego. A ocasião é boa, porque a pobre mana está fraquita do juízo e leva-se como uma criança.

Amaro ergueu-se, esfregando vivamente as mãos:

--Pois é mãos á obra! É mãos á obra!

--E é necessário não perder tempo, porque o escândalo estala. Olhe que esta manhã, lá em casa, a besta do Libaninho pôs-se a gracejar com a rapariga, a dizer-lhe que tinha a cinta grossa...

--Oh, que patife! rugiu o parocho.

Não, não seria por mal. Mas que a rapariga tem engrossado, é facto... Com esta atarantação da doença ninguém tem tido olhos para nada... Mas agora póde-se reparar... É sério, amigo, é sério!

Por isso, logo na manhã seguinte, Amaro foi, segundo a expressão do cônego, «dar a grande abordagem á mana».

Antes, porém, explicou em baixo no escriptorio ao padre-mestre o seu plano: primeiro, ia dizer a D. Josefa que o cônego estava na inteira ignorância do desastre da Ameliasinha, e que ele, Amaro, o sabia, não em segredo de confissão (em esse caso não o poderia revelar) mas pelas confidencias secretas dos dois--de Amelia e do homem casado que a seduzira!... Do homem casado, sim!... Porque emfim era necessário provar á velha que havia a impossibilidade de uma reparação legitima...

O cônego coçava a cabeça descontente:

--Isso não vai bem arranjado, disse ele. A mana sabe bem que não iam homens casados á rua da Misericórdia.

--E o Artur Couceiro? exclamou Amaro, sem escrúpulo.

O cônego largou a rir, com gosto. O pobre Artur, sem dentes, cheio de filhos, com os seus olhos de carneiro triste, acusado de perder virgens!... Não, essa era boa!

--Não péga, parocho amigo, não péga! Outra, outra...

Mas então subitamente partiu dos lábios de ambos o mesmo nome,--o Fernandes, o Fernandes da loja de panos! Belo homem, que Amelia admirava muito! Sempre que saia ia-lhe á loja: tinha mesmo havido indignação na rua da Misericórdia, havia dois anos, com a ousadia do Fernandes que acompanhara Amelia pela estrada de Marrazes até ao Morenal!

Já se sabe, não se dizia explicitamente á mana,--mas dava-se-lhe a entender que fora o Fernandes.

E Amaro subiu rapidamente para o quarto da velha, que era por cima do escriptorio. Esteve lá meia hora, uma longa, uma pesada meia hora para o cônego, que apenas podia ouvir em cima, ora rangerem as solas de Amaro, ora a tosse cavernosa da velha... E no seu passeio habitual pelo escriptorio, da estante para a janela, com as mãos atraz das costas e a caixa de rapé nos dedos, ia considerando quantos incômodos, quantas despezas lhe traria ainda aquele «divertimento do senhor parocho»! Tinha de ter a rapariga na quinta cinco ou seis meses... Depois o medico, a parteira que era ele naturalmente que havia de pagar... Depois algum enxoval para o pequeno... E que se lhe havia de fazer, ao pequeno?... Na cidade, a Roda fora suprimida; em Ourem, como os recursos da Misericórdia eram escassos e a affluencia dos engeitados escandalosa, tinham posto um homem ao pé da sineta da Roda, para interrogar e pôr embaraços; havia indagações de paternidade, restituições de crianças; e a autoridade, finória, combatia o excesso dos engeitamentos com o terror dos vexames...

Emfim o pobre padre-mestre via diante de si todo um erriçamento de dificuldades para lhe sacudir a pachorra e estragar-lhe a digestão...--Mas o excelente cônego, no fundo, não se indignava; sempre tivera uma afeição de velho mestre pelo parocho; para a Amelia sempre o inclinara um fraco meio paternal, meio lubrico; e mesmo já sentia pelo «pequeno» uma vaga condescendência de avô.

A porta abriu-se, e o parocho apareceu triunfante.

--Tudo ás mil maravilhas, padre-mestre! Que lhe dizia eu?

--Consentiu?

--Em tudo. Não foi sem dificuldade... Ia-se abespinhando. Fallei-lhe do homem casado... Que a rapariga estava com a cabeça perdida, queria-se matar... Que se ela não consentisse em encobrir a coisa era responsável por uma desgraça... Lembre-se a senhora que está com os pés p'r'á cova, que Deus póde chamal-a de um momento a outro, e que se tiver na consciência este peso, não ha padre que lhe dê a absolvição!... Lembre-se que morre p'r'áhi como um cão!...

--Emfim, disse o cônego aprovando, falou-lhe com prudencia...

--Disse-lhe a verdade. Agora trata-se de falar á S. Joaneira, e de a levar p'r'á Vieira quanto antes...

--Outra coisa, amigo, interrompeu o cônego. Tem você pensado no destino que se ha de dar ao fructo?

O parocho coçou desconsoladamente a cabeça:

--Ah, padre-mestre... Isso é outra dificuldade... Tem-me apoquentado muito... Naturalmente dal-o a criar a alguma mulher, longe, lá pra Alcobaça ou pra Pombal... A felicidade, padre-mestre, era que a criança nascesse morta!

--Era um anjinho mais... rosnou o cônego sorvendo a sua pitada.

Logo em essa noite ele falou á S. Joaneira da ida para a Vieira, em baixo na saleta onde ela estava arranjando pires de marmelada que andavam a secar para a convalescença de D. Josefa. Começou por dizer que lhe alugara a casa do Ferreiro...

--Mas isso é um nicho! exclamou ela logo. Onde hei de eu meter a pequena?

--Ora aí é que está. É que justamente a Amelia de esta vez não vai á Vieira.

--Não vai!?

Foi só então que o cônego lhe explicou que a mana não podia ir só para a Ricoça, e que ele tinha pensado em mandar com ela Amelia... Era uma idéa que lhe viera em essa manhã.

--Eu não posso ir, tenho de tomar os meus banhos, a senhora bem sabe... A pobre de Cristo não ha de estar para lá só, com uma criada. Portanto...

A S. Joaneira teve um silenciosinho desconsolado:

--Isso é verdade. Mas olhe, para lhe dizer com franqueza, custa-me bem deixar a pequena... Se eu pudesse dispensar os banhos, ia eu.

--Qual ia! A senhora vem p'r'á Vieira. Eu também não hei de estar lá só... Sua ingrata, sua ingrata!...--E tomando um tom muito sério:--A senhora veja bem. A Josefa está com os pés p'r'á cova. Ela sabe que o que eu tenho para mim chega. Ela tem afeição á pequena, sempre é madrinha; se a vir agora a tratal-a na doença, a estar ali só com ela uns meses, fica pelo beiço. Olhe que a mana ainda vale um par de mil cruzados. A pequena póde apanhar um bom dote. Não lhe digo mais nada...

E a S. Joaneira concordou logo--uma vez que era vontade do senhor cônego.

Em cima, Amaro estava contando rapidamente a Amelia «o grande plano», a scena com a velha: que ela se promptificára logo, coitadinha, já cheia de caridade, desejando até ajudar para o enxoval do pequeno...

--em ela podes ter confiança, é uma santa... De modo que está tudo salvo, filha. É estar metida quatro ou cinco meses na Ricoça.

Era isso que fazia choramingar Amelia: perder a estação da Vieira, o divertimento dos banhos!... Ir enterrar-se todo um verão em aquele sinistro casarão da Ricoça! A única vez que lá fora, já ao fim da tarde, ficara estarrecida de medo. Tudo tão escuro, de um echo tão concavo... Tinha a certeza que ia lá morrer, em aquele degredo.

--Tolice! fez Amaro. É dar graças ao Senhor de me ter inspirado esta idéa de salvação. Demais tens a D. Josefa, tens a Gertrudes, o pomar para passear... E eu vou-te lá vêr todos os dias. Até hás de gostar, verás.

--Emfim que lhe hei de eu fazer? É aguentar. E com duas grossas lagrimas nas pálpebras, amaldiçoava intimamente aquela paixão que só amarguras lhe dava, e que agora, quando toda a Leiria ia para a Vieira, a forçava a ela a ir fechar-se na solidão da Ricoça, ouvindo tossir a velha e os cães uivar na quinta...--E a mamã, que diria a mamã?

--Que ha de dizer? A D. Josefa não póde ir p'r'á quinta só, sem uma enfermeira de confiança! Não te dê cuidado. O padre-mestre está lá em baixo a trabalhal-a... E eu vou ter com ela, que já aqui estou só ha bocado contigo, e em estes últimos dias é necessário ter cautelinha...

Desceu. Justamente o cônego subia, e encontraram-se na escada.

--Então? perguntou Amaro ao ouvido do padre-mestre.

--Tudo arranjado. E por lá?

--Idem.

E no escuro da escada os dois padres apertaram-se silenciosamente a mão.

de aí a dias, depois de uma scena de prantos, Amelia partiu com D. Josefa para a Ricoça em um char-à-banc.

Tinham arranjado, com almofadas, um recanto comodo para a convalescente. O cônego acompanhava-a, furioso com aquele incomodo. E a Gertrudes ia em cima na almofada, á sombra da montanha que faziam sobre o tope do carro os baús de couro, os cestos, as latas, as trouxas, os sacos de chita, o açafate onde miava o gato, e um fardo amarrado com cordas contendo os paineis dos santos mais queridos de D. Josefa.

Depois, ao fim da semana, foi a jornada da S. Joaneira para a Vieira, de noite, por causa da calma. A rua da Misericórdia estava atravancada com o carro de bois, que conduzia as louças, os enxergões, o trem de cozinha; e no mesmo char-à-banc que fora á Cortegassa, ia agora a S. Joaneira e a Ruça que levava também no regaço um açafate com o gato.

O cônego fora na véspera, só Amaro assistia á partida da S. Joaneira. E depois de toda uma azafama, de galgarem cem vezes de baixo a cima as escadas por um cestinho que esquecera ou um embrulho que desaparecia, quando a Ruça emfim fechou a porta á chave, a S. Joaneira, já no estribo do char-à-banc, rompeu a chorar.

--Então, minha senhora, então! disse Amaro.

--Ai, senhor parocho, deixar a pequena!... Mal sabe o que me custa... Parece que a não torno a vêr. Apareça pela Ricoça, faça-me essa esmola. Veja se ela está contente...

--Vá descansada, minha senhora.

--Adeus, senhor parocho. Muito obrigada por tudo... Ai os favores que lhe devo!

--Tolices, minha senhora... Boa jornada, dê noticias! Recados ao padre-mestre. Adeus, minha senhora! adeus, Ruça...

O char-à-banc partiu. E pelo mesmo caminho por onde ele ia rolando, Amaro foi andando devagar até á estrada da Figueira. Eram então nove horas, nascera já o luar de uma noite cálida e serena de agosto. Uma tênue nevoa luminosa suavisava a paizagem calada. Aqui e além uma fachada saliente de casa rebrilhava, batida da lua, entre as sombras do arvoredo. Ao pé da ponte, parou a olhar melancolicamente o rio que corria sobre a areia com uma susurração monótona; nos logares em que as árvores se debruçavam, havia escuridões cerradas; e adiante uma claridade tremia sobre a água, como um tecido de filigrana faiscante. Ali esteve, em aquele silencio que o calmava, fumando cigarros e atirando as pontas para o rio, embebido em uma tristeza vaga. Depois, ouvindo as onze, veio voltando para a cidade, passou pela rua da Misericórdia em um enternecimento de recordações: a casa, com as janelas fechadas, sem as cortinas de cassa, parecia abandonada para sempre; os vasos de alecrim tinham ficado esquecidos aos cantos da janela... Quantas vezes Amelia e ele se tinham encostado àquela varanda! Havia então um craveiro fresco, e conversando, ela cortava uma folha, trincava-a nos dentinhos. Tudo tinha acabado agora!--E na Misericórdia, ao lado, o piar das corujas no silencio dava-lhe uma sensação de ruína, de solidão e de fim eterno.

Foi andando para casa, devagar, com os olhos arrazados de água.

A criada veio logo á escada dizer-lhe que o tio Esguelhas, em uma afflicção, viera procurá-lo duas vezes, haviam de ser nove horas. A Tótó estava a morrer, e só queria receber os sacramentos da mão do senhor parocho.

Amaro, apesar da sua repugnância supersticiosa em voltar assim em essa noite, para um fim tão triste, ao meio das recordações felizes da sua paixão, foi, para obsequiar o tio Esguelhas; mas impressionava-o aquela morte, coincidindo com a partida de Amelia, e como completando a súbita dispersão de quanto até aí o interessara ou estivera misturado á sua vida.

A porta da casa do sineiro estava entreaberta, e na escuridão da entrada topou com duas mulheres que saiam suspirando. Foi logo direito á alcova da paralitica: duas grandes velas de cera, trazidas da igreja, ardiam sobre uma mesa; um lençol branco cobria o corpo da Tótó; e o padre Silverio, que fora decerto chamado por estar de semana, lia o Breviario, com o lenço nos joelhos, os seus grandes óculos na ponta do nariz. Ergueu-se apenas viu Amaro:

--Ah, colega, disse muito baixo, andaram a procurá-lo por toda a parte... A pobre de Cristo queria-o a você... Eu, quando me foram buscar, ia fazer a partida a casa do Novais. É a partida do sabbado... Que scena! Morreu na impenitencia, como era dos livros. Quando me viu, e que você não vinha, que espectaculo! Até tive medo que me cuspisse no crucifixo...

Amaro, sem dar uma palavra, ergueu uma ponta do lençol, mas deixou-o logo recahir sobre a face da morta. Depois subiu acima ao quarto onde o sineiro, estirado sobre a cama, voltado para a parede, soluçava desesperadamente; estava com ele outra mulher, que se conservava a um canto, muda e imóvel, com os olhos no chão, no vago aborrecimento que lhe dava aquele pesado dever de vizinha. Amaro tocou no hombro do sineiro, falou-lhe:

--É necessário resignação, tio Esguelhas... São decretos do Senhor... Para ela é até uma felicidade.

O tio Esguelhas voltou-se; e reconhecendo o parocho, por entre o véu das lagrimas que lhe alagavam os olhos, tomou-lhe a mão, quis beijar-lh'a. Amaro recuou:

--Então, tio Esguelhas!... Deus ha de ser misericordioso, ha de lhe levar em conta a sua dor...

Ele não o escutava, sacudido de um pranto convulsivo,--enquanto a mulher, muito tranquilamente, limpava ora um ora outro canto do olho.

Amaro desceu; e para aliviar o bom Silverio de aquele serviço excepcional, tomou o seu logar ao pé da vela, com o Breviario na mão.

Ali ficou até tarde. A vizinha ao sair veio dizer-lhe que o tio Esguelhas tinha pegado a dormir; e ela prometia voltar com a amortalhadeira, mal rompesse a manhã.

Toda a casa então ficou em aquele silencio, que a vizinhança do vasto edifício da Sé fazia parecer mais soturno; só ás vezes um mocho piava debilmente nos contrafortes, ou o grosso bordão batia os quartos. E Amaro, tomado de um indefinido terror, mas preso ali por uma força superior da consciência sobresaltada, ia precipitando as orações... Ás vezes o livro caía-lhe sobre os joelhos; e então, imóvel, sentindo por detrás a presença de aquele cadáver coberto do lençol, recordava, em um contraste amargo, outras horas em que o sol banhava o pátio, as andorinhas esvoaçavam, e ele e Amelia subiam rindo para aquele quarto onde agora, sobre a mesma cama, o tio Esguelhas dormitava com soluços mal acalmados...

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